Me vê um café, por favor.
Era manhã, num café de esquina, quase hora do almoço e eu nem deveria estar ali. Ao te ver chegando, todo vestido num creme e azul pavão impecável, sorri por saudades. Há tempos que não o via, era como um processo de clareamento dental: demorado, dolorido e difícil de ir até o fim e por isso a gente às vezes sai da linha no meio, como hoje. Chegando perto, se acomodou, soltei um "obrigada" pra quem te acompanhou e sorri. Seu cheiro marcante exalava em todo o espaço e eu já não continha os lábios tão longe, mas era quente. Quente e distante ainda, talvez alguns minutos de espera seria bom. Ao redor pessoas andavam e nem ligavam para o enorme marco que acontecia ali, queria que todos soubessem e ao mesmo tempo queria nos guardar em segredo. Uma confusão na minha mente entre gritos de euforia e calma deixavam minhas mãos nervosas entrelaçadas e minhas pernas mexendo. “Eu prometo que tentei ficar longe”, soltei murmurando, “mas o seu cheiro está por toda a parte”, principalmente nessa época do ano.
O frio, ah, joelhos batendo em sintonia nos ônibus, blusas em cima de blusas escondendo corpos e rostos gelados. Bebidas quentes sendo tomadas em cada esquina e seu cheiro exala. Mas ainda era quente. Tanto que parecia que poderia explodir a qualquer momento, tentei amenizar. “Um pouco de água gelada, por favor.”. Mesmo com queimaduras que doíam por alguns dias, entre idas e vindas, bolos, biscoitos e chocolates aos montes, nos reencontramos de tempos em tempos e em todas as estações, sempre trouxe aconchego.
Pessoal. Em dias de baixas no coração te mantenho perto, certa de que o mal vai passar. Nas tardes frias e curtas, pequenas idas ao parque ou madrugadas tristes, você vinha quente, pronto, solto e acompanhado de lembranças. Lembranças em cafés de bairro, goles de gente que parou pra conversar, crianças que fizeram careta ao seu amargor, empresários de terno e gravata em reunião. Goles em manhãs gostosas de uma terça-feira com flores, beijos demorados com seu gosto tão presente que às vezes, escovar os dentes era uma boa opção, e de grandes goles em atrasos no trabalho. E quantas vezes me fez par em meio ao caos que minha vida se tornou?
O que era quente quase esfriou e meus dedos ainda te tocavam com cuidado, para nada se desfazer no chão gelado. Todos sabem que o morno não é bom, amores mornos não duram um mês. Você estava bom mesmo assim, mas acabaria também. Aos poucos se acabava, logo ali, em um creme e azul pavão impecável. Sorri pela falta. “Posso recolher?” a atendente perguntou. “Pode sim”, respondi confiante, retirando minhas mãos. “O café estava bom?” perguntou ela automaticamente. “No finzinho um pouco morno, mas maravilhoso.”.