hoje faz três anos desde o acidente que me tirou você e eu finalmente tomei coragem pra lembrar de tudo. engraçado como eu nunca vou esquecer a primeira vez que te vi no sofá da república, com uma tatuagem parecidíssima com a minha e no mesmo lugar. eu te mostrei a minha e você sorriu. minha prima me avisou pra eu não me aproximar por conta de alguma menina que gostava de você (e como não gostar?) e assim eu fiz.
mas você não.
no dia seguinte teve um churrasco na sua república e você sentou na minha frente na mesa e não saiu dali nunca mais. a gente falou, falou, falou e descobriu tanto em comum que era até esquisito. eu que não sou nada boba tentei te impressionar e provavelmente falei demais. você, provavelmente também querendo me impressionar e buscando cerveja pra mim o tempo todo enquanto você estava sem beber porque tinha tirado o dente do siso. lembro de mandar mensagem para minha melhor amiga pra dizer que eu tinha encontrado o amor da minha vida sem nunca ter beijado. anoiteceu, o churrasco acabou, você olhou pra mim e me chamou pra dormir com você. eu neguei e te chamei pra dormir comigo esperando que você negasse... e você foi. de mala e tudo.
eu lembro que você iria trabalhar cedo no dia seguinte, mas isso não te impediu. lembro de acordar de manhã com você saindo pela porta e pensar: é, fudeu.
engraçado que, pensando em tudo agora, eu consigo lembrar de cada detalhe. eu lembro de como te chamei pra voltar a noite pra ver um filme, lembro do seu áudio concordando na hora e correndo pro apartamento assim que chegou do trabalho. eu lembro de você descongelar a carne errada pra fazer nosso almoço e só descobrir no dia seguinte. eu lembro da gente assistir o mesmo episódio de rick e morty duas vezes e não entender absolutamente nada. lembro de assistir um filme de terror e quando acabou, enquanto o namorado da minha prima assustava ela o tempo todo, você ficou ali do meu lado perguntando se eu tava bem. lembro a primeira vez que aceitei dormir com você na sua república e você tinha aula online pela manhã e ia pro quarto a cada quinze minutos pra saber se eu estava bem enquanto dormia. lembro de quando eu ficava tímida na frente de todo mundo e sentava longe de você e você me chamava pra perto. lembro de quando a gente dormia na sala e acordava com alguém falando que até pra dormir a gente se abraçava. lembro de quando você ia jogar freefire com a galera e se recusava a me soltar do abraço mesmo ficando mil vezes mais desconfortável. lembro de como os meninos faziam piada de como você só teve aquele olhar três vezes na sua vida: quando sua cachorra chegou, quando plantou maconha e pra mim. lembro de quando você foi atrás de me dar uma camiseta sua porque eu disse que gostava de camiseta masculina. lembro de quando você finalmente voltou a beber e pediu pra gente tirar uma foto juntos. lembro de quando eu fui pra casa da minha mãe por uma semana e você disse que sentiu minha falta e nem o travesseiro mais era bom pra colocar no meu lugar. lembro da sua última festa e de como você desapareceu cedo porque bebeu demais. lembro da gente no auge da bebida combinar de que passaríamos o feriado juntos. lembro de acordar no dia seguinte com a maior ressaca do mundo e você fazendo de tudo pra eu pular na piscina gelada com você. lembro de você me abraçar molhado, me buscar água e perguntar se tava tudo bem. lembro da última vez que te vi quando você foi até mim dizendo que só ia buscar cerveja e já voltava… e a partir daí eu gostaria de não lembrar de mais nada.
você nunca mais voltou.
eu lembro o exato momento em que você não passou por aquela porta e eu tive que ver a poça de sangue no chão. acho que eu só neguei a realidade e rezei. rezei a semana inteira. rezei todas as noites. rezei pra todas religiões e eu nem tinha religião. me recusei a sair da sua casa e rezei todos os dias. fui na missa implorar pra que você saísse do hospital com vida. passei uma semana implorando por todos os guias, deuses e espíritos. cada vez que seu pai mandava uma notícia, era uma pontinha de esperança que renascia. e, exatamente duas da manhã de uma terça veio a notícia de que você tinha partido.
a partir daí eu não lembro mais nada.
a única coisa que eu sei é que se eu tivesse um único desejo no mundo, eu desejaria voltar pra um único dia e não deixar você sair por aquele portão. você me deixou com sua camiseta e eu com meu coração. você tinha tatuado “die with memories, not dreams” e eu tatuei “die in love and live forever” pra te levar na pele. você sentiu minha falta por uma semana e eu vou sentir sua falta pra sempre.
eu sempre vou achar injusto que o mundo tenha perdido um ser humano tão incrível como você. eu me forço a acreditar em um propósito pra que a dor não seja tão grande assim. eu vivo dia após dia sorrindo sem lembrar que nada disso aconteceu comigo. mas hoje, hoje eu resolvi lembrar de tudo muito bem.










