A Culatra Meets C7ne
(blog aqui)
Antes de desenjoar do excesso de blogs e sites de crítica cinematográfica que brotam no espaço cibernáutico português, onde encontramos desde o intelectual faminto por simbologias que luta paladinescamente contra o monstro de Hollywood até ao quase-grunho pós-adolescente que só vê blockbusters, há lugar para todos. Deste maranhal de críticos, alguns são muito bons, outros mais ou menos e outros são assustadores; o susto vem da falta de integridade e o atrevimento de criar uma página e pensar "isto é que vai ser, vão querer todos ler os meus pontos de vista e finalmente vou ter amigos". Neste caso, quero que seja clara a parte do "vão querer todos ler"; vou-me dedicar a um site, o C7ne, para criticar não só as críticas, como o quase ofensivo uso da escrita. Pessoalmente, como escrevo sem um propósito de crítica artística, mas sim de crítica em segunda mão, tenho algum cuidado óbvio, não sou desleixado. Se o meu objecto fosse de arte, cinema, música, literatura ou jardinagem, se calhar o cuidado era mais apurado, nem que fosse por uma questão de respeito à arte em si que me propus a criticar. Neste caso, isso é inexistente.
O blog é uma pequena resenha de uns quantos filmes, três ou quatro secções inúteis (festivais, estreias e top qualquer-coisa) e uma secção especial, chamada "Encontros Imediatos 7º Grau", que tem a particularidade de ser uma série de fotografias de, como diz o autor do texto,
"Personalidades do Mundo do Cinema que tive o privilégio de conhecer ao longo dos últimos anos, nomeadamente em festivais de cinema ou noutros eventos realizados por este país fora."
Não quero parecer chato, mas o que é que isso interessa realmente para o leitor? A necessidade de afirmação é tão grande que é preciso uma secção com celebridades que teve o privilégio de conhecer? Serei eu o básico por acusar Paulo Saraiva, o fundador do C7ne, de algo tão óbvio ou será óbvia a triste vontade de enaltecimento? A questão prende-se por serem só fotografias, como se eu agora colocasse uma foto de Jack Nicholson e indicasse que o conhecia, sem qualquer espécie de contextualização, ou uma base de veracidade porque vá, nem todos conhecem o Cronenberg. E o nome, 7º Grau? Porque o cinema é a sétima arte? Já não há trocadilhos suficientes feitos com sétima arte, cinema, blogs, e afins? Já não coloquei questões suficientes no mesmo parágrafo?
Mas vamos ao que interessa realmente, as vinte críticas do site. À primeira vista, o mais notório é a margem cronológica; o filme mais "antigo" é de 2001. Mais uma vez, há um prender ao moderno, a constante actualização do novo e inovador, como acontece geralmente em alguns sites que aqui já analisámos, como o C7nema ou o Depois do Cinema, como se não existisse nada antes e as criações fossem analisadas como uma fatia à parte, nunca integrada num contexto global.
Numa perspectiva mais macro, a escrita é horrível. Aproveito para indicar um pormenor, de um comentário que recebemos sobre a minha insistência da degradação da escrita em português; tenho plena consciência que não estou a lidar com profissionais mas isso não os / vos desculpa de não saberem escrever. Não precisam de ser um Saramago ou um Lobo Antunes, mas caírem constantemente em lugares-comuns, repetirem conceitos, errarem frequentemente a pontuação e não saberem onde colocar um raio de um acento revela pouco profissionalismo (obviamente) e falta de vontade em apresentá-lo, uma apetência para o eterno amadorismo e a fuga vincada à real crítica, sobrando apenas uma triste compilação de palavras provenientes de um crescido adolescente com falta de leitura e informação. Quão grave é isto? A meu ver, muito. Torna-se um descrédito total de conteúdo e quando criticam a minha crítica às críticas (ou "quando dizem cenas do que escrevo", para simplificar) indicando que não têm obrigação de escrever melhor, é ofensivo para qualquer utilizador da língua portuguesa, preferem o erro, optam pela não-evolução, afundam-se num loop ignorante.
No C7ne é algo extremamente frequente, principalmente com a virgulação, mas o problema é o "sem sal" (tomem lá, Les Bons Vivants) das supostas críticas, a falta constante de justificação para a opinião. "Eu não gosto de X" é a linha condutora do blog, não se sabe nada da justificação daquilo em que o "crítico" acredita.
"O argumento deixa muito a desejar, com diversas falhas na sua construção, onde entre outras coisas não nos dá resposta a algumas situações que se passam no filme, e sem falar do seu final, que quase deita por terra todo o conceito deste." (Next) "Com um argumento muito original, o filme consegue nunca cair em exagero, o que facilmente poderia ter acontecido." (Tucker and Dale Vs. Evil) "Em resumo não é um filme perfeito, mas esteve lá perto, cometeu alguns erros que poderiam ter sido evitados se tivessem seguido outra abordagem" (The Hunger Games) "Não é o melhor filme da saga mas também não é inferior aos demais" (American Reunion)
Outro ponto forte do C7ne é a relação de auto-ajuda que o autor tem com os filmes; em cada um deles, consegue retirar uma lição de vida, cumprindo o que nos é indicado na página introdutória do site ("O cinema constrói-nos o mundo e a identidade, molda-nos os gestos, as expressões, as expectativas e visões do mundo.").
"Beasts of the Southern procura mostrar que não se precisa de muito para se ser feliz e que a solução para ultrapassar todos os problemas reside no Amor, no Amor que nutrimos uns pelos outros e na capacidade que temos de nunca baixar os braços perante as adversidades" (Beasts of the Southern Wild) "é uma história simples, inspiradora e que nos faz ter um olhar positivo sobre a vida e sobre as mais variadas circunstâncias que nos atingem, mas principalmente, tem o mérito de nos fazer sair da sala de cinema com um sorriso de esperança no rosto." (Intouchables) "No essencial é um filme que nos conta uma tocante e interessante história sobre a aceitação social e a capacidade de superar os desafios que a vida nos coloca." (The Muppets)
Por último, encontra-se uma falta de lógica nestas críticas; o autor indica frequentemente falhas nas produções americanas, utilizando a velha história da máquina de blockbusters, o exagero comercial blablabla. Mas, agora pensando um pouco, e pedindo eu ao leitor para fazer o mesmo, para quê limitar então o espectro cinematográfico ao que já se espera que não seja satisfatório? É uma espécie de masoquismo, ou então simples falta de informação. O C7ne insiste sempre nos mesmos argumentos, as críticas são todas extremamente semelhantes e mal construídas.
"Uma vez mais Hollywood mostra a sua ausência de ideias e decide fazer um novo remake/continuação de um dos "teenage movies" com maior sucesso de bilheteira nos anos 90." (American Reunion) "Afirmo que este é um bom exemplo do que as produtoras fazem nos dias de hoje para conseguiram facturar mais nas bilheteiras, sem benefício algum para o espectador que paga o bilhete." (Dredd 3D) "o filme é tudo aquilo que se pode esperar de um Blockbuster, é aquele bombom reluzente que nos deixa de água na boca, muito chamativo visualmente mas ao fim de contas é azedo como tudo, tornamo-nos indiferentes e esperamos não voltar a comer do mesmo." (Immortals)
(Bombom reluzente?)
"Com nuances de cinema independente, este é um filme que cada vez mais escasseia no cinema Americano, uma fórmula que devia de ser seguida mais vezes e que tristemente vai desaparecendo." (The Descendants)
Este C7ne, criado há um ano e pouco, prevê-se com uma ascensão rápida, facilmente terá centenas de seguidores nas redes sociais, sequenciados pela sua fácil leitura e fácil acesso, uma espécie de fast food de diminuta qualidade, semelhante a um hamburguer comido numa roulotte às cinco da manhã, com direito a doenças e tudo e merecedor de pouco mais que uma comparação gastronómica reles, uma prova que é óptimo a internet deixar qualquer um escrever e opinar e uma prova que é uma péssima ideia a internet deixar qualquer um escrever e opinar.
- Sr. Antero










