“it is time to rise again”
quick drawing for an unexpected but terribly important return.
Maki Zen’in from Jujutsu Kaisen chapter 144
seen from Australia

seen from Australia
seen from Australia
seen from China

seen from Australia

seen from Maldives
seen from Belgium
seen from Vietnam

seen from United States
seen from United Kingdom
seen from Germany
seen from United States

seen from Bulgaria

seen from Maldives
seen from Türkiye
seen from United Kingdom

seen from T1

seen from United States
seen from China
seen from Bulgaria
“it is time to rise again”
quick drawing for an unexpected but terribly important return.
Maki Zen’in from Jujutsu Kaisen chapter 144
Tirinha 144
Capítulo 144
Capítulo 144 - FESTA DO FRED Parte 1
Matt: O que a gente faz? Chama ele? Ou finge que não viu?
Eu: Não sei o que fazer, isso nunca rolou antes.
Nós convivemos juntos, os três, há tanto tempo, que certos comportamentos rolam meio que de forma automática. Por exemplo, se o sucrilhos tá no fim, o Matt e o Fred não comem porque sabem que eu sou o que curte mais (e vou ficar muito puto). Se o Matt tá jogando video game, nem adianta falar com ele porque ele não vai responder, ou vai responder qualquer merda que não faz sentido com o que tu perguntou. Eu e o Fred nunca saímos de casa com maconha, porque sabemos que o Matt sempre tem. Quando o Fred some no rolê, nem nos preocupamos porque sabemos que ele com certeza tá com alguma mina. Se o Matt some, ou tá muito bêbado e se perdeu, ou tá passando mal, ou tá dormindo. Enfim, essas coisas que já aconteceram milhares de vezes e nós três sabemos como cada um vai reagir, e reagimos de acordo com isso.
Eu: Quero dizer, já rolou de a gente ver o Fred com uma mina, inclusive na frente da faculdade. Mas...
Matt: Vamo fingir que a gente não viu. Ele fica puto quando deixa parecer que tá a fim da Vicky, tu sabe.
É, seguindo a lógica de relembrar os comportamentos habituais pra saber como agir, fazia sentido. Eu tava atrasado pra aula, então era até melhor não parar pra conversar com ninguém mesmo. Fora que eu vi que a Rafaela tava ali do lado. To bem de boa de levar uma queimada de cigarro no braço. Decidido isso, eu e o Matt passamos bem pelo canto do portão pra evitar que o Fred e a Rafaela nos vissem, até que:
Fred: WHAZZUUUP, BICHAS!
Com certeza ele tava falando com a gente. O Matt se virou antes de mim e fez cara de quem não tava entendendo nada. Eu também não tava. Me virei e vi o Fred acenando pra gente segurando um cigarro, e com o outro braço em volta da Vicky. Ela tava mexendo no celular, parecendo bastante à vontade. O Matt me olhou de canto.
Eu: E aí. - respondi sem sair do lugar.
Fred: Calma aí.
Ele deu uma tragada funda e apressada no cigarro como se estivesse fumando um beck, e apagou a bituca na grade do portão. Nem por um segundo ele tirou o braço de cima dos ombros da Vicky. Pior que isso: falou alguma coisa em voz baixa pra ela, que a fez rir, seguido de um beijo no rosto, e os dois passaram andando por mim e pelo Matt. A gente nem se mexeu pra não perder nenhum trecho da cena.
Fred: Que aula vocês têm agora?
Eu e o Matt nem conseguíamos responder. A Vicky falou por nós.
Vicky: Eles nunca sabem... É Semiótica Aplicada.
Eu nem sabia que existia essa matéria.
Fred: É Bloco C?
Vicky: Aham.
E os dois saíram andando na nossa frente. Ele vai levar até a sala? Eu e o Matt continuamos parados olhando, até ele falar exatamente o que eu tava pensando.
Matt: Beleza. ISSO é novo! - ele apontou pra frente.
Seguimos os dois e, realmente, a coisa toda aconteceu. Ele atravessou a quadra abraçado com ela, passou pela cantina, deu a volta em frente à biblioteca, chegou ao bloco C, pegou o elevador e subiu até a nossa sala assim, abraçado com ela. O Matt já não tava num momento muito falante da vida dele, e a situação toda só calou mais ainda a nossa boca. Ficamos quietos ouvindo o Fred fazer piadinhas idiotas pra ela rir. Eram tão idiotas que só alguém muito a fim dele poderia achar graça. E ela tava rindo pra caralho.
Entramos na sala a tempo de ouvir o beijo estalado que eles deram antes de o Fred ir embora. Não faltaram as risadinhas também. Me sentei na quarta fileira, o Matt se sentou do meu lado, e a Vicky se sentou na nossa frente. Ela nem ousou olhar pra trás enquanto remexia a bolsa pra encontrar o celular que tava perdido lá dentro.
Eu: Vai mandar mensagem falando que tá com saudade já?
Ela se virou pra falar comigo de forma brusca, mas começou a rir antes mesmo de tentar parecer brava com a minha pergunta.
Vicky: Fica na tua, vai.
Sacudi a cabeça em desaprovação, mas ela nem viu. Me ajeitei na cadeira e pedi uma folha do caderno do Matt emprestada pra fazer alguma coisa na aula. A gente já tá no meio do semestre e eu ainda não comprei um caderno. Como eu consigo?
Matt: Tu quer uma folha EMPRESTADA? Como assim? Tu pretende devolver?
Eu: Onde eu vou guardar? - apontei pra mim mesmo.
O professor com óculos grossos, má postura e voz afeminada entrou na sala sem muita moral, mas logo todo mundo ficou em silêncio pra ouví-lo. No começo eu quis dormir porque não tava entendendo porra nenhuma. Não é fácil pegar o fio da meada depois que tu falta em todas as primeiras aulas, mas aguentei firme e acordado. E olha que foram duas longas aulas seguidas. A frase "e é isso, continuamos na próxima aula" soou como música pra mim, e nos levantamos pra sair pro intervalo. A Vicky não tirava aquele sorrisinho idiota do rosto.
Vicky: Que foi, meu?
Eu: Que foi o quê?
Vicky: Por que tu fica me olhando? - ela perguntou enquanto ajeitava a alça da bolsa no ombro.
Eu: Nada.
As pessoas se entregam sozinhas. É incrível. Eu nem falei nada além de olhar pra cara dela, e ela já veio surtar. Descemos até o térreo de elevador enquanto a Vicky encarava a tela do celular como se esperasse alguma coisa acontecer. Ou talvez ela só estivesse evitando manter algum contato visual comigo pra não ficar com vergonha. Ao sair do elevador, a Vicky saiu andando numa direção diferente da nossa. Achei melhor perguntar porque ela tava parecendo bem distraída.
Eu: Tu vai com a gente?
Ela continuou andando como se pisasse em nuvens.
Eu: VICKY!
Vicky: Oi! - ela se virou procurando onde eu tava.
Eu: Tu vai com a gente?
Vicky: Eu? Ah! Não. Vou... Pra lá. - ela apontou pro nada.
Eu: Beleza.
Ela sorriu gratuitamente pra mim e voltou a andar na direção de antes. Olhei pra cara do Matt, que tava parecendo um brócolis, olhando pra um ponto qualquer no chão e com os óculos tortos na frente do rosto. Ele e a Vicky pareciam a persononificação do que o amor pode fazer contigo, só que de jeitos totalmente opostos. Ou fica feliz pra caralho, sorrindo à toa, distraído. Ou perde a vontade de ajeitar os próprios óculos. Consequências diferentes pra uma mesma merda que é o amor.
Eu: Acorda.
Dei uma cotovelada na costela do Matt, que me seguiu como um zumbi. Acho que ele nem sentiu dor. Chegamos na quadra e nos sentamos no palco, próximos ao Dudu e os amigos dele, que acenaram. O Dudu desceu do palco e veio falar com a gente.
Dudu: E aí, rola essa festa na casa do Fred hoje?
Eu: Pelo visto s...
E ele surgiu como um espírito de filme de terror, que tu não pode falar o nome senão ele aparece.
Fred: PORRA!!!
Dudu: Tudo bem aí?
Fred: QUEM É ESSE PORRA DESSE AMARAL?
Dudu: Ahn?
Fred: É! Thiago, Diego, caralho a 4 Amaral. Sobrenome Amaral.
Eu não fazia ideia de quem era, mas esse tal Amaral devia ter feito alguma merda muito grande pro Fred ficar tão puto.
Dudu: Thiagão Amaral?
Fred: Sei lá o nome dessa porra! Ele tá querendo foder com a minha vida! Eu vou arrebentar esse maluco!
Dudu: Se for quem eu to pensando, ele tá bem ali.
Fred: Me aponta esse filho da puta pra eu já decidir qual osso dele eu vou quebrar.
O Dudu apontou na direção na Atlética, onde tinham uns seis caras posicionados como se fossem guarda costas da salinha do Felipe.
Fred: Qual deles é o arrombado?
Dudu: Aquele ali. Tá escrito "Amaral" atrás da camisa dele. Thiagão Amaral. Joga no time de Rugby.
O Fred ficou quieto olhando pro moleque por um tempo.
Fred: Ele é bem "ão" mesmo, né?
Parece que alguém afinou.
Eu: HAHAHAH!
Dudu: O que aconteceu?
Fred: Porra, fui chamar uma galera pra festa hoje, tá todo mundo dizendo que já vai na festa desse cara!
Dudu: Hm... Pior que é real, quase toda segunda ele faz alguma coisa na república onde ele mora.
Fred: Tá me zuando. SEGUNDA-FEIRA?
Agora ele finalmente tá achando bizarro uma festa rolar em plena na segunda-feira.
Fred: Vai se foder. Onde fica a república desse cara?
Dudu: No nosso prédio. Acho que é no sétimo andar.
Fred: E por que a gente nunca foi?!
Demorei até perceber que ele tava falando.
Eu: O quê? A gente?
Fred: É!!!
Eu: Porque ninguém nunca chamou, eu acho.
Fred: Porra, vai se foder. Vai se foder. O cara marca o bagulho no mesmo dia da minha festa e nem nunca me chamou pra dele. Filho da puta.
Eu: Vai lá. Arrebenta a cara dele.
Fred: To de boa. - ele riu.
Eu: Qual osso tu vai escolher pra quebrar?
Ele me mostrou o dedo do meio e saiu andando, provavelmente pra pensar no que fazer nesse gerenciamento de crise. Eu também mudaria de ideia de bater no maluco depois de ter visto quem era. O tal Amaral devia ter, no mínimo, 2 metros de altura. Era um cara negro, forte e gigante em todos os sentidos. Daqueles que a gente curte chamar de "armário". Devia ser o cara mais forte da faculdade inteira, na boa. Precisaria de um caminhão pra quebrar qualquer osso dele.
Dudu: Por que ele tá tão puto? É só mudar a data da festa.
Eu: Tu não conhece o Fred. Tem mais chance dele bater no Amaral do que mudar a data da festa.
Dudu: Hahaha.
Eu: Tu vai em qual?
Dudu: Vou na do Fred. Essas do Amaral são boas, mas tem sempre as mesmas pessoas: os caras da Atlética, as gurias mais bonitinhas do nosso prédio, e tal.
Eu: Eu não acho que "as gurias mais bonitinhas do nosso prédio" sejam uma coisa ruim.
Dudu: Não disse que é.
Eu: Até porque eu nem conheço ninguém que mora lá. Já tava na hora de eu mapear as gurias legais da vizinhança.
Dudu: Hahaha. Pode crer que tem muitas. Te ajudo com isso. Só tem república naquele prédio praticamente.
Logo o Fred voltou com uma postura mais do que determinada, parecendo um general, e deu um tapa no palco antes de falar.
Fred: Matheus e Thommo, vocês vão matar aula hoje.
Eu: Ah, falou.
Fred: Não se faz de difícil. Tu mataria sem eu nem pedir.
Eu: Qual teu plano?
Fred: A gente precisa começar a ver essa porra dessa festa já. Vai precisar ser a melhor da HISTÓRIA pra esse malucão pensar duas vezes antes de marcar uma festa no mesmo dia que eu.
Dudu: Foi ele que marcou primeiro, tu que marcou no mesmo dia.
Eu: Não contraria, Dudu...
Fred: NÃO INTERESSA, CARA! Se tiver mais gente da WA na festa dele do que na minha, o pau vai comer.
Eu: Tu sabe que vai ter, né?
Fred: Sei... Mas quero que quem for na festa dele e não na minha se arrependa depois.
Eu: Entendi.
Fred: Amargamente.
...
Fred: Pra caralho.
Dudu: Eu vou na tua.
Fred: Claro que tu vai na minha. - ele disse como se fosse a coisa mais óbvia do universo. - O que vocês tão fazendo sentados ainda? Vamos pra casa resolver essa merda. Tenho uns trezentos números pra tu ligar e mais uns quatrocentos pro Matt. E vamo mandar mensagem também pra ter certeza de que a galera tá sabendo da minha festa.
Eu: E como a gente vai fazer isso ao mesmo tempo? Eu não tenho dinheiro pra ficar ligando pra mil pessoas do meu celular.
Fred: Ô, caralho...
Ele se virou de novo e saiu andando pra resolver mais um problema. Pra essas coisas o Fred é bem ligeiro.
Dudu: Ei, Matt. Tudo bem contigo?
Matt: De boa.
Dudu: Sem querer te encher o saco, mas tu parece quieto.
Matt: Eu sou quieto mesmo.
Dudu: É...
O que o Dudu quis dizer era que ele tava mais quieto do que o normal, mas o Matt não deu muita abertura pra conversa. Não demorou muito pro Fred voltar.
Fred: Bora pra sala da TV.
Eu: Ahn?
Fred: O Jota liberou a sala da TV pra gente usar, tem uns três telefones lá, computador, cadeiras... Cerveja.
Eu: Bora.
Dudu: O negócio tá ficando sério mesmo, hein? O Amaral tá sabendo dessa tua festa?
Fred: Se não sabe, vai saber daqui à pouco. VAMO, CARALHO!
Ele saiu com pressa e eu e o Matt fomos atrás. O Matt continuava não muito animado, mas ele não tava muito animado com a vida no geral mesmo, então beleza. Pelo menos ele tava se forçando a fazer as coisas ao invés de ficar em casa lamentando a própria existência.
A sala da TV era nada mais do que um quartinho escuro que ficava embaixo da escada do Bloco B. Tinha o chão e as paredes pintadas de preto e uma porta vermelha. Uma mesa de escritório de madeira escura preenchia as paredes em forma de "L", e quatro computadores cercados de sacos de salgadinho abertos e latas de Coca Cola vazias deixavam claro que os caras passavam bastante tempo editando aqueles vídeos idiotas pra gente rir na quadra.
Fred: Tem cerveja na geladeira.
Ele apontou pro frigobar no canto da sala e fechou a porta. Eu me sentei numa cadeira e o Matt se sentou em outra. Eram bem confortáveis, pra quem fica bastante tempo sentado.
Fred: Seguinte: Matt, liga pra todos os números da minha agenda.
Matt: Todos?!
Fred: TODOS! Quem não atender, tu manda mensagem.
Matt: Mano... Deve ter umas mil pessoas na tua agenda. Sem força de expressão.
Fred: Ainda bem. Pode dizer que vai ter open bar de cerveja.
Eu: OPEN?
Matt: Tipo, open bar mesmo?
Eu: Tu sabe o que quer dizer open bar?
Fred: PORRA, É OPEN BAR!
Ele confirmou com raiva e ficou andando de um lado pro outro, pensativo e impaciente.
Eu: Como tu vai fazer isso??
Fred: Eu vou dar um jeito.
Eu: Vai ter que pagar pra entrar?
Fred: Alguém paga pra entrar na festa do Amaral?
Eu: Não que eu saib...
Fred: ENTÃO NÃO, PORRA!
Eu: Velho, tu vai fazer o quê? Pedir dinheiro pro teu pai dizendo que tu quer distribuir cerveja por aí?
Matt: É perigoso ele dar.
Fred: Não, caralho. Meu pai não me dá tanto dinheiro quanto vocês pensam, beleza? O dinheiro é dele, não meu.
Eu: Agora não é hora de ter crise existencial, cara. Outro dia a gente te zoa sobre isso. Eu quero saber como tu vai fazer uma festa open bar na tua casa chamando tanta gente assim? Tipo, a gente normalmente cede umas bebidas mesmo, até porque sempre sobra coisa na tua casa que a galera leva da festa anterior... Mas tu tá querendo chamar a tua agenda inteira, a faculdade inteira! Para pra pensar. É cerveja pra caralho.
Fred: Eu sei.
Eu: E outra: se essa notícia espalha...
Fred: Vai espalhar.
Eu: Vai colar tanta gente que tu não vai dar conta, vai dar confusão, a bebida vai acabar, tu sabe como é. A gente já colou em festas que não deram certo porque os caras foram ambiciosos demais. Baixa a bola.
Matt: É, Fred, relaxa. É só um cara da faculdade fazendo uma festa no mesmo dia que tu.
Fred: Beleza, mas desse jeito nós nunca vamos ser os caras que dão as festas fodas, sacou?
Silêncio.
Eu: Algum dia a gente já foi "os caras que dão festas fodas"?
Fred: MANO, TODO MUNDO É ALGUMA COISA NESSE LUGAR, EU QUERO SER O CARA DAS FESTAS FODAS!
O Matt colocou a mão na frente do rosto.
Fred: É nossa chance de fazer uma festa que vai ser comentada na porra da faculdade inteira. Me ajudem com essa merda. Thommo, tu vai ligar pra todo mundo da tua agenda também.
Eu: Eu?
Fred: Menos pra Alícia.
Eu: Eu nem tenho agenda no celular mais. Não tenho número de ninguém.
Fred: Cacete...
Eu: Fred, relaxa. Vai dar um jeito no teu open bar aí que a gente liga pra galera. O tempo tá passando.
Fred: É, tu tá certo. Enquanto eu não resolvo isso, vão ligando pra galera de sempre. Luc, Sick Boy, Pizza, Bruninho, Ale, Deco, Mari, Gisele, aquela guria com sarda, o cara que consertou o shape do Matt aquela vez, TODO MUNDO!
Eu: A gente já entendeu, cara.
Fred: Liga primeiro pras últimas gurias que eu mandei mensagem, mesmo as que eu não coloquei na agenda ainda.
Eu: E como eu vou saber o nome?
Fred: Chama de "linda".
Revirei os olhos.
Fred: Fala que tu é amigo do Fred, que ele queria muito poder ligar pra elas, mas que...
Eu: VAI LOGO, FRED!
Fred: FALOU!
Ele finalmente abriu a porta pra sair da sala, mas voltou.
Fred: Pra Vicky tu não precisa ligar, eu vou chamar ela.
Eu: Beleza.
Ele saiu da sala. E voltou de novo.
Fred: Se ela mandar mensagem aí, fala que...
Eu: Eu não sou tua secretária, velho. Tchau.
Fred: Falou.
Ele saiu. Finalmente. O Matt me olhou já cansado daquilo tudo.
Matt: Por onde a gente começa?
Eu: Eu só quero saber desse open bar. Vai dar merda.
Matt: Vai.
Eu: Vou ligando pra galera que eu conheço da agenda do Fred enquanto tu liga pra galera da tua agenda, pode ser?
Matt: Pode.
Eu: E aí quando ele voltar, a gente vê o que faz.
Respiramos fundo e começamos a ligar pra todo mundo pra chamar pra tal da festa. Com ou sem open bar, ela ia rolar. Isso era fato. O Fred era orgulhoso demais pra deixar o grandão da Atlética dar uma festa melhor que a dele no mesmo dia. Depois que já tínhamos telefonado pra umas cem pessoas, sem exageros, o Fred voltou já socando a porta.
Fred: CARALHOOOO!
Eu tava entre uma ligação e outra, mas o Matt teve que tampar a outra orelha pra conseguir ouvir o que tavam falando no telefone com ele.
Fred: SE LIGA.
Ele até se sentou no sofá de couro vermelho pra contar.
Fred: Pra fazer as festas da faculdade, os caras da Atlética, do DA, essas porras, conseguem bebida por patrocínio.
Eu: Hm.
Fred: Tipo, como vai gente pra caralho nas festas, eles falam com as marcas de bebida pra trocarem divulgação no evento por ÁLCOOL.
Eu: Como assim?
Fred: Tipo, a gente liga na Heineken, e diz que se eles nos derem um número xis de cervejas, a gente libera pra eles colocarem um banner na festa, ou colocarem o nome deles como patrocinadores em tudo que a gente divulgar, ou mesmo pra eles fazerem alguma intervenção. Ou eles dão a bebida de graça ou a gente pega com desconto.
Eu: A gente vai ligar na Heineken?
Só ouvi essa parte.
Fred: Não, a gente não. Não vai ter tanta gente na minha festa pra eu ter argumento pra ganhar cerveja de graça.
Eu: Ah.
Fred: Massss... Dá pra conseguir desconto se tu falar com as pessoas certas lá dentro e for comprar uma quantidade grande de cervejas. Tá ligado?
Eu: Pode crer.
Fred: Dá pra conseguir cerveja por centavos. CENTAVOS.
Eu: Beleza, e o que tu precisa pra conseguir isso?
Fred: Precisava do contato de alguém de alguma marca de cerveja. Essa é a parte foda.
É. É tipo tu falar que consegue colar numa festa do Snoop Dogg. Só precisa do convite. Pô.
Fred: Só os caras do CA, DA e Atlética tem esses contatos, e eles não passam nem fodendo. Tem tipo um combinado entre eles pra não divulgarem.
Eu: Que merda.
Fred: Mas se liga. Os caras da Atlética e do DA se odeiam. Tu tá ligado, né?
Eu: Acho que sim.
Sou meio (muito) por fora dessas fofocas/tretinhas da faculdade, pra falar a real. Mas fazia sentido eles se odiarem. A disputa de egos e de quem recebe mais dinheiro da faculdade pra fazer festas deve ser grande.
Fred: Na real, todas as entidades se odeiam, mas parece as coisas deram uma piorada depois que um maluco do DA pegou a irmã mais nova do Amaral.
Ele deu um sorriso tão cretino que eu quis socar a cara dele, mesmo não tendo nada a ver com a história.
Eu: Como tu fica sabendo dessas coisas, velho?
Fred: Mano, eu desci e tava o Amaral conversando com uns caras na arquibancada. Na hora que passou a irmã dele e um maluco do outro lado da quadra olhou, eu já vi a cara de MERDA que ele fez. Dois palitos pra eu ir atrás disso.
Eu: Hahahaha.
Fred: Enfim, descobri quem foi o cara do DA que pegou ela, troquei uma ideia... Pra quem eu ligo primeiro: pra Heineken ou pra Skol? - ele abriu um sorriso maior ainda.
Eu: FILHO DE UMA PUTA! TU VAI CONSEGUIR OPEN BAR DE HEINEKEN?! HEINEKEN???
Eu até levantei da cadeira pra abraçar o Fred.
Fred: AQUI É FESTA DO FRED, CARALHOOOO!
Ficamos os dois retardados pulando no meio da sala enquanto o Matt olhava por cima dos óculos. Ele nem devia estar entendendo nada.
Mesmo com a notícia do open bar confirmado, a correria não parou por aí. O Fred se sentou com a gente e saiu ligando pra todo mundo também, desde a Heineken até uns amigos do Sick Boy que poderiam arranjar alguma coisa. E no fim, conseguiu: a Heineken liberou um lote por centavos, e o Sick Boy ainda indicou uns amigos que tinham uma carga roubada pra vender cervejas mais baratas ainda. Beleza, não era muito bonito comprar um carregamento de latas roubadas pra uma festa, mas a gente já fez cada merda na vida... Talvez essa seja uma das mais tranquilas. E é por uma boa causa. Quero dizer, o conceito de "bom" é bastante relativo, então não tem muito o que discutir. Fato é que, a cada conquista dessas, eu e o Fred levantávamos da cadeira e nos abraçávamos. O Matt se limitava a fazer um "jóia" com o dedão pra mostrar que tava feliz. Ou pelo menos fingir que tava.
Muitos telefonemas, abraços, ligações e mensagens de convite depois, minha barriga começou a doer de fome, e eu me lembrei de olhar que horas eram. Quando tu fica ocupado demais, parece que o relógio corre mais rápido que o normal. E o pior é que tu nem lembra dele. Já era 1h da tarde.
Eu: Caralho, já acabou a aula! Tu lembrou de pedir pra Vicky responder a chamada pra gente?
Matt: Como ela iria responder a chamada pra gente?
Eu: Sei lá. Vai que tem alguma aula que os caras passam lista de presença.
Matt: Nunca teve lista de presença, Thommo. O professor sempre fala o nome de todo mundo alto e a galera precisa responder "presente".
Dá pra ver que eu não participo muito das aulas. Eu tava determinado a mudar isso, até porque agora sou eu que to pagando pelas porras das aulas, mas às vezes surgem coisas mais importantes, tipo hoje. De novo: a ideia do que é importante ou não é bastante relativa. E não to aberto a discutir isso também.
Fred: Caralho, nem vi a hora passar! Dá meu celular aí, Thommo.
Eu: Calma aí, to pegando mais uns números pra ligar.
Fred: Só vê se a Vicky mandou mensagem então.
Parei de escrever os números no papel e lancei um olhar intimidador pra ele, em silêncio. Ele percebeu depois de alguns segundos.
Fred: Que foi, cara?
Eu: Lança a real. O que tu tá fazendo?
Fred: O que eu to fazendo o quê?
Eu: Tu tá fazendo a guria de troxa?
Fred: Defina "troxa".
Eu: Vou definir "cuzão do caralho" pra ti se tu estiver fazendo a guria de troxa.
Fred: De novo essa história, velho. Cuida da tua vida.
Eu: Até ontem tu não podia ouvir a gente falando dela que já xingava, agora tá assim. Quem não te conhece que te compra, mano. E eu te conheço bem.
Fred: To ficando com ela, e daí?
O Matt deixou o telefone cair no chão.
Eu: Tu tá o quê?
Fred: Ficando.
Eu: Foi mal, não ouvi direito. Fic... - eu não podia perder a oportunidade de zuar.
Fred: É isso aí mesmo.
Eu: Tipo no gerúndio mesmo? Ficaaando. Tipo, algo que começou no passado e tá rolando no presente ainda.
Fred: É.
Eu: Hahaha. Não. Na boa, não. Tu sabe o que significa estar ficando com alguém?
Fred: Acabei de falar que eu to ficando com a mina. Se pá eu sei. - ele ergueu as sobrancelhas de forma irônica.
Matt: "É o primeiro passo pra virar um idiota", como tu mesmo diz.
Eu: Tipo, tu tá FICANDO com ela tipo HOJE?
Fred: Mano, sim. - ele respondeu parecendo meio inconformado com a pergunta. - Ué.
Eu: Tipo, tu ficou ontem, ficou hoje e vai ficar amanhã? Isso é estar ficando.
Fred: Pelos meus planos, sim.
Eu: Tu vai ficar com ela na tua festa?
Fred: Vou, ué.
O Matt parou de falar com quem quer que fosse no telefone.
Matt: Peraí. - ele tampou o telefone. - Tu vai O QUÊ?
Eu: Tá falando sério?
Fred: Velho, vocês falam como se eu fosse um alien. A mina é gatinha, gente boa, curti ficar com ela e quis ficar mais vezes, e ela também. Tamos aí.
Ele virou a cadeira giratória de costas pra nós e começou a discar outro número no telefone. Eu olhei pro Matt, que tava me encarando também. As coisas andam mesmo muito malucas. Aproveitei pra fazer o que o Fred pediu e olhar as mensagens de celular dele.
Eu: Tem uma mensagem da Vicky sim.
Fred: Lê aí.
Eu: Ahn... "Esse Chet Faker é legal mesmo. Valeu por indicar."
O Fred deu um "jóia" com a mão, ainda de costas pra mim.
Eu: Tu tá indicando musiquinha pra ela? Sério?
Fred: Já ouviu Chet Faker? É bom.
Eu: SÉRIÃO?
Matt: É bom mesmo.
Eu: To perguntando de tu estar indicand... Bom, foda-se.
Fred: Responde uma carinha feliz.
Eu: Agora?
Fred: Como assim?
Eu: Tu não vai dar um tempo pra parecer desinteressado, como tu costuma fazer?
Fred: Não.
Eu: Só uma carinha feliz? Sem nenhuma frase sacana? Um palavrão? Um nude?
Fred: Dá meu celular aqui.
Eu: Não, relaxa.
Fred: Manda a carinha e pergunta qual música ela ouviu.
Eu: Já falei que não sou tua secretária, cara.
Fred: Claro que não. Minha secretária teria um peito gigantesco.
Agora sim eu tava reconhecendo o Fred.
Fred: Gigantesco mesmo.
Eu: Mandei só a carinha feliz.
Fred: Gigante. Gigante. Na real, ela seria parecida com a Kendra. Tu lembra? Caraaaalho.
Eu: Quem é Kendra, mano?
Fred: A mina do cara da Playboy. UMA DAS minas dele. Ele morava com três, tu lembra? Se pá mora ainda. Caralho, esse malucão sabe como viver a vida. Foda.
Eu me lembrei dela, mas não respondi, e o Fred ficou quieto, provavelmente porque tava pensando na Kendra vestida como secretária mandando mensagem pras gurias dele. Só dava pra ouvir o Matt discando mais um número no telefone.
Fred: MATHEUS!!!
Ele berrou absolutamente do nada. Eu e o Matt demos um pulo na cadeira de susto.
Fred: SE TU LIGAR PRA PORRA DE LARISSA, TU TÁ FODIDO COMIGO!
Matt: Eu não ia lig...
Fred: IA SIM.
Ia mesmo. Todo mundo sabe que ia.
Fred: Se tu ligar, já aperta esse botão aqui da impressora pra imprimir teu papel de troxa. - ele apontou pra impressora no canto da mesa.
Eu: HAHAHAHA!
Fred: Tu tá rindo do quê? Não é pra ligar pra minazinha tua também, não. É pra conhecer gurias NOVAS. Novos peitos, novas bundas. Novas.
Eu: Eu nem tenho mina pra ligar.
Fred: Ainda bem.
Eu: Pensando assim, tu não poderia convidar a Vicky também.
Fred: A festa é minha, eu faço o que eu quiser.
Eu: Hahaha. Tá certo.
Melhor nem discutir. Deixei os dois ligando pra mais algumas pessoas e aproveitei pra descer pra comer alguma coisa na cantina. Até pensei em almoçar no restaurante da faculdade, mas era caro demais. Mesmo tendo algum dinheiro com meu trabalho agora, ainda sou miserável. E o pão de batata dessa cantina é bom pra caralho. A cantina tava cheia de gente, inclusive alguns desconhecidos, mas preferi almoçar sozinho. Comi, fui até o fumódromo fumar um cigarro, voltei, comprei uma Coca. É tão bom ficar sozinho. De vez em quando eu sinto que PRECISO ficar sozinho, como uma necessidade mesmo. Coisa de gente introvertida. Sinto que, quando fico muito tempo com outras pessoas, elas sugam minha energia. Fico cansado. Preciso de um minuto pra ficar sozinho. Quando já tava me sentindo revigorado, voltei pra sala da TV.
Depois de mim, foi a vez do Matt sair pra almoçar. Já o Fred tava tão eufórico com tudo que nem lembrou de comer. A tarde toda foi tão corrida que pareceu ter passado em poucos minutos. Saindo da sala da TV, depois de ligar pra todo mundo, foi hora de resolver como buscar as cervejas. Falamos com todos os nossos amigos que tinham carro, caminhonete e o caralho pra nos ajudarem a buscar. Quando já estávamos saindo da faculdade pra encontrar o Tomate, que era um desses amigos do carro, me toquei que tinha esquecido de convidar uma pessoa.
Eu: Caralho, o Gab! Ele tava na tua lista, Matt?
Matt: Nem.
Eu: Porra, esqueci dele. Pior que não tenho o número dele aqui. Que merda.
Fred: Vai na casa dele, mano.
Eu: Se eu aparecer lá, a mãe dele me mata.
Fred: E tu tem medo de tia agora?
Eu: É. Não.
Fred: Cola lá, mano! A festa dele foi animal, ele merece ir na minha. Pode deixar que a gente faz o corre das cervejas. Busca o Gab e já cola em casa depois pra ajudar a gente a arrumar as paradas.
Eu: É... Tá. Fechou.
Fred: Mas vai logo! Já tá escurecendo!
Entramos no carro do Tomate agradecendo pra caralho pela ajuda, ele me deu uma carona até o metrô, e os três seguiram até a tal garagem do maluco onde tava a carga roubada de cervejas. O neurótico do Matt tava com medo de estar a polícia lá esperando por eles, mas acho que os caras têm mais o que fazer do que ficar aprontando emboscada pra pegar moleques que compram cerveja pra fazer festa.
Peguei o trem em direção à casa do Gab e só me liguei da doideira que eu tava fazendo quando já tava pra chegar na estação mais próxima dele. O que vou dizer quando a mãe dele me encontrar lá? Se pá um "oi" é suficiente. Mais do que isso e eu vou acabar falando bosta. Caminhei até a casa dele pensando em tudo. E se eu encontrasse meu pai lá? Era bem provável que isso acontecesse. Nossa última conversa não tinha sido muito boa, pra variar. E o engraçado é que nunca colocamos um ponto final nas coisas. Nós discutimos e não chegamos à uma conclusão. Brigamos e não pedimos desculpas. As coisas vão só acumulando. Cada vez que a gente se encontra, faz questão de colocar mais uma pedra na montanha de tretas mal resolvidas. Uma hora isso tudo vai explodir, se é que já não explodiu. As coisas são tão nebulosas entre mim e ele que até hoje não disse que sabia que ele também era pai do Gabriel. Nunca rolou essa conversa. Talvez nunca role. Não sei se faço questão. Na real, acho que eu gostaria de falar sobre isso com ele, mas tenho receio ao mesmo tempo. Receio de parecer que eu me importo. E o pior é que eu me importo. Mas não queria que ele soubesse. Não queria que ele tivesse o gosto de exercer qualquer efeito sobre mim. Levo muito bem a vida fingindo que não to nem aí pra algumas pessoas, incluindo ele. Tu vai forçando, forçando e forçando essa ideia, uma hora ela se torna real, e tu para de ligar mesmo. Tem funcionado bem comigo até hoje.
Chegando na casa do Gabriel, pensei em bater na porta da frente, mas percebi que seria mais esperto da minha parte bater direto na janela do quarto dele. Assim eu poderia evitar encontrar com a mãe dele ou com o meu pai. Nosso pai. E nem precisei bater na janela: quando cheguei lá, encontrei o Gabriel sentado na cama lendo um gibi.
Eu: O Matt também curte Watchmen.
Gab: Caralho! Thom! - ele pulou pra fora da cama. - E aí!
Eu: E aí, carinha.
Ele me cumprimentou com um abraço mesmo eu estando do lado de fora da janela.
Gab: Pula aí!
Eu: Só vim te fazer um convite, preciso vazar rápido.
Gab: Que convite?
Eu: Vai rolar festa na casa do Fred hoje. Tá a fim?
Gab: Hoje?
Eu: Daqui à pouco, na real. Eu perdi teu número de celular então vim te chamar.
Gab: Como tu perdeu meu número?
Eu: Quer ir ou não? Saindo daqui, já vou direto pra lá. Tu pode ir comigo.
Gab: Eu não sei... Eu quero ir, óbvio. Mas tu sabe.
Eu: Tá de castigo ainda?
Gab: Porra, pra sempre. Mas mesmo se eu não estivesse, não ia rolar sair em plena segunda-feira.
Eu não lembrava como era chato ter que pedir permissão pros pais pra fazer qualquer coisa, até porque nunca precisei fazer isso. Ou melhor, eu precisava, mas não obedecia. Até que uma hora eles desistiram de proibir.
Eu: Cara, tu já saiu escondido uma vez...
Joguei no ar e esperei que ele pegasse a ideia pra que no final ela não fosse minha.
Gab: Tá falando sério? Tu me ajudaria?
Eu: Uma das coisas que eu faço de melhor é enganar os outros. Tua mãe tá em casa? - pulei a janela pra dentro do quarto.
Gab: Não.
Eu: Que horas ela chega?
Gab: Umas 20h.
Eu: Demorou. Qual a rotina dela?
Gab: Como assim?
Eu: Quando ela chega em casa, ela faz o que normalmente?
Gab: Ah... Ela chega, deixa a bolsa na primeira cadeira da mesa da sala, tira os sapatos, passa aqui pra me cumprimentar e vai tomar banho.
Eu: E depois?
Gab: Aí seca o cabelo, janta, depois vai ver TV ou ler um livro, depois vai dormir.
Eu: Vocês jantam juntos?
Gab: Não, ela deixa a comida pronta e eu como antes dela chegar. Ela come depois.
Eu: Beleza. Faz o seguinte então: vai até a cozinha, separa a quantidade de comida que tu comeria e guarda num outro pote. Deixa ele bem escondido dentro da geladeira.
Gab: Tá.
Eu: Eu me viro por aqui.
Fazendo essa parada dos potes de comida, ela veria que tá faltando um pouco quando fosse comer, e logo pensaria que o Gab comeu. Enquanto ele dava um jeito nisso, fiquei no quarto pegando um monte de roupas dele pra colocar embaixo do edredom, de forma que parecesse uma pessoa dormindo. Peguei também alguns dos quadrinhos dele e espalhei pelo chão do quarto, próximo da cama, pra parecer que ele tinha lido bastante até dormir. Quando ele voltou pro quarto, surtou.
Gab: Caraaaaalho! HAHAH! Parece muito que tem alguém aí!
Eu: Ficou bom, né?
Gab: Porra!
Eu: Tive outra ideia. Pega um prato na cozinha, suja ele e deixa aqui, como se tu tivesse comido.
Gab: Melhor não. Se ela encontrar um prato sujo no quarto, vai querer me "acordar" pra me dar bronca.
Eu: Hm.
Gab: O que tu acha de eu deixar um bilhete dizendo que to meio doente, por isso dormi cedo?
Eu: Não. Senão ela vai querer falar contigo pra perguntar se tá tudo bem, se tu quer algum remédio.
Gab: É.
Ficamos os dois parados em frente à cama, analisando todo o quarto. Parecia mesmo que tinha alguém bem cansado de tanto ler dormindo ali.
Eu: Eu acho que tá bem convincente.
Gab: Pra caralho. - ele abriu um sorrisão.
Às vezes sinto que o Gab me olha com tanta admiração que chega a atravessar alguma coisa dentro de mim. E ao invés de me sentir bem, me sinto meio mal com isso. Não acho que sou digno da admiração de ninguém, muito menos dele.
Eu: É... Vamo indo?
Gab: Pô, assim?
Eu: Precisamos ajudar os caras lá. Vai assim mesmo e tu toma banho lá.
Gab: Deixa eu só pegar uma roupa.
Eu: Não, tua mãe pode sentir falta. Eu sei lá. Vai assim mesmo.
Gab: Eu to de calça de pijama!
Eu: É estilo. Vamo nessa.
Pulei a janela e o Gab veio logo atrás, depois fechou a janela pelo lado de fora.
Gab: Eu acho que ela vai acabar descobrindo. Sei lá. Alguma coisa me diz.
Eu: Quando ela descobrir, tu já vai ter curtido bastante da festa.
Gab: É. Isso sim. Mas ela vai te odiar mais ainda.
Eu: Isso é problema meu. Fica tranquilo.
Ele sorriu pra mim daquele jeito de novo. E nós seguimos em direção ao metrô.
Chegando na casa do Fred, eu me surpreendi com o quanto eles já tinham avançado com tudo. Faltava pouca coisa que eu e o Gab podíamos fazer pra ajudar. Encontramos dois caras desconhecidos em cima de uma escada trocando a lâmpada principal da sala, o Sick Boy e o Luc arrastando os sofás e a mesa da TV pro canto, uns malucos passando pra lá e pra cá levando caixas cheias de cerveja, outros passando com sacos de gelo, e o Fred parecendo um retardado falando no telefone enquanto descia as escadas do segundo para o primeiro andar.
Fred: QUEM PORRA É MARCELO? EU QUERO FALAR COM O JAPONÊS QUE ME PROMETEU QUE IA CONSERTAR O CARALHO DO MEU SOM! - ele berrou no telefone.
Puta que pariu. Tem o ano inteiro pro som estragar, e estraga bem hoje.
Fred: Ah, não sabia que o nome dele era Marcelo.
Bom, acho que ele resolve essa sozinho. Chamei o Gab e fomos até a cozinha ajudar o Matt com uma das tarefas mais importantes de qualquer festa do Fred: preparar as pingas coloridas. O Matt tava tirando o rótulo das garrafas de cachaça de mendigo quando chegamos.
Depois de ajudar com as pingas coloridas, testar o som - que funcionou!, arrastar mais duas geladeiras pra dentro da casa, enchê-las de cerveja, encher mais alguns baldes de cerveja com gelo, esconder as coisas da casa que podiam quebrar e o caralho a quatro, fui liberado pra tomar banho. Quando a festa já tava perto de começar, eu tava tão cansado que cogitei cochilar um pouco, mas tive medo de não acordar mais e perder a festa. Me fodo tanto na vida que não duvidava que isso pudesse acontecer. Tomei banho no quarto do Fred e, quando saí do banheiro só com uma toalha amarrada na cintura, ouvi o som alto e já vi um doido passando pelo corredor parecendo estar bêbado. As coisas acontecem rápido mesmo nessas festas. Achei melhor trancar a porta.
!: O CORREDOR TÁ DERRETENDO! - berrou o cara do lado de fora do quarto.
O Fred disse que eu poderia pegar qualquer roupa dele, mas preferi usar a mesma de antes. Era mais seguro. Saindo do quarto, reparei que tava tocando Damien Marley. E não era só coincidência: na sala, já tava rolando uma das maiores rodas de maconha que já vi na vida. Tinham uns três becks passando ao mesmo tempo. Eu só conhecia uns três rostos que tavam ali, mas achei melhor não perder tempo e entrei pra pedir pelo menos um trago.
!: Essa é da hidropônica. Vai com calma.
"Vai com calma" sim. Esse cara deve ter caído aqui de páraquedas pra me dar um conselho desses. Traguei tão fundo que me olharam feio. Só não me xingaram porque ninguém me conhecia. Agradeci com um tapa nas costas do mais alto deles e saí à procura dos meus amigos. Não demorou muito pra eu ver o Fred em pé no sofá, segurando um copo vermelho e dançando "In 2 Deep" como se fosse o próprio filho do Bob Marley. Fui até ele pra perguntar do Matt, mas ele já tava tão chapado que nem entendeu o que eu falei.
Fred: EU SOU AMIGO DO CARA DA HEINEKEN! - ele apontou pra si mesmo.
Eu: Parabéns.
Fred: TU TÁ MEIO BRANCO, THOMMO. - ele tava falando mais alto do que precisava.
Eu: Eu vou perguntar pela última vez... Tu sabe onde tá o Matt?
Fred: NÃO FUMA ESSA PARADA HIDROPÔNICA, THOMMO! É PESADÃO! PESADÃO!
Eu: A erva dos caras? - apontei pra trás.
Fred: NOSSSSS. TIVE QUE TOMAR UM NEGÓCIO DO SICK BOY PRA NÃO CAPOTAR!
Não sei o que era pior. Acenei pra ele e saí andando à procura do Matt. A festa ainda tava vazia, mas o número de pessoas aumentava a cada minuto. Até aquele momento, tava tudo tranquilo com o tal open bar. Todo mundo conseguia pegar cerveja nas mil geladeiras e baldes disponíveis numa boa, sem stress. E na vez em que fui pegar minha primeira cerveja, encontrei o Luc conversando com uma guria.
Eu: E aí, velhooo. - senti que minha boca tava começando a ficar mole.
O Luc me cumprimentou com um abraço e me apresentou a guria, cujo nome eu esqueci na mesma hora. Conversamos um pouco sobre não sei o que, ele me perguntou se eu já tinha visto o Gab por lá e por um segundo eu até esqueci que era eu mesmo quem tinha trazido o Gab pra festa.
Eu: Tu fumou da erva dos caras ali atrás?
Luc: Não, mas já to sabendo. Não é à toa que a roda deles tinha umas 20 pessoas.
Eu: Eu to me sentindo meio burro.
Luc: HAHAHA!
Eu: O Fred disse que tomou uma parada do Sick Boy pra melhorar. Qual foi?
Luc: Eu vi ele com Prozac.
Eu: Quem?
Luc: Nossa, Thom...
Eu: O Sick Boy ou o Fred?
Luc: O Fred. O Sick Boy tá com mil outras coisas. Hahaha.
Eu: Cacete.
Senti minha cabeça pesar. Parecia que ela tinha uma tonelada. Achei melhor me encostar na geladeira pra não acabar deitando no chão. Enquanto o Luc ria da minha cara, uma guria apareceu do nada na minha frente.
!: Tu pode sair da frente?
Eu: Hahaha... Quem? - demorei pra entender que ela tava falando comigo.
!: Tu tá na frente da geladeira.
Eu: To.
Ela olhou de canto pro Luc, que não conseguia parar de rir pra explicar que eu tava chapadão.
!: Eu queria pegar uma cerveja. Tu pode sair da frente?
Eu: Ah... Posso... Tu pode pedir licença? - olhei pro Luc e ri como se tivesse feito a piada do século. - Hahahahaha!
!: Eu vou pegar em outra.
Eu: Caralho... A mina... Hahaha... A mina prefere ir, tipo, na oooutra geladeira ao invés de pedir licença, Luc. Onde esse mundo vai parar? Me diz?
Em meio segundo ela brotou na minha frente de novo.
!: Tu vai ficar mesmo tirando com a minha cara?
Eu: Ishhh.
PRÓXIMO POST: MUITOS FORNINHOS CAINDO NA SEGUNDA-FEIRA 17/08