Feliz dia internacional da mulher para, nós, mulher. Em especial, a minha amiga Fernanda Schmitt, a quem eu dedico, finalmente, um capítulo. Seu aniversário é dia de 19, ainda faltam alguns dias, é verdade, mas como presente bom, é presente adiantado. Eu me antecipei afinal não é preciso esperar datas para presentar uma amiga querida.
Essa moça de sorriso fácil, olhar encantador e bochechas rosadas. Que sempre me incentiva a escrever. Mais do que comentar em cada capítulo, ela vai além e me faz sentir a melhor pessoa do mundo com seus elogios sempre tão carinhos.
Fiz um versinho para você, aqui, simples mas de coração ♥
21 de janeiro de 2013
Por Thiago
Ligar para Marjorie não foi uma boa opção e apesar dos meus pensamentos conturbados a noite passada, eu levantei cedo – pra ser honesto, eu mal dormi – depois de mais uma discussão com a Mariana.
Estava no Projac mais cedo do que o de costume. Com os fones no ouvido, ouço So Easy, torcendo para encontrá-la antes de iniciarmos as gravações – precisava vê-la, apenas assim acalmaria meu coração –, entretanto quem eu encontro correndo pelos corredores é a pequena Eliz.
— Vamos tira uma foto, minha prima quer tirar uma foto com você.
— Vamos… - Sorrindo, pego-a no colo. - E eu não ganho nenhum abraço? - resmungo a abraçando apertado, antes mesmo dela dizer que sim.
— Ai, meu pai, a foto.
— A foto – Faço uma cara tristonha e a coloco no chão. —, aonde vocês querem tirar a foto, aqui, pode ser? - pergunto, jogando o fone de ouvido sobre o ombro.
— Não, tem que ser lá no estúdio. - Eliz adianta, puxando-me pela mão, ela corre até o estúdio e o invade sem a menor cerimonia.
— Eliz, estão gravando, aqui.
— Não estão, não, eu já verifiquei.
— Verificou? - Olho para ela impressionado. Bia Seidl, Isabela Garcia, Rhaisa Batista e Anna Sophia Folch terminavam o ensaio no momento em que tiramos a foto.
Enquanto Eliz se diverte pelo cenário, mostrando cada mínimo detalhe a prima Francielle. Anna e eu conversamos sobre a repercussão da sua personagem, a Heloísa.
— Vamos liberar o estúdio… Chega de foto, Eliz… - berra o Dennis. — Vamos gravar, acabou a farra.
Claro que a nossa festa não durou muito, saímos do estúdio correndo, Eliz ainda me olha amedrontada, mas eu estou rindo. Dennis é do tipo que faz brincadeira em tom sério, não há com que se preocupar, explico e em segundos ela e a prima estão rindo novamente. Quem também está dando risada por um motivo que eu desconheço é a Marjorie.
— Marjorie… Marjorie… - Eliz corre ao encontro dela. — Vamos tirar uma foto? - pede a abraçando pela cintura.
— Mais uma… - Marjorie sorri, afagando os cabelos da pequena. — Gostei do óculos – diz de repente, sustentando o meu olhar.
— E eu do lenço no pescoço. - retribuo, vendo-a corar — Ficou lindo. - Estranhamente lindo, Marjorie nunca usou o lenço desta forma, que até ela parece estranhá-lo.
— Marjorie, a foto.
— Ih, Eliz, você já tá com figurino e eu assim? - brinca, se referindo a própria roupa. — Essa foto vai ficar maneira. – Com um sorriso no rosto, elas fazem diversas poses para a foto. Me distraio com a cena, é difícil saber quem ganha no quesito caretas. Dando uma de fotografa particular Francielle registra as poses uma a uma.
— Vai lá, deixa que eu tiro a foto – digo com o meu celular em punho. Não perderia esse momento por nada.
— Obrigada. - Francielle ainda me entrega o seu celular antes de sair correndo e abraçar a Marjorie. Alguma dúvida se não é fã? — Ah, Thiago, eu adorei a entrevista que você fez com a Eliz no Vídeo Show.
— Vocês deram uma entrevista pro Vídeo Show? - Marjorie olha para mim depois para Eliz. — Você deu uma entrevista e não me conta nada é, dona Eliz?
— Ué, meu pai, precisa?
— Precisa ué… Me diz, você falou de mim?
— É… - Balança a cabeça. — Falei…O Thia- - Forço um pigarro antes que a Eliz me entregasse. Nós tínhamos combinado de não contar nada a Marjorie. Não sem que nós, dois, estivéssemos juntos. No fundo, eu não queria que ela soubesse da matéria, essa é a verdade.
— Humm… - Ah… se eu não conhecesse aqueles olhos curiosos. — Então, eu quero ver – pede animada. —, cadê?
— Aqui… eu tenho, olha. - Francielle mostra o vídeo salvo no seu celular. As vezes, só as vezes, eu me questiono se fãs existem mais para atrapalhar do que ajudar. Nesse caso, em específico, devo considerar ajuda? Sim, pelo modo como ela sorri ao ver o vídeo, eu devo considerar.
— Ah, quer dizer que eu sou… muito fofa, legal e gente boa?
— É o que a Eliz acha. - Faço graça e disfarço. Nós estávamos acompanhados da prima da Eliz. Se não fosse por ela, diria o que penso, mais do que isso lhe daria um beijo porque esta é a minha vontade desde que a vi chegar.
— Ãrrã – sussurra perto dos meus lábios. Estou me segurando para não pôr a mão em volta da sua cintura e trazê-la de uma vez para mim.
— Você é bem mais do que isso, você sabe…
— Sou? - Fecho os olhos quando sinto sua testa colada a minha, estou brincando com fogo… E vou me queimar.
— É - Aproximo nossos lábios, delicadamente peço passagem para beijá-la da forma como quero. Com os lábios cerados, ela me diz não. Alguém enfim tem juízo, e não sou eu. Quero quebrar sua resistência, vencer sua teimosia e no exato momento em que estou quase lá, Eliz pergunta:
— Vocês estão namorando?
— Não. Estamos. - respondemos em uníssono, cada um, uma resposta. — Estamos – afirmo sorrindo. —, não conta para…
— Estamos?
— Estamos.
— Desde quando? - Gosto do misto de alegria e confusão que vejo no olhar dela. — Que novidade é essa?
— Desde sempre, desde que eu te beijei pela primeira vez. - Toco o queixo com o polegar, mirando os lábios. É impossível não querer beijá-los. — Não vejo nenhuma novidade nisso.
— Thiago, você… – Agarra o meu pescoço e me beija, as mãos no meu cabelo, fazendo voltas iguais ao que a língua dá enquanto desliza suave sobre a minha. Porque quando ela resolve me beijar é sempre melhor? Onde estão a sua resistência e preocupação agora?
— Marjorie – Mordo o lábio. —, a Eliz.
— Ela não tá vendo – murmura, os lábios ainda próximos aos meus. Eu odeio decepcioná-la, mas estava sim.
— Estou sim. – Marjorie revira os olhos para mim, suspira e volta-se para Eliz, sorrindo.
— Acho que você grava agora, mocinha. - Ela pisca discretamente para a Francielle, que subitamente entende o recado, nós deixando a sós.
— Como foi o seu jantar? - pergunto a abraçando pelo ombro.
— Bom.
— Bom… - Encaro-a. — Só isso?
— É, e o seu como foi? - Paramos em frente ao seu camarim.
— O meu… O meu, é… Será que nós podemos voltar para a parte em que eu namoro você?
— Acho bom…
— Bom, só não, é… - Abro a porta e a empurro, levando-a comigo, beijo-a.
— A porta – murmura entre dentes. — Ta… Aberta.
— A porta – Voltamos para fechá-la. Dou um empurrão com o pé, sem me desvencilhar do seu abraço dou um beijo delicado no lóbulo da sua orelha. Corro o nariz pelo pescoço até o ombro, e volto sentindo o seu cheiro. Desato o fino nó do lenço, sinto-a tensa, olho para ela e com a boca aberta provo da pele livida, que com beijos ganha vida, tons e mais tons do que a simples palidez ou vermelhidão. — Que marca é essa no seu pescoço?
— Marca, que marca?
— Essa aqui, Marjorie.
— Ah, é torcicolo.
— E torcicolo deixa marca desde quando, Estiano Marjorie? - Meu sangue ferve, olho para ela furioso. — Isso ai tá parecendo um … e dos bons. Jantarzinho animado esse o seu, hein?
— Thiago, por favor.
Não dou ouvidos aos seus apelos, bato a porta atrás de mim e saio dali o mais rápido que os meus pés conseguem andar. Precisava ficar a sós. Coloco o fone de ouvido e rumo para o meu carmim.
Você não espera relaxar com uma música dela, né imbecil? Não adianta por mais que tente desviar o foco e lute para não pensar nela… Nela e naquele amigo idiota …. Amigo, ele tudo menos o que se pode chamar de amigo. Amigo da onça, é o que ele, para dar aquele chupão de deixar marcar. Ah… tudo me persegue: da sua imagem até a maldita música no celular. Troco de faixa para não ouvir mais o som da sua voz.
Droga, Marjorie, porque você fez isso? Não quero pensar, mas, ao mesmo tempo, estou pensando, ninguém faz nada sem o consentimento do outro. Se ela está com aquela marca grotesca no pescoço é porque permitiu, quis ou até desejou.
Marjorie se divertindo… E-eu… acabando o meu casamento por causa dela. Talvez eu não tenha feito a escolha certa. Mariana, será que ela está realmente grávida? Será que a Marjorie ouviu parte da conversa e…
Flashback
— Nós precisamos conversar. – Existe forma mais calhorda e cretina para começar uma conversa do que esta. Não, provavelmente não, mas é a única que eu consigo usar no momento.
— Que bom que você lembrou… Fico feliz que você tenha conseguido lembrar o caminho de casa, que tem uma ao menos. Ah… não, sua casa agora é outra, esqueci. Como foi a sua noite? Cuidou bem da sua Marjorie. - Ela está usando do seu tom irônico, eu sei bem o porquê.
— Mariana… - Olho para ela, o rosto inchado, os olhos vermelhos de tanto chorar. Não consigo falar. Nunca me imaginei nessa situação. Nunca imaginei que esse dia um dia chegaria, mas chegou. Sentado no sofá da sala eu a observo foliar o livro. Um gracioso divórcio é o que está escrito na capa, logo acima de uma fotografia propositadamente embaçada de duas mãos que se separam uma da outra.
— Escuta isso - diz ela e começa a ler:
O propósito do ritual de separação é substituir animosidade por harmonia. É uma mensagem que mostra que fechar a porta do casamento não significa fechar a porta do amor que sentem um pelo outro. Mostra que não importa para onde suas vidas levarão cada um de vocês dois a partir daqui, vocês sempre permanecerão conectados em seus corações…
— Irônico, não é? Ler isso justo hoje… - suspira, fechando o livro. — Eu só não sei se eu acredito realmente nisso, você acredita? - Estou me sentindo o pior dos homens. Culpado por amar demais alguém e por conta disso fazer outra sofrer.
— Mariana, quanto a nós, eu não sei, mas pelo Benjamin, nós podemos manter o amor. - Engulo em seco, não digo mais nada. Sempre foi assim na nossa relação. Ela fala, eu escuto.
— É… é o que eu imaginava que você fosse me dizer, mas eu não concordo, não aceito. Não vou me separar de você, Thiago, eu te amo. - Desvio o olhar incomodado, e no mesmo instante ela diz, cortando a distância entre nós. — Olha pra mim: Isso que você sente por ela é passageiro, vai passa, é amor de novela… - Dou um sorriso meio torto, suas mãos estão carinhosamente no meu rosto enquanto prossegue. — No máximo, é excesso de amor e dedicação ao seu trabalho, ao que você faz. Você vai ver quando tudo isso acabar, eu estou certa – suplica. — Olha para mim, Thiago, e diz que eu posso ficar tranquilha, que isso é só mais uma das suas aventuras malucas. - Aventura maluca?
— Não, não é uma aventura maluca, Mariana – Tiro suas mãos do meu rosto. —, eu adoraria que fosse, que fosse simples assim, mas não é. Não pensa que está sendo fácil admitir isso a você porque não é. Foi difícil para mim também. - Inspiro o ar e respiro fundo. — Eu tentei lutar contra esse sentimento, pensei em você, no nosso casamento, no nosso filho, na nossa vida e em tudo o que nós vivemos. Eu fracassei…. É mais forte do que eu….
— É assim que termina? - Para na minha frente. — É mais forte do que eu, é essa a sua justificativa para me convencer a pôr um fim ao nosso casamento - esbraveja. — Ah… Thiago seja homem e assume pra você mesmo, pelo menos uma vez, que você ama outra, cretino.
— Eu amo a Marjorie… - As palavras saem subitamente da minha boca. É um alívio poder dizê-las. — Se é isso que você precisa ouvir para me dar o divórcio eu digo e repito quantas vezes forem necessárias: Eu amo a Marjorie e nada nem ninguém vai me impedir de ficar com ela. - Acho que exagerei. Mariana está perplexa, não diz nada, apenas me olha furiosa.
— Uhru, agora sim, eu estou vendo um homem de verdade na minha frente. - Aplaude de repente. — O que mais, vai continua… Cê vai dizer que eu não presto, que ela, sim, é maravilhosa. Que o nosso amor acabou não sei, quando… mas nós podemos continuar sendo bons amigos pelo bem do nosso filho. - Ah… voltamos ao tom irônico de antes.
— Ah… Mariana, por favor.
— O que foi, não é isso, eu falei alguma coisa errada? - Reviro os olhos para ela, puxando o celular do bolso. Marjorie não retornou as minhas ligações. — Não é isso o que você quer, Thiago, um divórcio amigável. Pois saiba que eu não vou facilitar em nada a sua vida, ouviu?
— Humm… - murmuro antes de atender o telefone. — Oi, Mah, só um minuto. Não posso falar agora. - Saio da sala ouvindo os protestos da Mariana.
— Você acha que eu estou brincando? - Vou até a cozinha. Não estou muito longe da Mariana, ainda ouço sua voz exaltada da sala.
— Agora posso, fala. - Diante do seu receio, insisto. — Marjorie, amor, fala… - Faço questão de pronunciar seu nome. Não tenho mais porque fingir. — Quê? - Ela é o meu amor, mesmo assim não consigo dizer que a amo. — Mah, eu… - Ela então começa a cantar. — Você bebeu de novo, Marjorie? - sussurro preocupado. — Que aposta? - sussurro de novo. Mariana está ao meu encalço. — Eu…
— É ela? - questiona abruptamente, arrancando o celular da minha mão. — Eu tenho uma ótima notícia para contar… - Ótima notícia…
— Mariana, me dá o celular – grito exasperado.
— Calma, meu amor, deixa eu contar a novidade. - Ah, o que ela vai inventar agora? — Acho que você vai gostar de ouvir: Eu estou grávida. - Antes que ela invente mais uma loucura, recupero o celular.
— Mariana, meu… Deus, você enlouqueceu... Você não pode estar grávida!? É brincadeira…
— Eu estou com cara de quem está brincando, Thiago!? Claro que eu estou grávida. - Mentira… Mentirosa, como pode ser tão sínica. Meu pulso acelera, meu sangue corre mais rápido, estou me controlando para não explodir de raiva.
— Ah, jura… - Reviro os olhos, impaciente. — É o quê? Milagre do Divino Espirito Santo, porque eu não fui… Eu não toco em voc-
— Thiago, você está me ofendendo. - Sua cara de choro, não me convence. Quem está ofendido e revoltado aqui, sou eu.
— Ah, desculpa… Você é a nova Maria, Cristo veio nos salvar, aleluia. - Uso do puco cinismo que me resta. — Ah, me poupe, Mariana, você não está grávida coisa nenhuma. O Benjamim tem só um ano, mal vai completar dois. Que eu saiba seus planos não são esses.
— Os planos mudam, sabia? Especialmente quando o marido está claramente interessado em outra mulher. Você acha que eu sou cega, que eu não percebi o seu interesse pela Marjorie desde o incio. Eu vi esse amor antes mesmo de você. O que eu podia fazer, senão usar de outros métodos para alcançar o meu objetivo.
— Não, você não usou… Sem a minha autorização, Mariana, você não pode usar o material da clínica de fertilização sem o meu consentimento.
— Quem disse que não, Thiago, quer pagar para ver – provoca. — Eu não acredito que um pai tão dedicado e amoroso como você vai abandonar seus filhos, vai?
— Abandonar, nunca. Eu nunca vou abandonar o Benjamin, nunca. - Me desespero. Não gosto do tom de ameça na voz dela.
— Ah é… Tem certeza, porque é isso o que você vai fazer se escolher ficar com aquelazinha que você diz que ama.
— Você não faria isso.
— Você não me conhece, meu amor, não sabe do que eu sou capaz por amor a você. Você quer ficar com Marjorie, não quer? Fica e vamos ver o que acontece com as pessoas que você mais ama.
~*~
— Bora trabalhar, Thiago. – Desperto dos meus devaneios com os gritos do Lázaro. — Você ainda tá assim – repreende. — Bora, o Dennis…
— O Dennis espera! - resmungo, esfregando os olhos, com ânimo zero para terminar de me arrumar.
— O Dennis nunca espera! – grita de novo, já no corredor. Visto o paletó, pego o roteiro e bato a porta ainda a tempo de alcançá-lo no fim do corredor.
— Já te disse que você é o pior colega de cena, hein seu filho de uma…
— Olha os modos, loirinho, isso é racismo e eu posso te processar.
— É racismo, eu te chamar de…. – Caio na gargalhada. — Ata.
Olho o roteiro, tenho seis cenas hoje. Uma com Lázaro, outra com a Bia, duas com Emílio e outras duas com a Marjorie. Dia cheio, ótimo. As cenas com a Marjorie estão programadas, uma para o período da tarde e outra a noite. Melhor assim, até lá eu ganho tempo para por minhas ideias em ordem.
O dia correu normalmente, como tinha que ser, gravei minhas cenas com Lázaro e Bia na parte da manhã. Almocei com Emílio e contei a ele sobre o ocorrido mais cedo. Ele me disse que eu estava sendo infantil por sequer ouvir o que a Marjorie tem a me dizer. Dizer o que? Que não tem culpa do amigo que tem? Não acho que seja infantilidade da minha parte. Se ele visse o que eu vi entenderia a minha indignação.
As três da tarde começamos os ensaios novamente. Leio o script enquanto o Vinícius passava as marcações da cena para Marjorie. Nós, dois, não conversamos muito, mas a julgar pelos nossos ânimos alterados não seria difícil gravar a cena.
INT. RUA DO OUVIDOR – TARDE
EDGAR e LAURA se encontram no meio da rua e trocam acusações.
— Oi, Laura. – Comprimento a, com as mãos enfiadas no bolso da calça.
— Oi, Edgar.
— Quanto tempo?
— É… É desde que você… - Baixa a cabeça, passa a língua entre os lábios, levando as mãos a altura das sobrancelhas. — Acabei de encontrar com a sua mãe. - Encara-me, impaciente.
— É… Ela tá bem? - Tento não olhá-la diretamente nos olhos, afinal é só um ensaio.
— Ela tá, me diz que voc-
— Você tá bem? Não, não precisa responder, não, deve tá muito bem. - Os gestos com as mãos são automáticos, antes que Vinícius instrua, executo.
— Tô, tô bem, sim – ela diz enfática. Seu jeito de falar me impressiona. E outra vez misturo realidade e ficção.
— Ótimo! - finjo desinteresse.
— Cada vez melhor. - salienta. E como… A maquiaram bem, o hematoma no seu pescoço é impercebível.
— Maravilha, não esperava outra coisa. - Olho para ela, irritado e me cobro por isso.
— Quer saber o porquê? - ela pergunta e faz uma pausa. Olha para o Vinícius pedindo socorro. Arregalo os olhos. Ela esqueceu o texto? Vinícius então diz a fala completa de Laura, pedindo para repetirmos as três últimas falas e assim o fazemos até chegar ao ponto em que paramos. — Porque você não esperava outra coisa? - Sua voz é mais calma, mas nem por isso menos ressentida. — Queria que eu estive mal?
— Não, claro que nã- - gaguejo aflito.
— Que eu estive péssima? - retruca. — Ao contrário de você, Thiago, eu quero que você fique bem. - E paramos de novo. Vinícius olha para ela e pergunta se é preciso interrompermos o ensaio.
— Precisa de dez minutos, Marjorie? - ela nega. — Então concentra, por favor – pede ele antes de retomarmos a cena.
— Ao contrário de você, Edgar, eu quero que você fique bem. E pelo que diz a sua mãe, você já tá. - Boquiaberto, exclamo:
— E-eu tô bem!? - Aponto o indicador para mim mesmo e depois para ela.
— Que bom… Então eu posso ficar… - Nós já não esperávamos um ao outro para falar. Essa é a proposta da cena, o que deixa tudo mais divertido. Não que eu esteja me divertindo.
— Quê foi que minha mãe disse? - Cruzo as mão em frente ao corpo. — Minha mãe disse o quê?
— Também porquê eu ia me preocupar? - fala consigo mesma, as mãos imitando uma pinça. —Cheguei achar que você tivesse aborrecido.
— Eu achei que você tava aborrecida comigo – acuso. — Você que nem tava pensando. - interponho a sua fala.
— Você nem ao menos tava pensando. Você tava mesmo aborreci- - falamos juntos, quase ao mesmo tempo.
— Você tá aborrecida comigo? - Iguais, eu me via na sua atuação. É impressionante a nossa sintonia. Somos o reflexo um do outro.
— Por que?
— Você ainda pergunta? - Ergo as sobrancelhas. — Você devia saber.
— Dev- - Com o indicador em riste, ela me acusa. — Você.. Você…
— Eu não fiz nada. Não fiz absolutamente nada. - Fecho os olhos, respirando fundo, mudo de tom. —Quer dizer eu fiz sim. Eu… Ma-Laura, eu… - Obrigo-me a concentrar, não era hora nem lugar para falar sobre nós. — Agora eu reconheço, eu cheguei a falar com a minha mãe.
— Dona Margarida. - pronuncia, balançando a cabeça. — É, eu imaginava isso.
— Eu ia falar, eu tinha que falar com voc-
— Não, não precisa falar, não precisa fala comigo, Edgar – Sorri com desdém —, aliás eu já sei o suficiente.
— Sabe!? - Estranho o seu tom de voz. — Mas como, a gente não se fala desde daquele dia lá na…
— Edgar, eu não quero saber, nã-não fala, não – Cruza a minha frente e caminha a passos largo. —, não precisa me falar nada, você não precisa se justificar.
— Não, não é isso, eu quero que você entenda, Laura.
— Eu entendi. Eu entendi, Edgar, e você não tá errado não, você tá certo. - A mão espalmada, os cinco dedos estendidos na minha direção. — Você seguiu a sua vida, você conseguiu fazer isso, eu vou conseguir também.- A fala podia ser da personagem, mas sei que ela fala com intenção de me atingir.
— Mas.
— Ótimo! – diz Vinícius. — Vamos dar uma pausa, e voltamos para gravar. - Aproveito do curto tempo para ler e evito conversar, mas a Marjorie não parece disposta a fazer o mesmo.
— Thiago sobre o jan…
— Marjorie, eu não quero saber, tem coisas que eu prefiro não saber. É melhor assim… - Tiro os olhos do roteiro e olho para ela. — Eu já estou com raiva, não me faz ficar ainda mais irritado com você, por favor.
— Ah… Irritado. Cê tá irritado!? Eu também deveria estar…
— O QUÊ? - Exalto-me. Será que é tão difícil, para ela, entender que eu não quero conversar.
— IRRITADA – diz no mesmo tom exaltado. — Eu quem deveria estar irritada com você. Como vai a Mariana e o bebê? Não, não precisa responder, não, deve tá muito bem, obrigada. - Droga, ela ouviu minha conversa e entendeu tudo errado. — Agora me diz: em qual Thiago eu devo acreditar, no que me beija e diz que estamos namorando ou…
— E nós estamos, Marjorie… Quer dizer, me diz você se nós estamos.
— Com a Mariana grávida?
— Marjorie…
— Não fala, não precisa explicar, Thiago, agora sou eu quem prefere não saber. - Ótimo… Maravilha… Ela me dá as costas e sai pisando firme. Agora tenho certeza: gravaríamos esta cena de primeira.
~*~
— Terra chamando, Thiago.
— Hã… – Ainda perdido em pensamentos, olho para o Emílio. — O que foi?
— Eu que pergunto, o que houve para você estar tão aéreo?
— Nada – desconverso, mesmo sabendo que não adiantaria muito.
— Esse nada aí tá com cara de Marjorie, porquê será? - Encolho os ombros, Emílio é o único amigo com quem eu posso contar.
— Tô pesando se eu fiz a escolha certa – desabafo. Eu não podia estar pior. Meu coração me dizia uma coisa e a razão outra. Quero acreditar em Marjorie, preciso acreditar para seguir em frente, mas o que eu vi, não me deixa em paz… E se…
— E?
— Não sei.
— Você já conversou com a Marjorie? - interroga ele, muito gentilmente para o meu gosto. — Ouviu o que ela tem pra dizer?
— Mais ou menos.
— Mais pra mais ou mais pra menos?
— Mais pra menos, Emílio, não enche – suspiro. — Ela até tentou falar comigo sobre o jantarzinho romântico, e eu a cortei na hora. Não consigo olhar para ela, muito menos falar que o que ela ouviu sobre a gravidez é mentira.
— Ah… - Ele sorri e desvia o olhar com tom debochado. — Então desculpa, meu amigo, mas não dá para te defender, não.
— Cala boca, Emílio… - Ando de um lado a outro no estúdio, mais um pouco e eu crio um buraco de tanto andar. Não aguento mais esperar. — Cadê a Marjorie que não chega para porcar- da cena.
— Não consegue olhar para cara dela, mas taí todo preocupado… - Eu lhe dou um sorriso irônico e volto a andar. Henrique, assistente de direção entra no estúdio pouco tempo depois. Sua expressão é séria.
— A cena da Marjorie e da Eliz vai atrasar um pouco…
— Ah… é, e a gente faz o quê, senta e espera? - pergunto, de repente, irritado.
— É… Eu sugeriria exatamente isso, agora se você não quiser espera, resolve com Dennis. - diz ele. — Já aviso que dificilmente ele vai te ouvir, a gravação atrasou por conta de um incidente com…
— Pra onde é que você tá indo? Ô Thiago! Ô Thiago! Eu falo o que pro Vinícius?
~*~
— Camila, mas pânico na voz, é um incêndio, lembra, a Isabel está desesperada. - orienta o Dennis. — Lázaro, não esquece de chamar o César, entrega um cobertor para ele. – Vira-se para orientadora de filmagem. — Marjorie e Eliz – pergunta sério —, tudo bem? - Ela confirma que sim com aceno de cabeça e eles continuam conversando. Há uma movimentação maior em torno da Eliz, mas Marjorie também recebe cuidados da equipe apesar de recusá-los.
— Você encenou direitinho a Melissa, bem demais até - Preocupada, Marjorie está agachada na frente da menina enquanto conversa. —, mas você não pode inalar um monte de fumaça e seguir com a cena, combinado? - Reparo no figuro sujo, então entendo o motivo da bronca. — Tem que avisar… Primeiro a sua vida, depois a da personagem, mocinha. - Eliz encara o copo d’ água em mãos e sorri envergonhada. — Se eu não tivesse me machucado, nós não teríamos parado a gravação, e aí você desmaia de verdade e eu faço o que?
— Me salva, ué? - exclama Eliz, com o seu jeito brincalhão. Bebe um gole d’ água, se esquivando do olhar repreensivo da Marjorie
— Você vai ver, te salvo.
— Marjorie, tudo bem com a Eliz, podemos voltar a gravar? - questiona o Dennis. É nessa hora que eu sou notado, e ela fica sem fala.
— É… podemos – gagueja. — A Eliz… Thiago, você fica com ela?
— Fico. - Seus olhos fitam os meus, sem ressentimento. O que me dá coragem para perguntar. — Você se machucou?
— Ta tudo bem, esquece.
— Marjorie. - Revirando os olhos, ela estende o braço. Toco o ferimento, a pele arrepia com o contato. O corte não era profundo, forma uma risco pequeno no punho – o qual eu cubro com o polegar - a palma da mão estava queimada superficialmente. — Você tem que cuidar disso. - Olho para ela, preocupado.
— Depois… – Ela se esquiva, encolhendo o braço de repente. — Agora não dá. - justifica e sai apresada. — Tenho que gravar. - Ótimo, voltamos a estaca zero. — E você, ô herói, vê se me tira logo lá dentro, não quero morrer asfixiada. - Marjorie brinca ao falar com Lázaro, mas não sei porque há um fundo de verdade na sua voz.
Dennis dá as últimas orientações ao grupo antes de autorizar a gravação. Pede aos responsáveis técnicos que aumentem a intensidade das chamas e aquilo me aterroriza por dentro.
— Dennis, você não acha que tem fogo de mais?
— Relaxa, tá tudo sob controle – Ele dá um sorrisinho. —, o pessoal da técnica está cuidando de tudo.
— Dennis, você tem certeza?
— Thiago, você veio aqui pra quê? - Arqueia as sobrancelhas, irritado. — Ta querendo me ensina a reza a missa?
— Essa cena está toda errada mesmo. Quem devia está salvando a Laura sou eu, o Edgar. - Dennis dá risada.
— Ah… Entendi… Ta querendo dá uma de dramaturgo também e rescrever a novela?
— E-eu não… não. - Coro. — Só acho que…
— É, eu sei… Sinto muito, mas não vai dar, o herói do morro tem que ser um negro. - Vira-se de frente para o monitor. — Senta, lá e espera, daqui a pouquinho sua amada estará salva. - Deveria sair dali com a Eliz, mas não consigo. Fico e acompanho atento a gravação. Mal pisco quando o Lázaro sai de dentro da escola em chamas, carregando a Marjorie no colo. Sinto um alívio no peito, que só não é completo porque não sou eu a segurá-la. Não posso chegar perto, muito menos tocá-la. — Perfeito! Vamos manter o foco e gravar por outro ângulo. – Outro ângulo?! Ah, Deus, vou ter um infarto.
— Thiago – Levo um susto. Aline, assistente de direção me avisa que a Eliz tinha ido embora com a prima e que podia fazer o mesmo. — Você pode ir, cancelamos sua última cena.
— Ah, não… Vou ficar por aqui mesmo, obrigado. - A cena está quase no final, Marjorie está sendo amparada por Lázaro e Camila para se reerguer. As câmeras focam seus passos e a expressão de dificuldade para caminhar.
E então finamente, Dennis encera. — Valeu cena! - comemora. — Bom trabalho, pessoal, enceramos por hoje. - Estão todos vibrando por mais uma cena concluída, especialmente a Marjorie. Fico feliz por ela, por ver o seu sorriso de vitória estampado no rosto.
— Marjorie – chamo-a. —, ótima cena, parabéns. - Ela não diz nada, apenas caminha ao meu lado em direção aos estúdios. Me pergunto se devo tocar no assunto Mariana para ao menos esclarecê-lo. Enchendo-me de coragem, decido falar — Marjorie, a Mariana, ela não tá grav-
— Ah, não!? - diz, sem interromper a caminhada. — Eu ouvi da própria.
— Ouviu… Ouviu…
— Ouvi, ouvi você chamando ela de meu amor. - Ela olha para mim com os olhos triste, a voz furiosa. — A comemoração foi boa?
— E você, a sua comemoração foi boa? - Aperto o passo para acompanhá-la. — O jantarzinho foi gostoso? - indago no mesmo tom.
— Foi ótimo… - Vira o rosto, me encarando. — Foi muito gostoso.
— Não imaginava outra coisa, da mesa foram para cama. - Ah… droga, o que eu estou dizendo? Fazendo uma careta, ela para abruptamente. É agora que eu levo um muro na cara.
— E se eu tiver ido e gostado, qual o problema? - Preferia o muro na cara do que ouvi-la confessar tamanho absurdo. Não… Não é possível!
— Você tá me dizendo que foi pra… e gostou, Marjorie? - Só não a puxo pelo braço porque seria desrespeitoso da minha parte, mas era essa a minha vontade.
— Gostei – diz secamente. Pisco diversas vezes tentando entender o que se passa.
—Marjorie, você e o Miggiorin… - engasgo. — estão namorando?
— E se eu estiver namorando, qual o problema, você ama a sua mulher, Mariana.
— NÃO, NÃO AMO… EU PEDI O DIVÓRCIO.












