I
à noite sonhei
sobre olhos e
ouvi a conversas
das botas batidas
como se fosse
uma delas
II
a igreja
não sei se para nos
casar ou
velar
dava motivos para o sino
chorar
III
me fará escrever
100 poemas
nenhum tocará
a distância
IV
“somos os amaldiçoados”
ela me sussurrou
desacreditando
na força
das palavras que
acabara de proferir
V
sim
improvável
serem teus olhos
os da cigana oblíqua &
dissimulada
apesar de ainda se ver
gesto-tentativas
do último resquício
em face
de sandice
(essa, veja só,
morreu há poucos
dias)
nada;
opacos
VI
e então
imaginei três ciganas
dançantes
caçoantes
amores que tive
que não tive
que apenas desejei
imaginei que
não estando lá
teu rosto
nunca estaria lá
tu
Vll
vi três rosas
flores qualquer
uma singularidade sanguínea
você derramada
em copos
embriagando-os
me
embriagando
amazônica vertigem
Vlll
senti
o seu
o meu
o nosso
céu
diabólico
em sua negritude
nos dar
últimos anjos e
beijos
“enterro”
pensei
lX
me fará escrever
poemas
ao invés de fazer
alguma coisa e
continuarei
a não rasgar
esse véu
essa distância
pior!
me fará
mais e mais e
mais distância
me fará dar
boas palavras
a estranhos e
com estranhos deitar
X
esta é a nossa
última-primeira vez e
sentimos a capacidade –
galáxia infinita
de fazermos tudo:
nossos olhos
desmanchando e
indo parar nos pés
nossos pés não
sendo nossos
pés
mais coragem
sendo mais corajosos
somos mais
corajosos
o suco dos
olhos saciando-nos a
sede e
nossos lábios falando
coisas que
nossos outros lábios
geralmente não falariam
(coragem! mais coragem!)
Xl
última-primeira vez
última-primeira vez
última-primeira vez
nos abraçamos
para sempre
e para o sempre
sumimos em borrões.