Last words

JBB: An Artblog!
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Claire Keane
PUT YOUR BEARD IN MY MOUTH
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oozey mess

shark vs the universe

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One Nice Bug Per Day
let's talk about Bridgerton tea, my ask is open
wallacepolsom

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⁂

Kaledo Art
sheepfilms

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he wasn't even looking at me and he found me
seen from Italy
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seen from Australia
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seen from United States

seen from Germany
@toquescalidos
Last words
Somehow he still seems to enjoy basking in the sunlight and the quiet busyness of the birds and butterflies. They say necromancy is a dark art, but whoever reanimated the beast of the black swamp knew what they were doing.
he so happ
perto o suficiente para se destruir
meus dedos mal se movem pelas teclas e já param, inseguros, amedrontados, solitários, emotivos, confusos. para mim, as mãos são a maior metáfora para entidades espirituais, divindades, destino, acaso, universo, energia ou o simples mover da vida.
as mãos criam. as mãos acalentam. as mãos afagam. as mãos reivindicam. as mãos agridem. as mãos reviram. as mãos causam disrupções. as mãos são placas tectônicas, em sua poesia e concretude.
são essas mesmas mãos que tentam dizer o que uma alma sente. é tão mais fácil falar pelas mãos. não tem como competir, não tem como gritar. são essas mãos que vibram, que destroem, que recuam, que tremem, que paralisam.
quando mais nova, eu sabia que tudo bem andar por todo o inferno descalça, contanto que fossem as suas mãos que me recebessem ao final de tudo. talvez Caronte não fizesse o caminho de volta, mas não importa. daríamos um jeito. porque meu peito sempre esteve pronto para correr. minha alma sempre quis ficar, se acomodar, encontrar conforto. meu corpo, por outro lado, não aceita qualquer comportamento que se aproxime da paz. deve ser minha vontade pungente em me punir, vigiar, conter, envergonhar, justificar, interromper.
e eu ardo. ardo malditamente, ardo intensamente, ardo carregando maus agouros, ardo negligenciando bençãos, ardo condenando todos nós.
estou sempre a um passo do cataclisma, perto o suficiente para destruir. por isso não confio, me tenho em alerta e presa o tempo inteiro. a vida não fica mais fácil assim — pelo contrário —, mas parece que estou me movendo. não estou apodrecendo.
por isso que o luto é tão próximo de mim. depois que me acostumei com a ansiedade — esse esforço tão inflamável de tentar me proteger com as mesmas mãos que me destroem —, o luto aparece no caminhar para a parada, puxa meu olhar para a pitangueira que não deu frutos este ano, belisca meu coração esperançoso, tira sangue dos meus braços com arranhões desesperados.
alguns dias são melhores que outros. alguns dias eu lembro de olhar para as estrelas no inferno. alguns dias me enforcam com espinhos. alguns dias desisto do corpo que habito.
luto, medo e ânsia. luto pela perda, medo da rejeição, ânsia por ser vista.
perco com escolhas, sou afastada pela presença, quero ser amada pela percepção do existir.
por isso, quando a morte é agonia, me retraio. e dói. você gostaria que eu te encontrasse nas portas do inferno? acalmaria seu desespero saber que a próxima existência será mais gentil?
porque o luto nunca vem desacompanhado.
aparece com roupas bonitas, trajado com as boas memórias. por isso fere com tanta força. a beleza sempre mobiliza saudade, move a alma como oceano violento no ártico.
aparece fétido, rancoroso, metálico, pronto para te deixar insone. dessa vez, não veste leveza e sol de verão. amanhece com a culpa, interrompe o fluxo do rio, afoga o tino em labaredas, sufoca aquela vontade de dar mais um passo.
juntos, tantas percepções e sentimentos arrancam as mãos. silenciam. engolem, amargam, azedam. inegavelmente, são combustíveis. podem explodir.
e me sinto, sempre, perto o suficiente para tocar.
once in a lifetime
quando tenho um bom dia, minha alma encontra paz e me murmura: tudo bem morrer agora.
me apavora o pensamento de morrer em agonia, em um dia particularmente ruim, quando o estresse me abocanha, a ansiedade sufoca e a esperança convulsiona como um peixe no deserto. por favor, que eu não morra agora. por favor.
minha dor pulsa mais pela forma do que pela morte. pelo antes. aqueles últimos pensamentos, as últimas sensações, os últimos arrepios, as palavras que ficaram na cabeça, as imagens gravadas na retina, os sons escutados. isso que me importa.
é isso que engole. então, quando você se foi, a reação foi do tamanho de um tsunami. foi um furacão no meu peito, a vontade do nunca-será. aquele abraço de consolo? nunca será. a alegria de saber que você está num lugar emocionalmente melhor, ainda nesta vida? nunca será.
eu fico por aqui, agarrada no tanto que você deixou. sua voz, sua ternura, sua bravura, sua intensa vontade de tentar. me conforto em seu abraço tão distante, na confiança da adolescência, na potência de acreditar e criar sonhos. na potência de amar tão deliberada e espontaneamente.
existe algo horrendo na violência da vida, na forma como nossa esperança é manipulada. mesmo assim, você continuou nadando. você decorou os sons de um paraíso musical, a sua praia, o seu legado.
grande honra é apreciar as músicas da sua cabeça. que grande honra foi caminhar junto — apesar de tão distantes — um curto período da vida contigo. existe algo muito íntimo em tocar as canções criadas por alguém, se permitir navegar nas marés, nos moveres e nas intempéries de um barco único para cada um. a madeira contra os pés, a textura das velas, o que carregamos nas mochilas, as cores que enxergamos nas águas, os seres que encontramos na jornada.
eu sou porque você foi e ainda é uma grande parte do meu peito. neste santuário que me construo, você é uma das melodias mais belas que afastam as dores mais agudas. talvez, se tivermos sorte, o meu amor te encontre pelo caminho. junto com o de tantas outras pessoas afetadas pela sua breve passagem no planeta azul. e que te aqueça, te embale, uma canção de ninar para uma alma que enfrentou demais. te console e cantarole: você foi mais do que o suficiente.
tão distantes e ainda pertos o suficiente, tivemos um encontro único para toda uma vida, uma experiência que parecia à prova de fogo, um chamado que me fez acreditar que eu conseguiria voar também. enquanto você caminha se despedindo pelo mundo, desenhando setas no céu, as nuvens se movem pelo vento. desejo que você siga o sol. nada vai te alcançar aí, nada além de amor.
foi uma honra ser salva pelo que havia de mais bonito em você.
por Maria Alice
Liam, I love you. I always will. What a feeling! One of a kind. The kind of love one can experience once in a lifetime. A song that will remain being singed at the back of our heads and hearts.
Illustrations for Yasunari Kawabata's The Sound of Waves | Shiosai | 潮騒, by Lâm Tùng Nguyễn.
This is the way you do monochromatic paintings!
Managed to be very similar values but still have depth, amazing!
once in a lifetime
quando tenho um bom dia, minha alma encontra paz e me murmura: tudo bem morrer agora.
me apavora o pensamento de morrer em agonia, em um dia particularmente ruim, quando o estresse me abocanha, a ansiedade sufoca e a esperança convulsiona como um peixe no deserto. por favor, que eu não morra agora. por favor.
minha dor pulsa mais pela forma do que pela morte. pelo antes. aqueles últimos pensamentos, as últimas sensações, os últimos arrepios, as palavras que ficaram na cabeça, as imagens gravadas na retina, os sons escutados. isso que me importa.
é isso que engole. então, quando você se foi, a reação foi do tamanho de um tsunami. foi um furacão no meu peito, a vontade do nunca-será. aquele abraço de consolo? nunca será. a alegria de saber que você está num lugar emocionalmente melhor, ainda nesta vida? nunca será.
eu fico por aqui, agarrada no tanto que você deixou. sua voz, sua ternura, sua bravura, sua intensa vontade de tentar. me conforto em seu abraço tão distante, na confiança da adolescência, na potência de acreditar e criar sonhos. na potência de amar tão deliberada e espontaneamente.
existe algo horrendo na violência da vida, na forma como nossa esperança é manipulada. mesmo assim, você continuou nadando. você decorou os sons de um paraíso musical, a sua praia, o seu legado.
grande honra é apreciar as músicas da sua cabeça. que grande honra foi caminhar junto — apesar de tão distantes — um curto período da vida contigo. existe algo muito íntimo em tocar as canções criadas por alguém, se permitir navegar nas marés, nos moveres e nas intempéries de um barco único para cada um. a madeira contra os pés, a textura das velas, o que carregamos nas mochilas, as cores que enxergamos nas águas, os seres que encontramos na jornada.
eu sou porque você foi e ainda é uma grande parte do meu peito. neste santuário que me construo, você é uma das melodias mais belas que afastam as dores mais agudas. talvez, se tivermos sorte, o meu amor te encontre pelo caminho. junto com o de tantas outras pessoas afetadas pela sua breve passagem no planeta azul. e que te aqueça, te embale, uma canção de ninar para uma alma que enfrentou demais. te console e cantarole: você foi mais do que o suficiente.
tão distantes e ainda pertos o suficiente, tivemos um encontro único para toda uma vida, uma experiência que parecia à prova de fogo, um chamado que me fez acreditar que eu conseguiria voar também. enquanto você caminha se despedindo pelo mundo, desenhando setas no céu, as nuvens se movem pelo vento. desejo que você siga o sol. nada vai te alcançar aí, nada além de amor.
foi uma honra ser salva pelo que havia de mais bonito em você.
por Maria Alice
muito boas em escrever cartas
somos tão boas em escrever cartas
não há secura, a água é tão gentil quanto o olhar do ser que mais te ama.
os calos, cálidos, tocam os cantos da alma onde nós e músculos tensos esqueceram qual a aparência da luz.
e somos boas em descrevê-las. a sensação. o calor. o afago dos raios, as veias das nuvens cinzentas envolvendo as estrelas, o espirro de alguma poeira.
o corredor luminoso – alguns chamam de fresta – por onde fios de ouro e magia flamejam entre buracos na telha, formando figuras na superfície, na parede, na colcha de retalhos sobre uma cama antiga, coberta por sonhos coloridos, confusos, fantásticos e chá de limão com mel.
uma mancha de tinta, tão antiga quanto o Sol e o céu.
escrevo cartas, porque é a minha melhor forma de conversar.
porque o céu parece tão bonito e eu escuto violinos nas raízes e o barulhar de ondas nas montanhas. você escuta a sinfonia de ondas nas montanhas?
o farfalhar das palmeiras e a canção das araras, o cheiro de folha de goiaba, o gosto de pitanga. o toque da jabuticaba fria, olhos escuros te encarando de volta – são os olhos favoritos das estrelas.
o calor mais indefinível. as letras contra papel e teclado, somos cognoscíveis apenas pela tecnologia. você me entende pela palavra, pelo desejo insaciável de saber que não está só. pela ânsia de ser lembrado. o impulso coletivo de falar com o futuro e o passado.
calos e mãos, jabuticaba, xícara velha e com cantos lascados, bordas manchadas. algumas xícaras e colchas são tão humanas quanto quem tem polegares opositores. algumas borboletas e tomatinhos brilham como luas distantes, mensagens criptografadas pela matéria colorida. fazer tinta com as luzes do universo, código morse presença e ausência.
é uma viagem, aquele forte resfolegar depois de ficar muito tempo debaixo d’água ou apenas prender a respiração para conter o soluço.
respiro fundo, olhos arregalados e tudo, o corpo tenso pronto para atravessar uma fenda do tempo.
chego ao carisma, minh’alma para além de cativada.
pelo corredor luminoso entre duas fendas no espaço-tempo, mãos secas se tocam, dedos extraterrestres tremem e sorriem. como podem os dedos sorrir? como podem as borboletas desenharem o futuro nas bochechas de quem você mais ama no mundo?
esquenta. extasiada. como alguém pode ser expansivo? carrega o universo envolto nos braços. é chale. manta de lã para proteger dos ventos carentes de maio até agosto.
espero que a sensação de caminhar pelo corredor de luz te abrace e te aqueça com carinho e intensidade. assim, com sorte e amuletos, você consiga lembrar do ardor, mero afago, nos dias gélidos.
porque não existe nada mais bonito e honroso do que você.
expansiva e retraída, no seu tempo em tentativa de nutrição, assim como todo o espaço entre nós. disforme. real.
somos tão boas em escrever cartas. carregamos mãos de amparo.
poesia salvaguarda.
por Maria Alice
Hovsep Pushman, Contemplation (oil on masonite, before 1940)
garoto quase Einstein
Acredito em tantas coisas neste mundo. Talvez, principalmente, acredito em tantas coisas fora daqui. De alguma forma, meu lado superprotetor teme que o que sinto seja ridicularizado caso eu abra a boca e fale o que realmente acredito acreditar e pensar e imaginar.
Ah, e como eu imagino! Por muito tempo não gostei de expor o que imagino. São pensamentos tão íntimos e lindos e meus que me dói pensar em compartilhar com alguém que não os entenderia ou os julgasse. Seria uma espécie de traição. Seria doloroso demais e eu não colocaria minha solidão à prova desse jeito só para que alguém meio vazio ouvisse meus pensamentos transbordantes.
Ah, mas se tem uma coisa que pareço apreciar é a angústia do “e se” e do talvez. Principalmente quando as coisas envolvem você e as palavras que nunca serão ditas e os lábios que nunca serão encontrados e as mãos que nunca serão entrelaçadas e os dedos que continuarão a coçar incessantemente de vontade de tocar seu rosto e acariciar seu cabelo, delinear seu maxilar e contornar a curva da sua boca.
Eu apenas queria te abraçar tão forte a ponto de remendar cada quebra em você que, mesmo sem te conhecer, sei que há, porque o mundo é assim: todas as pessoas belas carregam suas marcas de açoites e isso faz com que seus sorrisos sejam ainda mais bonitos.
Queria te abraçar tão forte que a única alternativa de nós dois é tomar o cheiro do outro para si e nos fundir e tornarmos um, mas eu não faria isso.
Não faria porque você é aquela estrela que brilha incessantemente e eu sou aquela pequena e sôfrega vela que está quase chegando ao fim.
Mas nada disso me impede de sonhar com você, mesmo que em todo maldito dia eu tenha que desviar o olhar do seu. Tenho que parar de achar que você está olhando para mim também. Porque, por muitas vezes, acredito que tenho complexo de grandeza por sua causa. Mas minha ilusão é elevada ao Google e talvez você entenda essa expressão, já que é o “garoto quase Einstein”.
Tenho que parar de buscar duplo sentido em coisas que não há e desistir de ler nas
entrelinhas de um caderno apertado e desorganizado. Você é meu infeliz artista anônimo e ordinário que me faz sentir boba e sorrir para as paredes.
Porque gostar de você é como gostar daquele artista que nem sabe da sua existência.
Não sou uma garota misteriosa, sou facilmente esquecível, facilmente acessível e facilmente ouvidável.
Talvez você me convidasse para almoçar com seus pais. Gostaria de conversar com seu pai a respeito de economia e política e com sua mãe sobre signos e a injustiça na astrologia de antecessores e sucessores não se darem bem romanticamente. Mas o que a astrologia sabe sobre amor?
Eu gostaria de compartilhar meus chás preferidos com você e meus livros preteridos e as músicas que fazem minha alma dançar e aquelas que me fazem querer chorar.
Gostaria de te mostrar aquela lista de coisas favoritas e observar seu sorriso constrangido por ser notado quando ver que seu jeitinho de falar - que quase te faz parecer meio bobo - está entre elas, tímido e sutilmente entre “dias frios e cinzentos” e o País de Gales.
Você é meu segredo. Te dou apelidos carinhosos e indecifráveis. Parei de falar de você para os meus amigos porque parecia tão repetitivo quanto um disco arranhado na parte mais vulnerável da canção.
Gosto de chuva forte e tornados. Sinto que os raios são minhas veias e os trovões são meu coração batendo e gostaria de te falar isso.
Gostaria de rir contigo ao contar que ainda lembro que você gostava de Crepúsculo.
Porque para você eu contaria sobre meus segredos, contaria sobre minhas crenças e minhas convicções e ouviria encantada suas respostas enquanto observo nossas mãos entrelaçadas e o modo como você distraidamente acaricia as laterais da minha mão com seu polegar. Eu contaria para você porque segredos entendem segredos.
Eu acredito tanto nas vontades da vida que seria cruel não ter um objetivo você reaparecer assim, sem querer e sem esperar. Não é possível não ter. Por que eu lembraria de você após tantos anos? E eu lembrava de você e escondia um sorriso antes mesmo de nos encontrarmos. Eu era tão nova. Por que encontrar assim em meio a tantas possibilidades?
E lá vai eu querendo ler as entrelinhas da mesma forma que quero ler o jeito que você mexe no cabelo com a mão direita. Talvez as coisas são da forma que são e não há mensagens subliminares nisso.
Seria triste, mas plausível.
Eu lembraria de você e lembrarei provavelmente daqui a muitos anos. Você não é facilmente esquecível. Você dá motivos e razões para voltar mesmo quando ninguém quer retornar e tudo corre da forma que você quer, porque você é a deformação espacial que atrai todos para sua órbita. A gravidade é seu charme, sua aliada em prender todos nessa sua teia. São assim as coisas e eu gostaria de falar tudo isso para você.
Eu gosto demais de gostar de você.
De nos idealizar juntos. Talvez eu possa ser a única para você e você ser o único pra mim e tudo isso tenha ocorrido com um significado.
Gosto de tentar ler esses sinais, mas, às vezes, penso que nesse quesito sou totalmente analfabeta.
Quero aprender tantas coisas sobre você.
O que te faz sorrir, o que te faz chorar. O que te faz forte e o que te destrói. Seus sons preferidos, suas melodias decoradas.
Cada respiração tem uma melodia e eu queria
reconhecer a sua.
Poderíamos ser apenas amigos.
Eu lembraria de você de qualquer forma.
Eu gostaria de você de qualquer forma.
Não, não de qualquer forma. Apenas na sua forma.
(texto autoral), por Maria Alice dos Santos
se essa rua fosse minha
De quem é esse corpo?, me pergunto enquanto ando em uma rua vazia e escura olhando para todos os lados possíveis, as mãos em punho e o medo acelerando meu coração.
De quem é esse corpo?, questiona minha mente quando homens passam ao meu redor e expressam palavras que precificam a carne.
De quem é esse corpo?, grito para o espelho e a vergonha sobe ácida na garganta.
Olho para a roupa que escolhi vestir no dia, sem sutiã sob a camiseta e com as pernas não tão lisinhas.
De quem é esse corpo? De quem é esse corpo?
Se sou liberta, por que vivo com tanto medo?
Se essa rua, se essa rua fosse minha
Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes
Só para o meu amor passar
Mas se essa rua fosse minha… Ela é.
Mas se eu mandasse em algo… Eu mando.
Meu direito de ir e vir com segurança é
garantido, mas é tão facilmente ignorado que parece que nunca realmente esteve lá.
Porque muitas e muitas perguntas me afogam, duvidam do que realmente passei mesmo quando fui a única testemunha.
Não deve ser verdade.
As pedras de brilhantes são arremessadas.
De quem é esse corpo, de quem é esse corpo, de quem é esse corpo.
Porque é meu em apenas algumas circunstâncias e todos sabem o que é melhor para mim enquanto permaneço tola.
De quem é esse corpo feio, sexual, esquisito,
defeituoso, interessante, sujo, insuficiente?
De quem é esse corpo que é tão meu e ainda assim é de todos? De quem é esse corpo que me faz tanta falta?
Vivi na ilusão de que esse corpo era meu, indivisível, subjetivo, quando na verdade é
público e bem explicado.
É um corpo jurídico, é um corpo abençoado, é um corpo desconfiado, é um corpo odiado,
é um corpo descrente, é um corpo amaldiçoado, é um corpo sentenciado.
De quem é esse corpo?
Porque faz muito tempo que não o reconheço como meu.
Disputam e cospem. Cortam e reinventam.
Fabricam e vendem. Enjaulam e esbravejam
palavras de liberdade.
De quem é esse corpo?
Aberto ao debate.
Se essa rua, se essa rua fosse minha...
(texto autoral), por Maria Alice dos Santos
travessões - desculpe, senhora
-
Moça, a senhora não pode entrar aqui.
Como assim não posso? Eles estão me esperando!
Sinto muito, mas não pode.
Deixe-me entrar, por favor. É urgente.
Não estou autorizado.
Então deixe-me só falar rapidinho com eles, volto em um segundo!
Não posso, senhora. Desculpe.
Você não pode ir lá falar com eles?
É uma reunião fechada, não estou autorizado a entrar.
Mas é uma emergência. Diga meu nome!
Não está na lista de autorizados.
Pode ser um engano! Pare de ficar entrando na minha frente!
Desculpe.
Pare de se desculpar! Ah, Deus. O que farei agora?
Não sei, senhora.
Qual o seu nome? Ou você não está autorizado a dizer?
Meu nome é.
É um bonito nome.
Obrigado, senhora. Hm, tem algumas cadeiras ali.
Prefiro o chão.
Ah, ok.
Você gosta do seu trabalho?
Normalmente sim.
Bom para você.
E a senhora?
Normalmente não, é uma gigante merda. Principalmente quando não posso entrar em reuniões como essa. E pensar que eles se comprometeram comigo…
Sinto muito.
Não é culpa sua.
A senhora não parece bem. Quer que eu chame alguma ajuda?
Ah, não precisa. Eu tenho uma natural cara de doente. Ei, não era uma piada.
Desculpe.
Ah, você é um homem que pede muitas desculpas.
Minha psicóloga diz que isso tem a ver com minha infância submissiva.
Então agora você é um adulto submissivo.
Gostaria de não ser.
Seria bom inverter o ciclo.
É difícil reverter o ciclo. Penso e temo que, caso o faça, acabe me tornando o que me machucou.
Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar o opressor. Algo assim.
Paulo Freire. Sou fã do cara.
Se interessa pelo tema educação?
Acho que Paulo Freire não deveria ser tratado apenas nos assuntos referentes à educação. Ele é primordial
Dá para ver o brilhinho nos seus olhos.
Como disse, sou fã do cara. Enfim, faço Letras quando não estou uniformizado e dando minha força de trabalho aqui.
Entendo. Marxista, hein?
Gosto de ter consciência de classe.
É importante. Por que Letras?
Hm, relação com minha infância.
Eita que a gente é tão definido pelos traumas da infância. Ainda assim as crianças continuam a ser mal cuidadas.
É verdade. É algo que realmente me preocupa, por isso a escolha da profissão.
Tão bonzinho e ainda assim não me deixou entrar. Ei, estou brincando, não precisa se encolher todo.
A senhora vai ficar aqui até acabar a reunião?
Sinceramente, não sei. Queria ficar e socar todos os que saírem daí e chutar seus respectivos sacos. Estou profundamente magoada. Nesta droga de pasta está todo o meu trabalho de duas semanas, dias insones e dor nas costas. Eles disseram que eu poderia participar se o trabalho fosse feito direito.
Eles começaram a reunião mais cedo.
Imaginei depois que a raiva do surto passou. Você ri para dentro igual meu irmão mais velho. Fofo. Está em que semestre?
Último, estou trabalhando na apresentação da tese.
Uau, que nervoso. Como está indo?
Estou indo bem, agora estou bem. Antes, uns meses atrás, eu não estava em um bom lugar psicologicamente, foi aí que decidi começar a terapia.
Entendi. Fico feliz em saber que você está tendo acompanhamento desse tipo, é uma fase de merda, a graduação.
Eu concordo, apesar de gostar do que estudo.
Você parece ser um sonhador.
Acredito que sou. A senhora se considera sonhadora?
Eu me considero uma fodida, para falar a verdade. Estou numa profissão que tenho que ser cética, mas sou muito otária. Acho que a resposta é sim. Infelizmente, eu, sonhadora, porém não gênia, assim como outros que vieram antes de mim, não estou destinada a destinos grandiosos. Os que são como eu só apanham.
O dia não está indo muito bem, parece.
Está indo pior a cada segundo. O ápice é essa conversa.
Não achei que estivesse tão na merda assim.
Bem, ao menos ri pela primeira vez em aproximadamente 32 horas. Obrigada.
Disponha.
Você faz a faculdade à noite?
Não, durante a manhã.
Hm, e o que você está fazendo aqui?
Hoje é feriado.
Oh, merda, verdade. Acho que vou beber muito. Que horas você sai?
Quando acabar a reunião, provavelmente às 17:00.
Quer sair para beber comigo? Assim podemos declarar ódio ao sistema em um lugar que não transpire neoliberalismo e exploração da mais-valia.
Hm, não sei. Estou bem preocupado com a apresentação da tese.
Ah, é verdade. Desculpe, eu passo por cima de muita informação antes de falar as coisas. Quando será?
Tudo bem. Em oito semanas.
Eita. Torço para que você consiga ir bem e ficar calmo. Beberei essa noite por você.
Agradeço.
Bem, não vou esperá-los. Minha raiva já diminuiu. Irei procurar uma alienação para a tarde. Obrigada e até mais.
Boa bebedeira e alienação, senhora.
-
(texto autoral), por Maria Alice dos Santos
tossegosas canções de ninar
aviso de gatilho: ansiedade
A angústia da liberdade me envolve e canta canções de ninar. Meu estômago revira, minha mente dispara e a ansiedade me engole.
A angústia da liberdade me pega no colo, acaricia meus cabelos, beija minha testa e me joga de um precipício.
Minhas asas se quebram no processo. Minhas pernas ficam inutilizáveis. Meu peito racha. Ainda existe vida enquanto tusso sangue? Ainda existe vida enquanto penso nos erros e nos arrependimentos? Ainda existe vida, angústia livre? Ainda existe vida.
Os mares da Antártida são os mais violentos do mundo e retiram vários seres do fundo do oceano para a costa. Os mares da Antártida, gelados e escuros, ondulam e dançam e rugem uma particular sinfonia e deixam seus presentes na terra fria. Os mares da Antártida brincam na minha barriga e levam a bile para minha garganta e, inevitavelmente, me lembro dos meus gatos me trazendo passarinhos mortos de presente.
Vomito.
Os mares da Antártida dançam nos seus olhos, correm queimando por sua face. Os ventos de Netuno te envolvem, frios e insensíveis, arrancando sua pele. Os mares da Antártida. Os ventos de Netuno.
Os olhos da Antártida. Os dedos de Netuno.
Te conto que, mesmo afogada em esperança, brinco com a liberdade e me pergunto se tudo ocorre como deve ser. Te conto que, mesmo boiando fraca, lembro da luz entre as árvores e questiono o gosto que deve ter.
Te conto em contos e poemas curtos, sem forma, escondidos. Te conto em contos e poemas rápidos, cotidianos, vendidos em bares e na porta de bibliotecas. Te conto em contos e poemas e conto sobre nosso amor endêmico nesse nosso peito que bate e quebra e toc toc quem é?
Quem é? Quem se é?
Te vejo e não consigo parar cada gota de desejo que expira em mim, que toca minha pele e queima como o frio da Antártida. Te vejo e não consigo ver, porque já se foi por entre meus dedos. Lépido, lépido, como Coelho de Alice, e você me deixou? Afogo no mar de Antártida.
Você veio e uma rede enrolou meus pés. Eu caí e a dor foi pior do que a traição da angústia da liberdade. Você veio e me abraçou e beijou minhas feridas, minhas partidas e os gritos rachados em minha pele. Você veio e ficou. Parte de mim queria que você fosse e não voltasse, porque seu rosto era um pesadelo da cor dos ventos. Você veio e deitou seu amor em mim e alguma liberdade se desprendeu e entendo que talvez a cura comece assim.
Quando meu amor começa em mim.
Meus presentes foram deixados num jardim, numa estante, no telhado, no botequim. Meus presentes se foram, jogados dentro de garrafas no mar antártico.
Seu vento me aquece. Seus mares me banham. Seu amor aquiesce, terno e protetor. Seus dedos dançam e criam.
Me sinto um navio perdido nas águas de mares frios, os mais turbulentos. Me sinto, sem vazio.
A angústia de toda liberdade me jogou de novo no chão.
Me arrasto.
(texto autoral), por Maria Alice
esperançosas borboletas mórbidas
As borboletas também buscam fontes nutritivas em cadáveres, você sabia? Na última vez que te disse algo do tipo, você brincou que eu sou mórbida e eu sorri porque eu sou.
E estou me apaixonando por você também.
O gerúndio, ação contínua que te faz cair, cair e voar. Mas a vida é um precipício, certo? Você vai flutuar comigo, certo?
Eu sinto sua falta. Sinto tanto que respiro palavras oxigenadas formando “sinto sua falta” em todas as línguas e é tão bonito quanto você, tão bonito quanto nós e tão bonito quanto o infinito.
Aah, você lembra daquele dia que… É claro que você lembra.
Você lembra. Você ama e você me habita. Sou lar, casa de alma e sua casa sempre.
À essa altura, você sabe que tenho sons ambientes para cada espacinho. O som do meu coração batendo forte - e acelerando e acelerando toda vez que você sorri - ouvirá se andar perto da artéria aorta, bem na sala de estar, onde você está. Sou um clichê e não resisti a essa riminha boba.
O som de minha alegria e risadas estarão no jardim, perto do pulmão esquerdo. É lá que as flores que você constantemente planta estão, lindas e apaixonadas por você. É lá que você consegue ouvir minha risada barulhenta chamar em sussurros e em códigos seu nome. Minhas lágrimas e o som da minha tristeza serão ouvidas no quarto, nos meus pés grandes e estranhos, os quais me sustentam e me levantam - sempre e sempre e sempre.
Minha esperança estará nas mãos. Os doces sons de esperança estão brincando nas veias entre meus dedos tortos, os mesmos dedos que fazem amor e felicidade quando se juntam aos seus lindos dedos retos. Sons de conforto e paz estão nos meus braços curtos, você consegue ouvir sinfonias toda vez que te envolvo com eles?
E, por último, minha saudade e perseverança estão nas minhas pernas finas e tão curtas, essas que tanto se seguram para não correr em sua direção.
Onde fica minha alma é algo abstrato, porque ela perambula, velha do jeito que é, por cada espaço do meu corpo. Esbarra em esperanças, cai em algumas pegadinhas da minha ansiedade, floresce com o ar dos pulmões, se exercita com a ferocidade do meu coração.
Estava ouvindo aquelas mesmas músicas e aquelas mesmas fotos me fizeram chorar. Perdão, você sabe que eu sou assim. Você já até brinca com meu signo, justo você!
Eu sinto sua falta e daqui a sete anos, quando minhas células e meu corpo já estiverem renovados, ainda sentirei sua falta. Mesmo quase inteiramente nova, com toda essa mudança celular que é um dos fatores que nos leva à morte, ainda sentirei sua falta.
Porque eu caio. Caio no abismo do seu ser, porque todo abismo dá chances de voar e eu voei igual fumaça de vela assoprada em aniversário carregando um desejo íntimo, herança grega. Não ouso dizer em voz alta.
Espero que sinta todo o sentimento de onde está agora, o sentimento de cada célula morrendo, perdendo vitalidade e liberando energia. Você já tem muito de mim até agora. Estamos quites.
Osmose enviará tudo, espero que receba bem.
Fique com as flores, as mesmas que estão em meus pulmões.
Fique com as músicas cardíacas.
Fique comigo.
toques cálidos e deformações
Este vai ser mais longo que todos os anteriores, eu digo quando penso em mais um filme bobo para vermos, mesmo que todos os nossos dias pareçam domingos à tarde.
Quando eu era criança, eu vi um eclipse do sol. Deve ter sido parcial, porque todos dizem que faz muito tempo que não ocorre um real eclipse do sol e eu acredito, mas eu lembro da sensação de olhar para o sol e ver a lua. Algo estava erroneamente certo, dava a sensação de desordem e de caos amarelo e ferido, os toques cálidos de uma mão com calos de trabalho. Os raios não eram raios, eram lágrimas da lua. Eu não era eu, era uma criança que tendia à luz como um girassol e eu lembro de tudo, da lentidão, da emoção, de uma conspiração desordenada do Universo.
Hoje, eu tenho essa lembrança guardada na gaveta “só abra se quer chorar”. Hoje, guardei uma nova lembrança nesse lugar.
Eu me sinto vendo um eclipse ao olhar seus olhos, bem no fundo deles. Me sinto sendo banhada por uma luz modificada e incomum, como se você fosse a deformação do espaço tempo.
Você está, porque nunca somos, sempre estamos.
E eu estou, estou tão afundada na confusão do seu eclipse que a dor da volta à escuridão parece distante, fria. A sua calidez me enganou desde o início e eu percebi que estava perdida quando você me encontrou, a sua calidez me enganou e hoje estou.
Estou como o nada.
Somos cometas perdidos que são encontrados.
Como uma desordenada melodia num violino, eu tentei formar uma sinfonia que combinasse com o seu harmonioso silêncio. Eu me perdi nas tentativas e não sei como voltar, eu deveria ter deixado migalhas de pão.
Escrevi poesias para você em pedaços soltos nas nuvens, as deformações e curvas do ar as transformaram em obras de arte incognoscíveis. Eu voei em uma e você em outra e o espaço entre nós aumentava.
O que seria da fronteira se ninguém a encontrasse?, eu te perguntei e comentei sobre o nosso grande talvez.
O que seria das distorções curvas do meu rosto se eu não a encontrasse?, você rebateu e eu quis chorar. “A causa das curvas do meu sorriso”, você disse, “é você.”
Então eu sussurro, sempre aos sussurros os meus maiores gritos mudos: je serai poète et toi ma poési.
Eu quis chorar, porque você me atravessou e aquela colisão foi sutil como os sons do espaço, porque de todo o espaço tempo, de todas as deformações, você é a que mais me afeta. Mesmo que a gravidade atue e minhas rugas surjam enquanto o tempo me consome e guia ao fim.
Talvez, lá no fim, eu seja uma obra digna de marfim.
E eu quero que seja longo, longo como o seu cálido olhar de eclipse que captura o meu. Quero que seja longo, longo como o fio que nos conecta e ultrapassa todas as dimensões.
Talvez eu esteja sendo repetitiva, mas desde que você me atravessou eu te carrego, eu te carrego, te envolvo e te adoro. Eu te carrego, te adoro, devoro.
Como buraco negro.
Como texto placebo.
Eu te preencho de mim.
Porque a gente nunca deixa as pessoas da mesma forma que as encontramos. Porque meu coração pulsa e a alma também.
Porque você dança e me convida para dançar, mas mal você sabe que sua dança é como a órbita lunar. Você dança e me convida para dançar e eu te digo que não sei, não vi, só senti. Eu não danço à dois porque só aprendi a viver como um.
Como ser par se só colho ímpar?
Porque você me atravessou e aquela colisão foi como um som no espaço. Porque, naquela dança, o espaço se distorceu mais.
E eu expandi.
Porque você tem seus tempos
Suas horas
E eu
Porque você tem seus tempos
Relógios
Voltas
E eu
Porque você me atravessou e aquela colisão foi sutil como os sons do espaço. O som da minha alma quebrada será igual aos sons dos seus passos indo embora. O espaço sentirá inveja lá fora? As pessoas, amor, sempre deixam uma parte delas em nós. O que dizer se a sua parte transbordou e agora não sei mais ser média?
E o espaço entre nós aumentou
Preencheu todas as partes que faltavam
Então você me disse que somos a mais bela galáxia
E então eu te disse o porquê eu falo demais
É que, amor, eu tento te convencer a ir embora jamais.
Então eu te disse que eu falo demais
Porque o eclipse foi rápido, foi intenso e me deixou fria, vazia ao partir
O consolo que eu encontrei foi nas palavras e será nelas que me deitarei ao te ver ir.
Porque tudo que eu tive foi o número um e meus poemas de nuvens.
Porque tudo que eu tive foi.
(texto autoral) - Toques cálidos e deformações, por Maria Alice