se essa rua fosse minha
De quem é esse corpo?, me pergunto enquanto ando em uma rua vazia e escura olhando para todos os lados possíveis, as mãos em punho e o medo acelerando meu coração.
De quem é esse corpo?, questiona minha mente quando homens passam ao meu redor e expressam palavras que precificam a carne.
De quem é esse corpo?, grito para o espelho e a vergonha sobe ácida na garganta.
Olho para a roupa que escolhi vestir no dia, sem sutiã sob a camiseta e com as pernas não tão lisinhas.
De quem é esse corpo? De quem é esse corpo?
Se sou liberta, por que vivo com tanto medo?
Se essa rua, se essa rua fosse minha
Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes
Só para o meu amor passar
Mas se essa rua fosse minha… Ela é.
Mas se eu mandasse em algo… Eu mando.
Meu direito de ir e vir com segurança é
garantido, mas é tão facilmente ignorado que parece que nunca realmente esteve lá.
Porque muitas e muitas perguntas me afogam, duvidam do que realmente passei mesmo quando fui a única testemunha.
Não deve ser verdade.
As pedras de brilhantes são arremessadas.
De quem é esse corpo, de quem é esse corpo, de quem é esse corpo.
Porque é meu em apenas algumas circunstâncias e todos sabem o que é melhor para mim enquanto permaneço tola.
De quem é esse corpo feio, sexual, esquisito,
defeituoso, interessante, sujo, insuficiente?
De quem é esse corpo que é tão meu e ainda assim é de todos? De quem é esse corpo que me faz tanta falta?
Vivi na ilusão de que esse corpo era meu, indivisível, subjetivo, quando na verdade é
público e bem explicado.
É um corpo jurídico, é um corpo abençoado, é um corpo desconfiado, é um corpo odiado,
é um corpo descrente, é um corpo amaldiçoado, é um corpo sentenciado.
De quem é esse corpo?
Porque faz muito tempo que não o reconheço como meu.
Disputam e cospem. Cortam e reinventam.
Fabricam e vendem. Enjaulam e esbravejam
palavras de liberdade.
De quem é esse corpo?
Aberto ao debate.
Se essa rua, se essa rua fosse minha...
(texto autoral), por Maria Alice dos Santos





