Capítulo 124
Eu estava atônita ainda.
Além do Armin estar agindo como se nada tivesse acontecido ele veio sem mais nem menos falar que a maquina estava pronta ???
"Armin . . . Como assim ?" Alexy falava surpreso.
"ISSO QUE OUVIU ! EU TERMINEI !" Armin respondeu ainda mais empolgado.
Alexy e eu ficamos calados.
Não sei se ambos pensavam a mesma coisa, mas ambos estávamos nos olhando.
"Você se trancou pra isso ?" Alexy questionou.
"Não era obvio ?" Armin ainda sorria.
Sabe . . Eu estava impaciente com tudo, especialmente com ele, então naquele momento a noticia ao invés de me alegrar me irritou, e por conta disso, eu acabei por explodir com ele.
"Pera. . . Quer dizer que você me abandonou em um hospital, me tratou feito lixo, mal olhou na minha cara, se trancou no escritório por causa da merda de uma maquina do tempo !?" eu esbravejava praticamente avançando nele.
Movia meu corpo "armado" pra cima do Armin.
Estava a um ponto que eu tinha que fazer grande esforço pra me segurar, caso contrario eu bateria nele.
Armin estava claramente surpreso com minha reação, entretanto, ele demonstrava ao mesmo tempo que esperava aquilo . . .
Obviamente ele esperava. Ele sabia o tanto de merda que tinha feito.
"Boreal . . . " Armin falou levantando a mão pra encostar em mim, porém com um tapa forte eu afastei a mão dele.
Estava com tanta raiva.
Meu maior desejo era que o tapa tivesse sido na cara dele, mas eu me segurei.
Me levantei e fui direto pro quarto antes que fizesse mais escândalo e descesse mais o nível.
Me sentei na cama muito irritada.
Fiquei por lá xingando baixo e remoendo a situação toda.
Passaram-se longos minutos, talvez horas, quando Armin decidiu subir.
Ele entrou no quarto calmamente e fechou a porta e silêncio.
"O que quer ?! Mostrar a merda da maquina ? Porque sinceramente eu--"
"Desculpa . . . Eu só estava querendo ser útil." Armin me interrompeu de uma vez.
"E me ignorar quase que 100% é a melhor forma ??" falei irritada.
". . . Não . . . Mas eu não sabia como te dar apoio emocional nem nada . . . Eu só sirvo pra montar coisas . . . Então quis ser útil na minha área de utilidade. . . " Armin falava de maneira melancólica, mas aquilo não diminuía meu timbre irritadiço.
"Nossa ! E tudo que eu precisava era uma maquina do tempo né mesmo Armin ?! Eu só pedi algo pequeno ! Que ficasse do meu lado !! Saber que você mentiu pra mim sobre o Jade, sobre ficar comigo no hospital . . . Isso doí. . . " aos poucos senti que estava amansando.
". . . A maquina pode trazer sua mãe de volta . . . Eu só queria te ver feliz . . . Principalmente porque eu sabia que você ia perder seu filho. Aquilo me corroeu . . . Eu não poia fazer nada, então só queria poder te dar algo de volta . . . Desculpa por não conseguir ficar por perto . . . " quando o Armin deu sua ultima justificativa eu não consegui evitar de ficar abalada.
Me silenciei totalmente sem respostas.
"Eu sabia que não iria me fazer bem, nem te fazer bem ficando no local . . .
Nathaniel por outro lado, ficou do seu lado e te deu todo apoio que eu não pude nem consegui dar . . . Ele é uma pessoa fantástica né ? "
Armin começou a falar sozinho basicamente.
Eu notei que ele estava iniciando um monologo e tentei me meter, mas foi em vão . . . Armin parece que após ter começado a falar, não conseguia mais parar ou prestar atenção a sua volta.
Chamei seu nome em vão.
"Nathaniel é sensato, um ótimo amigo, o melhor dos amigos na verdade. Ele tem estabilidade mental e financeira. Ele com a pouca idade que possui já tem formação. Nathaniel não se abala com praticamente nada. Ele pode te dar suporte pra qualquer hora, ele ficou do seu lado, ele é pai do seu filho, nada mais justo do que dar espaço pra ele . . . " Armin parecia nem notar que eu estava no quarto mais.
Ele falava sem olhar pra mim, ele olhava . . . Além.
Eu não me sentia tendo uma conversa, mas sim, vendo um lamento.
Aquilo começou a me assustar, aos poucos tentei interromper o Armin e entrar em seu foco.
Aquilo começou a me deixar em pânico . . . Ele não saia do frenesi.
Eu me levantei e fiquei tentando de todas as formas chamar atenção do Armin.
Mas ele continuava sem parar.
Então finalmente eu sacudi ele no literal.
"ARMIN ! PARA COM ISSO !!" Eu gritava.
Ele finalmente voltou seu olhar pra mim.
"Armin . . . porque ?" falei.
". . . Nathaniel provavelmente iria lutar contra. Afinal, o Jade era filho dele também . . . Eu por medo do futuro não me meti e não salvei seu filho mesmo sabendo tudo que ia acontecer . . . " Armin falava.
"Armin ! Claro que o Nathaniel faria o mesmo ! Ele fez !!" ao dizer isso consegui total atenção do Armin.
"Nathaniel literalmente terminou comigo por causa do futuro lembra ? Ele foi avisado que o futuro seria ruim se ficássemos juntos e terminou comigo me tratando feito lixo.
No fim, vocês dois tomaram a mesma atitude, sendo que com pessoas diferentes.
Pare de se martirizar ! Nathaniel não é perfeito como você coloca." respondi enquanto via um olhar confuso.
Armin realmente acreditava que Nathaniel era perfeito.
Ele acredita com todas as forças nisso e que ele é imperfeito . . .
Por essas e outras que eu acabo amolecendo com o Armin . . .
Aquele cara genialmente sensato tem um lado confuso e humano afinal.
Sempre ficarei surpresa com esses surtos "humanitários" dele.
"De qualquer forma . . . Me desculpa por como te tratei . . . " Armin dizia.
". . . Não vou dizer que está tudo bem, mas eu compreendo . . . Você teme pelo futuro não é ? Não é diferente do Nathaniel, não tem porque por ele como perfeito . . . Seria tão mais pratico se você se abrisse mais . . . " falei cansada.
". . . Ele é mais sensato querendo ou não assumir isso Boreal.
Sabe aquilo que nós sempre nos gabamos ? De um conseguir ler a mente do outro ?
Te desafio a dizer que não acertei ao dizer que você não pensou no Nathaniel quando te larguei no hospital." quando Armin falou isso eu tomei um susto, confesso, mas logo me recompus e respondi sua pergunta.
"Sim, eu pensei. Não nego.
Mas não porque ele é melhor que você. Vocês são diferentes apenas.
Armin . . . Eu estava sozinha, com meus hormônios explodindo, cheia de problemas na cabeça e vendo a pessoa que eu mais confio me virando as costas. Você realmente não acha que eu ia olhar e penar "tá tudo bem, de boa, vai lá Armin" ? É obvio que acabei colocando as coisas em uma balança. . . " respondi de forma mais objetiva que eu conseguia.
Armin só teve tempo de soltar um "então" que logo foi interrompido.
"Não tente argumentar.
Você não está em posição pra isso.
Vocês tomaram atitudes iguais e são pessoas diferentes. Armin eu gosto de você, eu to com você agora. . . Porque não conversa comigo e me conta o que houve. " Armin se manteve em silêncio. Ele parecia pensativo.
Armin repentinamente falou "quer fazer algo ?" desviando completamente de mim.
"Porque você faz isso ? Porque evita tanto falar comigo . . . " perguntei sendo totalmente ignorada.
Se ele falasse talvez tudo fosse tão mais prático.
"Vou descer e fazer algo pra comermos ! E ai podemos fazer algo juntos ! Faz tempo que não fazemos algo sem brigas ou algo do gênero né mesmo ?" Armin saiu sorridente. . .
Entretanto eu conheço ele o suficiente pra dizer que aquele sorriso não foi sincero.
Me sentei no sofá enquanto o Armin fazia coisas na cozinha.
Alexy estava de saída.
"Eu vou pra casa agora, amanhã eu volto. Se comportem, não briguem, se resolvam e transem. Tchau" Alexy dizia saindo.
Confesso que acabei rindo.
"Ele só pensa nisso . . . " Armin falou com cara de nojo.
". . . Você não é muito diferente Armin." retruquei pegando um copo que o Armin segurava.
"É . . . Você tem razão. Acho que meu problema é imaginar o Alexy com os namorados . . . "
Armin então se sentando do meu lado levantou minha blusa.
"Como está a cicatrização do--- Mas já está cicatrizado ?!" Armin demonstrou grande espanto ao ver que minha cicatriz da cesária estava fechada em tão pouco tempo.
"Você não fez pacto com o Azriel não né ?" Armin falou espantado e com certa raiva.
"NÃO ! São os experimentos do Alexy . . . Se você prestasse atenção na casa ia saber que o Dajan tem trazido a bactéria pro Alexy estudar e eu tenho sido o ratinho de laboratório dele." respondi pegando um saco de salgadinhos que ele havia colocado ali.
Armin levantou de uma vez irritado.
"ALEXY TÁ FAZENDO VOCÊ DE RATINHO DE LABORATÓRIO ?! EU NÃO ACREDITO ! EU VOU MATAR ELE !!" Armin estava possesso pegando o telefone.
"Nossa, pra que essa raiva ! Ele não em fez nada. Ele me trata super bem Armin. Para. Além do mais, tem dado certo." continuei a comer tranquilamente.
"BOREAL ! EU CONHEÇO MEU IRMÃO ! Ele te tratar bem não muda o fato de que ele tá disposto a te arriscar !
Ele tratava os ratinhos dele bem, e veja, ele tem rato ? NÃO TEM.
PORQUE ELE MATOU.
Ele não tem escrúpulos quando é "pelo bem da ciência"
Meu irmão se encaixa perfeitamente na postura de cientista louco. Então ele não vai medir esforços contigo mesmo adorando você.
VAI POR MIM. SEI DO QUE ESTOU FALANDO" Armin continuava a discar.
Eu só puxei o celular dele.
"Armin, ligar pra ele agora vai dar em nada. Pelo contrario, capaz dele nem pisar aqui amanhã sabendo que você vai brigar com ele. Sossega e relaxa ai." eu então joguei o celular dele pro lado.
"Eu não havia pensado nisso . . . verdade." Armin se sentou.
Sabe, a impressão que tenho dele ultimamente é de uma pessoa bem avoada.
Ficamos sentados no sofá vendo desenhos.
Era uma atividade que ambos gostavam de fazer juntos e bem . . . Seria bom pra nos reaproximar aos poucos.
Então ouvimos um som estranho vindo da janela da sala.
Armin levou para verificar.
Ele pareceu pegar algo e ao virar era um gato.
Eu surtei quando vi, adorava gatos.
Fui correndo até ele pegar o pequeno gato e brincar com ele, o gato estava um pouco arisco.
Armin sorria enquanto me mostrava que o gato estava com a pata machucada.
"Ele tava se debatendo ali enrolado nos fios de cobre que espalhei a tempos atrás.
Só tinha um fio levemente enrolado na verdade, mas foi o suficiente pra machucar ele . . . " Armin falava segurando a pata dele.
Eu rapidamente comecei a procurar coisas pra cuidar do gato.
Armin estava sorridente o tempo todo . . . Dessa vez parecia um sorriso sincero, e confesso que se eu já estava mais amolecida, aquilo me amoleceu de vez.
Ver ele sorrindo e cuidando de um gato me fez lembrar porque eu admirava tanto ele.
E o mais importante: que ele não é aquele monstro que estava sendo comigo.
Na verdade eu sempre soube e nunca esqueci disso . . .Mas estava com dificuldade de ver por trás das ações dele.
Eu estava simplesmente tomada pela raiva.
"Vamos ter que ficar com o gato até que ele melhore . . . Ou de vez, você quem sabe" Armin dizia rindo e colocando o gato em uma almofada no sofá já com os devidos cuidados na pata.
". . . Meu pai iria me matar por trazer um gato pra casa . . . Falando nisso . . . Onde ele está ? Eu não o vejo faz tempo . . . " falei acariciando o gato e um tanto quanto tristonha.
"Ele liga sempre perguntando como andam as coisas. . . Ele tem trabalhado cada vez mais.
Ele tem tentado esquecer tudo . . . E bem, ele não aceitou bem o rapto, nem a perda da Lucia . . . E nem nada dessas coisas . . .
Infelizmente não importa o que eu diga, ele não volta pra casa, diz que quer garantir o emprego . . .
Quem eu quero enganar, eu nem tenho moral pra isso" Armin estava rindo mas era claramente pra ocultar os sentimentos reais.
". . . Tem moral sim ! Apesar de tudo, você tem se mantido de uma forma ou de outra . . . " continuei a acariciar o gato que aos poucos pareceu pegar confiança e relaxar.
Armin então levantou repentinamente.
"Você dava comida pra uns gatos aqui na casa não é ?" Armin perguntou.
"Sim . . . Mas faz tempo que eles sumiram, principalmente depois que o Charlie veio pra cá. Porque ?" questionei.
"Bem . . . Você falou que seu pai te mataria por trazer um gato, sendo que você dizia ter vários." Armin então foi até a cozinha.
"Ah . . . Sim. Mas ele sempre reclamava e no fim minha mãe e ele deixavam. Eu vivia trazendo gato da rua pra cá, ou comprava ração e acabava atraindo eles." Armin olhava armário por armário.
"Ainda tem ração ?" ele questionava.
"Deve ter um pouco sim. Mas tem que ver a validade direitinho." então me direcionei a cozinha pra pegar.
"Falando nisso, você viu o Charlie hoje ?" perguntei chegando na cozinha.
"Não. Eu nem sai do escritório. Mas provavelmente ele foi dar uma volta. Ficar sozinho aqui trancado é um tédio. E não se esqueça que é a alma do . . . "
"Eu sei Armin . . . Meu pai." eu o interrompi antes que ele pudesse falar.
Ainda é estranho pra mim assimilar isso . . . Como não convivi com o meu pai na infância e coisa do gênero, eu não tive muito o impacto de "MEU DEUS ! MEU PAI BIOLÓGICO EM UM CACHORRO !"
Na realidade não consigo ver o Charlie como meu pai mesmo sabendo a verdade . . .
Voltei minha atenção para o armário mais alto.
Tudo que não era usado, alimentos de conserva, essas rações de gato, eram colocadas na prateleira mais alta do armário sempre.
Quem normalmente colocava as coisas ali era meu pai ou eu pegava com uma pequena escadinha que deixávamos no canto da cozinha.
Entretanto, ela não estava ali.
Eu então puxei o saco que estava bem difícil de sair, ao puxar, notei que os enlatados estavam em cima mas era tarde, iam cair em mim, eu me joguei pra trás caindo sobre o Armin que ao notar as latas rapidamente "trocou" de lugar comigo ficando por cima, e assim, ele levou pelo menos duas latadas, uma na cabeça e outra no ombro.
"Sua ameba ! PORQUE NÃO ME PEDIU PRA PEGAR !" ele falava com cara de dor enquanto pressionava a cabeça.
"Porque eu não sabia que tinha lata em cima ué !" falei.
Ele ficou em silêncio me encarando com uma mistura de dor e raiva no rosto.
No fim, vendo aquela cara dele eu acabei rindo. Não sei, simplesmente a cara dele estava tão emburrada que me fez rir.
Me lembrou quando "re-conheci" ele.
Aquelas caras que ele fazia.
"Do que tá rindo ?!" ele perguntou
"Dessa sua cara ! É idêntica a cara que você fez quando nos conhecemos de novo após sua perda de memória. Deu até vontade de tirar foto de novo. É sua cara que eu mais amo." Sinceramente ? Se eu estivesse com o celular na hora provavelmente o teria feito.
Eu realmente amo essa expressão do Armin.
"É eu sei, você usa de wallpaper do celular até hoje . . ." Armin bufava.
Fazia tempo que eu não me sentia a vontade com ele . . . E sem raiva.
OK, falar que eu não estava com raiva seria mentira, mas eu sentia mais prazer com sua presença do que raiva propriamente dita.
Aquela noite estava sendo ótima . . .
Eu me sentia me desligando de tudo.
Dos problemas desses meses todos, das pessoas, do mundo.
Estava sendo um momento só meu com o Armin.
Fazendo coisas pequenas e divertidas como rir de uma queda na cozinha, cuidar de um gatinho . . .
Eu sinto falta desse tipo de atividade com ele.
Antes de namorado ele é meu melhor amigo, e isso não mudou.
Essas coisas como cair, debochar e correr pela casa se batendo são coisas que fazíamos desde a época que sequer pensávamos em namorar.
Armin ficou me encarando por tempo indeterminado, e eu encarei de volta e por ali ficamos durante bastante tempo, ambos com os rostos próximos e sem reação.
Acho que passamos tanto tempo sem mal nos falarmos que regredimos alguns degraus de relacionamento . . .
Eu sentia aquela tensão do inicio, de não conseguir tocar nele por vergonha, coisa que eu não tinha antes de namorar com ele . . . Eu tinha aquela sensação péssima de querer desviar o olhar por conta dele me encarar de tanta vergonha.
É tão estranho . . .
Me lembra muito quando terminei com o Nathaniel que eu não sabia como agir perante a essa situação e ficava sempre aquele clima constrangedor entre nós dois, com a diferença de que agora não é termino, pelo contrario, estamos juntos, mas . . . Não sabemos mais como nos portar como um casal.
Armin claramente estava passando a mesma coisa que eu.
Ele estava me olhando fixamente, mas eu conhecia aquele olhar e aqueles gestos, eram gestos de vergonha, timidez . . .
Ele apressadamente saiu de cima de mim. . .
Em outra situação provavelmente ele me agarraria ou me provocaria, até mesmo induziria novas brincadeiras . . . Mas agora sua única reação foi "correr".
Eu queria tomar alguma iniciativa pra quebrar aquele "gelo" mas eu também estava travada.
Após ele levantar e sair de perto eu fiquei ainda um pouco no chão com o coração disparado como se fosse tudo uma grande novidade pra mim . . .
Armin então me deu a mão em silêncio e me ajudou a levantar.
Ficou aquele clima constrangedor no local.
Então decidi puxar um assunto finalmente.
"A-Armin ! Pode me mostrar a maquina ?" falei tentando passar empolgação, mas creio ter falhado miseravelmente . . .
"Ah ! Claro ! Venha !" Armin dizia, e claramente ele sequer notou que eu falei tudo com grande desanimo.
Armin havia me tocado pela primeira vez naquele dia. (e dentro de vários dias)
Era algo simples, um puxão pela mão, mas foi bem significativo pra mim.
Entramos no escritório.
Eram fios e maquinas pra todo canto, uma visão BEM diferente da que eu tinha gravada fixamente na mente.
Eu já havia visto as mudanças que o Armin tinha feito, mas parecia estar mais bagunçado que antes.
Armin então se sentou em uma mesinha e me chamou.
Ele sorria empolgado. Ele sorria com gosto.
Me aproximei e vi algo na mão dele, era uma caixinha de metal.
"Essa é a maquina ?" perguntei.
"Na verdade é tipo um teste de receptor. Usei essa caixa pra enviar coisas no tempo.
Eu coloco coisas dentro dela e assim testo a viagem temporal.
A maquina é essa maior aqui atrás de mim sem forma definida." Armin dava batidinhas na maquina atrás dele.
"É bem grande ! Os relógios então estão ligados a essa maquina no fim das contas ?" perguntei.
"Sim. Inclusive eu fiz a ligação daquele receptor quebrado com essa maquina. Ainda não testei mas tenho 90% certeza que está funcionando." Armin dizia sorridente.
Eu então me apoiei nos ombros dele, curiosa.
Eu realmente não pensei em "quebrar" a barreira nem nada, só queria ver e tratei ele naturalmente como um amigo mesmo.
Fiquei olhando atenciosamente pra caixa.
Notei que o Armin estava parado, e desligada, não notei que era por eu estar colada nele.
Ao olhar pro seu rosto, que estava colado ao meu, eu confesso que tomei um pequeno susto.
Armin estava calado e me olhava fixamente.
Sua respiração era ofegante, ele engolia saliva de forma visível e nervosa, dava pra ver claramente suas bochechas vermelhas.
Automaticamente aquilo me contagiou.
Eu comecei a ter os mesmos "sintomas" do Armin e me afastei automaticamente.
"Fica !" Armin falou de uma vez puxando meu braço.
Aos poucos eu voltei pra posição em que estava, bem mais desconfortável com o clima . . .
E ele estava bem nervoso, claramente mas tentou dar continuidade.
Ele abriu a caixa e colocou um cacho de banana dentro, antes, tirou uma e colocou sobre a mesa.
Então ele mexeu em uns botões da caixa e em seguida ligou a maquina atrás dele.
A pequena caixa brilhou, como um receptor em uso.
Mas nada aconteceu.
"Tá . . . E ai ?" falei olhando pro Armin.
Armin sorria como se tivesse algo pra mostrar.
Ele então abriu a caixa e mostrou . . . o cacho de banana.
Ele estava . . .estranho.
Onde ele tinha tirado a banana tinha uma banana no lugar. Eu toquei nela e ela parecia uma meleca. SÓ AQUELA BANANA NOVA.
". . . Armin . . . Isso é brincadeira sua com aquele jogo que você viciou um vez ?" Perguntei olhando pra ele desconfiada e um olhar de pouco caso.
"NÃO ! Ela ficou assim porque eu fiz um teste.
Essa caixa serve pra enviar no tempo seja pro futuro ou para o passado o que coloco nela.
Entretanto, para o envio efetivo de algo grande você usa os receptores que estão programados pra conseguirem enviar massa corporal, eles usam uma tecnologia mais avançada.
Essa caixa é só um protótipo que usei como teste, e ela não envia grande massa.
Pra ela conseguir enviar no tempo ela tira as moléculas do objeto tornando ele em uma substancia que é possível de ser enviada pelo tempo e espaço ao ser colocado na caixa."
Eu então voltei a mexer na banana e engoli seco . . . Ver o estado daquela banana me preocupou.
"Armin . . . Tem certeza que o receptor é seguro ? Que ele não vai fazer com a pessoa que usar o mesmo que a caixa fez com a banana ?" falei.
"Certeza . . . Pelo menos 90%" ele dizia.
"E os 10% restantes ? Onde ficam ?"
". . . Eu sempre gosto de ter a porcentagem em aberto pra caso de falhas.Mas fica tranquila !" eu ouvia o Armin falando mas ainda assim ficava assustada e incomodada com a banana.
Fiquei em silêncio olhando pra banana e pra maquina.
Era muito estranho.
Aquilo me fez pensar . . . E se eu voltasse no tempo até antes de vir pra Terra ?
Armin perguntou o que eu estava pensando, afinal, me calei repentinamente por tempo indeterminado.
". . . Adivinha, você mesmo falou que temos conexão mental." eu dizia rindo.
"hmm Pensando em voltar no tempo e estar com medo de usar a maquina ?" ele falava.
"Olha . . . Foi bem certeiro. Mas . . . Sim, eu pensei em voltar no tempo. . . "respondi me sentando em um canto próximo a mesa onde ele estava sentado.
"Salvar sua mãe ?" ele questionou.
". . . Salvar todo mundo na verdade . . .
E se eu voltasse no tempo pra antes de vir pra essa dimensão ? Daria ?" perguntei olhando pra cima em direção ao Armin.
Armin respirou fundo e se sentou do meu lado no chão.
". . . Acho que não daria certo . . .
A maquina funciona nessa dimensão, não sei como ficaria pra fazer essa coisa toda de voltar antes.
Talvez isso apagasse sua existência.
Talvez te fizesse virar um espirito vago.
Talvez te fizesse parar no vácuo.
Ou talvez funcionasse . . . Mas sinceramente a ultima opção eu acho difícil." Armin falava pensativo.
"Você tá falando isso pra tirar a ideia da minha cabeça." rindo eu dizia enquanto dava um empurrão nele.
"É sério Boreal ! Eu realmente acho que isso poderia comprometer tudo . . ." Armin respondia sério, apesar de tudo, descontraído com meu jeito.
Ficamos em silêncio.
Eu continuava a olhar pra banana pensativa.
Então escorei a cabeça baixa no braço do Armin ainda sentada e continuei perdida em meus pensamentos.
"Armin. . . Você falou de eu ser de outra dimensão, na verdade . . . Eu realmente sou né. . .
Se um dia eu tiver que voltar de alguma forma pro bem de todos . . . Nos separaríamos e--"
"Eu daria um jeito. Eu prometi ficar do seu lado, e eu quero ficar do seu lado.
Enquanto eu achar que você corre risco eu vou tentar te ajudar.
Eu daria um jeito mas . . . Se um dia isso acontecer, eu me recuso a aceitar isso de forma simples. A menos que essa seja a única forma de te manter viva." Armin falava escorando a cabeça pra trás na maquina.
"Mesmo se nossa relação for perigosa pro mundo ?" questionei.
"Sim. . . E não digo apenas relação de namoro.
Você poderia ficar com o Nathaniel, Castiel, tanto faz.
Eu quero te manter viva.
Você já perdeu coisa demais pra perder mais a vida também. . . " Armin então encostou levemente a mão dele na minha, aquilo me deixou bem mais calma.
"Eu senti falta de passar o dia falando contigo . . ." falei.
"Eu também senti.
Mas eu não me arrependo de ter me trancado. Graças a isso eu terminei a maquina." Armin dizia.
"A maquina é realmente uma prioridade . . . " ali eu acabei soltando ar com a boca, realmente me senti deixada de lado.
Mas o Armin, me deu confiança e conforto.
"Não, a prioridade é você sempre. E se eu me empenhei na maquina dessa forma foi unicamente por você. Eu . . . te amo." senti meu rosto esquentar de vergonha.
Assim como senti o Armin.
Diferente de todas as vezes ele não correu pra esconder sua vergonha, pelo contrario, ele se manteve.
Eu dei a mão pra ele e com grande dificuldade consegui falar um "eu também."
Nunca pensei que dizer essas duas palavras seria tão difícil . . .
Ficamos contemplando a presença um do outro até eu decidir me desculpar.
"Eu . . . Dei muito trabalho me isolando e tentando me matar né ? Desculpa . . . "
Armin calmamente me respondeu
"Não tenho nada que desculpar.
Diferente de mim, você teve motivos bons pra isso . . . E foi muito forte.
Eu sou um fraco, mas você teve bons motivos pra fraquejar e ainda assim está de pé agora.
Foi um prazer cuidar de você esse tempo todo, mesmo que sendo irritante as vezes." Armin ria antes de continuar.
"Sabe, agora contigo, eu sei tudo que meu irmão passou esses anos todos . . .
Eu sempre estive na pele do suicida não de quem cuida do suicida . . . E consigo entender ele um pouco melhor.
Sabe, eu e meu irmão temos os mesmos transtornos. Nele é menos aparente.
Ele reage melhor as coisas e o fato de ele não ter diagnostico de depressão acho que releva muita coisa. Ele é uma das pessoas mais despreocupadas e felizes que conheço.
Eu já tive que cuidar dele em crise, mas foram raras as vezes e foram bem rápidas as crises do meu irmão.
Já ele teve bastante trabalho comigo . . .
E avaliando tudo que ele passou e agora o que passei contigo . . . Eu entendo bem o que ele passou. Não tenho raiva nenhuma do que aconteceu e entendo bem o que sentiu.
De certa forma fico até feliz porque acho que agora você entende minha mente um pouco melhor e vice versa." Armin sempre é gentil comigo com as palavras.
Mesmo quando faz brincadeiras de mal gosto, que aliás, ele não havia feito nenhuma até então.
"Desculpa mesmo ter te dado tanto trabalho Armin . . . Eu fui uma idiota egoísta . . . " voltei a repetir.
"Se for assim eu também sou o tempo todo.
Sabe . . . Eu entendo seus sentimentos. Talvez eu possa me atrever a dizer que sou quem mais te entende por aqui, já porque eu tenho os mesmos pensamentos e sentimentos que você. A intensidade pra cada um é diferente mas, são similares.
Você ainda passa por coisa pior se levarmos em conta seu magnetismo. Eu só tenho que lidar com minha própria mente.
Você tem que lidar com sua mente e seus problemas físicos. Eu . . . Só tenho minha mente pra me atrapalhar.
Não tenho problema físico nenhum. Nada de ruim de fato acontece comigo." Armin falava.
"Isso não desmerece seus problemas. Pelo contrario. Você é valioso e tem problemas como todos." respondi.
"Eu devia ser mais como o Nathaniel. Minha vida é perfeita.
O Nathaniel tem mais motivos pra ser depressivo do que eu, e ainda assim eu me deixei chegar nesse ponto." Armin dizia.
"Armin ! Para de se desmerecer." quando gritei ele se silenciou.
Com a cabeça baixa, Armin voltou a falar do Nathaniel.
". . . Quando estavam sozinhos no hospital . . . Ele ficou com raiva de eu ter fugido ?" ele perguntava.
Seu timbre tremia e ele parecia bem nervoso.
"Nathaniel falou comigo e em momento algum me induziu a separar de você ou sequer falou qualquer coisa negativa sua, na verdade, ele mal falava de você. Entretanto sei que ele estava preocupado . . .
Nathaniel se importa muito contigo Armin. Tudo que ele fez foi só me acalmar quanto a situação que estava acontecendo.
Você fugindo, eu sozinha em trabalho de parto. . . " sei que ele estava frágil e tentei ser delicada.
Mas . . . Tem certas coisas que saem sem querer e outra que não tem como medir.
"Entendi . . ." foi toda resposta que ouvi dele antes dele puxar assuntos variados.
Dali em diante conversamos sobre tudo.
Jogos, desenhos, filmes, até apagarmos.
Passamos a noite perfeita. Acho que o Armin queria compensar tudo que ocorreu. Ele falou tantas frases lindas e motivacionais ao decorrer da nossa conversa, e no fim, acho que ambos se ajudaram.
Na manhã seguinte eu estava abraçada no peito do Armin, algo que não acontecia a meses e tinha uma coberta nos envolvendo.
Alexy estava sentado em uma mesa lendo algo.
Ele levantou o óculos e olhando pra gente deu um bom dia alegre.
"Alexy ? Que horas são ?" perguntei esfregando o olho.
"Mais de 11 horas já. Eu cheguei aqui e ao chamar ninguém me atendeu.
Vim aqui pro escritório como de costume ai vi os pombinhos dormindo.
Peguei uma manta e cobri vocês e fiquei aqui mexendo nas coisas.
Fico feliz que tenham se resolvido" ele sorria gentilmente
Armin levantou e deu um soco no Alexy.
"VOCÊ TÁ USANDO A BOREAL DE RATO DE LABORATÓRIO ?!" Armin gritava.
"BOM DIA PRA VOCÊ TAMBÉM SEU TRASTE !" Alexy então devolveu o soco.
"EU TE SOQUEI COM MOTIVO !" Armin dizia.
"Não socou não ! Eu to cuidando bem dela e--" a voz de Alexy foi interrompida pela campainha.
Alexy saiu correndo pra porta e Armin foi atrás correndo.
"TEMOS VISITA ! SE COMPORTE FEITO GENTE SEU TRASTE !" Alexy gritava.
"PODE SER A RAINHA DA INGLATERRA NA PORTA ! ELA VAI TE VER APANHAR !" Armin gritava indo até o Alexy que ao abrir a porta já foi pego pelo irmão.
Na porta, era o Nathaniel.
Armin parou na mesma hora.
Nathaniel dava bom dia gentilmente enquanto Alexy se agarrava em sua cadeira falando "não me bata ! Estou com um cadeirante." Alexy dizia.
"Nathaniel sabe muito bem se virar ! Sai dai Alexy !" Armin gritava.
Nathaniel estava rindo.
"Vejo que o clima da casa está bem melhor não é mesmo ?" Nathaniel dizia entrando e se posicionando na sala.
Eu ainda estava sonolenta mas fui cumprimenta-lo empolgada.
Era ótimo ver a casa cheia de vida daquela forma.
Era ótimo saber que eu estava bem com o Armin.
Não vou falar que minha raiva passou 100%, mas pelo menos uns 90% sim . . .
Esses 90% que peguei do Armin . . .
Ainda estava chateada com o fato dele ter escondido o Jade e ter me largado no hospital, mas, eu conseguia entender com mais clareza suas atitudes.
Armin é muito importante pra mim pra eu simplesmente ignorar uma atitude claramente anormal dele, no caso, a forma como ele vinha me tratando.
Eu me sentei e comecei a contar pro Nathaniel tudo.
Sobre a maquina.
Ele pareceu muito empolgado.
Alexy também demonstrou empolgação.
Ele falava de como as coisas poderiam ser mais fáceis agora.
De poder tentar salvar minha mãe e até sobre ajudar nosso filho.
A conversa estava bem descontraída.
Alexy então repentinamente chamou atenção pro Armin.
"Vai onde ?" ele perguntava.
"Vou no quarto tomar um banho, essas coisas . . ." ele dizia com desanimo.
Confesso que notei, mas eu estava tão empolgada que acabei ignorando sem querer . . .
Continuei conversando com Alexy e Nath.
A conversa fluía e falávamos sobre assuntos variados.
Mas Alexy ia se silenciando aos poucos e parecia inquieto.
Ele então parou do meu lado e falou comigo.
"Estou preocupado com o Armin. Ele parecia chateado . . . "
"Agora que falou . . . Eu também achei . . . " respondi.
"Não quer ir ver ele ? Pergunta pra ele o que houve. Acho que você é a melhor pessoa pra falar com ele no momento. Ele tem passado por muita coisa e ele se apoia bastante em você . . . " Nathaniel dizia.
E bem, foi o que fiz.
Eu fui no quarto falar com o Armin, afinal, eles tinham razão, eu era a melhor pessoa pra isso.
Nossa relação estava bem melhor, o dia anterior havia resolvido muitos dos nosso problemas . . .
Pelo menos foi o que achei, mas . . . Minha mente pensou o oposto assim que abri a porta do quarto. . .
Eu entrei no quarto pra chamar o Armin e conversar com ele . . .
Mas tudo que eu via . . . Era seu corpo pendurado em uma corda com uma cadeira caída pro lado.
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