Arthur Lescher Untitled, from the series Afluentes, 2015 Aluminum and paper 15 2/5 in diameter
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Arthur Lescher Untitled, from the series Afluentes, 2015 Aluminum and paper 15 2/5 in diameter
EXPEDIÇÃO AO PESADELO ESTÉTICO
Percorrer a exposição “Made By... Feito por Brasileiros” equivale a andar em meio a uma selva pálida e retorcida cujas árvores, os animais e os rios estão todas mortos e o único sinal de vida é um ruído neurótico e intermitente de uma sirene que ecoa através dos corredores do antigo prédio do Hospital Matarazzo. A aridez, a extrema sisudez, o previsível e pretenso engajamento político e a absoluta falta de beleza, marcas registradas da arte contemporânea brasileira, invadiram todas as dependências do imóvel construído no início do séc. XX e conseguiram ofuscar até a imponente arquitetura do antigo hospital.
A tragédia começa já na entrada, na parte externa. Uma armação de madeira pintada de vermelho e içada ao céu como se fosse um gigantesco telhado disforme se opõe à fachada clássica do edifício. O contraste esdrúxulo, absolutamente conceitual, acaba fazendo o papel de uma hostess que parece nos dizer: benvindos ao Pesadelo Estético.
Andando pela parte externa surgem as primeiras “instalações- penduricalhos” em árvores. Numa delas o “artista” pendurou em seus galhos colares gigantescos, num estilo que mistura cenografia de teatro infantil com objetos cênicos de escola de samba do grupo B. Em outra, foram colocadas esculturas de crânios humanos de cujas bocas saem longas e finas ripas de madeira. O resultado estético é constrangedor. Provocam uma nítida sensação de que as árvores estão envergonhadas e que não veem a hora desta invasão à sua extraordinária beleza natural terminar.
Como era de se esperar, a situação do lado de dentro do prédio abandonado há mais de 20 anos é de deterioração: paredes manchadas, portas envergadas, pisos imundos. Mas é exatamente este tipo de ambiente que a arte contemporânea brasileira se sente à vontade para exibir toda a sua anêmica exuberância cinzenta. E dá-lhe entulho. Uma sala com um monte de pedras e alguns jarros de barro quebrados. Numa outra, só um montinho de pedras. Agora um exército de escombros postos de pé. É a feiura minimalista fazendo história na Expedição ao Pesadelo Estético.
Passados trinta minutos de agonia, paro pela primeira vez e olho para os rostos dos visitantes. Não há o mínimo resquício de alegria, prazer, fruição. Parece que tudo nesta expedição tem que ser encarado de uma forma muito séria e tensa. Parece dizer o tempo todo que “a vida, minha gente, é uma merda, uma eterna e indestrutível merda cinzenta”.
Mas quando tudo parecia irremediavelmente perdido e o pesadelo consumado, surgiu, dos porões de uma das edificações, a obra CHUVA (Lavanderia – Demolição Líquida). A instalação de Arthur Lescher é como uma gota de sonho transcendente no meio de um deserto maçante, cinzento e sem graça. Onde funcionava a lavanderia do Hospital, Arthur criou um mecanismo que provoca uma chuva incessante a qual podemos olhar através de pequenas janelas do andar de cima. Além de ser uma obra em absoluta consonância com o espaço, Demolição Líquida reproduz a sonoridade de uma tempestade que, por alguns minutos, anulou os intensos e permanentes ruídos neuróticos que permeiam a exposição.
A sensação que fica após uma hora e meia desta expedição é que, tirando esta chuva, nenhuma outra sensação me foi provocada. E que parece ser este mesmo o propósito dos “artistas” que estão vinculados à chatíssima arte contemporânea brasileira. Provocar irritação, desprazer e afastar da arte as pouquíssimas pessoas que ainda gostam de arte neste país.
₪ http://www.feitoporbrasileiros.com.br/
Edição e fotos: Isabela Johansen