Repostagem. Originalmente publicada em junho de 2019.
Demos exemplos de espectro bi na imagem, embora as identidades representadas nela não são inerentes ao espectro bi. O espectro bi (bi-spectrum) não é algo universal, algumas pessoas multi se vêem dessa forma e faz sentido para elas, são possíveis formas de vivenciar as multiafetividade.
Conforme a própria bandeira bi nos apresenta, rosa significa homo-, ou seja, atração pelo mesmo gênero (gênero igual ou similar ao seu), o azul significa hetero-, que é atração pelo "outro gênero" (diferente ou dissimilar ao seu), e o roxo representa a ambivalência desses cantos.
Na imagem o que tem ali no meio é uma gradiente, mostrando as camadas que há entre a ambivalência e os cantos do espectro "mono". Muita gente argumenta que os cantos hétero e homo são totalmente estritos, monoafetivos e binários, mas não necessariamente, se você quiser acreditar nisso tudo bem também.
Umas pessoas vêem a panafetividade como uma ampliação, extensão, intensificação ou um desdobramento da biafetividade, dentro da narrativa identitária delas isso é válido mas não é uma realidade pra todo mundo isso. E dentro desse pensamento, me soou que orientações flexíveis estariam então em volta da pan nesse contexto.
Visto que muitas dessas identidades são constantemente reduzidas à "apenas bi", isso não seria um problema para pessoas bi-espectrais (bispec/bi-spec). Por mais que todas essas identidades fossem sempre sub-divisões de bi, não desqualificaria a existência delas como expressão do que as pessoas sentem.
E tem como a pessoa bi não se atrair por um dos gêneros binários, seguem exemplos: se atrair por homens e pessoas não-binárias; se atrair por pessoas maverique, agênero e andrógine; se atrair por pessoas mulher e não-binárie mas não por homem.
Nisso, há sub-classificações chamadas torenafetividade e trixenafetividade (trixensexual/trixenromântique) e torenafetividade (torensexual/torenromântique). Trixen- significa a atração exclusiva por mulheres e não-bináries, toren- atração exclusivamente por homens e nãobináries. Podem ser formas de ser bi e/ou poli também.
Há uma infinidade de gêneros não-binários possíveis, há quem deixe de se atrair por algum(s) deles, se enquadrando na poliafetividade.
Hoje bi significa atração por mais de um gênero, ou por dois ou mais gêneros, ressignificar foi o mais justo. Existe toda uma comunidade de pessoas, que inconscientemente antes de saber sobre já se atraiam por indivíduos não-binários. As pessoas da noite pro dia não iam deixar de se identificar com uma coisa pra trocar por outra, e nunca acontecerá isso.
Até mesmo o guarda-chuva não-binário não é completamente usado, por pessoas que já se viam como terceiro-género por exemplo. A questão de auto-identificação e consentimento identitário devem ser levados em conta. Bi já é/era amplamente usado por pessoas razoavelmente comuns.
Porém contudo, nem todo mundo se identifica como bi, eu por exemplo tenho traumas envolvendo essa identidade, sofri demonização por me identificar como bissexual e eu era constantemente reduzide a homossexual por causa disso, tal experiência advinda do fundamentalismo religioso. Confesso que recorri muitas vezes a outras identidades por causa disso, você pode dizer que foi fobia internalizada, mas eu guardo sentimentos pós-traumáticos até hoje perante minhas identidades, não é algo que eu controle, por mais que eu seja uma pessoa desconstruída hoje.
É muito útil para algumas pessoas ter terminologias alternativas especificando suas subjetividades, o tumblr carrega uma grande quantidade de termos especificos, inclusive toren e trixen tirei de lá, são identidades cunhadas recentemente, mas ninguém que é enquadrade nas definições é obrigade a nada, usa quem quer.
Inclusive, me vejo platonica ou amicalmente trixenflexível e sexual ou sensorialmente torenflexível. Eu seria ambissensorial (ambissexual) e ambiamical (ambiplatonique). Para ser ambi- não precisa necessariamente passar pela atração pelo mesmo genero (parte homo-) ou pelo gènero dissimilar (parte hetero-), ser ambi- também inclui em sua descrição por ambivalência afetiva, entre generos binários (homenidade e mulheridade) é uma forma.
Abstratamente (de forma insólita e generalizada) eu me vejo como bi e homo. Homo é muitas vezes usado como insulto, não por ser uma palavra pejorativa, mas porque é usada muitas vezes sem o consentimento de quem se é referide. Muita gente encara identidades como s4p4tã0, v14d0 e b1x4 como mais "materiais", são palavras que podem servir de empoderamento para quem as revindica.
Homofobia, por exemplo, é muito usada para cobrir a bifobia, lesbofobia e até mesmo a transfobia, por mais que as pessoas não tenham consciência que há diferença de gênero e orientação, e que nem todo mundo que é LGBT se identifica como homo, seguem usando mesmo assim, por não encontrarem outra alternativa tão acessível (que no caso pode-se usar cisheterossexismo ou LGBTIfobia).
Já cheguei a mencionar biopolíticas na página, mas como polar oposto às políticas identitárias, ou seja, tudo aquilo que nos é taxado nós nos identificando ou não. Pessoas pluriafetivas são vistas como bi, então cabe a elas revindicar a identidade bi ou não.
Há também quem veja a identidade bi- como separada de tudo isso, como se fosse única e desprendida das monoafetividades. Tudo bem também, contanto que não ache que sua vivência deva ditar a de outras pessoas. A biafetividade não necessita de outras identidades para existir, ela se sustenta bem sozinha, há diversidades aderentes a ela e que também podem ser tão independentes quanto a bi, o fato de haver outras diversidades identitárias jamais nulificou ou apagou a história bi.
O espectro bi pode ser tão inclusivo quanto o espectro multi/pluri, porém se torna mais confortável usar termos que já são comumente usados como guarda-chuva/abrangentes.
Edit: esqueci de falar das flexibilidades afetivas. O fato de que algumas orientações têm o prefixo flex ou flexível pode soar risível para algumas pessoas, mas por mais que eu não goste tanto da junção léxica/palavra, aquilo descreve minha atração, que há exceções e que gosto de levar elas em consideração também. Identidades podem ser controversas ou engraçadas mas no fim do dia são só narrativas identitárias. Viver livre sem elas soa uma opção mais fácil de se encarar, diante de tantas pessoas que vêem a julgar-nos por causa do rótulo.