01, Nando.
Lá estava aquela moreninha toda metida, andava como se fosse dona do mundo, olhava para tudo e todos desafiadoramente. Ninguém podia enfrenta-la, e ninguém o fazia mesmo. Tinham medo da teimosia, do furacão que Maria Bianca podia ser. Eu já a tinha enfrentado tantas vezes que parei de contar depois da décima. Nem mesmo eu aguentava ela. Não só por sua bagunça, mas porque a desejava mais do que qualquer coisa.
Fiquei me perguntando, repetindo a pergunta muitas e muitas vezes: “Quem não era louco por ela?”. O corpo parecia ter sido moldado a mão, cada curva, cada pedaço... O cabelo negro era milimetricamente no lugar desajeitado, os olhos azuis eram hipnotizantes como uma sereia, os lábios eram...
Mas eu nunca assumirei isso a ela, nunca em um milhão de anos. Maria Bianca é tão dona do mundo que me causa náuseas, me irrita essa posse que ela tem das coisas, ninguém é dono do mundo e da verdade, então por que ela tem que ser?
Pensava tudo isso a caminho da minha sala de aula, as crianças para qual dou aula já estavam me esperando, deram bom dia e se ajeitaram, cada um deles com seu instrumento.
– Bom dia! Vamos começar?!
E bagunça começou, todos começaram a tocar juntos sem ordem alguma, eu gostava daquela zona, tinham liberdade para fazerem o que quiserem por pelo menos dez minutos, quando eu era criança não tinha isso, tudo era rígido, dito por leis e horários, e eu odiava cada segundo. Então dava a eles essa liberdade.
Passado os minutos de bagunça, todos silenciavam e aproveitavam aquilo, pensavam no que queriam e pediam uma musica. Cantávamos e tocávamos juntos, depois ensinava algumas notas e estavam liberados.
Aquilo era como um serviço social ao qual meu avô me obrigara a fazer quando decidi me mudar para sua casa, ele não queria que eu ficasse sem fazer nada, então tinha que arranjar algo produtivo para mim.
Não podia reclamar, ate que gostava.
O resto da manha eu ficava na cantina com o Leo ou ajudando alguém da direção, todos me conheciam por conta do meu avô, então como pedido dele, eu não ficava sem fazer nada. Gostava de estar produzindo alguma coisa, mas gostava mais ainda por que estava perto dela.
– Nando! – O Leo me gritou, veio correndo ate mim, e aquela cara me dizia que tinha festa – Vamos?
– Para onde?
– Festa! Na casa da loira hoje.
– De quem?
– Não faz pergunta. Hoje, nove horas.
E assim como chegou, saiu correndo.
Y
Nove e meia. Sexta-feira, casa da Loira.
Uma casa maneira, tinha piscina, muita bebida e muita mulher... E tinha Maria Bianca, claro. Parecia que não perdia uma. Mas eu ignorei a moreninha a festa inteira, era dia de carne nova e nada de brigas, o Leo logo no começo sumiu, então tive que me virar. Passei pelos cômodos da casa e nada me atraia, e quanto mais eu andava, mais eu bebia.
– Vou te esperar no quarto... Vai me encontrar? – Uma loirinha bonita sussurrou no meu ouvido, depois de alguns minutos de papo
– Em três segundos.
Foram os três segundos mais demorados da minha vida. Não encontrava o quarto certo, ate que encontrei um onde estava totalmente escuro, com apenas uma janela aberta, a musica abafou assim que entrei e tranquei a porta, fui ate a janela para ver onde dava.
– Pensando em mim, amor? – Eu disse subindo pro telhado, Maria Bianca estava deitada olhando o céu. Parecia ser a parte silenciosa da casa, não se ouvia nada.
– Hoje não Sampa... – Murmurou
– Ei princesinha, que foi? – Olhei-a, suas bochechas molhadas indicavam lágrimas, ela desviou o olhar, me deitei do lado dela
– Vai embora.
– Não...
– Hoje não... – Sua voz falhou
– Vim em paz.
– Sampa... – Ela soluçou, sem pensar puxei seu corpo para perto do meu e a apertei. Podia sentir seu coração pulsando, ouvir seus soluços e sua respiração falha.
– Princesa... Moreninha... O que você tem? – Beijei seu cabelo, tinha cheiro de xampu infantil. Ela nada me disse, chorou tanto que molhou minha camisa, soluçava e tremia em meu colo.
Se levantou puxando os cabelos para trás prendendo em um coque, passou a mão no rosto tirando todo vestígio de choro e respirou fundo olhando o céu mais uma vez, seus olhos eram suplicantes, parecia estar esperando que a solução dos problemas do mundo caíssem. Ficamos sentados juntos por um tempo em silencio.
– Sampa, por que brigamos tanto? – Ela quebrou o silencio
– Porque é divertido?
Ela sorriu fraco.
– Estou falando serio.
– E eu também. Você pensa que eu não percebo?!
– O quê? – Me olhou confusa
– Que você fica mais feliz depois que fala comigo... Melhor, briga comigo – Ela gargalhou
– E você me quer.
– Do mesmo jeito que você me quer.
Ela me olhou sorrindo, e eu não aguentei, segurei sua nuca e a beijei. Primeiro com força, queria tanto ela que não tinha como ser calmo, e ela retribuía na mesma ferocidade. Depois, a própria tomou as rédeas, segurou meu rosto com as duas mãos e se afastou um centímetro do meu rosto, sorriu bem calminha, passou os lábios no meu como se quisesse brincar, sugou meu lábio inferior e o mordeu e iniciando um beijo calmo, seus lábios macios e carnudos tinha gosto de morango. Sabia o ritmo certinho, desci a mão para sua costa, e a puxei mais para mim que se sentou em meu colo, entrelaçou os dedos em meu cabelo e apertou.
– Então tudo aquilo era desejo reprimido? – Ela riu no meu ouvido causando um arrepio na alma
– Me responda você – Beijei seu pescoço dando uma mordida
Ela desceu do meu colo e voltou a se sentar do meu lado, passei o braço em sua cintura e ela apoiou a cabeça em meu peito.
– Tenho que ir... – Sussurrei em seu ouvido. Não queria estragar o momento, éramos tão instantâneos e impulsivos, se brigássemos logo agora naquele instante nosso...
– Fica comigo essa noite que eu te faço feliz, finge que eu sou seu amor que você sempre quis, amanha é outro dia e a gente vê como fica... – Cantarolou baixinho sorrindo, e por impulso voltei a beija-la, essa noite eu queria ser apenas dela.








