Um paradoxo em Paris: Olimpíadas que afastam turistas
Os Jogos Olímpicos, geralmente vistos como uma oportunidade para impulsionar o turismo e a economia local, estão revelando um desafio preocupante para Paris. Segundo dados locais, turistas estariam evitando a cidade durante o evento, o que pode resultar em um impacto financeiro. Esta situação levanta questões críticas sobre os verdadeiros benefícios de sediar um evento dessa magnitude.
A Air France-KLM relatou que há mais interesse em viagens para outras grandes cidades europeias do que de e para Paris, o que pode resultar em uma perda de receita de até 180 milhões de euros apenas entre junho e agosto. Isso representa uma redução de 13% na previsão de lucro e as ações da companhia já refletiram esse pessimismo, caindo 1,5% após o anúncio. O gráfico abaixo mostra os preços de viagens de ida e volta de São Paulo para Paris entre julho e setembro, com um “vale depressivo” no período do evento, indicando preços mais baixos.
Especialistas imobiliários relatam uma queda de até 60% nos preços dos alugueis temporários, uma vez que a demanda por acomodações durante os Jogos não atingiu as expectativas. Residências de alto padrão, inicialmente listadas por até € 30.000 por semana, estavam sendo oferecidas por € 10.000 ou menos. Dados da AirDNA indicam que dois terços das noites disponíveis em apartamentos de quatro e cinco quartos ainda estavam sem reservas em abril, refletindo a demanda morna. Os pontos no mapa abaixo são os locais listados para aluguel temporário, disponíveis ou não.
Os próprios residentes estão pouco entusiasmados com o evento. Uma pesquisa de maio revelou que apenas 24% dos franceses estavam animados para as Olimpíadas de 2024, com 46% expressando indiferença e 30% sendo abertamente céticos. As críticas mais comuns referem-se aos altos preços dos ingressos, o impacto ambiental e a percepção do investimento como um gasto excessivo.
A realidade é que eventos de grande porte, como os Jogos Olímpicos, podem paradoxalmente afastar turistas tradicionais, preocupados com a superlotação, aumento de preços e possíveis problemas de logística. Em Paris, metade dos residentes planeja deixar a cidade temporariamente, enquanto um ministro do governo recomendou que as pessoas trabalhem de casa ou viajem para evitar o caos nos transportes.
Mas o problema não é exclusivo da França. Os Jogos Olímpicos de Tóquio em 2021 são um exemplo claro de como esses eventos podem se transformar em um mau negócio. Estimativas mostram que o custo final ultrapassou US$ 28 bilhões, com um orçamento inicial previsto em US$ 7,3 bilhões. O impacto da pandemia apenas exacerbou a situação, mas economistas argumentam que os Jogos já estavam fadados a gerar prejuízos muito antes da crise de saúde global.
Enquanto a Air France-KLM e outros setores do turismo sofrem, o Comitê Olímpico Internacional (COI) mantém suas receitas praticamente intactas, graças aos direitos de transmissão televisiva. Esta situação destaca uma desconexão fundamental: enquanto os organizadores lucram, as cidades-sede muitas vezes enfrentam prejuízos financeiros e infraestruturas subutilizadas, os chamados "elefantes brancos".
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Trecho que contribuí para a newsletter semanal de tendências da Bites, enviada em 05/07/2024.









