Fracasso
Errei. Errei como errei ontem, como errei mês passado e no ano anterior. Amanhã acho que vou errar de novo. Fui moldada por uma fraqueza insuperável, um mal sem nome que me condena ao fracasso. Fui construída, preenchida com a argamassa da esperança, argamassa fajuta, barata, incapaz de segurar os tijolos da conquista. Esse lobo mau que é a vida sopra minha casa, meu corpo, meu esforço e destrói tudo em um piscar do relógio . Sobram os entulhos. Entulhos desprezíveis que ecoam meu pranto e cortam meus pés, jorrando as lágrimas de meu sangue. Sobram os cacos do que um dia tentei ser. Tentar, tentei, mas vontade tropeça na moléstia desse eterno verão. O calor do cotidiano, das sardinhas do ônibus lotado no pôr-do-sol da eterna jornada ao sucesso.
Sucesso, destino mitológico, destino que nunca chega, de ponto em ponto entram mais peixes que roubam o oxigênio da lata, tornam o sufocar mais lento e agonizante. Peço ao motorista que me deixe descer, aviso que há muito perdi minha parada, mas ele não me escuta. Como escutaria, presa no fundo da condução, meus gritos se afogam no mar de braços, pernas, peitos arfantes na busca pelo espaço. Um dia, todos já quiseram para si essa entidade, o alívio de esticar os membros, o banco para sentar confortavelmente, o volante para direção do destino. Ainda assim, isso não passa de uma ilusão, quem conduz seu destino não pega "busão", mas se abraça ao seu conversível.
Assim, restam para mim as migalhas de inconsolável resignação, a compreensão de que nasci para acordar as manhãs com o café morno desse dia a dia ingrato e ninar a noite com a insônia da minha razão. Que benção é a ignorância, a ausência do questionamento. Que benção era não saber que não sei e nunca saberei quem eu sou, quem serei ou quem fui, além de um emaranhado de presentes insatisfatórios e irônicas saudades. O pensar cansa, gasta a energia necessária para "sobrevida", já que da vida já desisti.
A sobrevivência é o único objetivo que consigo atingir às vezes, mesmo que a morte e seus assovios e risinhos sedutores tentem me distrair. Mesmo que seja atraente o sono da paz, da ausência de obrigações e de determinações, a argamassa que me cola, por mais débil e manhosa que seja, continua a sustentar ínfima e patética esperança. Esperança espancada, pequena e temerosa, a qual não posso ignorar ou entender. Desprezo sua existência, entretanto a cuido com contraditória insistência, pois, infelizmente, sei que há de florescer. Suas flores trarão meu néctar, o sorriso de um triunfo que rezo para que possa não apenas em minha tola imaginação viver.















