O Jardim das Almas Brancas
O Castelo de Xelb, outrora um baluarte resplandecente sob o sol do Gharb al-Andalus, jazia agora sob um manto de umidade e desespero. As suas muralhas de taipa, que os cristãos chamariam um dia Silves, choravam um mofo húmido que se agarrava à pedra, espelhando a desolação que reinava no coração do seu senhor.
Ibn-Almundim já não era o rei vigoroso que conquistara a admiração dos seus pares e o terror dos seus inimigos. Era um espectro, um guardião de uma memória que o consumia. O seu amor, a sua Jóia do Norte, Inês—ou a Princesa Astrid, como era chamada na sua longínqua e gélida terra natal—perecera com o fim da última floração.
A lenda que o povo sussurrava era de um amor sublime: de como o rei mouro, para mitigar as saudades da neve da sua noiva nórdica, mandara plantar um oceano de amendoeiras que, ao florir, fingiam um inverno branco no agreste Algarve. Uma história de romance puro.
A verdade, a verdade gótica e terrível que apenas o rei e as sombras do castelo conheciam, era muito diferente.
O romance começara, sim, no fragor da batalha, onde o rei a encontrou, prisioneira dos cristãos, de olhos azuis como gelo e pele alva como mármore. Uma visão que o enfeitiçou. Salvou-a, fê-la sua rainha. Mas a beleza de Astrid era frágil, uma flor do Ártico transplantada para o calor opressivo do sul.
A melancolia da princesa era uma doença da alma. Não era apenas saudade da neve, era a aversão ao sol impiedoso, ao cheiro a sal e a terra seca. O Algarve era um túmulo dourado para ela.
Ibn-Almundim amava-a com uma intensidade que raiava a loucura possessiva. Vê-la definhar era uma tortura. Os médicos falharam, os poetas falharam. Foi então que um velho astrólogo e místico, um homem de saberes proibidos que vivia recluso nas colinas de Monchique, lhe ofereceu uma solução.
"Vossa Majestade", dissera o velho com olhos de coruja, "se a neve da terra dela lhe traz a vida, a neve pode ser recriada. Mas o preço é alto. Exige uma troca."
O rei, desesperado, não hesitou. Mandou arrancar vinhas e oliveiras. Em cada colina visível do castelo, foram plantadas amendoeiras, milhares delas.
E a troca foi feita.
A lenda conta que o rei trazia a esposa à varanda para ver a neve de flores. A verdade é que a cada primavera, quando os campos se enchiam de branco, a princesa recuperava a cor e a vida. O seu riso, um som esquecido, voltava a ecoar pelos salões.
Mas o feitiço era um vampiro. A cada dia que Astrid florescia, outra coisa morria em Xelb. O rei envelhecia a um ritmo acelerado. A sua outrora gloriosa cidade começou a perder o seu brilho. As pessoas adoeciam com uma melancolia inexplicável, uma apatia que lhes sugava a força vital. A própria terra parecia exaurida.
O castelo tornou-se um santuário para a Princesa do Norte, uma gaiola dourada onde ela dançava enquanto o mundo exterior murchava. Ela tornou-se etérea, quase translúcida, uma criatura de beleza sobrenatural e terrível. Os seus olhos azuis ganharam um brilho febril, e ela passava horas a fio na varanda, a sorrir para o mar de flores que se estendia até ao horizonte.
A sua vida estava ligada àquela efemeridade. As flores da amendoeira duravam pouco. Quando caíam e davam lugar aos frutos, a princesa voltava a definhar, a definhar até ao limiar da morte, revivendo apenas com a promessa da próxima floração.
Ibn-Almundim observava a sua criação com terror e adoração. Tinha a sua amada, mas o preço era a sua alma e a do seu reino.
Naquele ano fatídico, o último da lenda, a princesa definhou mais rapidamente do que nunca. A seca do verão anterior fora severa, e as amendoeiras sofreram. A floração não foi tão densa, tão branca. Era rala, fraca.
O desespero do rei atingiu o seu clímax. Na noite em que as primeiras pétalas começaram a cair, murchas e amareladas antes do tempo, ele invocou o velho astrólogo novamente.
"O feitiço falha! Ela morre! O que é preciso agora?", exigiu o rei, a voz um rugido rouco.
O velho, mais pálido e fraco do que nunca, olhou para o rei com pena. "A troca, Majestade, exigiu vida. A sua vida, a vida do seu povo, a vida da terra. Para que ela viva, a sua morte tem de ser absoluta. A neve que a sustém não é apenas das flores. É a neve do esquecimento, a frieza do túmulo."
O rei compreendeu. O feitiço não era sobre amendoeiras. Era sobre a morte.
A lenda termina com a princesa a recuperar a vida e a felicidade ao ver as flores. O conto gótico termina com o rei a fazer a escolha final.
Naquela noite, Ibn-Almundim caminhou até à torre mais alta do castelo. Olhou para o campo branco-amarelado que tanto custara a todos. Lembrou-se dos olhos de gelo da princesa, do seu sorriso etéreo, da forma como ela nunca olhara verdadeiramente para ele, apenas para a ideia que ele lhe dera.
Compreendeu que a amava mais do que a si próprio, mais do que ao seu reino, mais do que à sua própria sanidade. Amava a sua felicidade frágil e egoísta.
A manhã seguinte trouxe a visão mais terrível e gloriosa que os habitantes de Xelb alguma vez viram. As amendoeiras não estavam apenas brancas. Brilhavam com um fulgor sobrenatural, um branco tão intenso que doía a vista, um branco que parecia feito de luar congelado. A própria luz do sol matinal parecia incapaz de aquecer aquela alvura.
O rei desaparecera. Nunca mais foi visto.
Mas a Princesa Astrid desceu à varanda. Estava curada. Totalmente curada. A sua pele era de um alabastro imaculado, os seus olhos brilhavam como estrelas de inverno. O seu sorriso era de pura, embora fria, felicidade. Ela respirou fundo o ar gelado que, milagrosamente, pairava sobre o castelo, apesar do sol algarvio.
A lenda popularizou a ideia de um final feliz. A verdade ficou trancada nos muros de Xelb.
A princesa viveu longos anos, imutável, fria, e sempre feliz. O castelo e a cidade em redor tornaram-se num lugar de silêncio, de gente que vivia em câmara lenta, exangue, as suas vidas sugadas para alimentar a sua senhora e o seu jardim perpétuo. As amendoeiras, a partir daquele dia, nunca mais murcharam com o cair da primavera. As suas flores brancas persistiam o ano inteiro, um sudário imaculado sobre a terra, a "neve" que a princesa finalmente conquistara.
A Lenda das Amendoeiras em Flor tornou-se um conto de fadas para turistas. Mas os locais evitavam olhar para as colinas de Silves quando a floração estava no seu máximo esplendor. Diziam que, se olhassem de perto, podiam ver os rostos melancólicos dos habitantes da antiga Xelb presos nas pétalas brancas, ou o espectro de um rei perdido, Ibn-Almundim, que finalmente encontrara a paz gélida no jardim que criara para o seu amor impossível. Um jardim de almas brancas, florescendo para sempre, numa ode eterna à obsessão e à morte.












