Desfalque Gestáltico
Bernd Löbach, em seu segundo capítulo do livro ‘Design Industrial. Bases para a configuração dos produtos industriais’, atenta o expectador para as possíveis causas de vendas e estratégias adaptadas ao mercado industrializado e foca então o indivíduo como parte agregada da sociedade. O autor comete um grande erro em não comentar a dimensão estratégica ou mesmo catastrófica, ocorrida com o ser na Revolução Industrial. Regride o ser como simplesmente ‘(…) homens em um sistema social complexo cujos fundamentos são a soma dos homens como indivíduos e suas inter-relações (…)’, não esclarecendo o fator principal da mudança social, muito menos o sistema social complexo e em especial, a brusca diferenciação do novo ser mutável.
Uma nova sociedade industrializada visava um novo comportamento do indivíduo enquanto ser, agregara em sua estrutura complexa novos requisitos sociais, o que alteraria permanentemente a essência de todos os seres humanos. Baseado na repentina e possível transformação, os movimentos modernos – negativos ou não – surgiram para apoiar ou mesmo reivindicar a priori, a nova sociedade. O Surrealismo em especial, agregado aos fundamentos da psicanálise de Sigmund Freud, tenta desvendar o subconsciente desse novo indivíduo que sofrera a metamorfose bruta do novo sistema financeiro e social.
O indivíduo enquanto consumidor deve receber uma análise não simplista e superficial, mas uma que agregue valor ao produto em questão através de objetivos claros como, por exemplo, o pensar. Infelizmente, a sociedade contemporânea caiu em sua própria armadilha de consumismo desenfreado e pensamento superficial, focado essencialmente no consumo direto ou indireto dos produtos.
Impressionante ou não, o designer decaiu em sua função por falta de aprimoramento teórico, o que com uma leitura breve do texto analisado, torna-se claro a que fora reduzido: um profissional incapaz de angariar conteúdo qualitativo a si, por quase sempre em tempos modernos, receber carga literária medíocre. Walter Gropius, fundador da Bauhaus, segundo Giulio Carlo Argan em ‘A arte moderna na Europa de Hogarth a Picasso’ afirma que: ‘(…) todo trabalho é a manifestação de uma essência interior e que só esse trabalho possui um significado espiritual, enquanto o trabalho puramente mecânico não tem sentido vital: ”Enquanto a economia e a máquina permanecerem fins em si mesmos em vez de meios para libertar sempre mais as energias do espírito do peso do trabalho mecânico, o indivíduo permanecerá escravo e a sociedade não encontrará seu equilíbrio definitivo”. E ainda: ”a solução não depende de melhorias nas condições exteriores de vida, mas de uma diferente postura do indivíduo para com sua obra”.
Apesar da literatura agregar conteúdo e cultura aos seres, muitas vezes são deturpadas com textos simplistas, por vezes mal escritos ou pensados em uma forma dialética de atingir o ser. Se o indivíduo é o que lê, vê ou consome, a sociedade está destinada a estagnação cultural em relação às formas de cultura oferecidas, em especial no Design. Gropius, possivelmente, estaria enojado ao vivenciar o aprimoramento teórico – ou a falta dele – do indivíduo enquanto projetista, agregado as novas formas literárias, mas seria de forma superficial compreensivo, pois o consumo no pedestal social gera alienação focada nas mídias que por sua vez, tendem a priorizar bundas, baixarias e fofocas em uma sociedade que transformou a literatura – caso possa ser chamada assim – de Paulo Coelho em sucesso garantido.
Portanto, é necessário observar o novo ser como um indivíduo capaz de pensar, analisar e angariar conteúdo para si, através de aprimoramento teórico e produtos que transmitam conceitos ou mesmo pitadas constantes de cultura, para então regredir a catástrofe intelectual, vivenciada nos tempos modernos em todas as camadas sociais. O que falta atualmente é interesse na importância teórica em todos os níveis profissionais, como se a herança literária bravíssima da humanidade, não fosse importante ou mesmo imponente. Não é de se espantar que profissionais de áreas periféricas tendem a intrometer-se de forma voraz nos interesses do designer, já que o mesmo na sociedade contemporânea não consegue analisar sequer um texto sóbrio ou mesmo ter interesse por conteúdo teórico de qualidade indubitável.















