Que você seja a verdade que vai te curar
um sopro no fabuloso Agosto do Ano Flama
Fiquei arisca demais com o passar dos anos e a quantidade absurda de quedas que levei a cada vez que percebi, das formas mais dolorosas, o quanto esse sistema vigente mascara relações e te joga no poço dos desesperos toda vez que alguém te trata como lixo e você tem certeza de que o problema é seu.
Está todo mundo te consumindo até o descarte e esse processo é contínuo. Depois de se tornar bagaço porque se entregou, acreditou, abriu sua boca e seu coração pra tentar resolver aquilo que não é seu, o piche te espera pra decantar e lá você ficará até estar supostamente pronta pra levantar e se reinventar. A onda doida é que já tem abutres disfarçados de sofredores necessitados aguardando seu retorno pra te sugar novamente, sem qualquer pudor.
O que desejam as pessoas que te consomem? Montar. Sim, montar em você. Só através do seu lombo elas conseguem respirar algum ar fora desse lodo fétido e pegajoso da superficialidade capitalista. Só com a sua força elas experimentam algo pra acordar, ainda que breve, a pele, os nervos, as profundezas.
Você tem a saúde que essas pessoas perderam há muitos carnavais. Você não é previsível. Você não é fabricada. A autenticidade é fragrante e viciante. Sua vitalidade parece ainda estar disponível. Por que elas não te usariam?
O Grande Nada começa a sugar os fios dissidentes desde o nascimento. Mesmo sem idealizações simplórias e alienações óbvias, é impossível negar a beleza de quem brotou do sangue que regou essa terra.
E quando evoco Beleza, vou muito além das vitrines hegemônicas disponibilizadas. O incompleto, o arcaico, o indefinível, o indecifrável, tudo isso mora em nosso sangue. Somos um emaranhado de povos que se recusaram a aceitar a destruição.
Todas as marcas que te fazem única são riscos a correr e por isso o combate, a caça, a dominação. Toda encruzilhada é banhada de caos. Vivemos nesse cruzo de caminhos, as marcas da violência histórica colidem com a grandeza dessa terra e nos fazem joias preciosas.
Nada é ao acaso. Nada é coincidência. Nada é colateral. Cada olhar de desprezo, complacência ou desdém, cada condenação infundada, cada abandono, cada culpa inoculada é elemento engendrado que te afoga e te afunda enquanto sua mente doutrinada repete infinitamente que você é a responsável, que você tem que se virar e sair dessa, que você mereceu, que foi estúpida, burra, tóxica, ingênua, displicente, vil.
Talvez a inércia machuque menos. Talvez se você não sair do lugar, se sorrir mais e se importar menos, se duvidar da verdade que acende seu peito, se olhar menos no espelho, se for carregada na enxurrada de excremento onde tanta gente já parece tão feliz nadando, se olhar pro lado diante das injustiças, se aceitar a morte em vida, se recusar as dessemelhanças, porque, afinal, você não é mais forte em nem precisa ser, se repetir o mantra 'e tá tudo bem' até perder a voz de dentro, talvez a dor se esvaia, talvez seja possível esquecer.
A última coisa que você vai se perguntar é o que a realidade em que você está imersa tem a te dizer. O que as infinitas mulheres no ponto de ônibus, na varrição das ruas, atrás dos balcões, cuidando do futuro alheio, teriam pra te mostrar? O que essas existências tem a ver contigo, pequena monstra, que sonha em parecer lisa, esguia, branca?
Olhos? Olhos pra quê? Pra enxergar que tudo isso tem nome, tem agenda, tem cor? Enxergar que você não nasceu com a possibilidade de seguir pela narrativa que inventaram pra você?
Vamos rezar na cartilha em inglês. Vamos saber de cor e salteado a gênese de personagens industriais. Vamos ficar exultantes quando chegar mais um elogio patético sobre o quão ajustadas estamos. Vamos nos digladiar e nos destruir por dentro e entre nós, as malditas, as apócrifas, as renegadas. Vamos fazer sambinha burguês em terra arrasada.
Pessoas podres fogem quando você expressa a profusão que arranha sua garganta. Simples assim. Parei de entregar meu ouro. Silenciei os sorrisos artificiais, apontei dedos na cara de condutas racistas que me feriam diariamente. Cortei o que não era meu até raspar dos ossos todo o veneno impregnado pela falsidade oportunista. Compreendi que as mentiras são o modo padrão estabelecido pelas relações compulsórias.
Ainda lido com o ódio por ter demorado tanto a reconhecer e respiro fundo pra constatar mais uma vez que tenho sim o poder de continuar.
Essa linha que vai do golpe à revolução é corda bamba, se caminha por ela na mandinga, se costura com Conhecimento, ouvindo as avós, as antigas e as que se irmanam no Agora, sem medo de dar passos pra frente ou pra trás até que se mostre, no silêncio da suavidade preenchido pela sua própria história, um equilíbrio possível pra se fazer voar.
Sim. O voo é seu. O plano é seu. As escolhas são suas. Invenção e devoção. Desejo e alimento. Palavra e pensamento.
Esse movimento, meio pêndulo, meio mergulho, envolto na magia da imprecisão, te leva a um encontro com o Tempo, seu e do mundo. E isso se faz de olhos abertos e lábios serrados, com atenção e firmeza. É diligência, vigilância, constância. O trabalho está longe de terminar, não importam o que te digam sobre descanso. Serenidade também se abre na guerra. Não se trata de ser agradável pra ninguém. Você precisa é estar viva.
Que você seja a Vontade que vai te curar.