Jorge Amado escreveu um enredo triste e realista para contar a história de vida de vários jovens marginais que vivem como homens, e isso, envolvem as questões do falar – gírias e vocabulário acima da sua idade, palavras popularmente conhecidas pelo crime -, o ato de fumar, beber e o sexo nas suas mais variadas formas possíveis. Por outro lado, essas crianças devem ser vistas como inteligentes, batalhadoras, pois, tudo o que eles possuem são uns aos outros e nada mais. São sujeitos que precisam ser enxergados de forma conjunta, isso é levar em consideração o contexto em que está inserida, a história de vida de cada uma e sua trajetória até a formação desse batalhão de garotos. “Capitães da Areia” tem o objetivo de transmitir ao leitor, não somente a vida da criminalidade infantil, mas também refletir os motivos que trouxeram tais jovens para essas vidas e mostrar ao leitor o lado “passional” de cada personagem. Dentro dessa obra, Jorge Amado retrata o descaso que os jovens do trapiche sofrem por levarem uma vida, que, socialmente, não é aceita, e isso é algo que pode ser resgatado na atualidade, relatos que podem ser vistos na atualidade. Um fator interessante para abordagem da análise da obra de Amado é como a ausência de uma figura materna e/ou paterna afeta totalmente a vida daqueles jovens. Essa questão é perceptível a todo o momento na história, principalmente quando há a contagem da vida de cada integrante dos “Capitães”. Os meninos que atuam criminalmente, não provaram da relação com um responsável, muitos foram abandonados, outros fugiram de casa e até mesmo foram expulsos, visto que a vida “pré-Capitães” era repleta por falta de estrutura, ou seja, famílias pobres, que muitas vezes, não conseguem sustentar seus filhos e, por essa ou outra razão, os filhos acabam por sair cedo de casa. Essa linha de raciocínio pode servir de explicação para a grande autonomia que esses garotos possuem, seja nas tarefas diárias do trapiche ou na realização dos assaltos na orla de Salvador. No capítulo “Família”, o personagem Sem-Pernas é acolhido por uma família, na qual, havia perdido um filho. Embora o garoto tenha se inserido na casa do casal com segundas intenções, há o visível sentimento de acolhimento, de satisfação do garoto por aquelas pessoas, algo que ele não possuía um amor verdadeiro, como se ele vivesse naquela casa há anos – sendo visto como o filho verdadeiro -, mas o personagem opta pela lealdade aos companheiros e não permanece naquele local. Essa ausência de um responsável também é vista quando Dora aparece no trapiche, um lugar preenchido por homens, estando ela, servindo como uma figura materna para todos os meninos. Dora, que possui apenas treze anos, é levada para o trapiche, local em que ela cuidava carinhosamente de todos os seus “filhos” e de Pedro Bala, seu “esposo”. Outra temática que pode ser claramente vista pelo leitor é a colocação dos personagens em dois patamares opostos. O autor, inicialmente, dá a significação dos Capitães da Areia, sendo um grupo de jovens que assaltam na cidade de Salvador, podendo criar a primeira visão na mente do leitor: a criminalidade – o lado ruim dos personagens. O segundo ponto, é a descrição de cada integrante do trapiche pela bondade, isso é, os personagens possuem o lado marginal, mas também são seres humanos, eles têm sentimentos. Exemplo disso é o Professor, o “intelectual” do grupo, que roubava livros para ler para os colegas; Pirulito, que se sentimentalizava com os conselhos do padre José Pedro, possuindo o seu lado religioso, no qual, pratica a oração e fé em Deus, até mesmo, convertendo-se a religião do padre e; além do restante do grupo, que não possuía totalmente a maldade consigo, muitas vezes, demonstrando sentimentos contrários aos do crime. Por fim, como dito inicialmente, é necessário que o leitor leve em consideração os fatores que trouxeram esses meninos para a vida do crime, considerando o olhar que o autor traz para a história e o objetivo que o mesmo tende passar pela leitura. Jorge Amado conviveu com os verdadeiros Capitães da Areia para escrever esse livro, sendo assim, a veracidade inserida na história é altamente notada, desde a descrição dos locais próximos a Salvador, até os flashbacks sobre o passado dos personagens, tudo é embasado em um ponto de vista presenciado pelo autor, mas também formado pelo leitor. Sendo assim, a obra de Jorge Amado é inserida em sua fase de denúncia social, na qual o autor trata de uma história verídica, por meio de uma fala sincera, sem censura, doa a quem doer.