Con los compas de Herrería Sin Patrón fuimos a charlar a FM LaTribu.
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Con los compas de Herrería Sin Patrón fuimos a charlar a FM LaTribu.
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blue bird
ainda não me foi ensinado como lidar com partidas. ainda ontem eu estava olhando para o mar e pensando que a vida é muito curta para que as pessoas esqueçam do que há de mais bonito naquilo que é incompreensível. não há o que dizer e o que sentir frente a este sentimento tão desesperadamente íngreme que, por vezes, nomeio de solidão.
minha analista sempre me pergunta o porquê de eu me sentir tão sozinho na maioria das vezes e eu simplesmente não encontro palavras para descrever. só me resta o silêncio gritante. então ela me pergunta ‘e então?’ e eu digo que não sei. há perguntas que respostas não são suficientes para serem sanadas. e, por isso, me desespero. a não compreensão me sufoca.
é difícil olhar para a nuca de quem te abandonou e não sentir nada menos do que repulsa. é aterrorizante aguardar uma resposta que, já se sabe, não vai chegar nunca. é absolutamente desesperador olhar nos olhos do seu melhor amigo, que tentou se matar na noite anterior, e pensar que, por melhor que você seja, não há nada que faça sentido para ele permanecer aqui. é um peso grande demais para ser carregado por um garoto de vinte e poucos anos de idade.
há um preço muito grande a se pagar. é difícil não se sentir sozinho quando todo mundo parece ir embora sem que você perceba. por vezes, penso, é um curso natural da vida, mas, por outro lado, há um buraco que não cessa de se aprofundar.
a solidão é um estado desgraçado de espírito.
filipe
kalil,
já fazem mais de dois anos que não te escrevo. nunca pensei que te escreveria de novo, mas hoje foi preciso. há dias em que não se espera que coisas se fecharão, depois de tanto tempo abertas e que retornavam vez ou outra. você sabe, te amei por tempo demais e quando finalmente conseguimos nos reconstruir, recebo seu pedido de desculpas como um sopro na ferida. você me entregou aquela carta sorrateiramente e, quando a vi em meio aqueles quatro livros do proust, não entendi. quando li, chorei e o alívio veio sobre meus poros suados.
ali, naquele banheiro sujo e cheirando a urina, em meio a um dia atarefado, eu parei, me agachei em frente ao vaso sanitário e li aquelas palavras que, por vezes, pareciam ilegíveis demais, não sei se por tua letra meio nervosa, ou se por meus olhos turvados pelas lágrimas que não cessavam de cair. ali havia uma resposta para um vazio que me acompanhou por três anos, talvez você não tenha dimensão do que aquilo significou para mim.
é engraçado pensar o quanto aquele silêncio pairou sobre nós por tanto tempo, você mesmo disse. fingimos que nada existia, mas, intimamente, sabíamos que havia algo ali. eu até perdi o jeito de falar sobre ti, daquele modo apaixonado que nem existe mais. te escrevo como um velho e grande amigo, esperando que possamos continuar a reconstruir aquele sentimento fraterno que sempre me foi tão caro. fico feliz que você tenha seguido sua vida, assim como segui a minha e ter uma resposta tão terna tanto tempo depois foi o desfecho que eu precisava.
o tempo passou e com ele amadurecemos também. não carrego mais aquele peso que carregava há anos atrás e também não sinto mais aquela raiva que de ti sentia, isso te disse naquele dia catártico em que estávamos meio bêbados. hoje te vejo ao longe ou mesmo perto e fico confortável com a sua presença e com as conversas que temos, algo que sempre valorizei antes daquela revelação brutal que nos afastou. obrigado pelo que passou e por onde estamos agora, você me ensinou muitas coisas mesmo sem saber. você agora está em outro lugar de minha vida, um lugar que se encontram pessoas que tenho bastante apreço. continuamos nessa caminhada. reencontramos aquele tempo perdido.
de quem não sente mais a dor daquele adeus.
filipe.
Graça
Quero voar para onde os meus lírios nunca foram, naquele lugar sem nó e sem nome, cuidar de cada um de meus órgãos como se fossem realmente vitais, para que a minha sanidade se torne efêmera. Eu sempre quis entender o que se passa nas paredes de meu esôfago, na boca de meu estômago e no colo de meu útero. Volúpia.
A liberdade de meus poros invade cada micropartícula de que sou formado. Gostaria de poder caminhar pelo azulejo de meu coração e cair feito pluma onde os meus sonhos jamais tiveram o prazer de se encontrar. Eu sonho como quem acorda de um sobressalto, como quem tem medo de dormir e não acordar no outro dia. Eu sonho como quem tem vontade de cessar todos os dias, sonho como quem se levanta de manhã sem saber para onde ir.
Morrer é um dom. Só me dei conta disso depois do dia em que meu pescoço já não cabia mais naquela roupa que tinha desde os cinco anos de idade. É tudo tão perturbador, tão passageiro, tão completa e absurdamente angustiante que, talvez, eu tenha fechado os olhos para que não percebesse, porque sempre tive medo do escuro, mas agora eu o aceito. Essa graça me fascina, me joga sem qualquer piedade no canto mais escuro de meu quarto.
Me é difícil dormir ultimamente, pensamentos demais rondam a minha cabeça que está presa neste corpo raquítico que tenho dificuldade de reconhecer como meu. Talvez eu esteja aos pedaços, talvez eu esteja tão inteiro que não caibo nisso que alguém já chamou de vida. É um modo perturbador de se pensar. Eu ainda olho para o céu com alguma esperança, mas não consigo acreditar naquilo que se passa por minhas narinas.
Me disseram que cresci demais nesse último ano. Discordo. Me parece que as pessoas esperam demais de mim. Eu ainda sou uma criança estúpida de cinco anos de idade e, na grande parte das vezes, apenas finjo que compreendo o que essas mentes adultas insistem em balbuciar pelos cantos. Há palavras, mas não consigo ouvir qualquer humanidade.
Esta graça me assombra. Talvez tentar caber neste mundo seja um modo doloroso de morrer. Ou de viver?
filipe
abissal
ainda existe um buraco neste meu peito, como uma espécie de abismo que não chega ao seu final. eu gostaria de saber o que é que ainda incomoda tanto no cerne e quais as feridas que se encontram vivas por todo o meu corpo. te amo e te odeio com todas as forças que minha alma nem consegue encontrar. há um espaço enorme entre o que eu sempre quis dizer e o que me faltou compreender naquele dia em que havia pessoas demais entre nós para que sequer pudéssemos reparar a presença um do outro. o espaço entre os corpos é sempre o mesmo. como no dia em que recebi uma correspondência e havia o teu nome grafado em letras maiúsculas e com aquela caneta vermelha que eu sempre te pedia de presente. eu podia te ver por entre aquelas linhas, nas curvas da letra j que você sempre escreve com um pingo a mais ou na maneira peculiar que você escreve meu nome ao contrário. há um espaço indizível e intransponível condensado entre as linhas. da carta. de nossos corpos. gostaria de poder te dizer o que o meu coração grita todos os dias, mas eu nunca fui romântico. aliás, acredito que o romance é apenas uma invenção para tentar nos encaixar em lugares em que não nos cabem. aqui, meu bem, o amor bate, fica e transborda. eu não sei me escrever em qualquer lugar. ainda ontem te vi passando, enquanto o vento balançava os seus cabelos, deixando um cheiro de lavanda e um olhar vazio em meu rosto. não sei dizer o quanto a tua presença ainda me causa pânico e leveza. é contraditório, eu sei, mas qual o sentido de encontrar algum sentido naquilo que mal cabe em meu peito nos dias que chovem? ainda há um espaço entre nós, ainda há um ínfimo tom de desesperança que não se esvai conforme as palavras são vomitadas de nossas bocas antes de o teu céu se encontrar com as estrelas que estão em meu peito. eu ainda não sei andar sozinho. ainda me martirizo por me deixar levar por palavras que já me fizeram algum sentido, mas que hoje são apenas murmúrios ininteligíveis que não me cabem na realidade onde estou. este espaço dolorido, indizível e quase que invisível, mas que nos impede de olhar com clareza nos olhos um do outro me sufoca. mas sempre há um retorno àquilo que me destrói. eu nunca aprendi a amar pela metade, eu nunca aprendi a ser rápido naquilo que me captura como fotografia e nunca aprendi a deixar morrer de repente o que sempre foi regado aqui dentro de mim. é uma renúncia grande demais, um peso que me cabe perfeitamente entre os olhos. é um espaço abissal que eu simplesmente não sei nomear, mas que deve ser esquecido de vez nos pedaços de meu estômago que vomitei juntamente com o vinho barato que um dia esteve em sua boca.
filipe
vinte e um anos de sonho, de sangue e de américa do sul
há algo de bonito naquilo que sempre me foi negado. a vida é este abrir e fechar de olhos que, de repente, passa e a gente nem sequer se dá conta. ainda não sei dizer até onde deveria me esquecer ou até quando olhar dentro de mim mesmo para cair todas as vezes em que tentei correr mais rápido do que minhas próprias pernas. algo mudou desde que cheguei aqui - a este mundo, digo. algo que me parece perene, mas que insiste em querer acabar todas as vezes em que penso finalmente ter algum controle sobre o futuro. a gente nunca tem, eu sei, mas a ilusão sempre mata de fome o desespero. belchior diria que eu sou apenas mais um rapaz latino-americano que não tem onde permanecer com os pés. eu concordo. meu chão sempre foi bastante maleável, como naquele dia em que meu coração bateu mais forte do que eu estava preparado, ou como no dia em que eu quis andar de pés descalços sob a chuva após um dia demasiado cheio, ou como no dia em que olhei para o céu estrelado em uma noite cheia de compromissos, ouvindo músicas que se encaixavam tão bem, juntamente com as pessoas que me cabem perfeitamente no coração, ou como no dia em que chorei no colo do meu melhor amigo por não me sentir o suficiente naquele pequeno pedaço tão intrínseco de minha vida. viver é um tiro no escuro e eu já vivi o suficiente para saber que tudo o que está em meus olhos, tudo o que está impregnado em meu peito, ainda há de me fazer sentir mais real neste mundo, nesta cidade, neste bairro que me parece tão estupidamente confortável. quero poder viver ainda mais. hoje o dia amanheceu mais bonito por aqui e vai permanecer assim até a hora em que fechar os olhos para dormir e finalmente concluir que, sim, este rito anual sempre me parecerá importante demais, significativo demais. há certa poesia neste ciclo, como se fosse mais cabível olhar para si mesmo e congratular-se por ter chegado a tal ponto. hoje eu sei que estou diferente, sei que os amores que me fizeram, me construíram, me destruíram, me fizeram olhar e aprender o que eu ainda não sabia. aqueles que entraram de forma tão bonita em minha vida, aqueles que saíram e aqueles que, por ora, só estão ausentes, fazem parte de cada pedaço a que me deixei transformar. esta ferida é viva, ainda pulsa e não é preciso curativo, porque é ela que me faz ser quem sou. eu sinto. choro. rio. sofro. tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo, parafraseando drummond. mas para que querer agarrar tudo com as mãos? a vida é bem mais do que isso: este constante transbordar, esta impossibilidade de ter sempre frente aos olhos tudo o que me parece bonito, tudo o que me parece confortável. nunca é possível agarrar o mundo com as mãos. há um certo desespero nisso. belchior também estava certo, pois este meu desespero é moda desde mil novecentos e noventa e seis.
filipe ramalheiro
poço
eu sempre sofri demais por motivos que não me pareciam suficientemente necessários, ou que me levassem a algum lugar que não fosse minha própria dor. minha cabeça explode todas as vezes e eu sofro como quem perde a voz após um dia demasiado ruim, ou como quem se esquece do jantar e vomita apenas a bile como um prato cheio.
sou intenso demais. poderia culpar os astros, mas acho que sou muito cético para isso, então culpo a mim mesmo. sempre há motivos demais para isso. outro dia me lembrei de uma conversa com o meu melhor amigo sobre como eu mesmo normatizo a minha dor, como se ela já fosse parte de mim. e é verdade: sempre a tratei como um órgão vital, mas nunca quis que ela me abandonasse. há algo poético na dor, por mais doentio que isso pareça.
na verdade, eu nunca quis parecer assim, mas há sempre algo que me atravessa, algo que me atinge como uma bala e que apenas não sei medir em palavras. há um peso no peito, algo como uma falta de ar. vez ou outra, quem eu gostaria que me escutasse, apenas olha nos meus olhos e diz que o momento não é propício, então acabo desabando em quem não me cabe. isso me dói mais do que fogo sobre a pele e choro em silêncio, por vezes escondendo tudo dentro de meu âmago, como se nada estivesse me acontecendo.
viver é um processo complexo. o enfrentamento, mais ainda. viver é doer os ossos, os órgãos, a voz. chorar com lágrimas profundas já é uma rotina. eu nunca quis caber de um modo tão perfeccionista. por vezes, grito socorro. nem sempre sou atendido.
f.