História escrita pra Drih como presente do Amigo Secreto APH
Então, no meu sorteio veio o nome "Drih", e a única Drih que eu achei foi o Amigo 4. Deus queira que eu tenha escrito pra pessoa certa!
Escolhi a opção 1 do pedido pra escrever, relação familiar com qualquer personagens e um grande drama.
Posso dizer que "I Ran Wild With it." Desculpe moça, essa é a minha re-estréia como escritora depois de mais de dois anos parada =p
É ESSENCIAL LER AS NOTAS NO FIM DA HISTÓRIA PRA ENTENDER. Enfim, on with it.
.
.
CANELA E AÇUCENA
.
Quando a primeira geração de índios abandonou o céu e veio à Terra pelo buraco de Tatu que o Mebenget cavou, o céu noturno era negro, tão negro quanto os cabelos de Iracema. Apenas a luz de Jaci, a lua, brilhava no firmamento, solitária e soberana.
Pois foi quando a primeira geração pisou na terra, que Jaci pela primeira vez se enamorou de uma virgem morena, e desejou ter seu brilho ao seu lado adornando o véu negro da noite. Nesse dia, a primeira estrela despontou no céu, pequenina e brilhante ao lado da Lua.
Na manhã seguinte, não se encontrava a filha do Cacique.
- Quer dizer então que as estrelas são os Grandes Reis do passado que olham por nós lá de cima? – o menino indagou ao navegante Português, seus olhinhos castanhos se arregalando em deliciosa surpresa diante de tal descoberta. Era já mais velho do que qualquer homem no mundo – homem comum, daqueles que morriam antes do piscar de olhos de outros tais quais o homem que contava a história ao menino e à mulher sentada do lado de fora, que já possuíam pelo menos cem vezes a idade do próprio menino. Para o seu tipo, o menino era ainda uma criança, como provava sua aparência de apenas seis anos, e sua capacidade de se impressionar com coisas tão simples como as estrelas.
O homem apenas riu, quebrando mais castanhas com a lâmina de sua espada e enchendo a boca com os frutos, confirmando sua versão ao garoto com um aceno de cabeça.
Na cozinha, a jovem Tupi habilidosamente fritava a farinha de mandioca para fazer beiju para Ayssó (pois ela se recusava a chamá-lo de Thiago). Ouvia com atenção o que o Português – significava “de Portugal”, ela havia aprendido, as terras de Além-Mar, de onde Gabriel viera – falava ao pequeno Thiago – nome português com o qual Gabriel batizara o filho dela (filho que era tanto dela quanto dele, se não por carne e sangue, ao menos pelos laços que nações faziam com suas colônias. Por criação).
Ainda se esforçava para compreender o novo idioma, tão cheio de sons fechados e pesados que não conseguia pronunciar perfeitamente, mas que seu filho tão facilmente reproduzia e adicionava seus próprios trejeitos.
Iracema franziu o cenho irritada, e em seu lapso de paciência, queimou a ponta dos dedos no metal quente da panela. A dor, porém, não incomodava. Não aquela dor.
Thiago ultimamente só falava naquela nova língua. Há tempos abandonara quase completamente o idioma materno, e agora era a índia quem se esforçava em aprender mais para se comunicar com o menino, e ela se sentia como uma criança, deixada para trás.
Olhou para a sala, ressentida, assistindo por alguns momentos a interação de pai e filho. Gabriel conquistara o garoto e, por mais que nem sempre se dessem bem (afinal, que pais e filhos se davam completamente bem?), era inegável a ligação entre ambos, que só ficava mais forte enquanto Thiago adotava os ensinamentos que o Português lhe trazia, e mais se distanciava da índia.
E isso fazia seu coração de mãe se partir. Ver seu pequeno, que ela carregou no ventre por mais luas que qualquer outra índia, a quem deu vida e nutriu em seu próprio seio, escapulindo entre seus dedos, fez com que uma sensação de impotência e fracasso a invadisse. E ressentimento.
Porque há tempos, seu Ayssó (não Thiago, mas Ayssó, o filho de Iracema, e não de Gabriel) arregalara os olhos da mesma maneira ao ouvir a mesma história dos lábios do Pajé, sobre Jaci e as virgens. Em um tempo longínquo, antes de Gabriel ou de Antônio, quando seu menino corria desnudo pelo mato, comendo frutas do pé ou trazendo alguma delícia para a mãe. Um tempo quando mãe e filho podiam desbravar seu território juntos, mergulhar nos rios e no final do dia, ouvir histórias do Pajé e ensinar a história de seu povo a Ayssó. Porque a índia sabia o que o nascimento de uma criança de seu ventre significava para o mundo, sabia que, quando Ayssó crescesse e para Iracema chegasse o momento de se unir a Jaci, o seu povo seria o podo dele, da nova nação que surgia, com a missão de amar e preservar esse povo.
Mas seu curumim nasceu com a pele mais clara que a sua, como uma mistura da pele alva como a açucena dos desbravadores diluindo a cor de canela da Tupi, e Iracema entendeu que já não mais havia espaço para a cultura pura. Ayssó era Açucena e canela.
Agora lhe causava profunda tristeza e um sentimento de derrota que o pequeno escolhesse acreditar que as estrelas eram Reis, e não mais jovens cunhã-porãs. Ayssó agora era Thiago, vestia roupas de algodão e comia com talheres de metal. A cultura estrangeira se enraizava tão profundamente no garoto, que mais de uma vez Iracema se pegou perguntando onde falhara, onde seu povo não era o suficientemente bom para que o menino seguisse as tradições, para que necessitasse o ensinamento de outros.
Desejava ser o bastante, desejava que a angustia de ver o seu pequenino escolhendo a outro instrutor não tivesse ali. Tal sentimento era tão amargo e invejoso, tão recalcado, que Iracema tinha vontade de esfaquear Gabriel cada vez que ouvia uma nova história de seu filho.
- Mãe, já tá pronto? – a vozinha chamou da sala, fazendo Iracema acordar de seus devaneios ciumentos. Olhou para trás, e viu a criança de olhos sorridentes esperando e ao seu lado o português com um sorriso irritante nos lábios.
Iracema apenas sacudiu a cabeça de longos cabelos negros, voltando ao seu trabalho ao fogão de brasas.
Por Ayssó, pensava ela, apenas por ele aturava aquele assassino, pois ele também era parte influente no menino, e não queria que tal influência apagasse tudo o que Iracema ensinara, que os Tupis acabassem como Napiá, o valente Jê, cuja agressividade apenas lhe rendera a matança.
Porque como Iracema, Gabriel também era parte do menino, e uma guerra entre os dois causaria apenas sofrimento à criança. Ayssó precisava dele para crescer. Porque Iracema era mãe. E como toda mãe, ela só queria o melhor pro seu filho, mesmo que precisasse dar a vida por isso.
.
.
N.A.: Sei quee não consegui arrumar as idéias direito, peço desculpas a Drih. Também, como não sou chegada ao LH, fiz meu próprio headcanon e usei muitas partes de um RP que fazia com uma amiga.
Algumas explicações:
Usei na Iracema todos os sentimentos que perguntei a três mães, caso elas se vissem na mesma situação. Acho que só sendo mãe pra entender, então acho que saiu um pouco do meu controle, porque eu não entendo. E eu sei que isso saiu com uma Iracema meio machista, mas não existia feminismo e tão pouco direito das mulheres antes do século XIX.
Pra mim, o que faz nação não é território, ou língua, mas a idéia. Logo, Brasil nasceu a partir da primeira idéia de Brasil: no caso, o tratado de Tordesilhas, que delimitava um território - O Tratado criou a idéia de Brasil. Obviamente, não dei data certa de nascimento do bebe, mas uso isso pra explicar o nascimento de uma criança cabocla mesmo sem Iracema ter conhecido europeus.
Não existe um povo Tupi, mas sim tribos que falam dialetos derivados do tronco principal da lingua, e por dialeto eram divididos os povos que habitavam o Brasil. Logo, eu criei personificações por Dialeto, no caso Iracema (Tupis) e Napiá (Jês), afinal seria difícil demais criar tribo por tripo.
No meu headcanon, os indígenas hostis que os portugueses encontraram aqui são representados por Iracema e Napiá . Brasil é o resultado inicial da mistura do europeu com o nativo, por isso não é ele a ser o hostil. Ele é o resultado do encontro do portugues com o indigena (e mais tarde o negro).
Também, quando os portugueses chegaram aqui, fizeram meio que a mesma distinção que os Romanos faziam entre Romanos e Bárbaros: Os Tupis eram todas as tribos que falavam dialetos derivados do Tupi Guarani, e os que falavam outros dialetos (como o Jê e os Karib), eram os Tapuios.
No caso do Brasil, como a primeira definição territorial de Brasil não incluía terras a Leste de uma linha divisória que ia de Belém a Santa Catarina, e nesse território habitavam apenas Jes e Tupis, eu mencionei como povos indígenas do Brasil apenas essas duas etnias (Havia uma PEQUENA parcela de Karibs, mas como a maior parte desse povo estava localizado a leste da linha divisória, não os incluí na história).
Napiá significa Onça nos dialetos Jê.
Os Jês são até hoje povos MUITO territorialistas – vide o caso em que índios Caiapós (pertencentes a essa família) decapitaram funcionários do Governo e penduraram as cabeças nas árvores. Quanto os Portugueses chegaram ao Brasil, os Tupis, apesar de não serem tão dóceis assim, foram a etnia mais receptiva, enquanto os tapuios foram totalmente agressivos. Resultado: Matança tapuia.
Iracema é mais receptiva na fic, como pessoa, pois os Tupis eram os indígenas mais receptivos. Não estou dizendo que eles foram cãezinhos dóceis, mas eu deturpei essa informação pelo bem da história e explicar o que Iracema fazia cozinhando pros homens, afinal autores podem tomar certas liberdades literarias =p
Ayssó significa bonito. Criança Bonita.
Mebenget se refere a lenda da criação do mundo Caiapó.
Todas as informações aqui contidas sobre indigenas foram tiradas dos vários textos do curso de história da faculdade da minha mãe, e do livro "Historia dos Indios no Brasil", da Manuela Carneiro da Cunha.