Síndrome de protagonista, turismo apocalíptico e viagens de crise
As minhas duas primeiras experiências no Japão foram transformadoras por diversos motivos. Aqui quero destacar um bem egoísta: a mudança de percepção que eu tinha de mim mesma.
Apesar de estar sempre no meu canto sozinha fazendo as minhas coisinhas, sou bem suscetível à síndrome de NPC: eu mesma não tenho missões nem aventuras; só existo enquanto os personagens importantes falam comigo. Faço parte do elenco de apoio, da figuração. No geral, tudo bem, é uma forma tranquila de existência, sem quick time events, sem impacto real. Mas também pode ser uma armadilha: quando você não tem um papel substancial na sua própria trama, ela começa a parecer irrelevante no panorama geral.
Minhas duas primeiras aventuras em terras japonesas foram marcadas de pequenos eventos que, na época, me pareceram surreais, como abordagem de pessoas querendo tirar foto como se eu e minha amiga fôssemos celebridades, entrevistas de rua (bom, entrevistas por alunos de escola treinando inglês e de funcionários municipais em pontos turísticos, mas ainda assim...) e até a percepção de que os lugares até então vazios que nós escolhíamos começavam a encher de outros turistas em seguida (coincidência? nunca saberemos). Vale dizer que isso foi há uns dez anos, então, embora não fôssemos as únicas turistas ocidentais no pedaço, a situação do turismo no Japão nem se comparava ao nível e volume atual, então talvez os japoneses também não estivessem tão saturados como agora. Mas enfim, até então não imaginava que eu — com amigas ou não ao lado — pudesse ser foco de qualquer tipo de atenção. Afinal, eu era esquisitona. Como assim, em algum lugar do mundo as pessoas não me achavam ou repulsiva ou simplesmente comum?
(Não vou explorar questões de objetificação porque não é a meta aqui, mas deixo registrado que, sim, estou ciente de que atenção alheia por você ser "exótica", ainda mais como mulher, não é necessariamente a coisa mais positiva do mundo...)
E não é nem o caso de ser o foco de atenção erótica/romântica, porque no geral não era (ou não me parecia ser) isso; era pura e simplesmente o fato de ser alvo de curiosidade ou interesse, e mesmo de simpatia.
No preparo que antecedeu a minha viagem de agora, me dei conta de que muitas pessoas do lado de cá do mundo (especialmente as que têm cara de estrangeiro no lado de lá) já sentiram a mesma coisa. Aliás, eu me dei conta disso também assistindo a Shôgun, as duas versões, baseadas no livro de James Clavell, e pensando em todo tipo de mídia à la O Último Samurai, em que o homem branco é o grande destaque da história. O tratamento diferencial que a gente recebe como estrangeiro (frise-se, quando parecemos estrangeiros) infla consideravelmente o nosso ego, pois nos dá importância como "alguém diferente". E, sim, mesmo quando o tratamento diferencial envolve pessoas temerosas deixando o assento ao seu lado vazio no trem cheio (não foi a minha experiência, mas sei lá, não fiquei no país tanto tempo assim para comprovar o fenômeno). Claro que diferentes pessoas vão interpretar esse tratamento diferencial do seu próprio modo, mas para mim, e principalmente na época das minhas viagens, ir de invisível a digna de atenção meio que mudou a maneira como eu me enxergava.
Só que o Japão de dez anos atrás não é o Japão do turismo excessivo da pós-pandemia e da crise do iene fraco. (Fraco talvez para quem ganha em dólar e euro mesmo; particularmente não senti diferença e até achei as coisas mais caras, mas, enfim, tem vários fatores pessoais que contribuíram para essa impressão, incluindo o fato de hoje eu pagar aluguel e todas as contas da vida adulta...)
Durante os meus preparativos, fui bombardeada por uma barragem de vídeos e notícias falando em como o turismo excessivo e o influxo de estrangeiros está destruindo o Japão. Parte disso, claro, é por causa da escalada de xenofobia no Norte global, capitaneada especialmente pelos EUA — todo mundo sabe que o Japão atrai o amor de vários supremacistas brancos que acham que tudo lá é exatamente como na utopia deles (a mentira da "pureza racial" dos japoneses, o patriarcado no talo e a ética capitalista de trabalho aplicada às últimas consequências, por exemplo). Porém, o turismo excessivo está mesmo causando alguns problemas. Acho que o vídeo mais esclarecedor a que assisti foi o da Currently Hannah, recomendo se vocês quiserem uma visão não tão sensacionalista e de alguém da indústria. Só que antes de chegar nele, passei por uma crise de ansiedade fodida pensando "putz, lá vou eu ser mais uma dessas a contribuir para o estresse dos nativos".
Com isso, tenho refletido bastante sobre turismo e como não ser aquele turista — o que entra em local proibido e estraga coisas em nome de uma selfie, o que atrapalha a vida cotidiana e o trânsito do povo local, o que (muitas vezes inadvertidamente) encarece o custo de vida numa região, o que espera simpatia e prestatividade mesmo sem tentar falar um "obrigado" na língua do destino. O turista com síndrome de protagonista. E o que mais me assombrava ainda na época dos preparativos, amigos e caros leitores, é que eu estava indo até lá com a minha própria síndrome de protagonista na bagagem.
Descrevi essa viagem para várias pessoas como "a minha viagem de crise de meia-idade" — tecnicamente não estou na meia-idade, mas daí acrescentei um "antecipada" para não deixar entrever que realmente acho que não tenho uma expectativa de vida muito promissora. Escolhi a época exata do meu aniversário porque queria essa experiência de comemorar sozinha lá, em algum lugar que fosse significativo (um sucesso: passei o mês inteiro indo a lugares que me eram significativos). Era o meu Comer, Rezar e Amar, em contraponto a todas as "férias" anteriores que estavam mais para Meu Ano de Descanso e Relaxamento.
Felizmente, acho que existe uma diferença entre a síndrome de protagonista em que você espera que tudo gire em torno da sua viagem, da sua conveniência e de você mesma ("os outros que se danem!") e a síndrome de protagonista em que você apenas se vê (até que enfim!) como alguém que tem importância, senão na vida alheia, pelos menos na sua própria vida. E por mais que eu às vezes cometa a mentalidade do "não sou como os outros turistas *hunf*", ou me renda à arrogância do pensamento mágico egocêntrico de achar que as condições climáticas são uma mensagem divina pessoalmente direcionada à mim, ainda assim, tenho plena consciência de que sou uma protagonista num mundo vasto — cheio de outros protagonistas vivendo suas narrativas.
Bom, no fim das contas, tive que fazer as pazes com a ideia de que não existe nada de ridículo em querer protagonizar uma aventura, mesmo que você seja uma personagem profundamente desinteressante. Na verdade, é por ser profundamente desinteressante que isso pode ser ainda mais benéfico.
Em meio a todas as turbulências desse ano horroroso que me fez reconsiderar a carreira e até minha existência em si, percebi que essa viagem era uma possibilidade. Arriscada, sim; talvez até pouco inteligente. Aliás, passei o processo inteiro pensando como eu era burra por escolher um ano tão ruim financeiramente para fazer essas aventuras num país que não é nada barato e que está tornando tudo gradativamente mais caro para turistas neste exato momento. Burra pelo timing, burra por tirar um mês inteiro de férias quando poderia estar trabalhando e recuperando o prejuízo dos meses anteriores, burra por pegar uma rota pelo Oriente Médio, burra por fazer um roteiro que demandava um monte de trem-bala e baldeação e hotel, burra, burra demais. No fim deu tudo certo, as contas fecharam (com os cintos um pouco apertados), mas diferente do que previ nesses últimos anos, a casa não desabou porque tirei uma folga.
E todo o medo de me perder, de ter cometido algum erro nas reservas, de ter que pagar uma taxa para qual eu não teria dinheiro, de não acordar a tempo de fazer os check-outs e pegar os trens, de não conseguir mais falar japonês depois de todos esses anos, de não conseguir ler as placas e avisos e mapas sozinha? Bem, apesar de alguns erros, o mundo continuou girando e tudo se solucionou — contrariando também a falta de fé na minha própria capacidade de resolver problemas no calor do momento.
O caso é que cada vídeo de "NÃO COMETA ESSES 10 ERROS AO VIAJAR PARA O JAPÃO!" ou "50 COISAS QUE VOCÊ PRECISA FAZER NO JAPÃO!", por mais bem-intencionado que seja, só serviu para me deixar mais ansiosa e estressada. Independentemente do lugar aonde estiver indo, você vai cometer erros. Você vai querer ir num ponto turístico superlotado, vai querer cair numa saborosa armadilha de turista; e o monte Takao é lindo, mas, não, ele não é de modo algum equivalente ao monte Fuji! Além disso, o contrário também é real: uma experiência que todos dizem ser maravilhosa e indispensável pode ser bem "tanto faz" para você. Talvez pareça óbvio, mas o que você precisa de verdade é se conhecer o bastante para buscar lugares e experiências que interessem a você, não ao influencer de TikTok ou ao amigo de Instagram...
Tudo isso para dizer que a viagem foi ótima e juro que fui uma protagonista responsável. Tive um total de 01 abordagem espontânea na rua e foi desconfortável. Percebi que, para onde eu olhasse, havia pelo menos umas três mulheres praticamente com a minha cara, o meu jeito, o meu senso de moda, vivendo suas aventuras mágicas sozinhas e provando que sou agressivamente like the other girls. Ainda sei falar japonês e fiquei emocionada por compreender e ser compreendida. Claro que me perdi, sofri por antecipação, cansei e me estressei, pois — para a surpresa de ninguém — eu continuo sendo eu em qualquer lugar do mundo, mas no geral me diverti e me comovi e encontrei pessoas e tomei decisões acertadas e tive a sorte de viver momentos fantásticos.
Além de tudo, ainda consegui parar para refletir. Não aquele refletir de cotidiano atribulado, em que todos os pensamentos levam ao pior (ao que falta e que machuca), mas o refletir da folga e do conforto, em que a gente se dá conta do que vale a pena, do que a gente já conseguiu e ainda consegue, de onde foi parar o nosso apetite e o nosso tesão de viver.
Essa postagem contém spoilers do filme A Hora do Mal (Weapons), de 2025. Se você ainda não assistiu, recomendo voltar mais tarde.
Essa semana resolvi ir ver o filme de Zach Cregger no cinema, já bastante ciente das revelações do enredo e de alguns temas presentes, o que me permitiu pensar a respeito de outras camadas.
Confesso que tenho certa desconfiança de diretores cuja imagem mais aterrorizante que eles conseguem atribuir ao “mal” é a de uma mulher velha (ou, para ser mais precisa, o corpo de uma mulher velha), lembrando que Cregger também foi o responsável por Noites Brutais (Barbarian), de 2022. Acho que existe uma misoginia subjacente, pra não dizer um conservadorismo com fedor cristão nessa ideia e, por isso, sempre que uma narrativa gira em torno de bruxas como figuras de absoluta vilania, tendo a ficar com um pé atrás.
Mas também entendo o atalho em utilizar essa imagem tão potente das grandes vilãs de contos de fada que nos acompanha desde a infância, e acho que ela cumpre sua função no contexto do Weapons.
O filme me deixou pensando em suas inúmeras camadas e interpretações.
O título original, “Armas”, leva a uma relação bastante natural e direta com a questão dos tiroteios em escolas dos Estados Unidos: as perdas, o trauma coletivo, a incompreensão de quem sobrevive. É difícil não associar a imagem do menino quieto, excluído, vítima de bullying, que chega a um ponto de ruptura e pega em armas para aliviar seu tormento — é o perfil que Hollywood, e a mídia como um todo, adora reproduzir para explicar a tragédia. Acho, contudo, que a história de Weapons não se limita a isso.
Também existe a camada do vício, bastante clara pelo alcoolismo da professora Justine (Julia Garner) e do policial Paul (Alden Ehrenreich), e pelo vício literal de James (Austin Abrams) em outras drogas. O diretor chegou a comentar do aspecto autobiográfico, como filho de pais alcóolatras, na narrativa de Alex (Cary Christopher), um dos momentos mais sensíveis do filme. Nós observamos a decadência dos adultos e seu efeito sobre o menino, que passa a ser esquecido na escola e precisa aprender a cuidar de si sozinho e assumir responsabilidades para que os próprios pais não se machuquem — e não o machuquem. O trauma fica; os efeitos são persistentes, mesmo quando a tia Gladys (Amy Madigan) já não faz mais parte de suas vidas.
No entanto, acho que uma camada interpretativa ainda mais interessante é a que une todas essas perspectivas, com o vício em redes sociais, o catatonismo no qual a tecnologia mergulha o mundo (ainda mais os jovens, mas também muitos adultos) e a radicalização conservadora. E é nesse aspecto de conservadorismo que a imagem arquetípica da bruxa faz todo o sentido: ela é decrépita, quase moribunda (ou pelo menos é o que achamos, assim como achamos que o fascismo estaria superado depois de suas insinuações asquerosas na primeira metade do século XX). O conservadorismo também é parasitário, e o diretor não é nada sutil ao espalhar essas pistas: Gladys sobrevive primeiro dos adultos em crise, mas não é o bastante; ela precisa dos mais jovens, do vigor deles, da maleabilidade de suas mentes. Como um parasita, seu motivo primário é a sobrevivência, a renovação das células que a mantém viva.
Pareceu-me bastante intencional que um dos gatilhos da bruxa seja a sineta; lembrei imediatamente da máxima dos influenciadores de YouTube: “curta, compartilhe, ative o sininho!”. A relação pode soar cômica, mas o diretor faz um uso bem intencional do humor para contrabalançar o terror da história.
O verbo weaponize, literalmente “transformar algo em arma”, aparece no filme para explicar o comportamento frenético do diretor da escola, Marcus, ao atacar Justine. Mais tarde, nós presenciamos o ritual que o põe em seu estado de “míssil teleguiado”, e os elementos também são cheios de simbolismo: itens pessoais da “arma” e de seus alvos, um ramo/galho de árvore a ser quebrado, água e o sangue da pessoa que realiza o virtual. Não sei até onde foi a intenção autoral na escolha de cada coisa, mas ainda sinto que tudo é pertinente à simbologia da radicalização online: que todo ataque coordenado tem um componente pessoal, isso é óbvio. Nossas ideologias, para o bem ou para o mal, são moldadas por nossas frustrações, orgulhos e históricos de vida. Nos ataques conservadores, o alvo na maioria das vezes se torna alvo por um componente intrínseco ao indivíduo — notavelmente sua sexualidade ou gênero, sua raça ou etnia. E apesar de parecerem meio aleatórios, talvez fortuitos, os dois elementos naturais do ritual (água e planta) também me remetem atualmente aos custos energéticos e ambientais da tecnologia usada para ataques.
Por fim, acho interessante o destino de Gladys, destruída pelas armas que ela mesma criou, a mando da única criança da qual ela não retirou o livre-arbítrio — apesar de também ter manipulado sua sensibilidade para servir a seus propósitos diabólicos.
É o destino inevitável do manipulador ser pego de surpresa na onda de choque do dano que ele cria achando, em seu orgulho arrogante, que será o único poupado. Não sei se é possível dizer que Weapons tem um final feliz, considerando os efeitos duradouros que aquele catatonismo temporário exerce sobre seus afetados, mas me agrada pensar que a bruxa é destrutível, e as crianças vão ficar bem.
Coleção de elogios que realmente importam: caixas de supermercado
É muito fácil de me engambelar porque adoro um elogio, mesmo não fazendo ideia de como reagir a eles. Acho, no entanto, que existe uma hierarquia de valor de elogios, e o topo do pódio é invariavelmente ocupado pelo elogio ao modo como a gente faz as coisas.
Claro que me agrada quando as pessoas notam uma certa característica física (todo mundo quer ser atraente e eu posso não ser todo mundo, mas também não sou exceção...), só que o traço genético não fui eu que fiz. Se pensarmos a fundo (erro que infelizmente cometo com frequência), o comentário acaba sendo mais uma celebração do que os meus pais fizeram, talvez uma celebração do destino/universo por ter juntado os dois, e até um louvor a cada ancestral que contribuiu para esse grande caldeirão genético que veio a resultar na minha débil existência.
Tudo isso só para dizer que tenho colecionado elogios de caixas de supermercado pela minha organização das compras. 💅🏻
É algo que me leva direto para o passado, àqueles dias em que os professores davam estrelinhas pelo caderno, pela clareza das informações e do raciocínio por trás de um cálculo (para fins de contexto: eu sou e sempre fui de inepta a medíocre em matemática, mas quando entendia o problema, você podia esperar de mim um diagrama limpíssimo do passo a passo de resolução).
Enfim, começou da maneira mais básica possível, com uma caixa elogiando a separação de produtos por categoria, coisas de geladeira, legumes, industrializados e embalados, pães e ovos, limpeza e perfumaria, não necessariamente nessa ordem, mas levando em conta o peso e a distribuição nas minhas sacolas. Eu me recuso a acreditar que sou a única neurótica desse bairro inteiro que categoriza as compras já na esteira para otimizar o ensacolamento. Talvez ela só tenha gostado do meu método específico naquele dia — ou talvez ela diga isso para todos os clientes, o que também é perfeitamente natural e aceitável; uma educação por reforço positivo não faz mal a ninguém.
Recentemente descobri outro patamar organizacional, além das categorias: colocar os itens na esteira já com o código de barras virado para a atendente. Claro que isso já me rendeu outro valioso elogio. Esse sim eu acredito ser único (ou pelo menos mais exclusivo), pois baseado num nível raríssimo de neurose humana.
Eu poderia atribuir esse esforço à empatia (como fazem os melhores sociopatas), mas estaria mentindo. É a mistura do Brasil com o Egito da necessidade patológica de agradar todo mundo com a boa e velha vaidade no melhor estilo "am I... better than everyone".
Retomar o interesse pela vida antes que o tomate estrague
Tomates são criaturas temperamentais, se você é do tipo que vive em câmera lenta. Acho que para uma pessoa normal, eles têm uma durabilidade mediana dentro da geladeira — ou fora dela, se você segue as dicas dos especialistas em armazenagem de frutas, verduras e legumes. Mas não para mim.
Nas minhas mãos, o tomate dura dois segundos e já estraga. Talvez seja a minha energia como um todo. Quem me conhece sabe que não são as boas vibrações que me caracterizam. E, também, dois segundos é a minha percepção de tempo para uma ou duas semanas (ou mais).
O que acontece muito é que no intervalo entre ir ao mercado animada, disposta a mudar de vida criando uma rotina saudável, e fazer uma salada ou um molho com o camarada tomate, eu perco o interesse por tudo.
Volto pra casa, alcoolizo pacotes e sacolas (tiques da pandemia), largo tudo na geladeira, pego o celular e, PÁ! dá-lhe doomscrolling. De repente tem bomba caindo, projeto de lei de devastação sendo passado, GESTAPO mandando gente para campo de concentração, nível de água subindo, mas, pior de tudo, tem o trabalho que não chega, as contas a pagar, a dor de cabeça incessante e todos os problemas pessoais que eu devia achar pequenos diante de todo o resto, afinal ainda posso ir no mercado e comprar tomates e sonhar com uma vida em que a minha alimentação é eficiente, nutritiva e regrada como um relógio.
Nada disso importa. Agora a tarefa mais importante é descobrir como sair de dentro da rede e do celular e da cabeça e voltar a se importar com uma refeição balanceada. Comida de verdade, não os pacotes de salgadinho e bolacha nem o pão-com-alguma-coisa imediato porém insatisfatório.
O coitado do tomate deve me enxergar lá do fundo da gaveta gelada e pensar "é hoje!", e se frustrar com esse fim de vida que nunca termina quando me vê pegar o pote de margarina mais uma vez.
Daí alguma coisa acontece. Sei lá; algum atendente de loja me trata bem, ou eu converso com amigos, ou resolvo alguma tarefa pendente ridiculamente simples que me causou dano psíquico quando surgiu... e eu decido cozinhar no dia seguinte. Afinal, sou adulta, independente, a vida presta etc.
Só que já se passaram três semanas e o tomate mofou. Cansou daquela lenga-lenga de morre-não-morre, daquela humilhação de ser substituído por qualquer ketchup, e entregou seu corpo aos esporos, que com certeza o merecem mais porque trabalham muito mais incansavelmente em busca de nutrição de qualidade do que uma humana com percepção de tempo distorcida. O tomate sabe quantos já tiveram o mesmo destino — ficou sabendo pelas batatas brotadas e pelas cebolas com várias camadas adicionais de casca seca.
Eu só queria contar que ontem foi um dia excepcionalmente péssimo. Pavoroso com retrogosto de fim de mundo. Apesar de tudo, consegui fazer arroz para a semana toda, esquentei o feijão pronto, fritei um ovo e fiz uma salada de tomate.
Depois de um Natal deprimente, sem comemorações, de molho em casa devido à peste, passamos a virada entre amigos e gatos, comendo MUITO bem, fazendo tiragens de tarô e conversando sobre passados, futuros e expectativas.
Minhas metas de ano novo sempre envolvem escrever mais — e eu sempre acabo descumprindo isso ao longo do ano. Entretanto, nada me impede de renovar os votos para mais um ano de descumprimento e autoflagelação, porque a base de todo bom ano é a desobediência e a culpa judaico-cristã ocidental…
Decidi fazer esta postagem mais caótica com base em todas as obras com as quais interagi nesses primeiros dias de ressaca e letargia.
Comecei o ano terminando a leitura de “A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões” (The Surface Breaks), da escritora Louise O’Neill, com tradução de Fernanda Lizardo.
Vou ser franca: esperava mais — muito mais — de uma tentativa de abordagem feminista de A Pequena Sereia.
A protagonista, Gaia/Muirgen, não tem quase nada de profundidade ou nuance. Ela é linda (algo que é repetido à exaustão), tem a voz mais melodiosa do mundo, vive de obedecer a todos ao seu redor e sofre do início ao fim. Existe muito pouca diferença entre o patriarcado do mar e o patriarcado da terra, o que deixa a história extremamente tediosa.
Eu sou da opinião de que apontar misoginia e contradições do patriarcado por si só não torna um livro feminista. Até é possível criar uma história boa com foco no sofrimento das mulheres; taí O Conto da Aia — e tantos outros — que vão por esse lado e mostram que dá, sim, para falar de desgraça sem cair no melodrama barato.
A questão é que a personagem principal não parece aprender muita coisa ao longo de sua jornada… exceto bem no finalzinho, quando urge um monólogo lacrador para mostrar que ela tirou uma lição de todos os horrores sofridos (ugh). E poderia ter sido muito catártico, mas pelo modo como a narrativa (não) se desenvolve, nada do que ela diz soa como a conclusão lógica da evolução de uma mulher criada em um mundo de misoginia internalizada e prejudicada ainda mais por escolhas e circunstâncias desesperadas.
Acho que o livro ser em primeira pessoa não ajuda, pois Gaia tem tiradas que não fazem sentido do ponto de vista dela, supostamente limitado por uma vida inteira de confinamento (físico e ideológico) no fundo do mar.
Créditos onde créditos são devidos: reli o conto “A sereiazinha“, de Hans Christian Andersen (tradução de Silva Duarte, diretamente do dinamarquês), no qual a história se baseia, e reconheço que O’Neill tentou aproveitar ao máximo os elementos do original… mas acho que talvez o fato de se ater demais a eles acabou sendo prejudicial para lidar com os temas que ELA queria desenvolver.
Manter a paixão por um humano como motivação principal da sereiazinha, por exemplo, se torna um problema, pois a autora parecia muito mais interessada em tratar do mistério do desaparecimento da mãe da protagonista, o que poderia ter rendido uma investigação feminista mais interessante. Também ao optar por manter o aspecto de deterioração e dor das pernas humanas (algo fiel ao original), a exploração que a autora tenta fazer do prazer que a sereiazinha descobre no próprio corpo acaba se tornando quase incoerente.
Queria muito ter gostado, mas não gostei. Mas também parte da culpa é minha, por me apaixonar pela capa linda, com ilustração da artista colombiana Paola Escobar, e pelo projeto gráfico caprichado da DarkSide, que sempre me pega de jeito…
A primeira série do ano foi Manual de Assassinato para Boas Garotas, da Netflix, que maratonei num dia só.
Até mais ou menos o terceiro episódio a narrativa me prendeu bastante, mas eu tinha expectativas maiores em relação às resoluções.
Quando uma história me promete um caso não solucionado reaberto por uma personagem, espero pelo menos duas coisas: 1) uma boa motivação da pessoa que resolveu investigar e 2) uma investigação satisfatória, que se baseie no talento e na inteligência da protagonista.
Não posso falar pelo livro no qual a série foi baseada, mas a Pippa protagonista da adaptação não tem nem um motivo convincente nem um método interessante de obter informações sobre o assassinato/desaparecimento da Andie. A maioria das descobertas acontece por pura sorte ou porque os outros personagens milagrosamente contam tudo para a menina.
O fato de ela ser uma “boa garota” não cria grandes conflitos, o que é um desperdício da premissa, porque é justamente o que poderia diferenciar esse de tantos outros dramas de crime.
Uma das cenas que mais me incomodou foi quando Pippa chega num hotel e tenta exigir do recepcionista os nomes de hóspedes de um certo dia, o que obviamente o funcionário se recusa a revelar. Ela não é da polícia, não é jornalista e nem sequer conhece o recepcionista; é uma adolescente aleatória com ar de enxerida que nem ao menos pretende se hospedar no lugar. O que esperava conseguir?
Acho que para alguém apresentada supostamente como uma “boa garota”, inteligente, estudiosa, a personagem recorre com facilidade demais a invasões e estratégias arriscadas — sem mencionar a total falta de tato ou noção nas “entrevistas” com testemunhas e envolvidos.
A meu ver, claro que uma personagem detetive adolescente precisa de algumas limitações para ser crível (como a limitação de autoridade, o que restringe o acesso dela a informações); no entanto, ela também precisa de características que equilibrem as desvantagens, seja uma certa inventividade, ou capacidade de observação, ou algum tipo de qualidade social ou aspecto de inteligência emocional que justifique as testemunhas revelarem o que revelam a ela.
Enfim, achei as personagens e a trama meio frustrantes.
O primeiro filme do ano foi Love at First Sight, de 2023, que aparentemente também foi baseado em um livro de 2011 de Jennifer E. Smith: “The Statistical Probability of Love at First Sight” (A probabilidade estatística do amor à primeira vista).
Assisti às cegas, sem saber nada do enredo, e me surpreendi positivamente: ele é mais focado nos diálogos e no drama dos personagens do que nas ações e reviravoltas da história.
Acho que seu maior charme é ser despretensioso. Ele se propõe a falar de amor, despedidas, ordem e caos, e o faz sem grandes desvios de rota, sem muita complexidade narrativa.
Recomendo assistir assim mesmo como eu assisti: sem expectativas e sem saber muito do que se trata, focando mais nos personagens e em seus momentos.
O primeiro jogo do ano foi/está sendo o Witchy Life Story. Apesar de eu estar jogando no Switch, ele tem versão para PC, e acredito que os controles até fazem mais sentido lá, já que há um cursor.
É um jogo daquele tipo “aconchegante/cozy”, com foco na narrativa de uma bruxa (ou bruxo ou bruxe, considerando que você pode escolher seus pronomes) aprendiz que é mandada para Flora, uma cidadezinha cujos habitantes precisam de ajuda para realizar um certo festival.
As escolhas de respostas para os diálogos não são muito variadas, porque apesar da personalização inicial o jogo parece ter uma narrativa bem fixa e linear.
Além da parte de romance visual com escolha de diálogos, há a mecânica de quebra-cabeças das poções/óleos/amuletos/incensos. Você tem um jardim com ervinhas que precisam ser regadas, podadas e adubadas regularmente, e é com elas (e os recipientes comprados na única loja da cidade) que serão preparados os “encantamentos” do jogo, encomendados diariamente pelo elenco de personagens.
Eu ainda não avancei o suficiente para ter uma visão mais ampla da história, mas acho que funciona bem para relaxar e curtir uma narrativa simples de amadurecimento com temáticas de magia e bruxaria.
Infelizmente não tem uma tradução para português.
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Bom, acho que já deu para perceber que não busquei nada muito intelectual para esses primeiros dias. (Embora esperasse mais da leitura e da série, mas enfim…)
Na maioria das vezes passo por essas histórias sem ter muito com quem conversar, até porque é muito raro assistir/ler/jogar as coisas na época do lançamento mesmo. Não me importo de perder o timing; já aceitei que é parte da minha personalidade fazer tudo a passos de tartaruga. Ainda assim, gosto de registrar minha opinião — e de pesquisar a opinião dos outros a respeito da obra, dependendo do meu nível de obsessão…
Apesar de não me orgulhar muito das minhas escolhas de mídia ou das minhas avaliações, fico pensando que não criei esse blog para ser uma página profissional nem uma vitrine dos meus méritos incríveis como escritora e leitora e crítica e pensadora etc., mas principalmente como registro pessoal, e registros precisam ser autênticos.
Então um brinde a um 2025 mais autêntico — com uma Maru que come queijo em vez de fazer resoluções, assiste a obras despretensiosas, lê livros decepcionantes e emite opiniões preguiçosas de vez em quando.