Têm coisas que é difícil escrever sobre. Estamos acostumados a guardar nossas dores em lugares profundos, mas uma hora ou outra elas acabam vindo parar na superfície e às vezes fogem do nosso controle, escapam pelos nossos olhos, molham o nosso rosto, amargam a nossa boca. Pois bem, quero contar uma história doída. Uma história de como alguém amou alguém que se perdeu nos próprios traumas, alguém que não soube organizar a própria dor, alguém que se trancou na própria escuridão.
Foi difícil lhe ver chegar cambaleando, gritando todos aqueles xingamentos que machucam até a alma mais forte quando vêm de alguém que se ama. Foi difícil lhe ver cair, com aquele olhar tão alterado, tão cheio de mágoa, de quem procurou a felicidade e o alívio mais uma vez naquilo que só lhe destruiria, só nos destruiria. Talvez você só quisesse se destruir mesmo no fim das contas, destruir as memórias ruins, porque você sempre sentiu demais, sempre acessou seus sentimentos com uma facilidade absurda, mas nunca aprendeu a lidar com essa sua capacidade. Então caía mais uma vez numa dessas noites a procura de algum alucinógeno capaz de desligar seus pesadelos, sem notar o pesadelo que trazia pra gente.
Doeu tanto ter que crescer rápido, doeu tanto tentar não guardar raiva, tentar não guardar mágoas. Porque você não imagina como é ruim implorar pra alguém que se ama parar, sem nem saber se essa pessoa está ali. Sem saber se aqueles olhos vidrados estão vendo o que está acontecendo, sem saber se é capaz de ouvir a súplica de quem lhe quer bem. Eu sei que suas dores doem tanto, que seus traumas fazem barulho demais... Mas não é justo você se tornar um trauma pra mim. Não é justo que eu tenha medo de alguém que amo, não é justo que eu tenha que ouvir tanta coisa ruim de alguém que já me deu tantos conselhos bons. Seja lá quem está lá quando você se altera, não é você. E eu não quero ter que lidar com esse alguém em seu corpo. Eu quero você, aqui. Comigo. Você real. Aquele você que saía comigo pra andar de bicicleta, aquele você que me mostrava aquelas músicas antigas em um rádio judiado, aquele você que me contava do seu grande amor perdido, que me contava rindo as histórias mais loucas da infância. Eu quero esse alguém. Quero ele de volta.
- eu te amo, mas não sei o que fazer -