Vía @frente_judaico_popular La coñección ... La escopeta nacional (1978)
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Actorazos y peliculón!!!❤️😂😂😂
El verdugo (1963), dirigida por Luis García Berlanga
DoP: Tonino Delli Colli
Los espejos cóncavos
Hace pocos días volví a ver Plácido, esta vez en el Cine Doré, la sala de proyecciones de la Filmoteca Española. La película, dirigida en 1961 por Luis García Berlanga y con guion de Rafael Azcona, es una comedia negra que satiriza la hipocresía de la burguesía bajo el lema navideño: «Siente a un pobre a su mesa». La narración tiene lugar durante la Nochebuena y aborda la caridad como un espectáculo público, mientras los pobres son reducidos a objetos para que los ricos refuercen su estatus moral.
Siempre me han atraído las historias que se desarrollan en un solo día, y Plácido es un ejemplo brillante. Al recordarla, me vienen a la mente otras películas, como Brigadoon (1954, dirigida por Vincente Minnelli) o After Hours (1985, dirigida por Martin Scorsese). Aunque pertenecen a géneros muy distintos, ambas logran capturar, al igual que Berlanga, la intensidad narrativa que puede alcanzarse al comprimir el relato en un marco temporal limitado.
Alguna vez he leído que la crítica incisiva y la deformación grotesca de la realidad en la cinematografía de Berlanga conectan con el esperpento desarrollado por Valle-Inclán. Estoy pensando en Luces de Bohemia, donde también se representan las contradicciones sociales a través del humor negro y la sátira. Esta obra de teatro transcurre, además, durante un único (y último) día de la vida de Max Estrella, en un Madrid sórdido y decadente.
Plácido ofrece una aguda reflexión social y mantiene una vigencia sorprendente. Esto demuestra el genio de Berlanga para retratar las paradojas y los absurdos de la sociedad española, una habilidad que lo sitúa entre los que mejor nos conocen, como también ocurría con Valle-Inclán.
Cartel de Plácido.
Berlanga, L. G. (Director). (1963). El verdugo [Film]. Spain.
Canelo vs Berlanga FIGHT HIGHLIGHTS: September 14, 2024 | PBC PPV on Prime Video
Premier Boxing Champions
Edgar Berlanga Targets Chris Eubank Jr. After Loss
He also does not need this fight. Berlanga was stopped in five rounds by Hamzah Sheeraz. There is not much upside in beating someone coming off that kind of loss, and losing to him would be hard to justify. Berlanga, 28, dropped a wide decision to Canelo Alvarez in September 2024, then returned in March 2025 with a first-round knockout of 35-year-old Jonathan Gonzalez-Ortiz. That was a manageable…
O Orvalho de Quinta-Feira
Capítulo I: O Tédio sob a Estátua
O sol de maio em Alfândega da Fé não iluminava; pesava. Era um sol de chumbo que parecia querer achatar as casas de granito contra a terra seca de Trás-os-Montes, como se Deus estivesse a tentar carimbar a vila no esquecimento definitivo. Na Praça do Município, o busto de mármore de uma figura ilustre já sem nome — cujo nariz servia de poiso a uma sucessão intergeracional de pombas — observava com indiferença o deserto de empedrado.
O Dr. Fontoura, Presidente da Câmara, olhava pela janela do seu gabinete com a melancolia de um capitão de um navio encalhado num mar de azeite. O Dr. Fontoura era um homem de colarinho engomado e ambições de seda. O seu maior drama não era a pobreza da região, mas a sua invisibilidade. Em 1957, Portugal dividia-se entre os que iam a Fátima pedir milagres e os que iam a Lisboa pedir favores. Alfândega, a meio caminho de nenhures, não recebia nem santos nem ministros.
— Ouça isto, ó Melo — disse Fontoura, sem se virar.
O fiel Melo, secretário de redação, amanuense por destino e sofredor por vocação, levantou os olhos de um processo sobre o licenciamento de um galinheiro.
— Diga, Senhor Doutor Presidente.
— “Sua Eminência, o Cardeal Cerejeira, abençoou ontem as multidões no Santuário de Fátima. Estima-se em trezentas mil as almas que ali deixaram o seu fervor e, certamente, os seus escudos.” — Fontoura largou o Diário de Notícias com um gesto teatral. — Trezentas mil, Melo! Se cada alma deixasse dez tostões, comprávamos o distrito de Bragança e ainda sobrava para pavimentar a estrada até à Vilariça!
— Fátima tem a exclusividade da Senhora, Senhor Doutor. É difícil competir com o Céu quando se tem o monopólio — suspirou o Melo.
— Não é exclusividade, é marketing! — rosnou Fontoura, usando uma palavra que tinha lido numa revista estrangeira e que soava a pecado mortal em 1957. — O que é que nós temos aqui? Amêndoas? O azeite está pelas ruas da amargura. O gado está magro que nem a moral do boticário. Os jovens fogem para a França como se isto fosse a peste negra. Se não trouxermos cá as massas, Alfândega morre de inanição cívica!
Fontoura começou a passear pelo gabinete, as mãos atrás das costas, as solas dos sapatos a ranger no soalho de madeira encerada. O gabinete cheirava a papel velho, fumo de tabaco Três Vintes e ao mofo institucional que caracterizava as repartições do Estado Novo. Nas paredes, o retrato de Oliveira Salazar olhava para o vazio com aquela severidade austera de quem não aprova grandes entusiasmos, muito menos milagres fora do orçamento.
— O problema, Melo, é que nesta terra até os santos são preguiçosos. São Bernardino não faz nada há três séculos. Santa Bárbara só se lembra de nós quando troveja para nos queimar as vinhas. Precisamos de um facto! Um acontecimento que obrigue o Secretariado Nacional de Informação a mandar cá uma equipa de filmagem!
Melo limpou os óculos à ponta da gravata.
— O Senhor Doutor está a sugerir que… fabriquemos uma feira nova?
— Uma feira? Quem é que quer feiras? O país está cheio de feiras de gado. O que o povo quer, Melo, é o Transcendente. O que o povo quer é o arrepio na espinha e a lágrima no olho! O povo quer ver o que não existe para suportar o que existe todos os dias!
Fontoura parou diante de um mapa de Portugal pregado na parede. Alfândega da Fé era um ponto minúsculo, quase um erro de impressão.
— Olhe para isto. Estamos no deserto. Mas o deserto é o lugar ideal para as revelações. Se o Salazar diz que "Tudo pela Nação", eu digo "Tudo pela Vila". Se o Céu não nos manda um sinal por iniciativa própria, nós abrimos-lhe a porta à força.
Nesse momento, a porta do gabinete abriu-se e entrou o Padre Teotónio. Era um homem robusto, de bochechas que denunciavam uma relação íntima e clandestina com o presunto e o vinho do Porto, e cujo hábito preto parecia sempre um número abaixo do necessário. Vinha queixar-se, como era seu hábito às terças-feiras, da infiltração no teto da sacristia.
— Senhor Doutor, a água já não pinga, já corre! Se não intervimos, a imagem de Santo Antão vai precisar de um bote salva-vidas! — exclamou o Prior, atirando o chapéu de feltro para cima da secretária do Melo.
Fontoura iluminou-se. O triângulo estava completo. O Poder Político, a Burocracia e a Igreja.
— Senhor Prior, esqueça a goteira — disse Fontoura, aproximando-se com um sorriso que faria um vendedor de seguros recuar. — Tenho uma proposta que vai dar ao senhor não apenas um teto novo, mas uma catedral se for preciso.
— O que é que o senhor doutor está a congeminar? — perguntou o Padre Teotónio, desconfiado. — Da última vez que me sorriu assim, tive de benzer um trator que explodiu cinco minutos depois.
— Senhor Prior, sente-se. Vamos falar de negócios. Ou melhor… vamos falar de Providência. Diga-me uma coisa: o que é que falta a Alfândega para ser a nova Jerusalém transmontana?
— Falta-nos juízo — respondeu o Prior.
— Falta-nos uma Quinta-Feira, senhor Prior! Uma Quinta-Feira de Milagres! — proclamou Fontoura, batendo com a mão na mesa, fazendo saltar o tinteiro e o busto de Salazar estremecer.
O silêncio que se seguiu foi interrompido apenas pelo som de uma mosca que batia desesperadamente contra o vidro da janela, tentando fugir daquela sala onde o destino de Alfândega da Fé começava a ser cozinhado num caldeirão de vaidade, desespero e má-fé. Era 1957, e o primeiro milagre — o de convencer um padre e um secretário de que a mentira era a única verdade possível para a sobrevivência — acabava de acontecer.
Capítulo II: O Casting do Eremita
A conspiração de Alfândega da Fé necessitava, acima de tudo, de um rosto. Como explicava o Dr. Fontoura ao Padre Teotónio e ao Melo, enquanto se barricavam na penumbra da sacristia — o único lugar onde as paredes, embora húmidas, não tinham ouvidos ao serviço da PIDE — um milagre sem um vidente é como um despacho ministerial sem carimbo: não tem validade pública.
— Precisamos de alguém que inspire piedade, mas não tanto que provoque nojo. Alguém que pareça tocado pela mão de Deus, mas que seja suficientemente lesto para fugir se a Guarda aparecer com perguntas difíceis — ditava Fontoura, limpando o suor da testa com um lenço de seda bordado com as suas iniciais.
O casting para "Visionário Oficial da Vila" começou sob o disfarce de um recenseamento para a caridade paroquial. Durante três dias, os três conspiradores observaram a fauna humana que gravitava em torno da igreja e das tabernas, procurando a mistura exata de ascese e submissão.
O primeiro candidato foi o "Ti’ Joaquim das Pulgas", um homem que vivia de abrir valas e que tinha a particularidade de falar sozinho em latim macarrónico. Fontoura rejeitou-o de imediato.
— O homem é comunista, Melo! Ouviu-o a falar de "partilhar o pão"? Em 1957, quem fala em partilhar pão sem ser o Padre na missa ou é esmoler ou é do partido. Não podemos correr riscos.
Depois veio o "Aniceto do Chocalho", um pobre diabo que sofria de um tique nervoso que o fazia revirar os olhos a cada cinco minutos. O Padre Teotónio abanou a cabeça:
— Parece que está a ter um ataque de epilepsia, não um êxtase. O povo quer santidade, não quer chamar a ambulância. O vidente tem de ter um olhar perdido no infinito, não um olhar que parece estar a tentar ler as horas no próprio cérebro.
Foi então que o Regedor, o senhor Artur, um homem que cheirava a couro curtido e autoridade de aldeia, trouxe a solução debaixo do braço, ou melhor, arrastada pelo braço. Chamava-se Ti’ Zé das Barbas, também conhecido na região como o "Eremita de Bornes".
O Ti’ Zé era uma criatura que parecia ter sido esculpida num tronco de oliveira centenária. Tinha uma barba que começava abaixo dos olhos e terminava algures na cintura, entrelaçada com restos de palha e, possivelmente, segredos de estado. Os seus olhos eram de um azul desbotado, como um céu de agosto que já viu demasiadas secas. Vivia numa gruta na Serra de Bornes, onde diziam que se alimentava de raízes e da caridade de pastores que o temiam como se ele fosse um lobo que aprendeu a rezar.
— Aqui está o vosso santo — anunciou o Regedor, empurrando o velho para o centro da sacristia. O cheiro que emanava do Ti’ Zé era uma mistura complexa de queijo de cabra guardado há demasiado tempo, urze queimada e o suor honesto de quem não vê sabão desde a inauguração da Ponte de Santa Clara.
Fontoura deu dois passos atrás, protegendo o nariz com o lenço.
— Meu Deus, senhor Prior… isto é… isto é demasiado realismo. O homem não é um vidente, é um monumento geológico.
— É perfeito, Senhor Doutor — contrapôs o Melo, entusiasmado pela primeira vez. — Se o lavarmos um bocado e lhe dermos um cajado, parece saído diretamente do Antigo Testamento. E o melhor de tudo: ele não fala.
O Padre Teotónio aproximou-se do velho, fazendo o sinal da cruz por precaução.
— Ó homem, tu sabes quem é a Senhora?
O Ti’ Zé olhou para o Padre, depois para o Dr. Fontoura, e finalmente para um prato de bolachas que repousava sobre a mesa. A sua voz, quando saiu, parecia o som de cascalho a ser triturado por uma roda de carroça:
— Se a Senhora trouxer chouriço, eu conheço-a.
Fontoura sorriu. Tinha encontrado o seu homem. A ganância e a fome eram, afinal, as fundações mais sólidas para qualquer construção espiritual.
A negociação foi rápida, conduzida com a eficiência burocrática da época. O contrato, verbal e selado com um cálice de vinho do Porto que o velho bebeu de um trago, consistia no seguinte: o Ti’ Zé receberia três refeições quentes por dia, um par de botas novas (que ele insistiu que fossem de couro de vitela) e a garantia de que o Regedor não o voltaria a multar por "vadiagem e mendicidade agravada". Em troca, ele teria de estar todas as quintas-feiras, às dezoito horas, no "Lugar das Almas", um declive rochoso onde a luz do sol batia de forma dramática antes de desaparecer atrás dos montes.
— O que é que eu tenho de fazer? — perguntou o Ti’ Zé, limpando a barba à manga do casaco de burel.
— Nada — explicou Fontoura, com a paciência de quem ensina um recrutas. — O Zé só tem de se ajoelhar, olhar para o topo daquela azinheira velha e mexer os lábios como se estivesse a comer uma sopa invisível. Não pode rir, não pode coçar-se e, pelo amor de Deus, não pode pedir tabaco a ninguém enquanto houver gente a olhar.
— E se a Senhora não aparecer? — inquiriu o velho, com uma ponta de astúcia camponesa.
O Padre Teotónio interveio, com a sua voz de barítono dominical:
— A Senhora, meu filho, é uma questão de perspetiva. Tu olhas, nós iluminamos, e o povo acredita. O resto é com o Espírito Santo e com o plano de promoção turística do Senhor Doutor.
Nos dias seguintes, Alfândega da Fé assistiu a uma transformação bizarra. O Ti’ Zé foi levado para o anexo da Câmara, onde o Melo, munido de uma escova de arame e sabão azul-e-branco, procedeu à "desinfeção do profeta". Foi uma tarefa hercúlea. Diz-se que a água que saiu do banho do Ti’ Zé era tão escura que poderia ter sido usada para retocar o asfalto da estrada nacional.
Entretanto, o Dr. Fontoura começou a espalhar os "rumores oficiais". No café, na barbearia e na farmácia, comentava-se em voz baixa que o eremita de Bornes tinha tido uma premonição. "Diz que viu um clarão", sussurrava o barbeiro enquanto afiava a navalha. "Diz que as pedras da serra começaram a cheirar a rosas de Alexandria", dizia a farmacêutica.
O regime de 1957, com a sua censura férrea e o seu amor pela ordem, via com bons olhos estas manifestações, desde que não cheirassem a revolta. O Governador Civil de Bragança, já informado por Fontoura numa carta cheia de salamaleques e lealdade ao "Chefe", dera o seu aval tácito: "Se isso mantiver o povo ocupado e longe das ideias de Lisboa, que venham os milagres".
O Capítulo II encerrava-se com o Ti’ Zé, agora vestido com uma túnica de linho cru que o Padre Teotónio tinha mandado adaptar de uma sobrepeliz velha, sentado no escuro do seu novo alojamento, a ensaiar o olhar de transe. Olhava para uma mancha de humidade na parede e murmurava: "Chouriço… botas de vitela… chouriço…".
Fora, nas ruas de Alfândega, o vento de maio soprava com uma nova expectativa. O palco estava montado. O ator estava pago. Só faltava convencer o Céu a fornecer a eletricidade, ou, na falta dela, esperar que a geringonça de espelhos do Regedor não incendiasse a azinheira antes do primeiro "Avé".
Capítulo III: A Engenharia do Sobrenatural
Se o Ti’ Zé das Barbas era a face do milagre, o Sr. Artur, o Regedor, era o seu motor de combustão interna. Antigo sargento de transmissões, o Regedor Artur acreditava que a fé era uma frequência de rádio que precisava apenas de uma boa antena e de menos interferência atmosférica. No seu entender, se o Regime Salazarista conseguia convencer o povo de que Portugal ia do "Minho a Timor" através de mapas e propaganda, ele conseguiria convencer Alfândega da Fé de que o Céu descia à terra às quintas-feiras com um par de espelhos e um pouco de fumo.
— A ótica, Senhor Doutor, é uma ciência exata. Deus criou a luz, mas eu dou-lhe a direção — declarou o Regedor, enquanto espalhava sobre a mesa da sacristia um esquema desenhado a lápis químico que parecia o plano de invasão de uma praça-forte.
O problema logístico era delicado. O "Lugar das Almas", o local escolhido para a aparição, era um anfiteatro natural de rocha e azinheiras, perfeito para a visibilidade, mas terrível para a discrição. Em 1957, qualquer luz invulgar na província atraía a atenção imediata da Legião Portuguesa ou, pior, da PIDE, que via em cada clarão noturno um sinal de desembarque de agentes soviéticos ou um código de contrabando de volfrâmio.
Para evitar suspeitas, o Dr. Fontoura autorizou uma "Obrigação de Limpeza das Linhas Elétricas", uma manobra administrativa que permitiu ao Regedor e a dois operários da Câmara — homens de confiança e de poucas letras — montar postes e fios de cobre sob o pretexto de reforçar a iluminação pública para as festas da vila. Na verdade, os fios não levavam apenas eletricidade; levavam a alma da farsa.
— O segredo está no refletor — explicava o Regedor ao Melo, que o ajudava a carregar caixotes de madeira com o carimbo do "Ministério das Obras Públicas". — Conseguimos dois faróis de um camião Chevrolet que capotou na descida de Bornes. Estão ligados a uma bateria de camião escondida dentro de um sarcófago de pedra, que o Senhor Prior gentilmente cedeu.
O Padre Teotónio fez um sinal da cruz apressado.
— Era um cenotáfio vazio, Artur! Não misturemos os mortos com as vossas baterias. Mas que a luz seja branca, por favor. Nada de efeitos amarelados, que a Senhora não tem icterícia.
O plano de iluminação era uma obra-prima do desenrascar lusitano. O Regedor instalou um sistema de espelhos de barbearia — recolhidos em todas as casas da vila sob o pretexto de um "rastreio visual preventivo" — estrategicamente posicionados nos ramos das azinheiras. O objetivo era captar os últimos raios do sol de maio e canalizá-los para um ponto central onde o Ti’ Zé estaria ajoelhado. Se o sol falhasse, entravam em cena os faróis do Chevrolet, filtrados por um pano de seda azul furtado do enxoval da mulher do Presidente.
Mas faltava o "mistério". Uma luz seca e direta era apenas teatro; era preciso o éter, a atmosfera, o cheiro do Além.
— Precisamos de fumo, mas não de fumo de queimada — decretou Fontoura, que lia agora manuais de dramaturgia escondidos por trás das capas do Diário do Governo. — O fumo tem de ser branco, denso e ter um aroma que faça as velhas sentirem que estão às portas de São Pedro.
O Melo, cujas mãos estavam permanentemente manchadas de tinta de escrever e agora de graxa de motor, propôs a solução química:
— Se misturarmos enxofre das vinhas com açúcar e um pouco de incenso barato que o Senhor Prior tem na despensa, e queimarmos tudo num braseiro escondido sob o musgo, criamos uma neblina que até os anjos se perdem nela.
Enquanto a "geringonça" era montada, a atmosfera em Alfândega da Fé tornava-se irrespirável de tanta expetativa. A presença de estranhos começou a notar-se. Dois homens de gabardine escura e chapéu de aba caída, cujos rostos tinham a expressividade de uma parede de betão, instalaram-se na Pensão Rocha. Eram agentes da PIDE, enviados de Bragança para investigar o "fenómeno místico-político".
Fontoura, ao saber da presença dos agentes, entrou em pânico. Correu para a oficina improvisada do Regedor.
— Artur! Estamos perdidos! A PIDE está aí. Se eles descobrem os faróis do camião e as baterias, somos todos acusados de alta traição e propaganda subversiva. O Salazar não admite concorrência no departamento dos milagres!
O Regedor Artur, sem largar o alicate com que apertava um cabo de aço, olhou para o Presidente com um desdém militar.
— Senhor Doutor, a PIDE é como os cães de caça: se cheiram medo, mordem. Se cheiram autoridade, abanam a cauda. Amanhã, o senhor convida-os para um almoço de vitela assada e diz-lhes que o "milagre" é uma operação psicológica para detetar dissidentes que se infiltram nas romarias. Eles vão adorar. Até nos ajudam a carregar as baterias se for preciso.
A ironia atingia o seu zénite. Para salvar a mentira, Fontoura teria de usar a maior mentira de todas: a de que a farsa era um serviço ao Estado.
Na noite de quarta-feira, véspera da primeira "aparição", fizeram o ensaio geral. O Ti’ Zé das Barbas foi conduzido ao local sob um manto de silêncio. Estava lavado, penteado com raiva pelo Melo e cheirava vagamente a lixívia e alfazema.
— Quando eu der o sinal com o apito — instruiu o Regedor —, o Melo puxa a corda do espelho principal, e o Ti’ Zé olha para cima como se tivesse visto um aumento de ordenado no céu.
O sinal foi dado. O espelho rodou, captando a luz da lua (que servia de teste para o sol). Um feixe pálido e trémulo incidiu sobre a barba branca do velho. O efeito era, mesmo para os conspiradores, assombroso. Na penumbra de Alfândega da Fé, rodeados pelo silêncio das serras, o Ti’ Zé não parecia um bêbado pago com chouriço; parecia um profeta milenar a receber as tábuas da lei.
— Funciona… — sussurrou o Padre Teotónio, fazendo involuntariamente o sinal da cruz. — Meu Deus, perdoai-me, mas até eu estou quase a acreditar.
— Não é Deus, Senhor Prior — corrigiu Fontoura, com um brilho de triunfo nos olhos — é a eletricidade da autarquia e o génio transmontano. Amanhã, Alfândega da Fé deixa de estar no mapa para passar a estar na História.
O capítulo terminava com os três homens a olharem para o vidente iluminado, enquanto, ao longe, o uivo de um lobo na Serra de Bornes parecia rir-se da audácia daqueles mortais que, em pleno 1957, tentavam domesticar o sagrado com faróis de um camião acidentado. O palco estava pronto. O país, mergulhado no sono do Estado Novo, não perdia por esperar a Quinta-Feira que mudaria o destino da amêndoa e da fé.
Capítulo IV: A Invasão das Camionetas
A manhã daquela quinta-feira de maio em Alfândega da Fé não nasceu com o habitual cantar dos galos; nasceu com o ronco asmático dos motores a diesel. Desde as cinco da manhã, as estradas de macadame que ligavam a vila a Bragança, Mogadouro e Vila Flor transformaram-se em artérias de uma febre súbita. Eram as camionetas da "União", da "Rodoviária" e até camiões de gado adaptados com taipais de madeira e bancos de cortiça, que despejavam sobre o empedrado da praça uma multidão que parecia saída de uma gravura medieval, se não fossem os chapéus de feltro e os lenços pretos rigorosamente engomados.
O Dr. Fontoura, escondido atrás das cortinas de veludo do seu gabinete, observava o espetáculo com uma mistura de orgulho napoleónico e terror absoluto.
— Melo, olhe para aquilo — sussurrou, apontando para a praça onde já não se via o chão. — São milhares. Já contaste quantos autocarros?
— Perdi a conta aos trinta, Senhor Doutor Presidente — respondeu o Melo, que ostentava olheiras de quem passara a noite a polir os refletores do Regedor. — E chegaram três táxis de luxo do Porto. Dizem que vem lá um industrial do têxtil que perdeu a voz e quer ver se a recupera com o nosso Ti’ Zé.
A vila tinha sido tomada por um ecossistema de sobrevivência. Mal o boato da "aparição" se consolidara, surgiram as infraestruturas do sagrado. Vendedoras de Vila Real montavam bancas de cavacas e amêndoas cobertas (vendidas agora como "Amêndoas do Vidente"), enquanto cegos e aleijados de todo o distrito se posicionavam estrategicamente ao longo da subida para o Lugar das Almas, entoando litanias que misturavam o "Avé Maria" com pedidos diretos de esmola.
O comércio local, habitualmente moribundo, vivia o seu momento de glória. O Comendador Rocha, dono da única pensão, tinha subido o preço do quarto para o triplo e, perante as reclamações, respondia com a fleuma de um profeta: "No céu não há inflação, mas aqui a cama paga-se pela proximidade da santidade". Até o boticário esgotara o stock de sais de fruto e aspirinas para tratar as síncopes das beatas que, sob o sol de Trás-os-Montes, começavam a ver sinais divinos em qualquer nuvem com formato de ovelha.
No entanto, o centro nevrálgico da tensão era a Taberna do Zaqueu, onde os dois agentes da PIDE, o Inspetor Fragoso e o Agente Mota, tomavam o pequeno-almoço: um cálice de aguardente e um silêncio ameaçador.
— Mota, olha-me para estas gentes — disse Fragoso, ajustando o nó da gravata escura. — Estão à espera de um milagre. Sabes o que é um milagre para esta gente? É a desculpa para se juntarem mais de cinco pessoas sem autorização oficial. Isto cheira-me a agitação de Moscovo disfarçada de sacristia.
— O Presidente diz que é para o bem da vila, senhor Inspetor — arriscou o Agente Mota.
— O Presidente é um romântico, Mota. E os românticos são os primeiros a dar cabo da Ordem Pública. Se este vidente disser que a "Senhora" quer que o povo tenha mais pão e menos impostos, prendemos o vidente, o Presidente e a azinheira, ouviu bem?
Enquanto isso, na sacristia, o Padre Teotónio vivia o seu próprio calvário burocrático. O Bispo de Bragança enviara um emissário, o Cónego Vilarinho, um homem seco como um bacalhau de cura amarela, para investigar a ortodoxia do fenómeno.
— Teotónio, meu caro — dizia o Cónego, enquanto examinava com um monóculo as unhas do Ti’ Zé das Barbas (que o Melo tentara, sem sucesso, limpar). — A Igreja não gosta de milagres à quinta-feira. É um dia útil. Dá a ideia de que o Céu está a fazer horas extraordinárias. E este vidente… tem um ar… como direi… pouco espiritual.
— É a ascese, Senhor Cónego! — mentiu o Padre Teotónio, suando em bica. — O homem vive numa gruta. Alimenta-se de orações e, ocasionalmente, de uma raiz de urze. O cheiro que emana dele não é sujidade, é o aroma do pecado do mundo que ele carrega nos ombros!
O Ti’ Zé, sentado num banco de pau-preto, olhou para o Cónego e, num momento de brilho satírico, soltou um arroto que ecoou pelas naves da igreja. O Melo interveio rapidamente:
— É o som do espírito a libertar-se da matéria, Senhor Cónego! Um fenómeno raro, descrito por Santa Teresa!
O clímax da manhã deu-se com a chegada da "Guarda". Não para prender ninguém, mas para tentar organizar o caos de carroças e automóveis que bloqueavam a entrada de Alfândega. O Sargento da GNR, a cavalo, tentava abrir caminho para o carro do Governador Civil, um Citroën preto que avançava como um tubarão num aquário de sardinhas.
Fontoura, ao ver o Governador, desceu as escadas da Câmara a correr. Sabia que se convencesse o representante do Estado, a farsa estaria protegida pelo manto da utilidade pública.
— Senhor Governador! Que honra! Alfândega da Fé saúda a presença do Governo neste momento de… digamos… exaltação patriótica e espiritual! — exclamou Fontoura, curvando-se tanto que quase beijou o guarda-lamas do carro.
O Governador, um homem de bigode fino e olhar de quem já viu todas as vigarices do mundo, saiu do carro devagar. Olhou para a multidão, para os cartazes que diziam "Salvai Alfândega" e para as barracas de farturas que já fumegavam.
— Fontoura — disse o Governador em voz baixa — espero, pelo seu bem, que o milagre seja convincente. O Ministério do Interior não gosta de romarias que não terminam com um hino à pátria. E se este vidente for um charlatão, o senhor vai passar o próximo verão no Forte de Caxias a explicar a estética dos anjos à polícia.
— Senhor Governador — respondeu Fontoura, recuperando a compostura e apontando para o cimo do monte onde o Regedor Artur já posicionava os espelhos — garanto-lhe que hoje, em Alfândega, a luz que vamos ver vai fazer Fátima parecer um candeeiro a petróleo de fraca potência.
À medida que o sol subia para o zénite, o silêncio começou a cair sobre a vila. Não era um silêncio de paz, mas de tensão elétrica. Milhares de pessoas começaram a lenta procissão em direção ao "Lugar das Almas". Levavam velas, levavam pedidos escritos em papel de embrulho, levavam a esperança cega de um país que, em 1957, não tinha mais nada em que acreditar senão no impossível.
No topo do monte, escondido atrás de um arbusto de carrascos, o Regedor Artur ajustava o último parafuso do refletor do Chevrolet. Olhou para o relógio de bolso. Faltavam três horas para a "hora H". O Ti’ Zé das Barbas, agora vestido com a sua túnica de linho e com o estômago forrado por um chouriço clandestino que o Regedor lhe dera, olhava para o horizonte.
— Artur — perguntou o vidente — se a luz me queimar a barba, o Presidente paga outra?
— Zé, se a luz funcionar — respondeu o Regedor — tu vais ter uma barba de ouro e Alfândega da Fé vai ter o que merece. Agora cala-te e começa a praticar o olhar de quem está a ver a eternidade, que o Governador Civil não veio cá para ver um bêbado a coçar os pés.
O Capítulo IV terminava com a imagem aérea (se houvesse helicópteros em Alfândega da Fé) de uma pequena vila transmontana cercada por um mar de gente, sob o olhar atento de espiões, padres e burocratas, todos aguardando que o engenho humano desse um empurrão à vontade divina. O ar estalava. O milagre estava prestes a ser "ligado à corrente".
Capítulo V: O Primeiro Clarão
Eram seis da tarde. O sol de Alfândega da Fé, fiel ao cronograma da Providência e à regulação do Dr. Fontoura, começava a sua descida em direção à linha do horizonte, pintando as cristas da Serra de Bornes com um tom de bronze velho. No "Lugar das Almas", o silêncio era de tal ordem que se ouvia o crepitar das velas de cera que milhares de mãos protegiam do vento. A encosta estava transformada num tapete humano de tons escuros; uma massa de gente que, vista de longe, parecia uma mancha de óleo derramada sobre o granito.
No centro deste anfiteatro natural, sobre uma plataforma de pedra natural que o Regedor Artur tinha "ajustado" com um pouco de dinamite na véspera, estava o Ti’ Zé das Barbas.
O vidente sentia o peso da túnica de linho cru. O Melo, num excesso de zelo estético, tinha-lhe esfregado as bochechas com um pouco de beterraba para lhe dar uma "aura de saúde celestial", o que, aliado à barba branca e desgrenhada, lhe dava o aspeto de um Pai Natal que tinha acabado de sobreviver a um naufrágio. O velho estava imóvel, com o olhar fixo na azinheira centenária, tal como instruído. Mas por dentro, o seu cérebro processava apenas uma contagem decrescente: "Mais uma hora e há sopa de pedra e vinho tinto no fundo do monte. Aguenta, Zé, aguenta".
— Está quase, Senhor Doutor — sussurrou o Regedor Artur, agachado atrás de um silvado, com a mão firmemente agarrada a uma alavanca de madeira ligada aos espelhos.
Ao lado dele, o Dr. Fontoura suava tanto que o seu colarinho já parecia um trapo húmido. O Governador Civil e o Inspetor Fragoso da PIDE estavam a escassos metros, sentados em cadeiras de lona trazidas da Câmara, com expressões que oscilavam entre o ceticismo profissional e a impaciência política.
— Artur — sibilou Fontoura — se o sol não bater no ângulo certo, eu juro que te mando para as obras da barragem de Picote como servente!
— Tenha fé no sargento, Senhor Doutor. A física não falha.
De repente, o sol atingiu a "janela crítica". Foi como se um gatilho invisível fosse puxado no céu. O Regedor Artur acionou a alavanca. O espelho principal, posicionado no topo da azinheira, rodou três graus para a esquerda. Um feixe de luz dourada, concentrado e quase sólido, disparou da copa da árvore e caiu diretamente sobre a cabeça do Ti’ Zé.
O efeito foi devastador. Na penumbra da tarde que caía sobre a encosta, aquele foco de luz parecia uma coluna de fogo descida das alturas. A barba do velho brilhou com uma intensidade elétrica e a sua túnica branca tornou-se subitamente incandescente.
Um "Ahhh..." coletivo, um som que parecia o suspiro de um gigante, percorreu a multidão. Milhares de pessoas caíram de joelhos simultaneamente, um estrondo surdo de corpos contra a terra seca.
— Milagre! É o Milagre! — gritou uma beata na primeira fila, desmaiando logo de seguida nos braços de um soldado da GNR que, por via das dúvidas, também se benzeu.
Nesse momento, o Melo, escondido num fosso camuflado com urze, acendeu o braseiro químico. A mistura de enxofre, açúcar e incenso barato começou a libertar colunas de um fumo branco e denso que se enrolava à volta dos pés do vidente. O cheiro era estranho — algo entre uma sacristia de luxo e um incêndio numa fábrica de rebuçados — mas para a multidão em transe, era o "odor de santidade".
O Ti’ Zé, sentindo o calor do refletor (que o Regedor agora reforçava ligando a bateria do camião Chevrolet para compensar a descida do sol), começou a cumprir a sua parte. Levantou os braços lentamente. Os seus lábios moviam-se numa oração silenciosa — na verdade, ele estava a recitar a lista de compras que o Regedor lhe prometera: "Chouriço de sangue, pão de centeio, garrafão de cinco litros, botas de vitela...".
Para o povo, porém, ele estava a falar com a Mãe de Deus.
— Vejam! — gritou um homem de muletas. — Ele está a receber a mensagem! Ele está a ouvir os anjos!
O Inspetor Fragoso, da PIDE, levantou-se e estreitou os olhos. Tirou um caderno do bolso e começou a anotar.
— Mota — disse para o subordinado — repara na cadência dos movimentos do vidente. Parece código morse. Se ele começar a dar coordenadas geográficas, prendemos o santo e o sol se for preciso.
O Governador Civil, por sua vez, estava impressionado. Virou-se para Fontoura:
— Fontoura, isto é… esteticamente muito aceitável. O SNI vai adorar as fotografias. Se isto se mantiver dentro da ordem e não houver gritos contra o Governo, amanhã Alfândega da Fé é a capital espiritual da província.
Mas a farsa técnica estava no limite. O fumo do Melo estava a ficar demasiado espesso, e o Ti’ Zé começou a tossir. Uma tosse cavernosa, de fumador de tabaco de enrolar, que ameaçava quebrar o feitiço. O Regedor Artur, percebendo o perigo, fez um sinal ao Melo para abanar o fumo com um bocado de cartão.
Foi então que aconteceu o "milagre involuntário". Um grupo de turistas espanhóis, que tinha vindo de Zamora por curiosidade, avançou para a frente, furando o cordão da GNR. Um deles, um homem rico com um casaco de pele de camelo, caiu aos pés do Ti’ Zé e gritou:
— ¡Milagro! ¡He recuperado la vista! ¡Veo la luz!
A verdade é que o homem tinha passado a tarde a beber vinho verde na Taberna do Zaqueu e a luz concentrada do refletor do Chevrolet apenas lhe tinha dissipado a névoa alcoólica da retina, mas para o povo, o veredicto estava dado. O vidente de Alfândega tinha curado um espanhol!
O delírio instalou-se. As pessoas começaram a atirar moedas, terços e pedaços de pão em direção à plataforma. O Padre Teotónio, vendo a chuva de esmolas, sentiu que o telhado da igreja estava garantido, mas também que a situação estava a fugir ao controlo. Subiu a um pequeno palanque e, com a sua voz de trovão, tentou acalmar as massas:
— Povo de Alfândega! O Céu fala, mas fala devagar! Não empurrem a santidade! Cada um terá a sua benção, mas os donativos devem ser entregues à saída, na caixa da Comissão de Obras!
Enquanto o Padre tentava organizar o lucro, o Regedor Artur suava em bica. A bateria do camião estava a começar a deitar fumo. Os cabos de cobre, esticados ao limite, cheiravam a queimado.
— Senhor Doutor — sussurrou o Regedor para Fontoura, que se tinha aproximado — temos de cortar a luz. A bateria vai explodir e o santo vai apanhar um choque elétrico que o manda direto para a verdadeira aparição!
Fontoura olhou para a multidão em êxtase e para o Governador Civil que sorria, satisfeito.
— Só mais cinco minutos, Artur! Mais cinco minutos de glória!
Mas o destino tinha outros planos. Uma faísca saltou do terminal da bateria escondida no sarcófago. O Ti’ Zé, sentindo uma formiga elétrica a subir-lhe pela perna (a túnica estava húmida do suor), deu um salto acrobático, nada compatível com a sua suposta idade e santidade, e soltou um grito:
— Raios me partam que a Senhora morde!
O Regedor cortou a luz instantaneamente. O "Lugar das Almas" mergulhou na penumbra natural do crepúsculo. O fumo dissipou-se. O vidente tinha desaparecido, tendo mergulhado para trás da rocha para verificar se ainda tinha os dedos dos pés.
Houve um silêncio de choque. Depois, uma voz na multidão gritou:
— Ela levou-o! A Senhora levou o vidente para o céu num relâmpago!
— É a Ascensão! — gritou outro.
O Dr. Fontoura, com uma rapidez de raciocínio que justificava o seu diploma em Coimbra, levantou-se e proclamou para o Governador e para a multidão:
— Meus senhores! O espetáculo do sagrado terminou por hoje! O vidente entrou em retiro espiritual profundo! Regressem às vossas casas em paz e com o espírito renovado! E não se esqueçam de comprar as amêndoas benta na praça!
O Capítulo V encerrava-se com a vila de Alfândega da Fé mergulhada numa noite de festa e oração, enquanto no fundo do monte, escondidos num barracão, o Regedor Artur, o Melo e o Dr. Fontoura tentavam desesperadamente apagar as chamas de uma bateria de camião que tinha morrido por excesso de fé. O milagre fora um sucesso, mas a santidade, tal como a eletricidade em 1957, era uma força perigosa que ameaçava queimar quem a tentasse domesticar.
Capítulo VI: A Auditoria do Vaticano e da PIDE
Na manhã seguinte à "Ascensão Elétrica", Alfândega da Fé já não era uma vila; era um acampamento de guerra espiritual. O cheiro a enxofre e açúcar queimado ainda pairava no Lugar das Almas, mas fora substituído pelo aroma a café requentado e ao suor de mil peregrinos que tinham pernoitado ao relento, esperando que o Ti’ Zé das Barbas caísse do céu com a mesma prontidão com que tinha desaparecido.
O Dr. Fontoura, contudo, não tinha tempo para misticismos. No seu gabinete, o ambiente era de bunker. O Regedor Artur e o Melo estavam sentados à sua frente, com o aspeto de quem tinha sido atropelado por uma procissão de flagelantes.
— O sucesso, meus senhores, é a mãe de todos os problemas — sentenciou Fontoura, apontando para dois envelopes oficiais sobre a mesa. — Recebemos um telegrama do Ministério do Interior e uma nota confidencial da Nunciatura Apostólica. O Governo quer saber se o milagre é "politicamente aproveitável" e a Igreja quer saber se o vidente é "teologicamente viável".
— E o vidente, onde está? — perguntou o Melo, limpando as mãos ainda negras da bateria explodida.
— Está trancado na cave da Câmara, a comer o seu terceiro chouriço e a exigir que lhe tragam uma rádio para ouvir o relato do jogo do Benfica — rosnou o Regedor. — O homem agora acha que é uma estrela de cinema. Diz que se não lhe aumentarmos a ração de vinho fino, amanhã aparece à multidão e diz que a "Senhora" lhe mandou votar na oposição.
A ameaça era real. Em 1957, o equilíbrio entre a devoção e a subversão era uma linha ténue que a PIDE vigiava com olhos de lince. E foi precisamente o Inspetor Fragoso quem interrompeu a reunião, entrando no gabinete sem bater à porta, acompanhado pelo Cónego Vilarinho, o enviado do Bispo.
— Bom dia, Senhor Presidente — disse Fragoso, com um sorriso que parecia uma cicatriz. — Estávamos agora mesmo a comentar com o Senhor Cónego a extraordinária "física" do fenómeno de ontem. É curioso como a luz divina tinha o exato espectro eletromagnético de um farol de camião Chevrolet de 1948.
Fontoura sentiu o chão fugir-lhe. O Regedor Artur, porém, manteve a imobilidade de uma estátua de granito.
— O Senhor Inspetor sabe que o demónio usa muitas vezes as ferramentas do homem para nos confundir — atalhou o Padre Teotónio, que entrava nesse momento, tentando salvar o conclave. — O que importa não é a lâmpada, mas a iluminação da alma!
O Cónego Vilarinho não parecia convencido.
— Teotónio, não me venhas com retórica de seminário de aldeia. A Santa Sé exige provas. O vidente tem de ser submetido a um exame canónico e médico. Queremos ver as chagas, queremos ouvir as profecias e, acima de tudo, queremos verificar se ele não tem nenhum dispositivo de rádio escondido na barba.
O pânico instalou-se no "Triângulo da Fraude". O exame estava marcado para as duas da tarde, na sacristia. Se o Ti’ Zé abrisse a boca para falar de chouriços diante do Cónego ou se o Inspetor Fragoso decidisse revistar a túnica do santo, a viagem de todos terminava no Aljube ou em Caxias.
— Temos de o drogar — sugeriu o Melo, desesperado. — Um pouco de ópio da farmácia, ou talvez um calmante para cavalos. Se ele estiver num estupor profundo, o Cónego pensa que é um êxtase místico e o Inspetor pensa que ele morreu de santidade.
— Nada disso! — ordenou Fontoura. — Se ele estiver a dormir, o Fragoso dá-lhe com um cassetete para ver se ele acorda. Temos de usar a técnica da "Revelação Incompleta".
O plano foi montado à pressa. O Ti’ Zé foi instruído a manter um silêncio absoluto. Se lhe fizessem perguntas difíceis sobre a Virgem ou sobre o dogma da Assunção, ele deveria apenas apontar para o céu e gemer de forma lancinante, como se a glória do que vira fosse demasiado pesada para as cordas vocais de um mortal.
Às duas da tarde, o tribunal reuniu-se. O Ti’ Zé foi trazido, ladeado por dois guardas da GNR que pareciam mais nervosos que o próprio vidente. O ambiente na sacristia era gélido. O Inspetor Fragoso começou o interrogatório, circulando o velho como um tubarão.
— Diga-me uma coisa, "Santo" — começou Fragoso, soprando o fumo do seu cigarro para a cara do vidente. — A Senhora, quando lhe apareceu entre os faróis… perdão, entre os resplendores… disse alguma coisa sobre a situação em Angola? Ou sobre o Plano de Fomento Nacional?
O Ti’ Zé olhou para o Inspetor. Viu o brilho metálico no olhar do agente da PIDE e sentiu o cheiro do medo que emanava do Dr. Fontoura. Lembrou-se das botas de vitela que ainda não tinha recebido.
— A Senhora… — começou o velho, com a voz a tremer.
O Dr. Fontoura quase desmaiou. O Regedor Artur levou a mão ao peito.
— A Senhora — continuou o Ti’ Zé, adotando um tom de voz que parecia vir do fundo de uma caverna — disse que há muitos olhos na terra que não veem a luz… e muitos corações de gabardine que vão arder no azeite da sua própria desconfiança!
Houve um silêncio sepulcral. O Inspetor Fragoso ficou imóvel. O Cónego Vilarinho cruzou as mãos, impressionado pela inesperada qualidade profética e metafórica do eremita.
— E sobre o dogma, meu filho? — perguntou o Cónego. — O que te disse ela sobre o Mistério da Trindade?
O Ti’ Zé, agora empolgado com o seu próprio poder de improvisação alcoólica, apontou para uma mancha de humidade no teto.
— Ela disse que o mistério é como a amêndoa de Alfândega: por fora é dura e amarga, mas por dentro é doce para quem tem dentes para a trincar! E ai daqueles que tentarem pesar a santidade em balanças de merceeiro!
O Padre Teotónio quase chorou de alívio. O vidente era um génio da ambiguidade camponesa.
Contudo, o perigo não tinha passado. O Inspetor Fragoso, num movimento súbito, puxou da túnica do velho, tentando encontrar fios ou baterias. A multidão lá fora, ouvindo o barulho e os gritos de protesto do Padre Teotónio, começou a bater nas portas da igreja.
— Estão a martirizar o Santo! — gritou uma voz na praça. — A PIDE quer prender o nosso vidente!
Em 1957, não havia nada que o Regime temesse mais do que uma multidão católica enfurecida. O Governador Civil, que observava tudo da janela da residência paroquial, percebeu que, se o Ti’ Zé fosse preso naquele momento, Alfândega da Fé tornar-se-ia o epicentro de uma revolta popular que nenhuma censura conseguiria esconder.
Entrou na sacristia com a autoridade de quem traz ordens diretas de Lisboa.
— Basta! — ordenou o Governador. — O exame está concluído. A Igreja decidirá o que quiser no seu tempo, mas para o Estado Português, o que aconteceu em Alfândega é um testemunho da fé inabalável do nosso povo e da excelente organização desta autarquia. Inspetor Fragoso, guarde o caderno. Cónego, as nossas orações acompanham a vossa investigação.
O Inspetor Fragoso guardou o caderno, mas antes de sair, sussurrou ao ouvido do Dr. Fontoura:
— Ganhou desta vez, Senhor Presidente. Mas diga ao seu vidente que, se as amêndoas dele começarem a saber a comunismo, eu volto para lhe cortar a barba com uma baioneta.
O Capítulo VI terminava com o triunfo temporário da farsa. O Dr. Fontoura, o Regedor e o Padre Teotónio estavam a salvo, mas tinham criado um monstro: o Ti’ Zé das Barbas era agora intocável, uma autoridade espiritual que nem a PIDE ousava prender. E o pior de tudo: o velho já estava na praça, rodeado de peregrinos, a prometer que na próxima quinta-feira a luz seria ainda mais forte e que, se houvesse donativos suficientes, talvez a "Senhora" falasse em francês.
A fraude tinha-se tornado demasiado grande para os seus criadores. Estavam todos presos ao "Milagre", como condenados a uma galé de luz e incenso.
Capítulo VII: O Milagre do Lucro (ou a Apoteose do Azeite)
A última quinta-feira de maio chegou com uma calmaria que precedia não a tempestade, mas a consagração. Alfândega da Fé já não era a mesma vila cinzenta onde o tempo apodrecia; era agora um estaleiro de esperança e um entreposto comercial de relíquias improvisadas. O Dr. Fontoura, sentado no seu gabinete, observava o relatório do Melo. O balanço era astronómico: o stock de amêndoas da região, que costumava apodrecer nos silos à espera de um preço justo, esgotara-se em três dias. O azeite local, rebatizado pelo povo como "Óleo da Unção de Bornes", era vendido a preços de ouro líquido a peregrinos vindos de tão longe como Badajoz ou Coimbra.
— Melo — disse Fontoura, com uma voz onde o cansaço vencia a ambição — criámos uma economia baseada num farol de camião e na fome de um eremita. Se a verdade vier ao de cima, não nos prendem por fraude; prendem-nos por termos dado ao povo mais alegria do que o Governo alguma vez deu.
O problema final era a "saída estratégica". O Ti’ Zé das Barbas tornara-se uma figura perigosa. O velho já não se contentava com botas de vitela; exigia uma percentagem das esmolas e falava em contratar um "agente" no Porto para gerir as suas futuras aparições. O Regedor Artur e o Padre Teotónio concordavam: o milagre tinha de "subir ao céu" definitivamente antes que a engenharia elétrica ou a língua do vidente falhassem de forma catastrófica.
A estratégia para o encerramento foi digna de um argumento de Berlanga. Decidiram que, naquela última quinta-feira, a "Senhora" daria um sinal final de que Alfândega estava abençoada para sempre, e que o vidente deveria recolher-se a um "silêncio contemplativo e perpétuo" (tradução: um exílio dourado numa quinta isolada no Douro, paga pela autarquia).
À hora marcada, o Lugar das Almas estava intransitável. O Governador Civil estava lá, o Inspetor Fragoso observava de binóculos, e até uma equipa de reportagem da Emissora Nacional preparava os microfones para registar o som do sobrenatural.
O Regedor Artur superou-se. Não usou apenas os espelhos; tinha passado a noite a instalar uma série de foguetes de sinalização e magnésio, técnica que aprendera nos exercícios militares de Santa Margarida. O plano era criar uma "nuvem de glória" tão ofuscante que ninguém conseguisse ver o Ti’ Zé a fugir por um desfiladeiro traseiro, onde um táxi Mercedes o esperava para o levar para longe das garras da PIDE e da devoção das beatas.
— Agora! — comandou o Regedor.
A explosão de luz foi monumental. Os foguetes de magnésio iluminaram a encosta com uma brancura nuclear. O povo gritou, milhares de braços ergueram-se ao céu e, durante dez segundos, Alfândega da Fé foi o lugar mais brilhante do império português. Quando o fumo se dissipou, a plataforma estava vazia. O "Santo" tinha partido.
Houve um choro coletivo, uma mistura de luto e êxtase. O Padre Teotónio, aproveitando o momento, subiu à rocha e proclamou:
— Ele foi levado pela luz! Mas deixou-vos a vossa terra rica e o vosso coração cheio! Ide em paz e não se esqueçam de passar pela sacristia para as últimas indulgências comemorativas!
A ironia final, porém, estava reservada para o gabinete do Dr. Fontoura, duas horas depois. Enquanto os três conspiradores brindavam com um vinho de reserva, o Inspetor Fragoso entrou, acompanhado por um homem de meia-idade, com um aspeto burguês e óculos de tartaruga.
— Senhor Presidente — disse Fragoso, com um tom de voz estranhamente suave — este é o Engenheiro Silveira, enviado do Ministério da Economia.
Fontoura sentiu o suor frio. "É agora", pensou, "o engenheiro vai perguntar pelos faróis do camião".
— Senhor Presidente — começou o Engenheiro Silveira, ignorando o nervosismo de Fontoura — quero dar-lhe os parabéns. O fenómeno de Alfândega da Fé foi analisado pelos nossos técnicos... à distância, claro.
— Analisado? — balbuciou o Melo.
— Sim. Chegámos à conclusão de que este surto de fervor religioso é a cobertura perfeita para o que realmente importa. Graças à vossa "movimentação de massas", descobrimos que o subsolo desta região tem uma condutividade magnética extraordinária. O que o povo chama de "luz divina", nós chamamos de potencial elétrico para uma nova barragem e, possivelmente, jazigos de volfrâmio que escaparam aos levantamentos anteriores.
Fontoura olhou para o Regedor Artur. O Regedor olhou para o Padre Teotónio.
— O Governo decidiu — continuou o Engenheiro — que Alfândega da Fé vai receber o maior investimento do Plano de Fomento. Vamos construir a estrada, pavimentar a praça e modernizar a rede elétrica. O vosso "milagre" provou que esta é uma terra de gente ordeira, devota e, acima de tudo, produtiva. O Presidente do Conselho está encantado. Diz que é o exemplo perfeito de como a Fé e a Economia Corporativa podem caminhar de mão dada.
O Inspetor Fragoso aproximou-se de Fontoura e, pela primeira vez, deu-lhe uma palmada amigável nas costas.
— Escapou por um fio de cobre, Doutor. O Ministério decidiu que a farsa é demasiado útil para ser verdade. A partir de amanhã, o "Milagre de Alfândega" é feriado municipal oficial. E se alguém perguntar pelos espelhos... eu mesmo direi que foram uma ilusão de ótica causada pelo excesso de fervor patriótico.
O conto terminava com uma imagem digna do cinema de Berlanga: a praça de Alfândega da Fé, agora vazia de peregrinos, mas cheia de cartazes de propaganda do Estado Novo. O Dr. Fontoura, o Regedor e o Padre estavam na varanda da Câmara, a ver chegar os primeiros camiões de cimento do Governo.
Ao longe, na estrada para o Douro, o Ti’ Zé das Barbas seguia no seu Mercedes, com as botas de vitela novas postas em cima do tablier, a comer um chouriço de luxo e a rir-se para o motorista:
— Ó mestre, sabe o que é o milagre? O milagre é que, neste país, quanto mais a gente mente, mais eles pavimentam a estrada!
Em 1957, Alfândega da Fé tinha finalmente encontrado a sua salvação. Não vinha do céu, nem da terra, mas da maravilhosa capacidade humana de transformar a fraude numa instituição nacional, com a bênção da Igreja, o silêncio da Polícia e o lucro da autarquia. A sátira fechava-se com o hino nacional a tocar na telefonia, enquanto o busto de mármore da praça parecia, finalmente, esboçar um sorriso de cumplicidade.
DIÁRIO DE NOTÍCIAS
Director: Augusto de Castro | Edição de Lisboa | Sexta-feira, 24 de Maio de 1957 | Preço: 1$00
A LUZ QUE VEM DE TRÁS-OS-MONTES: FERVOR E ORDEM NA VILA DE ALFÂNDEGA DA FÉ
Milhares de Almas em Êxtase perante a Manifestação do Prodigioso — A Presença das Autoridades Civis e a Devoção Exemplar de um Povo que Reafirma as Virtudes da Raça
(Pelo nosso enviado especial a Alfândega da Fé)
Sob um sol que parecia querer associar-se ao júbilo da terra transmontana, a pacata e laboriosa vila de Alfândega da Fé viveu ontem horas de uma transcendência que perdurará na memória colectiva da Nação. O que se presenciou no sítio denominado "Lugar das Almas" não foi apenas um acontecimento de fé; foi a confirmação de que, no Portugal de hoje, a Providência continua a velar por aqueles que trabalham com humildade e ordem.
O MOMENTO DO PRODÍGIO
Eram precisamente dezoito horas quando o silêncio, apenas interrompido pelo murmúrio das rezas, se tornou absoluto. Naquele anfiteatro de granito, o vidente conhecido como José das Barbas — figura de uma ascese que impressiona o olhar mais incréu — elevou os braços ao firmamento. Foi então que, por entre as copas das azinheiras, irrompeu um clarão de uma brancura nívea, uma "coluna de glória" que envolveu o eremita num halo de luz que nenhum engenho humano saberia reproduzir.
A ORDEM E A DISCIPLINA
É de salientar a forma exemplar como a população e os peregrinos, vindos de todos os cantos do Distrito, se comportaram. Sob a égide do Sr. Dr. Fontoura, digníssimo Presidente do Município, e sob o olhar atento das forças da GNR, a multidão demonstrou que o fervor religioso em Portugal é indissociável do respeito pelas Hierarquias. "Aqui não há lugar para desordens", afirmou-nos o Sr. Governador Civil, visivelmente comovido. "Este milagre é uma lição de paz social."
O TESTEMUNHO DAS AUTORIDADES
A presença do clero e de representantes da autoridade pública conferiu ao acto uma solenidade que impõe respeito. O Sr. Cónego Vilarinho, em representação de Sua Eminência, observou com prudência teológica o fenómeno, enquanto os agentes da autoridade garantiam que a alegria espiritual não degenerasse em confusões estranhas à nossa índole.
UM IMPULSO À ECONOMIA LOCAL
Mas não foi apenas o espírito que se elevou. Alfândega da Fé, terra de solas e amêndoas, assiste agora a um justo reconhecimento das suas virtudes. O comércio local floresce e as autoridades já estudam o melhoramento das vias de acesso, provando que, onde a Fé se manifesta, o Progresso do Estado Novo logo a acompanha.
— (Continua na página 4: Entrevista exclusiva com o Sr. Dr. Fontoura sobre o futuro de Alfândega e as novas obras públicas)
NOTAS DE ÚLTIMA HORA
A SAÚDE DO VIDENTE: Após o êxtase, o vidente recolheu-se aos seus aposentos na Câmara Municipal, onde permanece em oração profunda, recusando qualquer alimento que não seja o pão da fé (e, segundo consta, algumas amêndoas da região).
TURISMO: A CP - Caminhos de Ferro Portugueses estuda a criação de comboios especiais até à estação mais próxima para dar vazão ao fluxo de peregrinos.
Berlanga!! (2021) | Movie | Movies Dock
🎬 Title: Berlanga!! Story: How does the vision of the exceptional Spanish director Luis García Berlanga (1921-2010) continue to resonate today, especially in an era where popular culture seems disconnected from his work? To truly grasp the essence of an artist, it’s vital to understand their background—including their family, friends, and collaborators. Esteemed filmmakers and actors create a…