Correspondência Electrónica
Entra-se na livraria Bulhosa de Entrecampos e lanço um olhar que sustente a profundidade do espaço. Naturalmente como sempre. Era um espaço de encontro surpreendente, nunca planeado mas onde a filiação também se dava, de forma desconcertada mas a partir da surpresa construía-se portfólio da relação.
E assim, no somatório dessas surpresas, construiu-se um espaço conspirativo próprio, de uma compreensão mútua com os códigos necessários para ser inigualável.
Mesmo que aquilo tudo, a que chamam à regularidade da filiação paternal ter falhado, pelo menos nos moldes sociológicos previstos. Anos de infância sem nos vermos. Criámos o “próprio” essencialmente desde a juventude, onde a premissa de sermos donos das nossas decisões, construiu a relação entre homens livres.
A vontade dessa relação independente era livre dos confortos do previsto. Não tinha férias divididas, fins de semana alternados, celebrações de aniversário, natais e outras coisas que tais. Ao invés, a vontade conjunta leva-nos para horas dentro de um carro - diria-se mais: cinzeiro ambulante - a 30 à hora, aparentemente com filas de trânsito que buzinavam incessantemente but we didn´t care. Entre duas rotundas que distam 500 metros entre si, conseguíamos durante 2,3,4 horas discutir arduamente The Theory of Justice de Rawls e Le Théorie de l´agir communicationel de Habermas; saltar para África, declamar poemas em Swahili; e contracenar a resistência anti-fascista com as minhas supostas acções anticapitalistas. Necessariamente, pelo interface usado, as conversas seguiam para as áreas de serviço que íamos encontrando estrada fora.
Passados 9 meses do nascimento da primeira filha, a quem ainda não se tinha dado a conhecer, fui chamado para o ir ver já a dormir. Nunca mais acordou e foi rápido a ser ainda mais eterno. Todo o processo foi assaltado por gente desconhecida, das diferentes solidariedades a que pertencia, como se o enlutamento fosse algo público, de todos e não de ninguém em especial.
As minhas amigas já sabem que entrar no carro, agora meu, pode significar uma volta ao mundo, nos quilómetros e na conversa. Puro mimetismo. Vou continuar a fazer aquele olhar profundo quando chego à Bulhosa e vou sair de lá usando o seu nome de cliente para desconto como se nada fosse. Sonho regularmente connosco e em grande parte das vezes o enredo é a conspiração que implicou simular a sua própria morte. Olho para a filha, aquela a quem não se deu a conhecer, e já o vejo lá. Vou sempre continuar a olhar para trás ao mais ínfimo aroma a cigarrilha.














