E o que você talvez ainda não tenha entendido é que, mesmo quando pareço calma, é só aparência. Eu estou o tempo inteiro tentando manter o controle... De mim, de você, da vontade que insiste em queimar feito brasa acesa no fundo da garganta. E eu disfarço. Finjo que sou racional. Que estou só ali, aproveitando o momento, quando na verdade… eu estou me perguntando como ainda não tirei você do sério.
Ou melhor: como ainda não te tirei do sério por completo.
Nosso segundo encontro teve isso. Teve aquela falsa sensação de tranquilidade, aquele cenário de cinema — onde, ironicamente, eu mal prestei atenção no filme. Não porque ele fosse ruim. Mas porque, entre as cenas na tela, havia outra história acontecendo em silêncio: Você. A gente.
E foi no escuro da sala que eu pedi pra levantarmos o apoio de braço, lembrando que o motivo era simples: quero você mais perto. Só não contava com você retribuindo com carinho na minha perna. Confesso: estranhei. Achei que você estivesse me provocando… mas depois achei que estivesse tentando me aquecer. E aí fiquei sem saber — e isso só aumentou minha vontade de descobrir o que, de fato, estava passando pela sua cabeça.
Você tem esse toque que é difícil de decifrar. Às vezes parece ternura, outras vezes é pura tentação. No começo, senti mais carinho do que desejo — e foi isso que me desarmou. Me fez baixar a guarda e começar a te observar ainda mais. Os detalhes. Os lábios. Não mais o piercing… dessa vez, eram só os seus lábios.
E foi aí que aconteceu: o seu olhar encontrou o meu. E você não desviou.
Eu sustentei. Você também. E naquele momento, parecia que algo gritava dentro de mim: Ela não vai te beijar, Karine. Mas quer. Tanto quanto você quer.
Então eu lembrei que você mesma tinha dito que eu podia te beijar quando quisesse. E adivinha? Eu quis.
Me inclinei devagar. Te beijei. E você me puxou pela nuca, quase me colocando em cima de você. O mundo parou, o filme sumiu. Ficou só o gosto da sua boca, a sua urgência encaixando na minha. Era como se o tempo tivesse esperado por esse exato segundo. Como se nossos corpos dissessem "enfim".
Mas a gente ainda estava em público. No cinema. E mesmo com esse detalhe insignificante chamado "decência", eu confesso: se você me puxasse mais um pouco, eu não prometo que teria te impedido.
Eu só parei porque meus dentes passaram pela sua língua, e eu fiquei rindo envergonhada por um segundo — senti que “quebrei o clima”. Você chegou a perguntar se a gente devia sair do cinema. Mas eu te lembrei que você ainda não tinha visto o filme. E no fundo, eu também sabia que, se a gente saísse… não teria mais controle nenhum.
Ficamos ali. Abraçadas. Você continuava com a mão na minha perna. Eu com os dedos entrelaçados aos seus. E, por dentro, eu queria estar com a boca no seu pescoço, a mão sob sua blusa, o corpo colado no seu. Mas me contive.
Teve um momento que eu senti frio. E você me deu sua jaqueta — aquela que ficou gigante em mim. E mesmo assim, eu ainda tremia. Só que não era mais só por causa do ar-condicionado. Era por estar perto de você e querer muito mais do que poderia pedir naquele instante.
Quando fomos embora, na estação esperando nosso trem, estávamos coladas. Eu te envolvia pelo pescoço, e minhas mãos estavam geladas. Talvez porque, ao invés de colocá-las sob sua jaqueta, eu escolhi deixá-las expostas ao frio — enquanto meu corpo, ali grudado no seu, já estava mais quente do que deveria.
Você não apenas me aquece como me dá calor, sabia?
E agora, eu não sei se é vício ou só saudade — mas eu estou com a sensação de que, se eu te beijar mais uma vez, não vou conseguir parar. E olha que eu sou a Karine. Aquela que provoca, que segura as rédeas, que sabe brincar com o limite. Mas com você… eu fico na beira dele. O tempo todo.
E quer saber? Eu tô louca pra ultrapassar.
Porque aquela conversa no meio da madrugada ainda ecoa aqui. Quando você disse que estava com vontade de mim. Que ficava arrepiada, que fazia carinho por um motivo. Que meu cabelo cacheado era uma tentação. Que queria me puxar pela nuca. Que pensava em mim demais — e ficava com calor só de imaginar.
E eu, Karine, aquela que prometeu dormir 100% vestida pra você ficar bem… confesso que menti.
Porque agora, cada vez que você diz que vai tentar manter a sanidade, eu penso em novas formas de te fazer perder o juízo.
E o mais engraçado? É que a parte mais perigosa disso tudo…
A verdade é que a gente já estava tentando se encontrar muito antes de dar certo. No meio de aplicativo, trens que paravam no meio do caminho e mensagens trocadas entre distrações, o caos da cidade quase nos atrapalhou. Quase. Porque, mesmo com desencontros, olhares perdidos e palavras não ditas, o universo nos empurrou pro mesmo vagão — e, enfim, nos reconhecemos.
Quando finalmente conseguimos entrar no mesmo trem, eu subi em um dos primeiros vagões e fui andando... um por um. Na minha cabeça, era minha obrigação te reconhecer. Eu precisava te reconhecer. Você era a mocinha com quem eu tive uma conexão absurda, uma química instantânea — e que, confesso, já tinha me deixado um pouco desnorteada desde o primeiro “oi”, ou talvez até antes disso, a sargitariana com o olhar sensual haha.
Enquanto eu seguia, ainda respondi uma última mensagem e guardei o celular. Foi aí que te vi. De longe. Você, inquieta, parecia estar escrevendo algo que nunca chegou a me enviar — porque, antes disso, eu parei bem ao seu lado.
Foi tudo muito automático. Você olhou pra cima, se levantou num movimento tão rápido que eu achei que fosse cair quando o trem se moveu. Naquele segundo, eu não sabia se podia te tocar, mas segurei sua cintura e pedi desculpa. Nem sei se você ouviu. Eu só... fiz. Como se já fosse instinto.
Foi aí que reparei no seu piercing embaixo dos lábios. Ele refletia a luz e me hipnotizava. Tentei, juro, me concentrar em qualquer outra coisa — nas janelas, no mapa da linha, no som das estações — pra você não perceber que meu olhar sempre voltava pro mesmo lugar.
Você parecia um pinguim. E eu não digo isso de forma aleatória. O gorrinho, a jaqueta de couro grande, a forma como parecia pequena dentro de uma jaqueta que parecia emprestada de alguém gigante. Você estava absurdamente fofa. A ponto de me dar vontade de te colocar no colo e te proteger do mundo.
Falamos de algumas coisas... que honestamente nem lembro direito. Eu estava mais ocupada tentando não te encarar demais. Tentando não deixar o olhar te entregar. E, pra esconder isso, ficava olhando para fora do trem, como se o vidro fosse mais interessante que o brilho da tua boca.
Chegamos na estação. E como em um gesto involuntário, deixei você ir na frente — quase como se te escolhesse líder da minha noite. “Pinguinzinha”, eu pensei. E o apelido grudou e sempre lembrava quando eu olhava você andando. ❤️
Você parecia meio desconfortável, e eu não queria te pressionar. Queria te deixar à vontade, como quem só quer que o outro fique, mesmo que não diga nada. Você disse que ficava quieta quando não se sentia à vontade, então presumir que não estava. Então pedi o carro do 99 pro nosso destino, mas na hora você não ouviu. Fiquei sem saber como te chamar... e acabei tocando seu braço. Um gesto tão simples, mas cheio de hesitação — como quase tudo que fiz naquela noite.
No carro, percebi que você estava resfriada — ou quase isso. Perguntei, e sua resposta meio... sei lá desinteressada talvez, me fez pensar que talvez não fosse o momento. Deixei passar.
No gastropub, deixei você escolher onde sentar. Tinha lugares maiores, com estofado nas janelas, mas você escolheu uma mesa do canto onde ficaríamos frente a frente e eu pensei "talvez não seja tao ruim" , logo você mudou de ideia dizendo ter achado o ligar perfeito e seguimos para um estofado perto da sinuca. E quando me chamou pra sentar ao seu lado, com aquela voz e jeito fofinho, me desarmei.
Você disse que estava com fome, mas comeu menos da metade do lanche. Nenhuma de nós deu conta da entrada nem do hambúrguer mal passado (que parecia cru!). Eu pedi um drink de manga, você de pera. Depois veio a água com gás — e o gelo invisível que nos fez rir —, e mais um drink com cereja.
Lá dentro não fazia frio, e mesmo assim eu queria ficar perto de você o tempo todo. Quando você dizia que estava com calor, eu me afastava só um pouco. Mas perto de você... eu só queria fechar os olhos e dormir encostada. Só isso.
Em algum momento, você segurou minha mão. Eu fiz carinho. Fiquei reparando nela, notando como era diferente da minha, tao grossa. Você me contou sobre seus trabalhos, sua rotina, sua correria. E eu só queria ouvir mais. Enquanto isso, o jogo de futebol passava na TV — e você, que disse que nem gostava de futebol, parecia hipnotizada. E eu me perguntava: será que ela não está entediada comigo?
A verdade é que, sempre que eu te olhava, meus olhos iam direto pros seus lábios. O piercing era como um feitiço, e eu fazia força pra olhar pra qualquer outra coisa. Tentei comer, me distrair, lembrar que tinha tomado duas taças de vinho em casa antes de sair e que talvez estivesse um pouco mais sensível por isso.
Não queria te beijar ali, de repente. Não queria forçar algo que você talvez não estivesse pronta pra dar. Então comi. Me concentrei no lanche cru. Sorri. E segurei a vontade.
Fomos quase expulsas do lugar, com os garçons trazendo a comanda e já varrendo o chão. Eu teria ficado ali a noite inteira. Mesmo em silêncio. Só te dando carinho.
Você ficou feliz quando eu disse que da próxima vez quem pagaria seria eu, achei isso muito fofo e lembrei da figurinhaque você sempre manda. Coisas pequenas, mas que guardo com carinho.
Na volta, abri a porta do carro, me dirigir para sentar do outro lado, tentando facilitar o caminho, como quem quer que tudo seja leve. Foi aí que senti algo diferente. Você segurou minha mão, eu deitei a cabeçaem seu ombro.
Durante a noite, você me surpreendia. Em cada gesto. Às vezes tão confiante, às vezes tão tímida. Eu não sabia se era você de verdade, ou se era você tentando corresponder ao que achava que eu queria. Mas era encantador. Tipo quando chegou a entrada e você tentou me dar comida da boca, admito que senti um pouco de vergonha. E quando me abraçou na estação e quando beijou meu pescoço.
Na estação, quando fomos esperar o seu trem, você me abraçou e encostou o rosto no meu pescoço. Sua respiração morna, tão próxima, me deixava sem saber pra onde olhar. Eu desviava o olhar pra tudo — escada rolante, trilhos, pessoas. Qualquer coisa pra não encarar o que eu queria.
Você me convenceu a ir até a Luz. No trajeto, sua cabeça deitada no meu ombro. Eu sentia sua testa quente e me perguntava se você estava com febre — mas você não se afastava. Será que estava com calor? Ou era só sono?
Quando chegamos, eu disse que não precisava me acompanhar na linha amarela. Era tarde. E seguimos para eu esperar seu trem contigo. E ali, naquele canto da estação, você me puxou. Ficamos perto. Muito perto. De novo, minha mente se dividia entre o desejo e o cuidado.
Então você beijou meu pescoço.
E eu... congelei. Olhei pra você tentando entender. Você pediu desculpas. E eu não sabia se era brincadeira, impulso, vontade. Ou tudo junto.
Mas ali, mesmo sem saber de nada, eu só queria te proteger. Do frio, do cansaço, da segunda-feira sem dormir. De mim mesma, talvez. Porque o maior esforço da noite inteira foi não ceder ao desejo de te beijar. Porque eu não sabia se você queria. E porque, mesmo querendo muito, eu escolhi te respeitar antes de tudo.
E se eu te olhava demais, era culpa do seu piercing. Se eu desviava o olhar, era medo de me entregar. E se eu fiquei até o último segundo ao seu lado, mesmo querendo mais, foi porque você já tinha se tornado o mais da minha noite.
Mas então seu trem chegou. E você, sem cerimônia, me pediu um beijo de despedida, do seu jeito fofinho irresistível.
Na hora, eu não hesitei. Atendi seu pedido, mesmo que tudo em mim quisesse estender aquele momento por horas. Senti seus braços ao meu redor, como se você quisesse me segurar ali, como se não quisesse me soltar. E logo em seguida, seus olhos voltaram a me procurar — daquele jeito. Aquele jeito que você olha como se não fosse só olhar, fosse convite, fosse toque, fosse um “fica mais um pouco”.
E eu? Eu não queria te deixar ir.
Te beijei de novo, quase um protesto contra o relógio e o trem parado à sua espera.
Foi aí que a realidade me puxou de volta. Lembrei que seu trem estava ali, parado, prestes a ir embora. Lembrei que já era tarde. Que segunda-feira chegaria em poucos minutos. E mesmo assim, eu ainda tentei te convencer a embarcar — com o coração apertado e a mente em completo torpor.
Quando o trem fechou as portas com você dentro, eu fiquei ali. Meio sem saber o que fazer com o corpo, com a boca que ainda sentia o gosto do beijo, com as mãos que ainda pareciam entrelaçadas nas suas.
Voltei pra casa igual a uma boba apaixonada. Cada estação parecia mais vazia, mas eu estava cheia. Cheia de você, da sua respiração no meu pescoço, da sua mão na minha, do seu piercing que ainda brilhava no fundo da minha memória — e daquele seu olhar... que, mesmo quando se despede, ainda me chama de volta.