"Eu não vou escrever porra nenhuma, entendeu? Me nego a deixar que escutem meus sentimentos quando, na verdade, ninguém se importa." Retrucou para o professor. O coitado olhava assustado para John. Assustado. Com pena. Era justo. O homem continuava a insistir, mas John sequer escutava. As palavras já vinham à sua mente. Ele sabia o que dizer desde o dia em que ela se fora. "O senhor é um dos alunos mais próximos dos professores, especialmente a senhorita Baudelarie, pelo que sabemos. Por favor, Greenfield, a homenagem é daqui duas horas." A preocupação óbvia na escolha das palavras era o que mais doía. Todos sabiam que ele não era apenas próximo de Kayla, era muito mais, mas não tinham coragem de olhá-lo nos olhos e dizer que ele estava errado, que seria expulso por ter um relacionamento com uma professora, que ela seria demitida. Ninguém tinha coragem porque Kayla não seria demitida. Ela estava morta. Morta. "Para a sua informação, querido professor, o sobrenome da sua colega de trabalho era Baudelaire, não Baudelarie. Duas horas são mais do que suficiente. E eu estou ótimo, porque não estaria?" Um riso irônico, quase um grunhido, saiu de seus lábios. É claro que não estava bem. A mulher da sua vida havia morrido. Seu melhor amigo, o único amigo, havia desaparecido. Ele definitivamente não estava bem.
Sentou-se na escrivaninha no chalé de Atena, quer dizer, um deles, com o caderno na mão. As mãos estavam trêmulas, mais do que o habitual, afinal, o corpo era movido à base de cafeína e antidepressivos desde uma semana e alguns dias antes, quando a enfermeira decidiu que talvez remédios trouxas pudessem ajudá-lo e entregou o pote de comprimidos escondida para ele. Na verdade, não seria tão fácil assim escrever. Haviam palavras demais e todas elas envolviam dor, perda, futuro juntos, amor e mais amor. Mesmo assim, ele escreveu tudo que vinha à sua cabeça, mesmo sabendo que nunca poderia dizer alguma daquelas palavras na homenagem, porque ela veria as palavras no papel, ela saberia, era ela quem importava.
Eu a amava. Ela era especial, sabem? Há poucas pessoas que podemos dizer que são especiais e ela era. Entre milhares, bilhares de pessoas, ela era especial, era a mais especial para mim. Entre bilhares de pessoas, vejam só, Kayla Baudelaire tinha algo que prendia quem a conhecia bem. Não só prendia, mas obrigava a amar. Fui obrigado a amar a pessoa mais fria, mal humorada e odiada desse lugar. E eu amei amá-la, porque eu sou tão frio, mal humorado e odiado quanto ela. Ou achava que era, porque, convenhamos, meus caros, quem ama não pode ser frio. E eu amava. Eu amo. Sempre amarei aquela filha da mãe mal educada e obcecada pela perfeição. Amo, amo, amo, amo, sem pensar nas consequências, sem pensar nos apesares, sem pensar na dor, sem pensar na retribuição, isso é amor verdadeiro, se querer saber, amar sem pensar em nada além disso, de amar. Nem a morte pode tirar isso de quem realmente ama. Ela se foi, gente, mas eu ainda a amo. Ela se foi, gente, mas eu estou escrevendo isso para que ela possa saber que eu a amo. Ela se foi, meus caros, e eu não consigo parar de me culpar. Ela se foi e eu não estava lá para apertá-la contra mim e me negar a deixá-la ir. Eu não estava lá. Eu não pude dizer que a amava. Eu não tive um último momento, cheio de dor e sofrimento, mas um último momento. Eu não pude, principalmente, me vingar de quem levou a Kayla. Eu não pude, eu não posso. Agora eu estou aqui, parecendo um idiota, implorando pela morte, implorando para vê-la novamente, mesmo que isso exija que eu vá. Porque já fui. Porque ela me levou, porque eu amo Kayla Baudelaire, sem pensar na dor, sem me importar com o buraco no meu peito. E eu sei que ela me amava também. Isso é o que mais dói.
Amassou o papel, já manchado pelo contato da tinta com as lágrimas teimosas, que não conseguia impedir de cair. John rastejou até sua cama, cobrindo-se completamente com as cobertas, e fechou os olhos. Ele precisava sonhar. Precisava vê-la. E ele sonhou. E ela estava lá. E ele não disse que a amava, porque ela estava ocupada sendo atacada e ele estava ocupado tentando sair da caixa invisível que o impedia de fazer alguma coisa. E Aaron estava lá. Aaron estava morto. Kayla estava agonizando. Sonhar não era uma opção. John não podia sonhar, mas sonhou, e doeu, e piorou ainda mais, e o matou um pouco mais. Mas ele acordou, irritado com as palavras do mesmo professor de antes, porque estava na hora, porque ele precisava ir fazer seu discurso, mas o discurso não estava pronto, mas ele não estava pronto. Ele não queria se despedir. Ele não queria homenageá-la junto de pessoas que não se importavam. O Fantasma não queria dizer adeus à sua Christine.