Síndrome de protagonista, turismo apocalíptico e viagens de crise
As minhas duas primeiras experiências no Japão foram transformadoras por diversos motivos. Aqui quero destacar um bem egoísta: a mudança de percepção que eu tinha de mim mesma.
Apesar de estar sempre no meu canto sozinha fazendo as minhas coisinhas, sou bem suscetível à síndrome de NPC: eu mesma não tenho missões nem aventuras; só existo enquanto os personagens importantes falam comigo. Faço parte do elenco de apoio, da figuração. No geral, tudo bem, é uma forma tranquila de existência, sem quick time events, sem impacto real. Mas também pode ser uma armadilha: quando você não tem um papel substancial na sua própria trama, ela começa a parecer irrelevante no panorama geral.
Minhas duas primeiras aventuras em terras japonesas foram marcadas de pequenos eventos que, na época, me pareceram surreais, como abordagem de pessoas querendo tirar foto como se eu e minha amiga fôssemos celebridades, entrevistas de rua (bom, entrevistas por alunos de escola treinando inglês e de funcionários municipais em pontos turísticos, mas ainda assim...) e até a percepção de que os lugares até então vazios que nós escolhíamos começavam a encher de outros turistas em seguida (coincidência? nunca saberemos). Vale dizer que isso foi há uns dez anos, então, embora não fôssemos as únicas turistas ocidentais no pedaço, a situação do turismo no Japão nem se comparava ao nível e volume atual, então talvez os japoneses também não estivessem tão saturados como agora. Mas enfim, até então não imaginava que eu — com amigas ou não ao lado — pudesse ser foco de qualquer tipo de atenção. Afinal, eu era esquisitona. Como assim, em algum lugar do mundo as pessoas não me achavam ou repulsiva ou simplesmente comum?
(Não vou explorar questões de objetificação porque não é a meta aqui, mas deixo registrado que, sim, estou ciente de que atenção alheia por você ser "exótica", ainda mais como mulher, não é necessariamente a coisa mais positiva do mundo...)
E não é nem o caso de ser o foco de atenção erótica/romântica, porque no geral não era (ou não me parecia ser) isso; era pura e simplesmente o fato de ser alvo de curiosidade ou interesse, e mesmo de simpatia.
No preparo que antecedeu a minha viagem de agora, me dei conta de que muitas pessoas do lado de cá do mundo (especialmente as que têm cara de estrangeiro no lado de lá) já sentiram a mesma coisa. Aliás, eu me dei conta disso também assistindo a Shôgun, as duas versões, baseadas no livro de James Clavell, e pensando em todo tipo de mídia à la O Último Samurai, em que o homem branco é o grande destaque da história. O tratamento diferencial que a gente recebe como estrangeiro (frise-se, quando parecemos estrangeiros) infla consideravelmente o nosso ego, pois nos dá importância como "alguém diferente". E, sim, mesmo quando o tratamento diferencial envolve pessoas temerosas deixando o assento ao seu lado vazio no trem cheio (não foi a minha experiência, mas sei lá, não fiquei no país tanto tempo assim para comprovar o fenômeno). Claro que diferentes pessoas vão interpretar esse tratamento diferencial do seu próprio modo, mas para mim, e principalmente na época das minhas viagens, ir de invisível a digna de atenção meio que mudou a maneira como eu me enxergava.
Só que o Japão de dez anos atrás não é o Japão do turismo excessivo da pós-pandemia e da crise do iene fraco. (Fraco talvez para quem ganha em dólar e euro mesmo; particularmente não senti diferença e até achei as coisas mais caras, mas, enfim, tem vários fatores pessoais que contribuíram para essa impressão, incluindo o fato de hoje eu pagar aluguel e todas as contas da vida adulta...)
Durante os meus preparativos, fui bombardeada por uma barragem de vídeos e notícias falando em como o turismo excessivo e o influxo de estrangeiros está destruindo o Japão. Parte disso, claro, é por causa da escalada de xenofobia no Norte global, capitaneada especialmente pelos EUA — todo mundo sabe que o Japão atrai o amor de vários supremacistas brancos que acham que tudo lá é exatamente como na utopia deles (a mentira da "pureza racial" dos japoneses, o patriarcado no talo e a ética capitalista de trabalho aplicada às últimas consequências, por exemplo). Porém, o turismo excessivo está mesmo causando alguns problemas. Acho que o vídeo mais esclarecedor a que assisti foi o da Currently Hannah, recomendo se vocês quiserem uma visão não tão sensacionalista e de alguém da indústria. Só que antes de chegar nele, passei por uma crise de ansiedade fodida pensando "putz, lá vou eu ser mais uma dessas a contribuir para o estresse dos nativos".
Com isso, tenho refletido bastante sobre turismo e como não ser aquele turista — o que entra em local proibido e estraga coisas em nome de uma selfie, o que atrapalha a vida cotidiana e o trânsito do povo local, o que (muitas vezes inadvertidamente) encarece o custo de vida numa região, o que espera simpatia e prestatividade mesmo sem tentar falar um "obrigado" na língua do destino. O turista com síndrome de protagonista. E o que mais me assombrava ainda na época dos preparativos, amigos e caros leitores, é que eu estava indo até lá com a minha própria síndrome de protagonista na bagagem.
Descrevi essa viagem para várias pessoas como "a minha viagem de crise de meia-idade" — tecnicamente não estou na meia-idade, mas daí acrescentei um "antecipada" para não deixar entrever que realmente acho que não tenho uma expectativa de vida muito promissora. Escolhi a época exata do meu aniversário porque queria essa experiência de comemorar sozinha lá, em algum lugar que fosse significativo (um sucesso: passei o mês inteiro indo a lugares que me eram significativos). Era o meu Comer, Rezar e Amar, em contraponto a todas as "férias" anteriores que estavam mais para Meu Ano de Descanso e Relaxamento.
Felizmente, acho que existe uma diferença entre a síndrome de protagonista em que você espera que tudo gire em torno da sua viagem, da sua conveniência e de você mesma ("os outros que se danem!") e a síndrome de protagonista em que você apenas se vê (até que enfim!) como alguém que tem importância, senão na vida alheia, pelos menos na sua própria vida. E por mais que eu às vezes cometa a mentalidade do "não sou como os outros turistas *hunf*", ou me renda à arrogância do pensamento mágico egocêntrico de achar que as condições climáticas são uma mensagem divina pessoalmente direcionada à mim, ainda assim, tenho plena consciência de que sou uma protagonista num mundo vasto — cheio de outros protagonistas vivendo suas narrativas.
Bom, no fim das contas, tive que fazer as pazes com a ideia de que não existe nada de ridículo em querer protagonizar uma aventura, mesmo que você seja uma personagem profundamente desinteressante. Na verdade, é por ser profundamente desinteressante que isso pode ser ainda mais benéfico.
Em meio a todas as turbulências desse ano horroroso que me fez reconsiderar a carreira e até minha existência em si, percebi que essa viagem era uma possibilidade. Arriscada, sim; talvez até pouco inteligente. Aliás, passei o processo inteiro pensando como eu era burra por escolher um ano tão ruim financeiramente para fazer essas aventuras num país que não é nada barato e que está tornando tudo gradativamente mais caro para turistas neste exato momento. Burra pelo timing, burra por tirar um mês inteiro de férias quando poderia estar trabalhando e recuperando o prejuízo dos meses anteriores, burra por pegar uma rota pelo Oriente Médio, burra por fazer um roteiro que demandava um monte de trem-bala e baldeação e hotel, burra, burra demais. No fim deu tudo certo, as contas fecharam (com os cintos um pouco apertados), mas diferente do que previ nesses últimos anos, a casa não desabou porque tirei uma folga.
E todo o medo de me perder, de ter cometido algum erro nas reservas, de ter que pagar uma taxa para qual eu não teria dinheiro, de não acordar a tempo de fazer os check-outs e pegar os trens, de não conseguir mais falar japonês depois de todos esses anos, de não conseguir ler as placas e avisos e mapas sozinha? Bem, apesar de alguns erros, o mundo continuou girando e tudo se solucionou — contrariando também a falta de fé na minha própria capacidade de resolver problemas no calor do momento.
O caso é que cada vídeo de "NÃO COMETA ESSES 10 ERROS AO VIAJAR PARA O JAPÃO!" ou "50 COISAS QUE VOCÊ PRECISA FAZER NO JAPÃO!", por mais bem-intencionado que seja, só serviu para me deixar mais ansiosa e estressada. Independentemente do lugar aonde estiver indo, você vai cometer erros. Você vai querer ir num ponto turístico superlotado, vai querer cair numa saborosa armadilha de turista; e o monte Takao é lindo, mas, não, ele não é de modo algum equivalente ao monte Fuji! Além disso, o contrário também é real: uma experiência que todos dizem ser maravilhosa e indispensável pode ser bem "tanto faz" para você. Talvez pareça óbvio, mas o que você precisa de verdade é se conhecer o bastante para buscar lugares e experiências que interessem a você, não ao influencer de TikTok ou ao amigo de Instagram...
Tudo isso para dizer que a viagem foi ótima e juro que fui uma protagonista responsável. Tive um total de 01 abordagem espontânea na rua e foi desconfortável. Percebi que, para onde eu olhasse, havia pelo menos umas três mulheres praticamente com a minha cara, o meu jeito, o meu senso de moda, vivendo suas aventuras mágicas sozinhas e provando que sou agressivamente like the other girls. Ainda sei falar japonês e fiquei emocionada por compreender e ser compreendida. Claro que me perdi, sofri por antecipação, cansei e me estressei, pois — para a surpresa de ninguém — eu continuo sendo eu em qualquer lugar do mundo, mas no geral me diverti e me comovi e encontrei pessoas e tomei decisões acertadas e tive a sorte de viver momentos fantásticos.
Além de tudo, ainda consegui parar para refletir. Não aquele refletir de cotidiano atribulado, em que todos os pensamentos levam ao pior (ao que falta e que machuca), mas o refletir da folga e do conforto, em que a gente se dá conta do que vale a pena, do que a gente já conseguiu e ainda consegue, de onde foi parar o nosso apetite e o nosso tesão de viver.















