peixinho dourado.
subi a pé a ladeira da rua que já subi no colo a poucos anos atrás carregando uma mala com pouco mais do que algumas roupas jogadas sem dobras de forma desleixada, feita por alguém que não esperava fazer uma viagem pra longe no começo de dezembro, exalava cheiro de calmante, chiclete de menta e suor, olhar as casas com portas coladas na rua cada qual de uma cor diferente, o cheiro de dendê na rua e o barulho de música brega que se mistura com anúncios falados em sotaque baiano de lojas em promoção me trouxe aquele sentimento de casa que sinto toda vez que piso aqui.
gritei no portão e não te vi ali me esperando de vestido azul e braços pra fora da grade, dizem que a senhora está em uma gaveta, parece estranho ainda não fui ver, mamãe disse que você tá lá em cima, no céu no paraíso nas estrelas ou algo assim, mas sei que a senhora gostava mesmo era da sua poltrona em frente à televisão com a gente junto, esse era seu lugar melhor. cada canto dessa casa cheira à senhora, tá entranhado nas frestas do teto, no azulejo do banheiro, no seu quarto faltando a cama dura, nas nossas fotos grudadas na parede, nos talheres da cozinha, na gaveta de camisola, na caixa de remédio, nos silêncios que se formam cada vez que alguma de nós menciona seu nome. não sei se se é possível mas tá no ar e é estranho te imaginar só alma sem corpo, sua fala meio paulista meio baiana me faz falta, meu ouvido tá pedindo pra ouvir um bebê vindo da sua boca.
a casa é você. tomar banho de porta aberta enquanto você tá na cozinha, te acompanhar no banheiro, pular no seu sofá em frente ao ventilador só de camisola e calcinha, ligar na novela das nove, ouvir suas histórias, sentar na porta de casa olhando a rua, assistir os programas policiais, CSI, cada memória cotidiana parece ter se tornado sagrada e eu queria poder congelar tudo isso colocar num quadro enquanto acendo uma vela em reverência a cada um desses momentos. era só dois meses por ano mas era meu lar, ainda é meu lar.
você em curitiba roubando romãs, fazendo quiabo com carne moída e água com noz moscada, se enrolando no cobertor igual aquele personagem de pantanal. você em floripa cantando sua canção de ninar, passeando na praia. meu significado de família era seu colo, aquele cheiro de leite de rosa vicky e insulina tá na minha cabeça e eu sinto o tempo todo, te disse que te amava tantas vezes mas agora que não te vejo parece tão pouco, eu queria mais tempo, queria mais palavras, mais memórias, queria ter morado na sua rua, queria ter ouvido um parabéns seu nos meus dezoito anos, queria ter te curado da tristeza, queria ter segurado sua mão na hora que você teve medo de ir. tu viveu tanto e pra mim ainda foi tão pouco.
uma borboleta verde pousou em mim essa manhã e eu que até pouco tempo pensei não acreditar em nada além da terra acreditei fielmente que era voce, e eu sei que era.
o tutu lambeza saia já daqui, voce é muito malvado não deixa o bebe dormir.














