Sobre todo amor que eu neguei
“Isso não é uma poesia, tampouco meus delírios romancistas [que mentira] ou o que minhas vertentes acabam incumbindo a mim, enquanto escritora [amadora, como me defino], é apenas o desabafo de um coração teimoso e [ainda] dilacerado.
Eu ainda me surpreendo com o tanto de lições que a vida pode nos ensinar todos os dias, até mesmo nas situações mais simples. Surpreendo-me ainda que, embora, muitas vezes, sejamos teimosos a ponto de contrariá-la, ela, a quem me refiro como uma amiga [a vida], acaba por sempre encontrar um meio de trazer tais lições ao nosso caminho, não importa o quanto fujamos disso ou de nós mesmos.
Há algumas luas eu vivi, diga-se de passagem, um dos momentos mais dolorosos da minha vida até então, fora este o momento de um rompimento, o momento de desfazer os laços e lançar ao mar metas que pareciam tão próximas de nosso alcance. Sim, nosso alcance... nossas metas... nossa história. Aquele foi o momento de deixar para trás uma história que já não podia mais ser vivida porque, muito embora fosse nossa vontade continuar, as circunstâncias já não nos eram favoráveis após dois anos de muito amor, muita luz e muita alegria; dois anos ao som de nossa melodia, de nossas narrativas, muito café e poesia. Como um banho de água fria sobre nós, amantes apaixonados, o amor esfriou, o coração fora dilacerado pela dor que a realidade nos trazia, embora nunca verdadeiramente mergulhados em nossa fantasia.
Eu parti primeiro. Juntei as tintas, os papéis e, fazendo proveito de nossa calmaria, segui um caminho no qual podia rabiscar meus versos de dor e tristeza sobre nós, pensar em nós e encontrar conforto em um ninho que para mim pronto estaria. Envolvi-me, embolei-me, reescrevi-me e redesenhei-me. Os frutos pareciam bons e a vida parecia tranquila, até que houveram reviravoltas e eu me vi sozinha, novamente desabrigada e perdida.
Olhei para trás e te vi não tão distante, sorrindo e vivendo [em um novo amor] encontros constantes. Então me dei conta, em meu olhar de relance, com o aperto no peito, que tua falta eu sentia e que nada seria como antes. Pois eu, que havia tentando ser forte, havia fraquejado, me iludido, me perdido, no caminho da busca por um novo horizonte, enquanto tu, na sabedoria e tranquilidade, havia seguido adiante.
Muito embora eu tenha partido primeiro, cheguei a beira da loucura em um devaneio, no torpor, na dor,
esta que eu mesma criei, pintando sobre ti uma imagem de horror, a te culpar pelo que eu mesma havia causado a mim, pela falta do meu próprio amor.
Eu vomitei a dor
o desespero
o aperreio.
E de todas as maneiras possíveis eu tentei te odiar, amaldiçoar teu nome, deturpar a imagem que meu peito carregava de ti.
De todas as maneiras possíveis eu tentei enxergar o pior de ti, embebedar-me da tua desonra, da tua desordem e da tua desgraça,
mas novamente vomitei, à beira do abismo
eu vomitei até a última gota porque isso jamais seria mais forte que eu.
Provei, por fim, que todo o meu esforço para me tornar um ser humano ruim havia sido em vão
porque eu aprendi a amar
a cuidar
a relevar.
E muito embora o meu egoísmo me mostre como um ser que pouco amadureceu
e meu orgulho diga que já não te sinto mais como um amor meu,
é uma farsa.
Uma farsa porque eu me esforcei para ser ruim, para te odiar, para dar o pior de mim
mas isso me faz mal, nos faz mal
E se é amor que tenho,
não são minhas birras que irão me impedir de amar
a mim
a ti
ou a quem quer que em meu caminho apareça.
Pois quando é forte, verdadeira e pura a nossa raiz
não há praga que nos envenene, nos desgrace e nos apodreça”.
| Peço desculpas por não estar identificando os artistas do quais tenho feito uso de ilustrações nos últimos posts, infelizmente não consegui identificá-los.











