Amor,
as ruas estão vazias hoje. É noite de sábado, os garotos vão à cidade grande em busca de meninas bonitas e grandes novidades para a volta. Aproveitei para sair de casa por alguns instantes: precisava de ar. Minha mãe dorme com a porta aberta para poder me vigiar durante a noite, mas, hoje, isso apenas tangencia a minha decisão de fuga. Afinal, eu não vou a lugar algum. Só preciso dar alguns passos em direção ao nada, buscando te encontrar em qualquer buraco.
Aonde você foi? Não sei mais há quanto tempo procuro-lhe, mas você insiste em se esconder embaixo de alguma pedra pesada o suficiente para que eu não consiga levantá-la. E eu não sei qual é o seu objetivo, mas é como se quisesse me manter o mais distante possível de tocar-lhe as mãos, os braços, o rosto.
Eu andei por entre as casas fechadas, tentei abrir as fechaduras trancadas, senti medo desse escuro que me envolve, sentei e pensei em escrever-lhe. Talvez, se minhas cartas voarem com meu perfume ao redor das ladeiras e esbarrarem em seus pés descalços de menino, você venha me ver. Mas é noite, as flores já se fecharam, as nuvens tampam as estrelas, e eu perambulo pela cidade em busca de rastros, de passos, de olhos, de bocas, de corpos que se grudam ao meu e respiram em meu pescoço, sussurrando que meu coração é suficientemente grande para guardar um amor duradouro.
É estupidez, você sabe que sim. Eu procuro por um: você. Encontro outros, milhares... Eles tentam me encantar como rapazes que são, mas meu interior continua gritando pelo único que minhas cordas vocais aceitam chamar de amor. Amor, amor, meu amor, quando você volta? Será que minhas palavras chegarão até você? Eu vou esperar, eu vou, sim, porque os dias sem você ainda ferem-me no peito, e eu sangro.
Sua, sempre sua,
Alice.