Choros da Meia Noite por Gabriel Olimpio
A casa do Sr. Howard era impressionante em comparação às outras residências do bairro. Destacando-se com suas paredes de madeira avermelhada e seu tamanho desnecessariamente anormal para apenas duas pessoas morarem. Telhados robustos, paredes avermelhadas, janelas com persianas e vidros resistentes, porém, sem brilhos graças a sua grossura e enorme resistência.
Claro que, todos os vizinhos admiravam o senhor não apenas pela sua fortuna e luxo extravagante de sua residência, mas também pela imagem que Howard exalava. Um homem honesto, de boa índole. Um juiz renomado. Porém um pobre viúvo que perdera a esposa, oito anos atrás, durante o nascimento da filha.
Os vizinhos curiosos, usualmente observavam o juiz quando o mesmo retornava para a própria casa. Sempre no mesmo horário. 23:45. Mas, não era a rotina incomum do homem que causava estranheza aos demais cidadãos. O fato era que, sempre que ele chegava, era possível escutar alguns barulhos estranhos.
Do lado de dentro da casa, uma simplória garotinha enxugava as lágrimas em sua bata de cor cinza nanquim, tentando ignorar a enorme mancha de sangue que continha em seu peito. Ela soltou um longo suspiro, cortando por completo o choro. Olhando-se no espelho com bastante atenção, reparou na sua aparência ridícula e desleixada, dentro de um pedaço de pano rasgado e cheio de remendos, mas nem mesmo se importou.
Ela não ligava para vestimentas chiques, luxos ou até mesmo com a própria beleza física. Era humilde e simples, não desejava nada demais. Porém, todas as manhãs, a garota sentia inveja ao ver pela janela de sua casa, os filhos dos vizinhos correndo alegremente pelo jardim enquanto brincam. Como naquela manhã natalina. Com suas roupas caras e suas camisetas de times de colorações vibrantes, chutando uma bola de futebol que ganharam no dia anterior.
Sentia inveja ao observar aqueles garotos riquinhos, brincando até anoitecer, sem ter absolutamente nenhuma preocupação.
Uma batida repentina na porta assustou a pobre garotinha, fazendo com que ela batesse a testa na janela de vidro. Adormecera ali mesmo e nem reparou que já havia anoitecido, enquanto divagava nos próprios pensamentos observando o brilho das estrelas no céu sereno.
Ouviu o barulho silvante, vindo de um molho de chaves. Enquanto se apressava em correr em direção ao seu guarda-roupa e trancava-se do lado de dentro, se escondendo atrás de um grosso casaco de lã. O mesmo que sua mãe usava em dias festivos como aquele, antes de falecer dando à luz.
A garota prendeu a respiração, evitando se mexer ao ouvir seu pai entrando em seu quarto.
– Onde está essa garota? – Berrou ele, ligeiramente alterado por causa da bebida avermelhada que tomava todas às noites. Ele apoiava uma das mãos em seu famoso cinto de couro, o qual a garota já era familiarizada.
Ele procurou embaixo da cama, atrás da cortina branca de cetim, até mesmo dentro do antigo esconderijo da garota, embaixo do assoalho de madeira. Ela quase desmaiou, quando percebeu seu pai se aproximando da porta do guarda-roupa. Furioso, puxou à frágil garotinha dali, enquanto ela chorava e implorava para ele não fazer aquilo.
Quando o sol apareceu na manhã seguinte, o senhor vestiu seu lindo terno de grife e saiu para trabalhar. Diferente da garota que continuava em casa, sozinha, tremendo e chorando ao ver o novo presente de natal que ganhara nas costas.
*
Poucas horas depois, a garota escutou uma balbúrdia do lado de fora da casa. Indo até a janela de seu quarto, observou os filhos do vizinho brincando novamente, em plena luz do dia. Ambos chutavam a nova bola de futebol, rindo de forma boba e disparando leves ofensas um ao outro. A garota encarava os dois meninos escondida, com curiosidade e inveja, até que um deles chutou a bola tão forte, que ela voou em direção a janela onde a garota os observava.
Ela se assustou com a batida. Ainda mais, quando um dos meninos virou diretamente para ela.
– Quer jogar também, guria? – Convidou o menino com um ar brincalhão.
A garota apenas balançou a cabeça negativamente. Não era permitido sair de casa. Se seu pai a visse do lado de fora, ele ficaria mais bravo do que nunca. Se bem que ele chegava todos os dias às 23:45, como sempre, sem exceção. Se ela voltasse a tempo...
Ela destrancou a porta de casa e foi até o quintal dos meninos. O jardim deles era gigante, verde e com espaço suficiente para todos brincarem. A garota sentiu a grama com seus pés e reparou mais atentamente na rua em que morava. Desde quando tinha uma padaria do lado esquerdo de sua casa? E como ela não tinha percebido aquele agradável aroma de pão recém assado? Fazia tanto tempo que a menina não saia de casa que até mesmo se esqueceu dos prédios a sua volta. Da praça central repleta de adolescentes se beijando, dos divertidos brinquedos do parque infantil, do cheiro de grama recém cortada exalando dos jardins e do ar puro que entrava e saia com prazer.
Ela fechou os olhos por alguns minutos, apreciando todos àqueles sentidos, enquanto os dois meninos olhavam para a garota, franzindo as sobrancelhas e estranhando a atitude da menina. Sem ao menos entender o que ela passara na noite anterior. Porém, aquele era um momento feliz. Tinha se esquecido de seus hematomas e de todas as suas feridas. Aproveitaria aquele novo sentimento, pois era a primeira vez que experimentava.
Liberdade.
– Vamos jogar ou não? – Disse a menina, abrindo os olhos e deixando escapar um verdadeiro sorriso. E assim, os meninos voltaram a chutar alegremente a bola. Agora, com uma nova companheira de time.
A garota sorria tanto que suas bochechas doíam, corria tanto que seus pés latejavam, mas ela não pararia a brincadeira tão cedo! Mesmo depois de anoitecer, quando os meninos tiveram que voltar para as suas casas, levando a bola e toda a diversão consigo, a menina não parou de sorrir. Pois deitou no seu quintal e ficou observando sozinha as estrelas mortas brilhando no céu, torcendo para que uma delas fosse uma cadente. Fez o pedido para continuar sentindo aquela sensação para todo o sempre. E nunca mais ter que sentir aquela sensação da noite anterior.
Ela fechou os olhos, pedindo com mais fervor, e se arrependeu desse feito, pois sem perceber, acabou dormindo ali mesmo, do lado de fora da casa. E mal sabia ela que, acabara de dar meia-noite.
Acordou de sobressalto e correu para dentro de casa, abrindo a porta de forma violenta e dando de cara com seu pai, engravatado e vermelho. A garota engoliu em seco e olhou assustada para o relógio de sua casa: 00:30. Tinha se atrasado.
– O que você estava fazendo no jardim? – Perguntou seu pai de forma calma, o que assustou ainda mais foi ver a calmaria em seu tom.
– Estava observando as estrelas... – lamentou a garota.
E ele não disse nada, só balançou a cabeça.
– E eu te dei permissão para observar as estrelas? – Perguntou ele, zanzando com a bebida alterando seu humor. Ela se encolheu e pediu desculpas pelos seus atos, mais por medo do que por arrependimento. Mas aquelas palavras nem sequer foram escutadas.
Ele puxou a menina para o quarto de cima.
Ela se debateu, tentando se soltar dos braços grossos que a prendiam.
Não era possível!
Todas as noites, ela gritava a plenos pulmões. Não era possível que nenhum vizinho não tenha vindo até ali para saber a real causa da gritaria. Era mais provável que, ninguém da vizinhança quisesse se envolver nos assuntos pessoais de um juiz viúvo. Era mais fácil ignorar os lamentos noturnos de uma simples garotinha do que ter que enfrentar um juiz renomado nacionalmente.
Ele a arrastou para o quarto, enquanto ela deixava as lágrimas caídas nas longas escadas. Jogou a menina no chão e trancou a porta do quarto com dois cadeados diferentes dessa vez.
O homem tirou o seu cinto e se virou para encarar a filha, que estava de pé, com os punhos cerrados.
Não aceitaria mais aquela punição!
– Estou cansada de tudo isso! – Gritou ela, parando de chorar. – Cansada de ficar presa nesse maldito quarto. Cansada de ser maltratada! De ser punida por ter nascido. Eu não tive culpa! Não tive culpa por nascer em um parto prematuro e complicado. Não tenho culpa pela morte da mamãe!
Ela não mais chorava.
E não deveria ter mencionado aquele assunto.
Howard agarrou a garota pelo pescoço, erguendo-a no ar sem esforços.
– Não ouse falar da sua mãe! – Cuspiu ele. O cheiro da bebida impregnado em seu hálito. Levou a menina até a janela e abriu o grosso vidro com uma das mãos. – Você nunca mais vai falar da sua mãe.
Ele finalmente soltou a garota.
Finalmente, ela teria liberdade.
O corpo da garota bateu no chão, ao cair da janela, retorcendo seus frágeis ossos em ângulos estranhos.
Sorte que a menina caiu virada para cima. Pois assim, poderia observar pela última vez às estrelas mortas brilhando no céu. Logo, ela também se juntaria a elas...













