Aula 6 por Wellington Oliveira
O rosto do garoto estava agora a poucos centímetros do seu, tracejado pelas gotas da chuva que caia. Ele lhe encarava com um olhar confuso e preocupado, e Hugo não saberia dizer por quanto tempo o encarou, até que murmurou, baixo o suficiente para que o garoto pudesse ouvi-lo:
— Não, claramente não está. Consegue ficar de pé? — Bernardo questionou e o outro apenas assentiu.
Bernardo se afastou, apalpou os bolsos como quem procura algo e sacou seu celular. Hugo o observou enquanto teclava apressado, em menos de um minuto já o havia guardado e voltava a encará-lo.
— Quem fez isso com você? — ele quis saber.
— Não sei... não consegui ver... — mentiu.
Bernardo semicerrou os olhos para ele, desconfiado.
— Tudo bem, não importa agora. Pedi um táxi e vou te levar pra minha casa, assim vai poder dar um jeito nisso e ir pra sua casa depois se quiser...
Hugo balançou a cabeça em negação. Se os amigos de Bernardo já haviam batido nele daquele jeito por apenas tê-lo desenhado, imagine se soubessem que ele fora para a casa do garoto.
— Não precisa, eu estou bem e...
— Oh que pena, parece que nossa carona já chegou! — Bernardo o interrompeu, pegando sua bicicleta e a conduziu até os fundos do beco.
— Depois eu volto para buscá-la — comentou ele, mais para si mesmo do que para alguém em específico. Ele voltou, puxou Hugo pelo braço e o colocou dentro do carro, sangrando e encharcado.
O motorista lançou um olhar mal-humorado pelo retrovisor.
O carro saiu pela rua, e as dores no corpo de Hugo se intensificaram ainda mais. Ele tremia, sentindo os ossos congelados por sobre a carne. Abraçou-se na tentativa de se esquentar e recostou a cabeça na janela, observando, como costumava fazer no ônibus durante o trajeto para a escola, a paisagem a fora.
Ali, sentado nos fundos de um táxi com o garoto por quem tinha uma queda ao seu lado, com o corpo todo machucado e dolorido a gotejar água da chuva no estofado, tremendo como um cão abandonado em uma madrugada fria, a cidade lhe parecia mais distante e vazia do que nunca. Como se não lhe pertencesse, como se não houvesse passado por aquelas ruas antes, como se fosse um turista, decepcionado por ter optado pelo destino mais barato.
O que sentia no peito não era dor, nem mesmo raiva, era um vazio corrosivo, e em seu rosto, as lágrimas se misturaram com as gotas de chuva.
O carro parou de frente à uma casa murada, no topo dos muros, notava-se uma cerca elétrica em espiral com o aviso:
Bernardo desceu primeiro, depois Hugo o imitou, o taxista partiu outra vez, e o primeiro garoto guiou o outro até o portão, abrindo-o. Adentraram ao que parecia ser um pequeno jardim, andaram a passos apressados até a varanda da casa, onde uma cadeira de balanço repousava tristonha, e dali, para o hall de entrada.
— Estou molhando tudo... — Hugo falou, ao perceber a poça d’água que se formava aos seus pés.
— Só você, né? Relaxa, a dona Nilda dá um jeito depois.
Hugo imaginou que dona Nilda fosse a empregada. A casa era grande, se comparada a de Hugo, havia uma bela sala após o hall, onde um sofá de canto cinza dava de frente para uma imponente TV com mais polegadas do que Hugo poderia dizer. Da sala, subiram para o andar superior, havia um corredor lustroso com quadros exibindo pinturas abstratas e alguns retratos de família. Bernardo o levou até a penúltima porta do corredor, a abriu e deu passagem para que Hugo entrasse.
— Olha eu tenho que ir embora e...
— Você já veio até aqui, não é? — Bernardo o interrompeu outra vez.
O garoto suspirou e entrou. O quarto de Bernardo era grande, tinha uma outra TV gigante acoplada a parede de frente à uma bela cama de casal, com um suporte para vídeo-game sobre ela. Na parede lateral havia uma estante com livros, jogos, revistas em quadrinhos e alguns troféus de campeonatos de futebol.
Bernardo entrou, tirou a camisa encharcada e jogou no cesto de roupa suja. Hugo sentiu as bochechas enrubescerem, mas manteve a cabeça baixa.
— Pode se lavar ali, eu te empresto algumas das minhas roupas, acho que vão ficar um pouco folgadas, mas é melhor do que essas ai, no estado em que estão. Lá também tem sabão e toalhas, fique à vontade.
Hugo piscou. Por que o garoto estava sendo tão gentil? Será que aquilo fazia parte da armadilha de Heitor? Será que Bernardo o odiava tanto quanto os outros e queria apenas se aproveitar de sua inocência?
— Está esperando o que? — ele perguntou.
Hugo desculpou-se e entrou no banheiro. Passou mais de um minuto com as costas apoiadas na porta trancada, respirando fundo com o coração a martelar no peito. Tinha que ir embora o mais rápido possível.
Tirou a roupa, entrou no box e abriu o chuveiro. Cerrou os dentes ao sentir a água quente em contato com os machucados. Esfregou sabão até que a dor foi substituída por uma leve sensação de prazer. Secou-se, enrolou-se com a toalha e abriu a porta minimamente.
Bernardo retornou um minuto depois e lhe entregou uma muda de roupas.
Hugo vestiu-as rapidamente, ajeitou os cabelos com as mãos e saiu para o quarto. Bernardo continuava sem camisa, mas havia trocado a calça por uma bermuda seca e limpa.
— Olha eu agradeço sua ajuda, mas tenho que ir. Meus pais devem estar preocupados e...
— Foi o Heitor, né? — Bernardo falou.
As palavras morreram na boca de Hugo.
— Por que se importa? — questionou.
Hugo não respondeu, apenas suspirou, deu as costas ao garoto e estava prestes a sair do quarto quando ouviu: