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Desolation comes upon the sky
Olhou por sobre o ombro ao ouvir o som de passos conhecidos, sorrindo para o pai. “Obrigado por ter vindo tão rápido.” Agradeceu deixando as plantas que podava de lado, retirando as luvas grossas. Fitou o homem mais que a cada dia parecia envelhecer mais rápido e estar mais cansado. Desviou os olhos, engolindo em seco. Seu pai não teria a mesma escolha que ele, e de repente o que tinha a pedir parecia muito egoísta de sua parte. No entanto, Viktor não parecia diferente do seu humor normal, apenas batendo de leve no ombro do filho como forma de cumprimento. “As ordens, garoto. Demorou mais do que eu esperava pra chamar. Sabe, tempo é algo precioso ultimamente.” Havia algo oculto no tom do homem e Kristof suspirou, assentindo.
O jardim era seu refúgio desde que mudara para aquela casa, quase impenetrável pelos densos arbustos. Duvidava que alguém os veria ou ouviria ali fora, até porque não haviam porque suspeitar de uma simples conversa entre pai e filho. “Eu decidi tomar conta da...Do presente que me deu.” Por fim disse, ganhando um arquear de sobrancelhas do pai como resposta, assim como um gesto para que elaborasse. “Você já deve imaginar que só tem um modo de conseguir fazer isso, ou pelo menos de tentar. Eu tenho vendido partes da minha coleção e juntado o necessário, mas sem o...Recibo do presente, não poderia sair daqui com ele, entende?” Era estranho falar de Ariel assim, como se fosse só uma mercadoria. Mas por mais seguro que se sentisse naquele lugar, sabia que precaução nunca era demais e mencionar o nome da garota poderia ser perigoso.
“Então acho que eu deveria te dar os parabéns, hum? Já era hora.” Viktor lhe deu um sorriso que era metade brincalhão e metade amargurado, como se os sentimentos dele estivessem se contradizendo. “Sempre achei que seu presente de casamento seria uma bela casa, mas ai você se tornou arquiteto e pareceu algo inútil. Pelo menos agora sei justamente do que precisa.” Havia um a sombrio no rosto do alemão ao dizer isso e o Konig mais novo sentiu um aperto no coração. Estava pedindo ao pai para ajuda-lo a deixar o país. Deixar sua casa e ele para trás. Será que o veria de novo após o fim da guerra? Aquela sensação ruim na boca do estômago dizia que não. Agarrou o braço do pai. “Você pode vir também! Se formos bem rápidos, podemos chegar a fronteira em dois dias e depois disso será tarde demais...” Viktor lançou um olhar duro a ele, o fazendo se calar de pronto. “E então o que? Você foi tragado pela guerra, garoto, mas eu escolhi essa vida. Se soubesse que terminaria teria feito diferente? Talvez. Mas agora é tarde demais, já tenho culpa e responsabilidade demais para simplesmente abandonar o barco.”
Kristof voltou a engolir, dessa vez as lágrimas que teimavam em lhe vir aos olhos. “Menininha” era disso que os soldados o chamavam quando achavam que ele não estava ouvindo, simplesmente porque ele nunca fora bom em esconder o que sentia. Naquele momento desejou ser, assim não teria que ver os olhos do pai adotarem um tom semelhante aos seus quando o homem o abraçou. “Escute, Kristof. Um homem deve sempre lutar por seu país, mas antes de tudo, ele deve lutar por sua família. E você é tudo o que restou da minha, então eu vou lutar por você também.” Viktor se afastou, o encarando com uma expressão grave. “Um homem também deve ter honra, e é por isso que trouxe aquela garota aqui e te peço que cuide dela. Certa vez um médico fez muito pelo seu irmão e agora é minha vez de retribuir, fazendo o mesmo pela filha dele. Confio em você para isso.”
O loiro ainda se esforçava para se manter firme e quase deixou aquela fala passar em branco, mas logo ergueu a cabeça para fitar o pai com descrença. Ele havia achado Ariel familiar e até mesmo cogitara a chance, porém pensara estar imaginando coisas, mas agora o pai simplesmente confirmara sua hipótese e ele se sentia um tanto chocado. “Você lembra, não é? Pois então, me deixe orgulhoso.” Viktor passou a mão pelos olhos antes de pegar um cigarro no bolso do uniforme e o acender. Kristof apenas pôde assentir. “Trarei o que precisa em uma semana. Esteja preparado, porque depois disso só terá algumas horas.”
Um silêncio pesado caiu sobre os dois, cortado apenas pelo vento frio que batia com força nas folhas dos arbustos as derrubando. “Pai...Eu preciso te pedir mais alguma coisa.” Recordou-se, aproximando-se do pai para cochichar um nome. Viktor lhe deu um olhar indagador, obviamente estranhando o pedido. “As crianças de hoje em dia estão cada vez mais exigentes...Mas tanto faz.” O mais velho suspirou antes de dar uma longa tragada no cigarro. “Mas tenha em mente, Kristof, você deve perguntar algo se realmente quer ouvir a resposta.” Kris apertou os dentes, acenando com a cabeça. Entendia bem o que o pai queria dizer. As chances do nome do noivo de Ariel estar numa das listas de mortos era muito maior do que o contrário, e ele não estava certo de que a mulher estava pronta para ouvir isso. “Eu sei, mas é preciso fazer isso, é uma promessa.”
{flashback, after the christmas ball}
Kayla foi a primeira a acordar. Sorriu ao olhar para o lado e ver o rosto sereno de John, perdido em meio as mechas negras de seu cabelo. Levantou-se, quase caindo ao tropeçar na barra da calça que usava. Riu baixinho, olhando melhor o que vestia. Estava tão cansada antes de dormir que nem olhara direito as roupas que John havia lhe dado, apenas as colocara. Estava com um suéter vermelho que chegava quase até o joelho e as mangas cobriam suas mãos por inteiro. As barras da calça de moletom cinza se arrastavam pelo chão, criando uma visão divertida. Olhou em volta, percebendo o quanto aquele quarto já lhe era familiar, mesmo sendo apenas a segunda vez que ia ali.
Caminhou até a escrivaninha, observando os papeis que haviam ali. A maoria eram anotações sobre aulas e matérias. Havia uma foto de Sarah em um canto, o que fez Kayla sorrir. A relação dos dois era linda. Baixou o olhar e uma coisa no chão lhe chamou a atenção. Uma bolinha de papel. Pegou-a, desamassando-a. A caligrafia era de John, mas estava diferente. Menos redonda, difícil de entender. Um texto escrito em um momento não muito oportuno, provavelmente. Em alguns pontos, a tinta se espalhara e Kayla ficou surpresa ao deduzir que deviam ser lágrimas que caíram enquanto o menino escrevia. Começou a ler. "Eu a amava." Seus olhos marejaram nesse exato momento. Estava ali, lendo o elogio fúnebre que John fizera para ela.