do apreço pelas causas impossíveis que acontecem todos os dias
Sinto-me envenenada pela farsa toda vez que imagino soluções universalizantes para problemas singulares. A Matemática não fecha. Deixei de acreditar em humanidade tal qual os moldes capuchinhos diletantes que defecam imposições baseadas na ausência substancial de experiências.
Não somos todos iguais. Essa falácia que insistem em usar como alvejante diante das realidades incongruentes da sociedade patricapitalista, além de ridícula e perniciosa, serve obviamente a uma intenção, a um projeto de mundo em que a raça serve como diretriz sobre onde você deverá se posicionar na pirâmide.
Foda-se a pirâmide. Foda-se a diretriz. Há sim uma camada que nos envolve a todas as criaturas que contemos em nossos corpos um sopro que nos faz saborear, cheirar, tocar e tudo o mais em percepção da Vida. É simples e assombroso ser órgão, ser perecível, ser terra, responder a líquidos, ciclos, estímulos, temperaturas, impactos. Sangue, carne, ossos, fluidos. Meio bicho, meio planta, seja qual for a sua montaria e a sua carga. Gente vive e morre. Gente dura pouco.
Se é difícil compreender o que tenho a dizer, talvez eu esteja falando com o Futuro. Ou ainda fará sentido, de dentro pra fora, quando a hora chegar. Dá trabalho de entender porque carrego comigo o que aprendi das minhas avós. Sou a costura delas. Sou neta de feiticeiras, erveiras, operárias, professoras, cientistas, dançarinas. Elas me guiam pelas veredas da Audácia.
Seja qual for o destino, eu escolhi rumar. Por isso, escrevo frases que transbordam, sem métricas maquinais ou supostas certezas de aceitação. Eterna, emaranhada, indigesta, tanto faz. Algo primoroso sobre o Afeto que se gera quando algo brota de dentro e encontra os meios de existir no mundo é o gigantesco, indefinível e fascinante espectro de reações possíveis.
A potência do encontro dos olhos famintos com um coração em chamas é sempre um assombro. Tenho todas essas palavras dentro de mim que transbordam e essa centelha, essa partícula ígnea que me move, também insufla a partilha, não por alguém que irá validar ou concordar ou se espasmar em arrebatamento.
Entendi que o risco que me excita é o da fruição inconsequente, do que se pode colher com as mãos corajosas, das fendas e frestas que se abrem quando mexo com as estruturas das minhas próprias contenções e me deixo ser alimento para invenções outras, quando digo o que me move sem medo do patético, quando me permito desfrutar do abismo sobre meus pés enquanto afio as minhas asas em campo aberto.
Toda vez que volto, é também por mim que me sei pequenina diante do êxtase dos Luminares, apenas uma filha dos desígnios do Tempo, movendo-me na imensa e infinda teia de desvarios, loucuras, possibilidades de sempre fascinantes descobertas inerentes a estar viva e ler o mundo para além das retinas.
Cada rota é um novo percurso para o imprevisível. Voltar pra contar é a graça do caminho.