Capítulo 28 - Reencontros.
Depois de ficar quase a noite toda na praia com o Gui, ele me deixou em casa. Quando eu cheguei em casa meu pai tava sentado no sofá vendo TV e rindo do que tava passando, me sentei do lado dele e ele tava assistindo algum programa que eu não consegui descobrir qual era mas era realmente engraçado.
Pai: Onde você tava? - Ele abaixou o volume e me encarou.
Eu: Na praia.
Pai: Alguém te trouxe, quem foi?
Eu: O Guilherme.
Pai: Menos mal.
Eu: Por que você tá acordado até agora?
Pai: Tava te esperando chegar - ele sorriu e eu também.
Eu: Sério isso? E o trabalho?
Pai: Resolvi seguir o conselho da minha filha e parar de trabalhar um pouco - ele bagunçou meu cabelo com a mão. - Vai dormir que amanhã a gente vai sair cedo, cuidado pra não acordar a Anne.
Eu: Boa noite - eu dei um beijo no rosto dele e me levantei.
Pai: Boa noite filha - ele desligou a TV e me seguiu pela escada. - Ah, Khloe - ele me chamou quando eu cheguei na porta do meu quarto.
Eu: Oi pai.
Pai: Eu te amo.
Eu: Também te amo pai - eu sorri pra ele e entrei no quarto.
A Anne tava deitada na minha cama, como sempre, joguei o edredom por cima dela e pensei em deitar mas tava sem sono então resolvi fazer uma coisa que eu não fazia a muito tempo.
Procurei a chave nas minhas gavetas e depois de muito custo achei ela na gaveta de calcinhas, fechei a porta do quarto, entrei no closet e destranquei a porta, entrei, tranquei por dentro e subi as escadas.
Tava tudo do mesmo jeito. A sala grande, branca com uma parede preta e uns detalhes que eu e o Lucas fizemos quando descobrimos o lugar e uma janela enorme que dá bem pra casa do Fred. As duas cadeiras de balanço estavam de frente pra janela grande com um cobertor em cima de cada uma, a estante cheia de livros e o armário estavam um pouco empoeirados, tinha sapatos e roupas espalhadas por todo o carpete preto, a escrivaninha estava cheia de papéis espalhados e o telefone estava no canto direito onde não tinha papel, meu antigo violão estava encostado na estante e o piano, que antes era do meu avô, estava do mesmo jeito que ele deixou quando trouxe pra cá, encostado na parede preta com um pano branco por cima.
Eu e o Lucas costumávamos vir aqui quando nós tínhamos uns dez anos, a gente brincava de esconde-esconde e pega-pega pela casa toda e quando a gente quebrava alguma coisa, nós vínhamos correndo nos esconder do meu pai. Esse é, de longe, o melhor lugar favorito da casa, é grande, espaçoso e tem isolamento acústico, ou seja, o barulho que é produzido aqui, ninguém ouve.
Fazia tempo que eu não subia aqui, a última vez que eu subi foi quando eu briguei com o Lucas, eu subi correndo e ele veio atrás de mim, nós brigamos, ninguém ouviu, ele foi embora e nós nunca mais conversamos, até agora.
Eu peguei os cobertores que estavam nas cadeiras de balanço e as roupas que estavam no chão, minhas e do Lucas, dobrei e coloquei dentro do armário. Juntei os papéis que estavam espalhados e coloquei no canto da escrivaninha, do lado do telefone. Tirei a poeira da estante e do armário e puxei o pano do piano.
A última vez que eu vi esse piano descoberto foi quando ainda estava na casa de bonecas do meu avô, antes de ele morrer ele trouxe ele pra cá e o cobriu e nós nunca ousamos tirar o forro, até hoje. Dobrei o forro e guardei, peguei as partituras e coloquei em cima da cauda do piano e peguei meu violão, que eu nunca soube tocar, só afinar. Tava bem desafinado e eu aproveitei pra afinar, quando terminei o coloquei no lugar e quando estava prestes a descer as escadas o telefone tocou.
Eu: Alô?
Lucas: Oi KDB.
Eu: Oi LK.
Lucas: O que tu tá fazendo aí em cima?
Eu: Arrumando. Como você descobriu que eu tava aqui?
Lucas: Liguei pro seu celular e o Guilherme atendeu - eu bati a mão no bolso da calça e senti a falta do meu celular.
Eu: Ah, devo ter esquecido no carro dele, mas o que te levou a deduzir que eu estava aqui?
Lucas: Você fugiu da escola, depois fugiu de casa e voltou só agora, onde mais você estaria? Dormindo que não.
Eu: Parece que você me conhece bem não é?
Lucas: Acho que de todos esses anos de amizade eu aprendi algumas coisinhas.
Eu: Eu tirei o pano do piano do vovô.
Lucas: A gente tinha combinado de fazer isso juntos - ele suspirou alto demais.
Eu: Não lembrava, desculpa.
Lucas: Tudo bem, não ligo - ele suspirou de novo. - A gente precisa conversar.
Eu: Sobre o que? - Minha voz pesou.
Lucas: Sobre tudo mas agora vai dormir, tá tarde, amanhã a gente se vê.
Eu: Tudo bem.
Lucas: Boa noite, dorme bem.
Eu: Boa noite, você também - ele desligou e eu coloquei o telefone no gancho.
É incrível como o Lucas sempre sabe onde eu tô, ele sempre me acha em todos os lugares, acho que é um dom, sei lá.
Eu desci as escadas, entrei no closet, tranquei a porta e me deitei. Coloquei os fones, liguei o iPod e tava tocando Radioactive do Imagine Dragons com o Kendrick Lamar, me cobri e enfim, dormi.
Anne: Koe, acorda Koe, a gente tá atrasada - ela me sacudia freneticamente.
Eu: Ei, calma, já acordei - eu segurei as mãozinhas dela e levantei.
Anne: O papai já vai sair, me veste logo ou ele vai sem a gente - ela correu e pegou as roupinhas que ela tinha separado e me entregou.
Eu: Tudo bem, calma.
Eu coloquei as roupinhas dela na minha cama, fui no banheiro, coloquei pasta de dente na escova dela e na minha e depois de escovarmos os dentes e pentearmos o cabelo, eu fui vestir roupa nela.
Eu: Pra onde nós vamos?
Anne: Sair né.
Eu: Mas pra onde?
Anne: Não sei - ela amarrou o cadarço dos tênis e eu me levantei e me vesti.
Todo mundo já estava pronto, meu pai sentado na mesa com um jornal em uma das mãos e um copo de café na outra, a Milena do lado dele comendo uma torrada e com um copo de suco na mão. Eu coloquei a Anne na cadeira e sentei do lado dela.
Eu: Bom dia - eu sorri e peguei o suco.
Anne: Bom dia - ela falou com a boca cheia de cereal.
Milena: Bom dia amores, dormiram bem? - Ela me encarou.
Pai: Bom dia - ele olhou por cima do jornal e deu um sorriso.
Eu: Dormimos perfeitamente bem, pra onde nós vamos?
Pai: É surpresa, vocês estão prontas?
Anne: Eu tô - ela comeu mais um pouco do cereal e empurrou a tigela pra longe.
Eu: Também tô - eu dei um gole no suco e afastei o copo.
Pai: Vamos então - ele colocou o jornal em cima da mesa e nós levantamos.
Nunca foi comum nós saírmos em um sábado de manhã pra passear e também nunca foi comum nós tomármos café todos juntos, quase todos já que o Caio não tava aqui, mas tudo tem sua primeira vez.
Eu e a Anne dividimos o fone e fomos cantando as músicas que estavam tocando no iPod dela enquanto meu pai e a Milena riam ou conversavam. Demorou um pouco pra gente chegar e quando eu olhei pela janela percebi que a gente tava em Petrópolis.
Eu: O que a gente veio fazer em Petrópolis?
Pai: É surpresa, não tenta estragar - ele me olhou pelo retrovisor e piscou.
A última vez que eu vim em Petrópolis com meu pai, ele ainda estava casado com a minha mãe e eu tinha 9 anos, ou seja, já tem tempo.
Eu voltei a cantar com a Anne até meu pai parar o carro na garagem da nossa casa. Eu tirei a Anne da cadeirinha, nós descemos e ela saiu correndo pra investigar o lugar. Eu larguei a bolsa dentro do carro e coloquei o óculos de sol no alto da cabeça e fui atrás da Anne, que estava tentando abrir a porta de entrada, eu abri pra ela e nós entramos.
Estava totalmente diferente, agora a sala de estar tinha dois sofás e algumas poltronas de frente para a televisão 3D pendurada em uma das paredes, a sala de jantar que era do outro lado tinha uma mesa enorme com lugar para umas 15 pessoas e do outro lado da sala tinha outra televisão pendurada na parede, uns puf's espalhados e um vídeogame na estante.
Pai: Bom, chegamos, agora vamos lá no fundo - ele me puxou pelo braço e todos nós seguimos ele.
O corredor que dava pro fundo da casa estava do mesmo jeito, as fotos da minha mãe com a gente estavam na parede junto com todas as outras fotos da nossa família.
Milena: O que você tanto esconde aqui Tom? Acaba logo com isso, você sabe que eu odeio surpresas - ela já estava impaciente.
Nós andamos mais alguns metros e ele abriu a porta dos fundos. A piscina estava quase mais limpa que a lá do Rio e até parecia que a gente morava aqui, a grama tava bem aparada e a mesa estava posta com café da manhã.
Eu: Tem gente morando aqui?
Pai: Vocês são muito desesperadas, se acalmem.
Nós passamos pela piscina e lá estava o famoso labirinto no meio do jardim, nós contornamos o labirinto e fomos para o fundo do jardim, quando meu pai abriu o portão lá estava a surpresa, um monte de gente que eu nunca tinha visto na vida.
A mulher, de uns 40 anos mais ou menos, veio na nossa direção e abraçou meu pai e depois a Milena, ela falou algo com a Milena mas eu não consegui ouvir, e em seguida me encarou.
Pai: Essa é a Greice, ela é mãe da Milena - eu encarei ela.
Greice: E você é a famosa Khloe né? - Ela olhou nos meus olhos e os olhos azuis quase saltaram pra fora.
Eu: Muito prazer - ela me deu um abraço e depois me empurrou e abraçou a Anne que não fez muita questão de retribuir o abraço.
Pai: Esse é o marido dela, Tiago, pai da Milena - ele deu um beijo na testa da Milena e me deu um abraço apertado, ele tinha cara de ter uns 50 anos ou até menos.
Eu: Oi, prazer.
Tiago: O prazer é todo meu - ele sorriu, os dentes brancos brilhando.
Pai: Essa foi a surpresa da Milena - ele sorriu. - O resto das pessoas você conhece não é mesmo? - eu fiz que sim, era um dos melhores amigos do meu pai e sua esposa. - Ótimo, agora a sua surpresa - ele alargou o sorriso e um garoto saiu de trás dos arbustos.
O garoto era alto, o cabelo castanho claro era curto, ele era bastante forte e andava com um jeito superior, eu encarei bem o alto da cabeça dele, que estava abaixava e tentei reconhecer mas sem sucesso. Ele chegou bem perto e levantou a cabeça pra me encarar, foi quando meu coração acelerou e eu consegui ver quem era. Landon. Ele continuava com a mesma cara de malandro e o mesmo ar superior de sempre, o sorriso de canto que ele dava quando conseguia alguma coisa estava ali também, ele chegou mais perto, me abraçou.
Eu não abracei ele de volta, eu não disse nada, assim como ele também não disse, eu não tinha o que dizer, eu queria correr dali. Eu devia ter associado os pais dele com ele mas isso nem me passou pela cabeça, fazia tempo que eu não os via e eu nem lembrava mais que eles eram cheios dessas surpresas.
A última vez que eu vi o Landon foi em um natal, antes de eu parar de falar com o Lucas, antes de ele ficar com a Jade, quando eu ainda chorava. Eu não queria ver ele, não queria que ele voltasse mas, surpresa, aqui estava ele.
Eu queria que o Lucas tivesse aqui, ele sempre sabe como me tirar dessas situações mas ele não tava. O Landon me soltou e me encarou, eu desviei o olhar e ele sorriu.
Landon: Sentiu minha falta?