Para uma Laured/Thirjorie muito especial, Thalia Soares, que descobriu a fanfic com 8 capítulos já escritos e os devorou. Não por acaso este capítulo é dedicado a você. Não, não foi planejado, mas costumo dizer que está é uma das coincidências incríveis. Saiba que pensei em você ao escrever cada linha, e como não posso estar aí presente, lado a lado com você nesse dia tão importante, eu caprichei no cartão-presente.
Espero que você goste de mais este capítulo e deixe sua imaginação viajar enfim ;)
04 de fevereiro de 2013
Por Thiago
Abro o notebook. Checo os meus e-mails, o penúltimo bloco de capítulos já havia sido envido e apesar da obrigação de ter que lê-los, adio a tarefa, evitando assim a sensação de que Meu Deus, está acabando. Daqui um mês e um pouquinho as gravações terminam e tudo acaba.
Será? A quantidade de e-mails que recebo das fãs Laureds, me faz crer que não. A caixa de entrada novamente está cheia deles. Me espanto, a matéria que Marjorie e eu concedemos ao site da novela, bombou. Não há um e-mail delas que não comente sobre o assunto.
— O que você está lendo?
— Ah, tem as Laureds… Recebo vários e-mail delas. É muito engraçado. Descobri que com a Marjorie é a mesma coisa, o pessoal cai em cima dela. - Mordo a língua, arrependido. É tarde para voltar a traz e evitar os olhares repreensivos da Mariana.
— Eu quero ver é como você vai lidar com a pressão de quererem você junto com ela e não comigo. Não vai demorar muito para que você se dê conta do status que você pode receber.
— Mas isso já está acontecendo, Mariana, só não vê quem não quer – digo, desejando: —, boa noite.
— Boa noite, aonde você vai?
— Vou ler meus e-mails no quarto de hóspedes. - Com o notebook junto ao corpo, ponho-me de pé e arrasto os chinelos rumo ao quarto.
— Ah… você continua com essa brincadeira? - O divórcio? Arqueio as sobrancelhas.
— Eu falei sério quando disse que queria o divórcio, Mariana, se você achou que era uma brincadeira, lamento. - Interrompo o meu andar. — Ah, eu vou sair dessa casa o quanto antes, não se preocupe.
— Você não vai sair dessa casa, não se eu puder evitar. - ameça. — Você não sabe do que eu…
— Ah… eu sei, sim, você deixou claro isso, hoje. - Mariana me olha sem entender. Melhor assim.
Eu tinha motivos para me preocupar, claro. Se ela soubesse o que aconteceu hoje, mais cedo, então…
É um absurdo como ela consegue fazer esse jogo. A grua se move enquanto eu abraço e ela sorri com o olhar radiante, o mesmo que há quinze minutos mal olhava para mim. Eu consigo fazer o mesmo, se ela consegue porque eu também não conseguiria.
A lente da câmera foca o nosso rosto. Estou deitado de frente pra ela, minha mão esquerda desliza carinhosamente em suas costas. Sou eu ou está quente, mais quente que o normal?
— A gente precisa acorda? – murmuro, trazendo o seu corpo mais perto, continuo a acariciar suas costas num vai e vem suave, não resisto, desço um pouco mais, escorrego no quadril e volto rapidamente pousando a mão sobre a sua cintura.
— Precisa. – Ouço-a concordar, roçando os lábios em um beijo curto.
— Precisa levantar? - pergunto novamente com os olhos semicerrados.
— Nã-o… Não, levanta a gente não precisa, não. - Sorri com graça. — A gente pode passar o resto da vida aqui.
— Pra sempre, nessa cama.
— Nessa… cama – devolve pausadamente. É só o jogo cênico, eu sei
— Repete – peço, roubando outro beijo.
— Nessa cama, o resto da vida. – Com os lábios próximos aos meus, Marjorie completa a fala com um selinho, que se eu pudesse prolongaria.
— Peraí que vou pega um papel pra você assinar. - Giro o corpo sobre ela, apoiando o peso sobre os cotovelos.
— Nã-o… - Agarrando-me pelo braço, ela gira o corpo, apoiando as costas no colchão. — Não, senhor advogado, não precisa. Não precisa de nada – protesta, com as mãos no colarinho da minha camisa. —, só precisa de você aí e eu aqui. - Como queria que estivéssemos assim de verdade.
— Quando? - suspiro, sustentando o seu o olhar.
— Ah…– Vira o rosto, evitando-me. — Ai… Ai já é outra história.
— Humm – Admiro-a. —, não brinca comigo.
— É sério – diz, erguendo as mãos, bem-humorada.
— Não faz isso
— O quê? Eu já jurei pra você, pra nossa cama.
— Olha, nossa cama!? - Sorrio abertamente.
— Sempre foi nossa. – Seus dedos tocam a minha barba com carinho. Que privilegio o meu. Sou um homem sortudo só por tê-la assim sob o meu domínio.
— Cuidado – alerto. —, jurar sobre essa cama nessa casa é que nem jurar num tribunal.
— Sim, senhor.
— Se o juramento for falso as consequências serão gravíssimas
— Como assim, senhor?
— Haverá retalhações terríveis, ouviu?
—Ouvi, ouvi muito bem… – diz com aceno de cabeça. — Não, e diante de ameaças tão assustadoras, hã
—Hum
— Não me resta outra alternativa. – Posso beijá-la agora e isso é o melhor de tudo. Junto os nossos lábios em um beijo não muito demorado, mas o suficiente para saber que outra vez tínhamos ultrapassado a barreira em comum entre dois simples atores, que amam acima de tudo o que fazem.
Eu a sinto no beijo, no curto beijo que demos, no curto espaço de tempo em que minha boca ficou colada a sua. Assim mesmo eu a sinto. Marjorie, ela pode negar, fingir, evitar, usar das artimanhas do seu profissionalismo chato, sair sem trocar uma mísera palavra no fim de cada gravação, eu não ligo.
É pouco o que eu tenho, ainda assim é muito. É o pouco que eu posso ter dela diariamente. O que me preocupa é pensar: E quando eu não puder mais ter?
— E aí como foi, Thiago, encarou a ferra? - Emílio me para no meio do corredor. — Conversou com a Marjorie?
— E adianta? Mais do que eu já tentei – aperto o passo. —.Ela parece não se importar com o fato. - Ele franze a testa, aumentando o ritmo da caminhada.
— Vai ver ela não acredita que você tenha pedido o divórcio.
— Não acredita… - Paro subitamente. — Quem deveria estar furioso com ela sou eu, sabia?
— Porquê? Não vai me dizer que você ainda não esqueceu aquela história lá com o Le – Não queria admitir, mas, sim, eu não havia esquecido.
— Quer saber esquece…. Eu vou…Droga, esqueci a minha consulta com o fisioterapeuta.
— É agora?
— É, eu vou ver se consigo pegar um táxi a tempo.
~*~
— Mãe.. Mãe, eu te ligo. Mãe me ouve… Para de falar um pouco e me ouve, mãe, eu não tô em casa, te ligo quando chegar. MÃE, EU TE LIGO DEPOIS, AGORA NÃO DÁ.
— Problemas? - Eu não resisto e pergunto.
— Com a minha mãe, não, nenhum. - Dá de ombros. — Ela fala o tempo inteiro no telefone, a gente precisa gritar para ser ouvida, é natural. E você?
— Eu o quê? - Ela não quis dizer, mas estou feliz com a súbita preocupação. — Ah… perdi a hora no fisioterapeuta. - digo com ar despreocupado. — Acho melhor remarcar noutro dia.
— Que horas era a sua consulta?
— 17h45
— Ah… dá tempo, eu te levo! - Caminhando em direção ao estacionamento, ela faz sinal para que o acompanhe. — Só estamos 20 minutos atrasados. – Constata ela olhando para o celular, tirando a chave do carro da bolsa ao mesmo tempo.
— Oi? - pergunto surpreso, ainda estou parado no mesmo lugar, vendo-a se afastar. O que ela está querendo?
— Eu te levo! - Ela sorri gentil. — Chego lá mais rápido que uma tartaruga, mais veloz que uma lesma, vamos?
— Ah claro, Marjorie – Abafo o meu sorriso e acompanho-a até o carro, pela primeira vez em semanas ela estava falando comigo. Seria esse o seu jeito de estender bandeira branca. Desde que mencionei ter pedido o divórcio, nós não conversamos mais, não por falta de oportunidade ou de tempo, mas sim por simples teimosia.
No incio, eu não liguei, não queria falar e discutir o mesmo assunto de novo. Julguei que precisávamos de um tempo e eu dei. Dei tempo e espaço a ela, o que acabou comigo.
Nossas cenas, mera formalidade. Profissionalismo impecável, para não dizer, irritante. Foram poucas as vezes em que consegui quebrar a barreira imposta pela personagem, mas entre um beijo e outro, como o de hoje, ela cedia, eu podia sentir o gosto amargo do seu beijo.
Não são mais os mesmos beijos… E que falta faz.
Desvio o olhar para ela. Calada e tão concentrada na sua tarefa. Os ombros rígidos, as mãos firmes sobre o volante. Nenhum sussurro, nenhuma palavra de lá até aqui, não aguento mais o silêncio. Decido falar, dane-se a sua reação. Discutir é melhor do que nada.
— Marjorie, eu queria falar sobre a Mariana
— Ai…- Os dedos batucam impacientes o volante. — Esqueci de mencionar as regras dessa carona: Nada de falar sobre a Mariana ou Leonardo. - Ah…. Leonardo. Meu estômago embrulha só de ouvir falar esse nome.
— E se eu quiser falar?
— Você não quer que empurre você porta afora, quer? – Ela desvia rapidamente o olhar para mim.
— N-ão, não quero, obrigado por perguntar. – Um único e breve desvio de olhares foi o que consegui com a conversa. Meus parabéns, Thiago!
Volto a encarar a paisagem. O som do rádio faz companhia. Nada de músicas. Nada da sua voz cantarolando nos meus ouvidos, ao invés disso, a voz chata do locutor informa a hora e a previsão do tempo pro fim de tarde e o resto da semana. Na falta do que fazer, somo o número das placas dos carros que passam à nossa frente.
— Não falei? Chegamos mais rápido que uma tartaruga, mais veloz que uma lesma. - Ah… o bom humor, ainda estava presente ao menos.
Esperando que a Marjorie faça o mesmo, destravo o cinto e desço.
— Você não vem? - Espio pela janela. Ela não mexe um músculo, continua sentada.
— Não, eu não vou entrar, eu espero você aqui. - Não acredito… Vou ter que dar meia volta e arrancá-la de dentro do carro.
— Vem comigo. - Ainda olho para ela com as sobrancelhas erguidas, na esperança que ela se mova. Bom… a senhorita quem manda. Dou meia volta, alcançando a porta e abro-a.
— Porque você tá fazendo isso, Thiago?
— Eu quero a sua companhia, vem. – Estendo minha mão, sem saída ela levanta lentamente, pega a bolsa no banco traseiro, tranca o carro e me acompanha até a clínica.
~*~
— Eu podia ter esperado no carro, Thiago – resmunga, sentando se em uma das cadeiras da sala de espera. Olho pra ela, sem responder pego uma revista e lhe entrego. — Você quer que eu leia?
— Foleia – sugiro. —, vê se você encontra uma matéria sobre você. - Dando as costas a ela, me dirijo ao balcão de recepção.
— Sobre mim, por quê? Não dou entrevista para esse tipo de revista. - Ah… Duvido, com a revista de maior circulação do país sobre o mundo da fama em mãos, duvido que ela não tenha dado uma única entrevista a mesma. — É mais fácil eu encontrar uma sua. - insinua, enquanto a moça de cabelos negros e lisos me devolve o cartão de crédito.
— Ah… entendi, você não é notícia, não dá motivos pra ser. - Ela ri.
— Quem disse? Tudo para eles é motivo de manchete. - Sento-me ao seu lado, gostando do fato da sala estar vazia e estamos conversando normalmente. — Se eu estiver só de passagem pelo aeroporto, tá lá uma notinha. Eu bêbada, saindo de uma festa então, quer notícia melhor?
— Eu sei… - Tento parecer sério, mas as imagens que me veem a cabeça não permitem. Evidências, nunca mais seria a mesma canção, pra mim, não depois da sua interpretação. — Dá para imaginar eu juro, com perfeição, com riqueza de detalhes você bêbada, Marjorie.
— Se eu ganhasse dinheiro para tudo o que publicam ao meu respeito, já estaria milionária – debocha, caindo na risada. Na verdade, já estávamos rindo muito antes.
— Thiago, tô vendo que você trouxe uma assistente. - Levanto-me depressa.
— É cansei de você me apalpando, sabe como é. - O cumprimento, Clóvis sorri amigavelmente para Marjorie e concorda.
— É justa a troca.
— Não olha pra mim, não. Continua o seu trabalho. O profissional aqui é você. - Seguimos em direção ao consultório. Para minha surpresa, Marjorie me acompanha sem que eu tenha que pedir desta vez.
— Tem certeza, Thiago me disse que você tem mãos de fada. - Clóvis fecha a porta atrás de si, contorna a mesa e em poucos segundos toma o seu assento, enquanto Marjorie me encara sem entender.
— Quê!? - Ciente de que está sendo observada, engole em seco. — Eu o ajudei algumas vezes, nada demais. - Entrelaça os dedos rapidamente levando-os até a nuca. Seu constrangimento é lindo.
— Não liga, ela é modesta. – Pisco o olho, despindo-me dos calçados e da camiseta em seguida. Descanso os óculos de grau sobre a mesa, olhando direto em seus olhos posso vê-los brilhar de desejo. Não penso em mais nada depois de ver seu olhar correr sobre o meu dorso nu. Deito na maca e os alongamentos que eu estou cansado de fazer se repetem.
Clóvis segue a rotina dos exercícios, os quais eu tenho feito diariamente desde que comecei a fisioterapia. Os resultados são satisfatórios e eu me sinto plenamente recuperado, graças a Deus e a Marjorie também. Sim, porque que se ela não me cobrasse o tempo todo para que eu tomasse a medicação e seguisse com a fisioterapia, eu, com certeza, levaria o dobro tempo para me livrar do colete ortopédico que usei.
Respiro fundo, Clóvis incia os exercícios localizados, específicos para a minha lesão na coluna. A terceira e última parte são as mais cansativas e difíceis de se realizar Tento focar ao máximo, a presença da Marjorie é perturbadora e ao mesmo tempo instigante. Serve de estímulo para prosseguir. Quem sabe ela não traz sorte e hoje é a última vez que o prático.
— Tem certeza mesmo que não quer tentar? - Tombo o corpo para trás, esperando desesperadamente a sua resposta, e nada. Marjorie deve estar insegura. — Eu oriento. - Isso… Boa!
— Não, eu vou ficar só assistindo mesmo.- Balanço a cabeça frustrado, sorte ter um buraco na maca para enfiar a cabeça. Anda logo, termina com essa sessão de uma vez. Porque ele não continua? — Você deveria fazer uma tatuagem para cobrir essa cicatriz, Thiago.
— Deus me livre – Estranho sua observação e estremeço com o toque em seguida. Há algo errado, muito errado. Suas mãos passeiam pelo meu corpo, tateiam-me com cuidado e delicadeza. É ela. São delas, as mãos que massageiam minha coluna, próximo a região fraturada. Por isso a pergunta.
Como controlar o que eu estou sentido? Calada, Marjorie continua a massagem. A sensação dos seus dedos percorrendo o meu corpo, arrepia e sem que eu possa conter sinto a pele queimar. Controle-se, imploro a mim mesmo.
Aguçando os sentidos, tento ouvir o que eles conversam. Ele orienta, ela pressiona com mais força. Gemo baixo. Odiaria se precisasse me virar agora. Seria no mínimo constrangedor.
— Thiago… - ignoro. — Thiago, acho que ele está suficientemente relaxado agora, Marjorie, você pode parar. - Ah… não!
— Não, não… - Viro-me. — Agora que estava ficando bom, você manda parar – protesto. — Continua, Mah, essa fisioterapia nunca valeu tão a pena como hoje. - Seu rosto cora com o meu elogio, e mesmo querendo que ela continue, não a obrigo. Desço da maca, buscando pela minha camiseta.
— Ah… muito obrigado, Thiago… - Enquanto calço os meus sapatos, Clóvis se lamenta. — É essa a paga que eu mereço por aturá-lo durante quase um ano inteiro viu, Marjorie.
— É um ingrato ele, você não sabe? - Ingrato, eu?
— É realmente, eu vou ter que concordar com você, Thiago é um ingrato. Não devo contar que essa é a sua uma sessão, devo?
— Ah é!? - Coloco os óculos, revirando os olhos para ambos. — Cê tem certeza que vai mesmo concorda com ela, Clóvis?
— Vou. - diz com uma troca de olhares com a Marjorie. — Só mais uma coisa, antes que eu me esqueça, você está liberado para dirigir.
— Finalmente, última consulta, achei que você não fosse me liberar nunca. Obrigado por hoje, te devo essa, cara.
~*~
— Toma. - Quando saímos da clínica, Marjorie para em frente a porta do carona e arremessa a chave na minha direção. Pego-a no ar. — Pronto pra voltar a dirigir?
— O quê!? - exclamo atônito. — Hã… você tá…
— Vai nessa – Seus olhos fitam os meus em expectativa. —, quero ver se você ainda sabe dirigir, não desaprendeu, não?
— E-eu não – Balanço a cabeça negativamente ao abrir a porta —, mas não… - Volto minha atenção para ela, percebendo o sorriso no canto da boca. É um desafio. — Você tá me desafiando? - Ela tenta disfarçar ocupando o lugar que antes era meu, mas o sorriso ainda brinca em seus lábios.
— Tô e aí? Você consegue chegar em casa. - Confortavelmente acomoda, ela liga o som.
— Consigo – soo o mais convicto possível. Não nego que estar nessa posição depois de tanto tempo não me cause arrepios. Eu já fiz isso antes então… — O que foi? Você tá se amarando assim porque, não confia em mim?
— Confio. - diz ajustando o cinto ao corpo. — Tô só me precavendo - Diverte-se. —, vai que… você dá uma rateada.
— Eu te amo. – Num impulso, seguro o seu rosto entre as mãos, não consigo evitar, beijo-a no topo do nariz. —, você acaba de me dar uma ideia. - Eufórico, puxo o cinto e dou a partida. Sem olhar sua expressão, acelero ao máximo.
— Thiaaaago.
— Que foi!? - Sorrio. — Você não confia em mim!?
— Não… não, nenhum pouco, para com isso.
— Curte o vento no rosto, Marjorie – peço, abrindo as janelas. O vento sacode os cabelos para frente, a impedindo de enxergar. No mesmo instante, ela prende-os com a mão, implorando.
— Eu curto, mas diminui a velocidade, por favor. – Por sorte, a sinaleira me obriga a parar. Marjorie respira aliviada. — Não sabia desse seu gosto por alta velocidade.
— Arrependida de ter dado o carro pra mim, Marjorie? - Toco sua mão antes do sinal abrir. Seus olhos fecham com o contato.
— Não, imagina – ela suspira, apertando seus dedos contra os meus. Lamento ter que soltá-los para voltar a dirigir.
— Que bom, porque a adrenalina só está começando, aonde nós vamos têm mais, muito mais adrenalina.
— Aonde nós vamos, espera aí, a sua casa não é para este lado. – Enfim, ela se dá conta.
— Eu sei… - Mantenho o foco na estrada. Marjorie estava tão atordoada que mal percebeu a mudança de rota. — Eu não estou indo para minha casa.
— Thiago Fragoso, aonde você está me levando, anda, fala.
— Espera pra ver, você vai gostar.
~*~
— Um cartódromo, Thiago, jura que você vai andar nisso? - Não sei porque o espanto na voz. Acompanhando seu olhar, vislumbro a pista de curvas acentuadas com pouco movimento no momento e afirmo
— Eu, só não, você também.
— Eu não sei andar nisso.
— Tem aula, em dez minutos você pega a manha. É mais fácil do que dirigir carro, você sabe dirigir carro, não sabe?
— Sei, é claro, que eu sei.
Depois da breve aula com o instrutor e de receber as dicas e os equipamentos de segurança, estávamos pronto para adentrar a pista. Devidamente uniformizados com macacão e capacete, esperávamos apenas a volta de dois outros visitantes terminar para enfim iniciarmos a nossa.
Arrumo o seu capacete, mostrando a ela onde fica o freio. — Esse é o freio. – Preciso me certificar de que ela saiba exatamente onde é. Não quero correr riscos. — Você usa quando eu fizer sinal para você me deixar passar.
— Você não deveria me mostrar onde fica o acelerador, porque é isso o que eu tô a fim de fazer. Acelerar.
— Quem te viu, quem te vê, hein? - Arregalo os olhos, surpreso. — Tô achando que você já saiu perdendo nessa – Ela ri autoconfiante. Autoconfiante, o bastante para apontar o dedo na minha cara.
— Você, meu amigo, é que já perdeu.
— Não canta vitória antes do tempo, não. - Aproximo o meu rosto do seu, juntando nariz com nariz. — Vamos decidir isso na pista, pronta?
— Eu nasci pronta.
Damos a partida juntos.
Acelero. Não costumo pensar quando estou correndo, é um hábito corriqueiro. Esvazio a mente e relaxo os músculos. Mente e corpo trabalham juntos, é a melhor sensação que se pode ter, além é claro da brisa do vento batendo no rosto enquanto se realiza a curva.
A primeira regra de uma corrida é: nunca encoste para deixar alguém passar; obrigue-a a passar você. Marjorie sem saber cumpria esta regra. Precisaria mais do que a velocidade de 65 km/h, em que estou agora, para ultrapassá-la. Quem mandou dar colher de chá e deixá-la sair com vantagem?
Completo a curva para esquerda, sigo em linha reta, outra curva para esquerda, mais uma para direita e enfim a oportunidade que esperava: Uma longa linha reta, perfeita para se ultrapassar, Acelero, terminando a curva em primeiro lugar.
— Que fique claro, que você só ganhou porque eu tive medo de completar a curva – protesta ela, livrando-se do capacete, aos risos.
— Medo de completar a curva – dou risada. —, é essa a sua desculpa, ah conta outra, Mah.
— Você podia ter deixado eu ganhar, idiota. - Gira o corpo na minha direção, esbarrando a mão no meu peito. Fito seus olhos. O que ela quer? Me afastar ou me manter por perto?
— Porque, o que eu ganho com isso? - Me aproximo. Sua respiração está tão ofegante quanto a minha. Por um segundo penso que ela vai recuar, mas então diz.
— Um beijo
— Um beijo… – Minha boca trava, entreaberta, não escondo a frustração. — Ah, Thiago como você é burro… Perai, Mah – Negocio-o comigo mesmo uma alternativa, uma chance de reverter a jogada. —, vamos ali rapidinho, só mais uma volta?
— Não precisa… - Ela segura minha mão. — Você quer um beijo – Se inclina para a frente. Está perto, perto demais. —, eu te dou. - Fecho os olhos. Posso sentir seu cheiro, posso sentir seus lábios… O beijo.
— No rosto!?
— Amigos se beijam no rosto. – Estou tentando parecer indiferente ao seu sorriso brincalhão. Quero fazer tanta coisa. Gritar. Puxar ela de volta e retroceder ao beijo, mas tudo o que faço é ficar parado ali, odiando o fato de sermos simplesmente amigos.
— Amigos, agora nos somos amigos?
—Sempre fomos
— Ah… Amigos, amigos aceitam conversar, certo? - Pouso as mãos nos ombros, viro, conduzindo-a até a porta da lanchonete. Marjorie não diria não a um bom lanche. Bom, é o que eu espero.
~*~
— Uma água sem gás para mim, por favor. Cê vai querer o quê? - Olho para ela e me distraio por alguns segundos. — Aproveita que hoje eu estou pagando o lanche, o almoço, a janta… Sei lá eu, o que mais eu estou devendo.
— Você me deve tanta coisa, Thiago – Ah… droga, eu não esperava por essa. Mesmo com o rosto coberto pelo cardápio, sua expressão é tão cheia de sinceridade, que evito encará-la. Sua indecisão ao fazer o pedido me incomoda e acabo escolhendo por ela.
— Pra ela só um suco de uva está bom. - peço, vendo-a revirar os olhos, mudo rapidamente. — É qualquer um, menos esse, amigo. - Ainda lembro do incidente com o suco o que ele causou depois. — Marjorie, sobre a Mariana, eu…
— Qual era o nosso acordo? - Ela esfrega os olhos e expira resignada.
— Nada de falar sobre os nossos problemas, eu sei, mas eu quero que você entenda, a Mariana e eu, nós não temos mais nada a um tempo, a um bom tempo já. – Eu busco pela memória a data exata em que de fato as coisas degringolaram de fez e estremeço.
— E a gravidez?
— A Mariana não está grávida, ela falou aquilo para te provocar, Marjorie.
— Como você pode ter tanta certeza?
— Eu tenho, Marjorie, tenho porque… Você não vai atender, pode ser
— Não, e antes que você pergunte, não é o Leonardo. - Nossa, para quem não queria tocar no assunto, ela está bem interessada em esclarecer.
— Eu não disse nada. - Sorrio meio torto, tentando parecer casual. Ela retruca:
— Mas pensou. - Obvio que pensei.
— Não, eu só ia dizer que podia ser importante, só isso. - nego controlando a minha apreensão.
— Não é. - explica, tomando um gole do suco de laranja, que veio junto com o pedido de hambúrguer e batata frita. — É só um número chato que fica me ligando o tempo todo, e toda vez que eu atendo não diz nada.
— Mariana. – Engasgo, levando água goela a baixo.
— O quê? - Arregala os olhos, limpando os lábios com o guardanapo. — O que você disse? - interroga, vasculhando a bolsa.
— Não, nada, eu só pensei alto… - Baixo o olhar. — Eu só queria dizer que… Por que os óculos?
— Vai dizer que você não sabe? - diz como se fosse a coisa mais obvia do mundo. Não é um dia ensolarado para ela querer usá-lo, então não, eu não sei.
— Não, não sei, explica.
— Deixa eu ver se eu consigo explicar – para com os cotovelos sobre a mesa. —, olha em volta, Thiago – inclina o corpo para frente e sussurra —, nós estamos em público, reparou na quantidade de pessoas circulando. - Me inclino para frente, aproximando nosso rosto.
— E daí? -– Dou uma batidinha no lábio com o dedo indicador, olhando para ela.
— E daí – suspira, jogando o corpo para atrás. —, que eu não quero ser vista com você.
— Ah, e os óculos vão ajudar? - suponho controlando animação para apenas provocá-la — Achei que você não ligasse para mídia sensacionalista.
— E não ligo, não quando apenas o meu nome está envolvido.
— Você não acha que eu deveria estar mais preocupado com isso do que você e, no entanto, eu estou aqui com você
— É mais fácil para você.
— Por que?
— Porque você é um homem tecnicamente casado.
— E você uma mulher tecnicamente solteira.
— O motivo da sua separação – Com os olhos entristecidos e a voz seria, ela reconhece, — Marjorie Estiano, a destruidora de um lar, de uma família linda e feliz, é assim que vão tratar o caso
— Os idiotas vão – eu me apresso em dizer. — Eu não posso simplesmente está conversando com uma amiga?
— Há quilômetros de distância do Projac? - Ela arqueia as sobrancelhas, indecisa. — Pode, você pode… mas não é o que eles vão pensar.
— E o que eles vão pensar, me diz?
— Provavelmente que eu sou a culpada, eu o envolvi, se não fosse ela, estaria tudo bem, ele estaria feliz com a mulher e os filhos. - Seu pensamento não me agrada.
— Ata, eu não tenho opinião própria. - reviro os olhos, frustrado. — Eu fui simplesmente seduzido por você? - Alcanço sua mão sobre a mesa, toco-a com carinho. — Não é um pouco de mais não, Marjorie
— Eu não estou dizendo isso, Thiago, mas é o que a maioria das pessoas pensa ou vai pensar. - remenda. — Que outro motivo você tem para se separar, pensa?
— Muitos, eu tenho muitos, mas você continua sendo o principal. - Eu admito, olhando fixamente para ela. Sua mão ainda está unida a minha e isso é um bom sinal. Tenho certeza que ela sustenta o meu olhar, eu gostaria apenas de poder enxergar a tonalidade que seus olhos adquirirem por trás das lentes escuras.
— Entendeu agora porque os óculos? - É… Eu acho que entendi. É perturbador.
— Eu acho que você devia tirar.
— De jeito nenhum, vou perder toda a graça. - Marjorie ri, levando a mão até o meio da testa, o ajeitando com delicadeza a altura dos olhos.
— Que graça, doida, não tem graça nenhuma, tira. - Avanço em direção ao seu rosto. Ela é rápida ao se esquivar, mas estou determinado em tirá-lo dela.
— Thiago, tira uma foto comigo – Hã? O quê!? —, sou sua fã.- Paro subitamente antes de dizer algo, olho para a Marjorie. Talvez os seus receios estivessem certos e nós deveríamos evitar lugares como esse.
— Claro – Sorrio gentil ao me levantar.
— Eu tô amando o Edgar. - diz a moça acompanhada de uma amiga. Seu sorriso é meigo, eu sorrio também em retribuição. — Você e a Laura formam um casal incrível. É o melhor da novela.
— Obrigado. - Abraço-a. A amiga dispara o flash uma, duas ou três vezes na nossa direção. — Eu também acho, viu? - concordo autografando uma folha de papel.
— Eu tô cho-ca-da – Ela me encara por uns segundos como se não acreditasse no que acabou de acontecer —, elas não me viram aqui!? - Sim, é possível Marjorie Estiano ser ignorada.
— Chateada? - pergunto abafando uma risada.
— Muito… Ofendidíssima. - Ela sorri e balança a cabeça. — Deve ser meu óculos com poder de invisibilidade, só pode – Conclui sarcástica.
— Falei para você tirar – eu emendo
— Toma cuidado, vão achar que você é um louco falando sozinho.
— Eu sou um louco por gostar de você.
—Thiago. - Seu rosto está fascinante de uma forma irritantemente bonita. Tenho que me controlar, não posso deixar a conversa morrer.
— Humm, e com você – começo. —, como são suas fãs… Tão loucas quanto as minhas?
— Ah são, loucas talvez não, mas menos cegas com certeza – opina ela — Se me vissem com você não deixariam passar. - Uma informação relevante. Gosto de saber.
— Tem toda razão. - assinto. — Vai vê ela não era uma Laured shipper tão fanática assim.
— Com certeza, não.
— Até porque se fosse iria encher a gente com perguntas:
— Dá uma chance pro Edgar, perdoa ele, vai, volta logo para casa.
— Eu concordo com as fãs, a Laura tem que voltar logo para casa, você também, vamos? - digo, empurrando a cadeira ao me levantar. Marjorie faz o mesmo não sem antes perguntar
— Onde? - Com canudo entre os dentes ela bebe o restante do suco sabor puro gelo sem laranja de forma barulhenta
— Pra casa – respondo, me distanciando da mesa. Estou de costas para Marjorie, mas consigo prever seus passos:
— Humm – Ela para enfim de fazer o barulho irritante com canudo, larga o copo, pega a bolsa pendurada na cadeira, aperta o passo e pronto está ao meu lado mandando. — Me devolve a chave, eu vou voltar dirigindo.
— Nem pensar - Aperto a chave no meu bolso e continuo andando —, nada feito.
— O quê? - Vira o rosto e me encara. — É sequestro agora? -
— É, - Dou um sorrisinho. —, só devolvo quando chegarmos em casa.
— Se é assim, eu não tem escolha, bora.
~*~
— Você não vai me convidar para entrar? – eu pergunto depois de um tempo estacionado em frente ao seu prédio.
— Você quer entrar? – Engole em seco. Se ela soubesse o quanto é linda e o quanto eu a desejo nesse exato momento.
— Quero, você não quer?
— Eu quero, quero muito. – Seu corpo inteiro reage. Ela me beija fundo, o beijo mais doce que já recebi, seus lábios adulam os meus e eu mal posso esperar para tê-la em meus braços.












