Ignora-se uma mão que ao longe nos acena,
tal célere gesto pode para nós não ser destinado,
e não existe opróbrio maior que um sorriso sem retorno,
olha-se para o chão fingindo-se cego, surdo e mudo
começamos então a bofetear uma pedra de modo
que não se diga que fingimos ninguém ver ou ouvir,
trauteia-se uma melodia inventada, para que não digam
que nos fazemos de mudos por alguma razão.
Tudo isto até à colisão entre os corpos que não se dá,
passam apenas um pelo outro, ainda que com escassas
centenas de centímetros de distância entre si.
Giro a cabeça afim de confirmar o destinatário da saudação,
para meu espanto: ninguém. Ninguém até aos confins da rua,
nenhuma sombra dobrava a esquina sequer!
Talvez imaginação minha tenha sido ou então foi o medo dele.
Haverá medo maior que o ser ignorado propositadamente?
No final melhor será fingirmos ambos, eu fingir que não o vi
e ele por sua vez fingir que não era a mim que saudava.