Minha mãe é uma antena
Não consegui dormir hoje. Não consegui me desligar do computador ou do celular e minha cabeça passou a viajar em histórias não finalizadas, diálogos entre personagens, cobranças de continuidades de histórias... Deitei na cama da minha mãe e fui resmungar baixinho que não tinha conseguido dormir.
Que eu tenho questões de saúde mental já é de conhecimento público, mas eu estava tão imersa na minha própria angústia que não vi a angústia da minha mãe aumentar.
Minha mãe está claramente depressiva. Aos 56 anos. Vejo que ela finalmente sucumbiu. E está sucumbindo ainda mais.
Em questão de meses as marcas de expressão se afundaram, os cabelos demoram á serem cobertos por tintura. As unhas, antes fortes, hoje são quebradiças. A vaidade dela está escorrendo, dando lugar a uma mulher envelhecida antes da hora, sofrida com razão, doente por se dar por vencida.
Essa não é minha mãe. Não a reconheço.
Grossa, ríspida, amarga...
Depressiva.
“Natália, você está pintando sua mãe como se envelhecer fosse defeito, como se fosse necessário a vaidade para se valer como mulher. E a sororidade? Pensei que você fosse feminista!”
Você não está me entendendo.
Essa não é minha mãe.
A depressão está tomando conta do ser da minha mãe. Como se fosse um espírito malfeitor encostado nela, a fazendo desistir das coisas que ela mais ama fazer. Desistir de se embelezar como ela sempre GOSTOU de fazer. Aprender a fazer coisas novas como ela sempre GOSTOU de fazer.
Ela está desgostando da vida.
Ultimamente mamãe fala muito em ter “vontade de sumir”, “quero morrer”, “não quero levantar da cama”...
Essa não é minha mãe.
Eu sei ler os sinais, acreditem. Eu soube ler os meus e pedir ajuda. Mas minha mãe não foi ensinada a pedir ajuda. Nem ler os próprios sinais. Não, não é isso. Ela não está disposta a ler os sinais que ela mesmo emite. É como uma antena que só capta sinais, mas não emite. Ou quando emite, são isolados.
E quando percebemos, a antena parou de funcionar.
Não sei mais o que fazer. Tentei de tantas formas oferecer minha ajuda, procurar um médico... Mas aí vem a recusa da antena em emitir os sinais. Não querer falar, não querer fazer.
E o corpo vai sentindo. Porque a mente sente.
Espero que consigamos sair dessa fase em breve.
E que ela esteja viva pra ver os netos crescerem.


















