Depois de mergulhar no Festival do Rio, deixo aqui minhas recomendações aos leitores que estiverem por São Paulo de 22/10 a 4/11.
== Primeiro separei cinco títulos que pude assistir e que são tiros certos, coisa fina, só do bom:
- Olmo e a gaivota
É o novo trabalho de Petra Costa (’Elena’), aqui assinando a direção em parceria com Lea Glob. Vencedor do prêmio de Melhor Doc no Fest Rio, é difícil definir este filme como um doc, já que tanto cineastas quanto atores borram linhas de ficção para brincar de realidade. Mas quando se encontram poesia e verdade, Tchekhov e Théâtre de Soleil, Serge e Olivia, ninguém mais se importa com rótulos ou gêneros.
- Paulina
Não vou postar um trailer aqui. Recomendo fortemente que o amigo leitor vá ao cinema sem saber nada. Confie em mim. No caso desse filme, mesmo as sinopses são traiçoeiras. Segue uma fotinha.
Vou só dizer que o longa argentino de Santiago Mitre é uma corajosa provocação sobre verdade, justiça e os ciclos de violência. Um soco no estômago.
- Mate-me por favor
A estreia de Anita Rocha da Silveira em longas lhe rendeu o Redentor de Melhor Diretora (empatada com Ives Rosenfeld, por ‘Aspirantes’, também em cartaz na Mostra). ‘Mate-me...’ é uma história com tons de David Lynch, seguindo um grupo de adolescentes às voltas com hormônios e um serial killer, numa Barra da Tijuca entre grades e terrenos baldios, misteriosa e quase distópica. Prêmio de Melhor Atriz no Fest Rio para Valentina Herszage.
- Boi Neon
Considerado o Melhor Filme no Rio, este é o trabalho mais recente de Gabriel Mascaro (’Domésticas’ e ‘Ventos de Agosto’), cineasta pernambucano, aqui disposto a construir e retratar um novo nordeste no cinema, repleto de cores e contradições. Hipnótico em sua fotografia (Diego Garcia, premiado no Rio), ‘Boi Neon’ ainda levou os Redentores de Melhor Roteiro (para o próprio Mascaro) e Melhor Atriz Coadjuvante (a jovem Alyne Santana, empatada com Julia Bernat, de ‘Aspirantes’).
- Futuro Junho
Uma das grandes documentaristas em atuação no Brasil, Maria Augusta Ramos (Melhor Diretora de Doc no Fest Rio) retrata aqui personagens de São Paulo às voltas com a abertura da Copa do Mundo de 2014. Com seus quadros bem construídos, é fantástica a intimidade e a naturalidade com que a cineasta - realizadora de ‘Justiça’, ‘Juízo’ e ‘Morro dos Prazeres’ - consegue apresentar seus retratados.
=== Agora cinco apostas, filmes que eu não vi, mas correria pra ver se fosse você:
- Seca
Falando em Maria Augusta Ramos, ela também aparece na Mostra com esse trabalho, sua primeira experiência documental fora de um grande centro urbano, estudando aqui a escassez de água em uma região em que as pessoas convivem com o problema de forma aparentemente endêmica.
- A bruxa
Reza a lenda que este é um dos filmes mais assustadores dos últimos tempos. Prêmio de Melhor Diretor em Sundance, para Robert Eggers.
- Beira-mar
Não consegui pegar este filme, mas ouvi falar muito bem. O longa segue dois jovens amigos numa viagem ao litoral, num fim de semana de inverno. Prêmio de Melhor Filme da mostra Novos Rumos do Fest Rio.
- Monty Python - O sentido da vida ao vivo
Depois de 34 anos separados, os meninos do Monty Python se reuniram para uma série de espetáculos num estádio, em Londres. Esse doc mostra os bastidores do evento, além de trazer um inédito material de arquivo.
- Dheepan - O refúgio
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes neste ano, ‘Dheepan’ acompanha três refugiados que fingem ser uma família para se manterem em solo francês.
** E mais:
Quem estiver por SP pode ainda prestigiar o editor do ORNITORRINCO, ele mesmo, Gabriel Pardal, protagonizando o filme mais quente da Mostra, Tropykaos! Avoa, Pardal! Avoa!
No nordeste cinematográfico criado por Gabriel Mascaro em seu novo longa, 'Boi Neon', não há estereótipos. Os próprios arquétipos são desafiados. Um vaqueiro gosta de moda, corte e costura; outro é vaidoso, de cabelos longos e alisados; enquanto o caminhoneiro que os leva é, na verdade, caminhoneira, uma mulher rude porém de sexualidade latente, que também se apresenta numa espécie de cabaré do interior, com uma cabeça de cavalo.
Este é um filme sensorial, mais sobre personagens e ambiente do que sobre uma história propriamente dita. Nisso, pode possuir um parentesco de segundo grau com o também pernambucano ‘O Som ao redor’.
E se o universo de ‘Boi Neon’ surge tão fascinante é por conta da concepção de Mascaro - também o roteirista do projeto - mas também de seus colaboradores. A fotografia de Diego Garcia é fabulosa, alternando quadros parados cuidadosamente compostos e movimentação elegante e fluida, além de uma iluminação que cria algumas sequências hipnóticas e outras hilárias.
O elenco é primoroso. Há uma química algo de família, algo de bando entre os personagens de Juliano Cazarré, Maeve Jinkins, Alyne Santana, Carlos Pessoa (um ladrão de cenas) e, mais tarde, Vinicius de Oliveira.
Num bate-papo pós-filme, Mascaro disse algo revelador sobre sua concepção de nordeste para o projeto:
- O nordeste no cinema brasileiro sempre foi um lugar de onde as pessoas queriam sair. Esse nordeste de ‘Boi Neon’ não. Essas pessoas estão ali e não querem sair, e vão ficar. E é isso. Penso no personagem do Vinicius de Oliveira, por exemplo. É como se fosse o personagem de ‘Central do Brasil’ que ficou por aqui, como se pudéssemos ver como ele vive depois de todos esses anos.
No fim das contas, ‘Boi Neon’ se mostra uma obra provocadora, onde não há julgamentos, só ambiguidade e contradições expostas e reveladas.
== Francofonia ==
Em seu novo filme, o mestre russo Alexandr Sokurov vai a Paris poetizar sobre o Louvre, sua importância e o momento delicado por que passou durante a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial.
Gosto muito do trabalho de Sokurov e admiro aqui como ele subverte documentário, ficção e metalinguagem. O final, por exemplo, é majestoso e simples se comparado ao refinamento do que veio antes. Mas confesso que fiquei um pouco cansado, apesar das belíssimas imagens e da harmonia com que o cineasta transita entre as linguagens.
Talvez tenha sido eu, talvez o cansaço, talvez o café não tenha sido forte o suficiente. Ou talvez tenha sido Sokurov mesmo.
== Stop ==
O coreano Kim Ki-duk tem fama de polêmico. Admirador de trabalhos anteriores como ‘Pietá’ e, especialmente, ‘Primavera, verão, outono, inverno e primavera’, fui conferir seu novo longa, ‘Stop’.
É difícil saber o que ele estava tentando aqui. Este é um filme basicamente amador, com um roteiro sofrível, sem lógica alguma, atuações terríveis e iluminação bizarra. E este filme foi escrito, dirigido, editado e fotografado por Kim, que é um cineasta premiado internacionalmente, com vinte anos de carreira, vinte filmes no currículo.
E no entanto ‘Stop’ parece um filme estudantil, no que isso tem de pior. É realmente muito ruim, e no decorrer de sua bizarra narrativa, sobre as consequências do desastre de Fukushima na vida de um casal, ainda que não passe de 90 minutos, torna-se literalmente uma tortura para o espectador, com um som escandalosamente nas alturas (tive que usar protetores de ouvido - mas aí pode ter sido problema do Odeon e não do filme)
Algo em mim tenta decifrar se houve uma tentativa de ironia ou cinismo de Kim Ki-duk em relação ao tema ambiental ou algo assim. Mas era melhor ter feito um filme de verdade.