"No princípio criou Deus o céu e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. E disse Deus: Haja luz; e houve luz." (Genesis 1)
Eu sempre quis morrer e sempre gostei de dormir por que existir nunca me pareceu agradável. Dormir, de certa forma, se assemelha muito com a minha ideia de morte: silenciadora e prazerosa. Minha língua então estaria muda, meus ouvidos finalmente surdos e minhas artérias já não teriam mais com o que se preocupar: meu cérebro seria desligado assim como as luzes de um salão após uma festa ruim e cansativa.
Meu pai sempre leu a Bíblia e, inclusive, comungava desde ainda quando garoto. Que faltasse biscoito no armário de casa, mas o dízimo indo pra Igreja era de lei. Beata, conservador e homem de Deus em público. Secretamente, um alcoólatra infiel e viciado em nicotina e jogo de máquina. Ao invés de me ajudar com as lições de matemática, me fazia gravar algumas passagens, ainda criança, na marra.
''Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Todo-Poderoso descansará. Direi do Senhor: Ele é o meu refúgio e a minha fortaleza...", eu recitei, assim que o aprendi.
Uma vírgula errada e eu ganharia um tapa, em nome de Poderoso Criador.
Na catequese, eu nunca contei pra ninguém como que adquiri a habilidade de recitar o Salmo 91 até do avesso.
Apesar de orar assiduamente, acredito que meu pai nunca foi bom em Redação na época da escola. Sempre interpretou muito mal a Bíblia e, talvez, por isso, eu sempre acreditei naquela história do "sono da alma". Dormir seria só uma forma de descrever a morte, porque um corpo morto aparenta estar dormindo enquanto sua alma está no Paraíso ou Hades.
Assim, quando criança, eu me cobria até os ombros, à noite, e ficava mentalmente me fustigando com a ideia de que talvez eu não fosse bom o suficiente para os Céus. Pois, no oposto, provavelmente encontraria meu pai. Então, eu rezava mais.
Assim, a ideia do Sono me confortava. E meu pai, bêbado na maioria dos dias, alimentava ainda mais o meu desejo.
Uma noite aleatória de sexta, eu saí e voltei só pela manhã do sábado. Eu tinha bebido o suficiente pra me sentir enjoado só de ver uma acetona na minha frente e tinha fumado mais maconha que Cheech & Chong juntos. Meus olhos pesavam e provavelmente estavam tão vermelhos que eu devia ter no rosto duas cerejas com sobrancelhas.
Entrei pela sala e o encontrei afundado na poltrona velha, segurando um copo de vinho barato.
"Eu queria que sua mãe tivesse me dado uma filha decente, não um maldito vagabundo desobediente", murmurou, com escárnio.
Bebeu o resto em um gole e empurrou o copo. As lascas de vidro rolaram pelo tapete coberto por uma nata de poeira, cinzas e respingos de vinho.
"Limpe essa sujeira".
Eu me ajoelhei, evitando que ele reparasse nos meus olhos. Recolhi os cacos que consegui encontrar.
E, então, continuou: "Maldita hora que fodi sua mãe sem camisinha".
Eu senti algo dentro de mim congelar.
"Você é um bêbado", eu disse como se cuspisse as palavras.
Ele me deu um tapa.
"Não pense que não sinto de longe o seu cheiro de álcool e fumo, maldito."
Segurou meu rosto, me obrigando à olhá-lo nos olhos.
"Me vejo toda vez que olho pra você. Não pode fugir do seu pai, garoto."
Ele se levantou e foi deitar.
Não pode fugir do seu pai, garoto. Não pode fugir do seu pai, garoto. Não pode fugir do seu pai, garoto.
Aquilo ecoou na minha mente. Encarei como um desafio.
Eu também deitei, só que no tapete. Fiquei encaranto o ventilador e as rachaduras no teto até que senti meu celular vibrando no bolso. Ah, lar doce lar e o wi-fi que conecta automaticamente. Tinha umas cinco mensagens do Jhone Martins logo nas notificações. Haja paciência.
Jhone: GUSTAVO - (08h21)
Jhone: como cheguei em casa?? - (08h21)
Jhone: MEU DEUS - (08h23)
Jhone: pq meu olho ta ficando inchado???? - (08h23)
Jhone: ????????????????? - (08h25)
Senti algo me incomodando nas costelas. Cheguei pro lado. Era a carteira e o maço do meu pai. Abri: cartões e mais cartões, a imagem Jesus Cristo branco e loiro de olhos azuis, dinheiro e uma nota fiscal de alguma compra numa joalheria. Como assim ele andava comprando jóias?
Meu celular vibrou de novo.
Jhone: me responde seu porra - (08h28)
Deixei a carteira de lado e guardei a nota fiscal e uma cédula de vinte. Com Jesus me encarando daquele jeito, não me senti bem pegando uma de cinquenta. Peguei também quatro cigarros do maço.
Eu: mais respeito, moleque - (08h29)
Jhone: foda-se - (08h29)
Eu: pra começar, você disse ter dinheiro pro táxi mesmo a gente tendo combinado diferente - (08h30)
Eu: mas você não tinha dinheiro - (08h30)
Eu: e a gente tomou uma coça do motorista - (08h30)
Jhone: HAHAHHHAHAHA - (08h30)
Jhone: quando isso???????? - (08h30)
Jhone: cade meu dinheiro cara - (08h30)
Jhone: porra eu ainda to chapado - (08h30)
Eu passei a mão pelos cabelos e suspirei.
Eu: espera eu terminar de falar - (08h30)
E então eu tive uma ideia.
Eu: merda - (08h31)
Eu: foda-se - (08h31)
Eu: você tem máquina aí?- (08h31)
Jhone: rude - (08h31)
Eu: te dou exatos onze minutos pra aparecer aqui com o pente de um e fazer as honras - (08h31)
Jhone: HAHAHAHAH será um prazer - (08h31)
Jhone: eu sempre te odiei com esse cabelo bob dylan - (08h31)
Jhone: só deixar a janela aberta, rapunzel - (08h31)
Jhone Martins surgiu na janela e praticamente voou pra dentro do meu quarto. Com ele, surgiu um cheiro forte de erva. Típico.
"Você demorou..." eu olhei no relógio antes de continuar. "Dezessete minutos. Muito além do prazo, sendo que você mora na rua de cima".
"Que apaixonado!" ele debochou. "Sentiu minha falta, baby?".
O ignorei.
"Seu olho tá horrível", o ofendi antes de ir para o banheiro.
Jhone veio atrás de mim com a máquina na mão, desembolando o fio. Ele se olhou no espelho, tocando o olho inchado e roxo.
"Isso que dá inventar de pegar táxi sem ter dinheiro pra corrida" eu disse, rindo.
Ele fingiu me ignorar e perguntou, puto:
"Por acaso tem gelo nessa porra de casa?".
"Porta de cima. No freezer".
Ele me entregou a máquina nas mãos como se entregasse uma espada chinesa de honra.
"Quando eu voltar eu quero te ver sem esse ninho de passarinhos em cima da cabeça".
Eu balancei a cabeça. Ele se virou e saiu. Foi mancando até a cozinha.
"Esses taxistas de hoje... Brigam melhor que o Mike Tyson" Jhone murmurou.
A prefeita, diretor e comitê estudantil tem a honra de convidá-los ao primeiro Show de Talentos afim de homenagear não somente os Anjos de Rock Hill como também prestigiar os novos talentos do Rock Hill High School.
O evento ocorrerá em 21/07/2016 ás 20h no auditório de Rock Hill High School. Será feito uma homenagem após os jurados escolherem o vencedor no campo de futebol para lançar as lanternas no céu noturno.
Esperamos sua participação!
RP OFICIAL
Post’s de entrada serão aceitos até 30/04/2018 — data off
“Cedo ou tarde a gente vai se encontrar, tenho certeza, numa bem melhor...”(Cedo ou Tarde- NX Zero)
Era metade de junho. O dia estava fresco, mas não chegava a ser frio.Eu estava com uma calça jeans, camiseta do colégio e com um casaco na cintura.A Vivian, estava com o mesmo tipo de roupa que eu. Nós havíamos acabado de ir tomar água, logo após a aula de história, e antes da aula de ciências. Como havia acabado de tocar o sinal, o corredor estava cheio. Eu estava começando a ficar irritada com o passo lento da Vivian.- Vamos Vivian! A gente vai chegar atrasada na aula!- Calma Alice! É aula de ciências, a professora demora!A claro e ela acha que isso é motivo pra ficar andando igual a uma LESMA!As vezes a Vivian era muito desligada da escola, mas eu gostava muito dela. Ela tinha cabelos quase pretos, olhos castanhos escuros, era um pouco mais alta que eu, e com a pele morena. Essa era Vivian Martins.- Vivian, eu me...
Eu pretendia falar que me preocupava com a escola, ao contrario dela. Eu pretendia mesmo, porque não consegui. O motivo? Uma coisa MUITO estranha aconteceu.Nós estávamos na frente da turma 101, uma turma de repetentes do primeiro ano.Então eu a vi.Era uma blusa muuuito legal, mesmo. A blusa era de uma banda chamada Rolling Stones. Era toda preta, com uma boca vermelha, com a língua de fora.Quando reparei no rosto do dono da mesma meu coração foi dar uma voltinha na montanha russa invertida!Okay eu sei que isso soa clichê, varias pessoas me disseram isso. Mas o que elas não entendem, é que eu sempre fui diferente da maioria das meninas da minha idade!Eu acho melhor me apresentar...Meu nome é Alice Prada. Tenho 15 anos, e sempre fui uma aluna meio... hmmm... nerd. Tenho cabelos e olhos castanhos claros, coisa que eu acho horrível. Acho que um metro e cinqüenta centímetros de altura é baixo, para uma garota de 15 anos. Pois é a minha altura.. Eu me acho gorda. Ou seja, eu odeio o meu corpo.O que eu mais gostava de fazer? Ler.As pessoas me olhavam estranho quando eu falava isso. Não sei porque, mas parece que garotas de 15 anos, não tem como atividade preferida, a leitura. Mas eu tinha.Meu estilo musical é rock e pop. Simplesmente odeio funk, sertanejo, pagode e samba. Minha cor preferida é preto, bem diferente do ano passado que era rosa.Até ai já dá para perceber como eu sou.Mas o menino era simplesmente perfeito! Mais ou menos um metro e setenta e sete, pele bem branca, cabelos escuros quase pretos, e olhos da mesma cor.Até o momento que ele sorriu.Ai meu mundo simplesmente virou de cabeça pra baixo, meu ar saiu dos pulmões e meu coração acelerou como se estivesse em uma escola de samba!Seu sorriso era divino , com covinhas.Ele estava rindo de algo, que um garoto de touca e roupas largas acabara de falar.Eu fiquei imaginando como seria ter esse sorriso só para mim.De onde esse garoto havia saído? Por que eu nunca havia visto ele aqui na escola? Ele estudava aqui mesmo?Eu devia estar enlouquecendo. Eu não era assim. Mas esse garoto... era diferente.Eu não conseguia explicar.Mas eu devo ter ficado muito tempo pensando nisso, porque fui brutalmente acordada por o toque da Vivian em meu ombro.- Anda Alice! Não era você, que estava com uma pressa que parecia que o mundo estava acabando? Empacou no meio do corredor por que?A Vivian só podia estar brincando comigo. Ela não tinha visto aquele garoto maravilhoso bem ali, na cara dela? Eu só cutuquei ela e apontei. Quando ela viu, abriu a boca, e ficou lá olhando, até que disse:- Ah. Entendi!- Vamos andando meninas, está na hora da aula.- Falou a professora de ciências, colocando as mãos em nossos ombros e nos conduzindo para a sala de aula.Em minha mente passou: Não professora, deixa nós duas ficarmos aqui “admirando a vista”. Mas tive que ir pra aula.Aquela aula passou se arrastando, e eu só pensava nele. O que estava acontecendo comigo?Depois da aula de ciências, eu fui depressa para a porta, ver se ele estava ali, mas fui barrada por o professor de geografia.- Alice, agora é aula, não rua. Pra dentro da sala.Ai que legal! Bom pelo menos era a terceira aula, o que significava que o recreio estava chegando. Com sorte aquela aula passaria rápido.Se eu tenho sorte? Digamos que não...A lembrança daquele sorriso, não me saia da memória.E a partir daquele dia, eu nunca mais tirei aquele sorriso da cabeça.No mesmo dia, quando sai para o recreio com duas de minhas amigas, a Vivian e a Carol, eu vi ele de novo. Eu estava descendo a rampa e ele estava na parte de cima, abraçado com uma garota, muito feia por sinal! Era um pouco mais alta que eu, cabelo preto pintado, com uma franjinha ridícula, pele muito branca e o nariz... meu Deus que nariz horrível!Ela parecia a menina do exorcista!Sem que eu pudesse controlar, lágrimas começaram a correr por o meu rosto. Não sei se era tristeza, raiva ou frustração. A Carol não estava estendendo nada, já que não estava comigo e com a Vivian na hora que vimos o Sr. Perfeição, e perguntou para a Vivian o que tinha acontecido.Nós estávamos andando em direção ao refeitório da escola, um lugar onde nós três sempre passávamos o recreio.Eu, por causa do choro não pude explicar o que me deixou tão triste. Ou melhor quem me deixou tão triste.Eu não gostei da cara da namorada dele. Quer dizer, eu nem sabia se era mesmo namorada. Mas pela pose dos dois, era o que parecia. Alguma coisa nela... eu não gostei. Bom , okay era a namorada do garoto que eu gostava, tinha como eu gostar dela?A resposta, eu achava que era não.A Vivian, que tinha visto a cena também explicou para ela o motivo do choro repentino.A Carol, não perdeu tempo, começou a falar que iria perguntar o nome dele! E eu me desesperei é claro, a Carol era bem capaz de fazer isso mesmo! Eu me lembrei da vez em que ela perguntou o nome do Leonardo, só porque eu e a Vivian, achamos ele parecido com a descrição de um personagem de um livro que a gente amava! A amiga dele, veio querer saber por que a pergunta, e a Carol não teve duvidas quando apontou o dedo pra mim e falou:- Ela queria saber.Então a garota ficou me olhando com a expressão entre duvida e divertimento. Aí que eu me toquei o que ela devia estar pensando!Eu é claro, fiz a coisa mais racional possível. Comecei a gritar.- Não é isso que você está pensando! Não é nada disso! Você está enganada!Mas o que eu não previa, era que minha voz saísse tão alta! Eu estava sendo assistida por todo o refeitório! E o pior... o Leonardo estava olhando...Eu peguei minhas coisas e sai correndo do refeitório, eu estava muito brava com a Carol. Por que ela havia feito aquilo comigo, que era sua melhor amiga?Por esse motivo, eu tinha tanto medo, vai que ela fizesse alguma besteira!Então, eu tive que impedir ela, obviamente. Mas, mais obvio que isso, é que ela perguntou mesmo assim...
"O começo não foi fácil, mas também, ele nunca é. A pequena vizinhança de Del Rose não estava acostumada a receber visitantes, quanto menos novos moradores, e quando três pessoas saíram de um pequeno carro, isso despertou um grande interesse em todos dali, por mais que quisessem dizer o contrário. A menina tinha por volta de um metro e sessenta e pouco, seus cabelos eram castanhos, e seus olhos eram os mais lindos que eu já tinha visto em minha vida. Eram avelã misturados com um tom de cinza, que toda vez que encaravam os meus eu perdia o fôlego por alguns instantes. Já o garoto ao seu lado tinha um metro e oitenta. Seus olhos eram profundos e marcantes, do tipo que te prendem, você querendo ou não. Seus cabelos eram loiros e cacheados, e ele mexia sempre neles, por ter uma mania que descobri que ele possuía desde criança. Assim que chegaram na vizinhança ganharam os apelidos de "modelos", já que pareciam modelar para fotos. Era impossível se aproximar deles, apesar de saírem praticamente toda hora no primeiro dia, sempre quando alguém tentava se aproximar dos dois, o homem mais velho que estava com eles, que também descobri mais tarde que vinha a ser pai de um deles, achava uma forma da pessoa desistir em uma questão de segundos. Seus nomes?
Agnes e Maddox Bittencourt."
Se você pudesse definir problema em duas palavras, você só precisaria escrever seus nomes. Eles não são irmãos de sangue, mas passaram tanto tempo juntos que acabaram desenvolvendo um laço forte. Bem forte. Digamos que seja um laço que ninguém, além deles mesmos, consegue entender perfeitamente. Ninguém exceto Elliot Campano.
Mas antes de envolvermos o escritor nesta confusão, seria bom explicarmos quando e como o relacionamento dos dois irmãos começou, não é mesmo?
"Elizabeth Rouseau e James Bittencourt se envolveram num romance que não só desagradou a elite de Paris, como os próprios filhos de ambos. James era herdeiro de uma companhia milionária e por já estar próximo de seus quarenta anos, em breve assumiria a posição de chefe. Elizabeth era uma simples camareira, que já tinha Agnes e sonhava com uma vida melhor para a filha. Se conheceram quando James se hospedou no hotel em que trabalhava e imediatamente se apaixonaram. Mas obviamente, a família do noivo não gostou muito da ideia de ter seu futuro herdeiro se casando com uma simples camareira.
Mas nenhum dos dois realmente se importou e se mudaram para uma casa menor, educando seus dois filhos de relacionamentos diferentes, Agnes e Maddox como se fossem irmãos de verdade. Dois anos se passaram e a mãe de Agnes adoeceu, talvez a experiência mais dolorosa que a garota já passara em toda a sua vida. A dor de perder uma mãe para uma doença que a consumiu tão rápido que nem dera tempo de se despedir direito.
Agnes estava devastada, e foi aí a primeira vez que procurou aconchego nos braços do meio-irmão.
Não se sentia errada por estar fazendo aquilo. Eles não eram irmãos de sangue, sua mãe apenas havia se casado com o pai dele, então... Qual era o problema? Quando se deu conta, seus lábios já se pressionavam contra o do menino, que tinha quinze anos na época. O problema é que esses beijos rápidos viraram rituais nas vidas dos irmãos, que agora se tornavam amantes em segredo.
Ninguém poderia saber. Ninguém. Sentiu-se culpada por anos, e prometia cada vez que seus lábios se encostavam que aquela seria a última, e a última, e a última, mas isso é claro, nunca aconteceu. Sempre voltava para os braços do menino de cabelos loiros cacheados, e cada vez a culpa diminuía, e um sentimento tomava o seu lugar: A paixão. Seu meio irmão também estava começando a vê-la de uma forma diferente, já não era mais porque Agnes era uma menina bonita, e sim porque realmente sentia algo por ela, por mais que lhe tivesse sido colocado em sua cabeça a proibição de qualquer relacionamento entre os dois.
Quando finalmente chegou a vez de Agnes entrar na faculdade, o Sr. Bittencourt achou melhor colocá-la em um lugar mais próximo da mesma, em uma pequena vizinhança calma na qual pudesse estudar com calma, sem ter empregados ao seu redor, irritando-a. Quanto menos em um campus, cheio de adolescentes cheios de hormônios prontos para atacá-la, então decidira comprar uma pequena casinha para ela, e fez com que seu filho fosse junto para tomar conta da garota.
Eles levaram tantas caixas que pareciam estar se mudando para a vizinhança para o resto de suas vidas, mas mal sabiam os moradores dali que só das cinco caixas pequenas da garota, quatro eram de livros. Mesmo cursando fotografia, se interessava bastante pela mente humana, era uma observadora nata, e havia aprendido a maior parte do que sabia apenas pelos livros. Agnes era excepcionalmente inteligente, e não tinha vergonha de admitir isso.
Desde que se acomodaram em casa, não saiam de lá. E por isso, ninguém sabiam realmente como eram exceto que eram muito bonitos. Mas apenas isto. Há pessoas que acreditavam que eram vampiros. Na época que se mudaram, os livros sobre esse tipo de mito estavam bem em alta, e as adolescentes das famílias da vizinhança ficaram loucas com a possibilidade de ter um vampiro adolescente caindo de amores por elas.
E há pessoas que fazem estas voltarem aos seus sentidos. Essa não é uma história de vampiros, é a história de como me perdi completamente em um mundo que nem soube exatamente como fui entrar. Quero que fique claro, que tentei ao máximo não perder a minha sanidade em qualquer momento, e quero que fique claro, que tentei ao máximo não me render ao meu instinto animal.
Eram sete horas da manhã, mas mal se via o sol em meio ao céu nublado que cercava toda a cidade Bristol. Enquanto as pessoas se arrumavam para trabalhar e as crianças se encaminhavam para a escola era quase impossível notar a garota de olhos azuis debaixo das cobertas. Mesmo assim Leila entrou no quarto e se encaminhou em direção janela de cortinas brancas abrindo-as fazendo assim com que um pouco de luz invadisse o quarto, e logo se ouviu resmungos em baixo das cobertas enquanto Leila ia até a porta e dizia:
- Se você não se levantar logo, eu vou voltar aqui te jogar água.
Resmungos puderam ser ouvidos, mas temendo levar um banho de água fria Krystal decidiu levantar, afinal já havia faltando os primeiros dias de aula e já estava cansada de ter sua melhor amiga ligando para ela a todo minuto.
Após um banho quente, Krystal vestiu o tradicional uniforme da Clifton High School e arrumou o cabelo castanho escuro em frente ao espelho e após verificar se todas as suas coisas estavam devidamente arrumadas em sua mochila lilás, passou-a por sobre os ombros e se encaminhou para o a cozinha onde Leila estava terminando seu café-da-manhã. Era uma cozinha pequena ligada a sala de estar que tinha todos os móveis de cor preta, um balcão de granito ligado a pia e uma mesa de jantar de vidro com quatro lugares, mesmo que apenas as duas mulheres morassem ali.
Com seu cabelo negro na altura do queixo e olhos tão azuis quanto os de Krystal, Leila poderia ser considerada uma irmã mais velha da garota, afinal mesmo sem aparentar ter seus vinte e nove anos ela demonstrava uma confiança e segurança invejáveis para qualquer pessoa, mas que diferente de Krystal sempre tinha um sorriso simpático no rosto.
- Bom dia pra você também. - disse Leila em um tom irônico, após notar sua sobrinha sentar ao seu lado sem falar nada.
- Ainda é muito cedo para ser um bom dia.
- Eu preciso ir para o trabalho agora – avisou Leila colocando a xicara de chá em cima da pia enquanto arrumava seu cardigã bege e ignorava o mau humor da sobrinha. – Precisa de alguma coisa?
- Não, eu vou de ônibus, talvez assim eu consiga ficar acordada.
- Até mais tarde, então. – disse Leila enquanto se encaminhava para a porta.
Após a saída de Leila, Krystal jogou os restos da maçã que comia fora, agarrou o casaco preto que estava pendurado atrás da porta e logo estava finalmente saindo do flat. Era um prédio antigo e pequeno de tijolos marrons, elas moravam no segundo andar do mesmo e nunca eram incomodadas naquele lugar; o que era maravilhoso nos pensamentos da menina de olhos azuis.
As férias de verão pareciam que haviam começado semana passada para Krystal e sua única vontade naquele momento era de voltar para casa e para debaixo das suas cobertas ao invés de ter que sair de casa e ter que sentir o vento frio em seu rosto, provavelmente deixando-o vermelho.
O percurso de ônibus até CHS era um tanto longo, mas o trânsito não estava tão ruim o que contribuiu para que Krystal não chegasse atrasada. Ao chegar à frente do prédio principal da CHS, a garota de olhos azuis mal conseguiu dar cerca de cinco passos em direção à porta do prédio, pois logo foi agarrada por braços magricelos que a abraçaram por trás e pode sentir a risada aguda de Cassie em seu pescoço.
- Finalmente você apareceu! – exclamou Cassie, que estava com seus cabelos negros mais curtos que o do irmão mais velho. - Já estava com saudades de você.
- Eu percebi depois das suas ligações.
- Ela sabe que você sentiu saudades dela Cassie, todo mundo sabe.
A voz grave de Theo fez com que a garota finalmente notasse o garoto de pele negra – assim como a de sua irmã mais nova – o que a fez sorrir imediatamente diante do amigo alguns centímetros mais alto do que ela, mas que era dono de amáveis íris castanho âmbar.
- O que estão fazendo aqui fora a essa hora? – indagou Krystal.
- Estamos esperando o Luke. – respondeu Theo, colocando as duas mãos nos bolsos da calça social preta.
- Bem, eu vou ter que entrar porque ainda tenho que falar com a Sra. Johnson. Até o almoço. – se despediu Krystal já se encaminhando para a entrada do colégio deixando os amigos para trás.
Enquanto andava pelos corredores da CHS que continuavam os mesmos de sempre, ela via alunos conversando sobre suas férias e outros que se encaminhavam para as salas de aula e todos pareciam tão felizes que a garota quase acreditou que a vida era completamente dessa maneira.
Krystal teve que compreender, muito cedo, que a qualquer momento você pode cair. Perder tudo. Só que depois de um tempo você não tem mais como lutar contra isso, faz parte da vida. Uma hora você está feliz e é como se nada pudesse acabar com esse sentimento, mas o mundo prega peças e a garota de íris azuis já era uma grande conhecida delas.
Chegando à secretaria ela logo entrou na sala e encontrou a Sra. Johnson - uma senhora de cabelos e olhos escuros que mesmo que tivesse sempre lidando com adolescentes nunca parecia estar de mau humor - mexendo em seu computador extremamente concentrada que ao menos notou a presença da garota.
- Senhora Johnson?
- Ah bom dia Krystal – disse a secretaria finalmente concentrando suas íris negras na garota de olhos azuis a sua frente. – Seu horário de aula certo? Sua tia já nos deixou a par de sua indisposição para as aulas na primeira semana, espero que esteja se sentindo melhor.
- Ela falou foi? – respondeu a garota um tanto confusão quanto ao que a secretaria dizia. - Bem, eu já estou me sentindo melhor.
- Fico feliz. Aqui está o seu horário.
Enquanto pegava seu horário de aula e o guardava na mochila, a porta da sala foi aberta e logo uma garota de cabelo loiro e olhos azuis esverdeados adentrou o local com uma mochila verde escura na costa, parecendo um tanto apressada.
- Você deve ser Stella Rickman, certo? – perguntou a secretaria.
- Sim.
- Aqui estão os seus papeis. – disse a senhora Johnson enquanto entregava uma ficha e vários outros papeis para a garota loira a sua frente e Krystal se encaminhava para a porta tentando sair sem ser notada; o que provou ser impossível quando ouviu a voz doce da secretaria chamando-a.
- Sim? – respondeu Krystal.
- Eu acredito que você pode mostrar onde fica a sala da senhorita Rickman.
- Claro. – respondeu Krystal revirando os olhos e abrindo a porta da secretaria, sendo logo seguida pela garota de longos cabelos loiros.
As duas se encaminhavam para fora da secretaria enquanto alguns alunos já caminhavam em direção as suas respectivas salas de aulas. Lado a lado elas seguiram por um tempo sem trocar nenhuma palavra, distraídas com os seus próprios pensamentos até o silencio ser finalmente quebrado pela loira que virou o rosto encarando Krystal.
- Eu posso me virar sozinha, sabe, não precisa se incomodar.
- Cadê o seu horário? – falou Krystal, ignorando o que a novata havia dito. – Eu sou a Krystal.
- Stella – completou a garota.
Stella era mais alta que Krystal, os olhos eram azuis esverdeados e o cabelo loiro chegava até o meio de suas costas. Quando ela achou o papel plastificado entregou o para Krystal, sem parar de caminhar sem rumo algum pelos corredores do colégio.
- Literatura Inglesa III – Krystal leu o papel parando na frente do seu armário. – Ótimo, a minha também.
- Você também é nova na escola? – perguntou Stella.
- Não, você está sozinha nessa – respondeu Krystal, enquanto desviava de um grupo de calouros que pareciam animados demais para estarem em um colégio ao ponto de não notarem a garota parada no corredor. – Você não é daqui, certo?
- Escócia.
- E o que te trouxe para a Bristol?
- Minha mãe foi transferida para cá e tivemos que nos mudar – disse Stella dando de ombros enquanto voltavam a andar em direção a sua primeira aula juntas. – Nada contra a sua cidade, mas eu não queria me mudar.
- De boa, eu entendo. Bem vinda ao clube. – Krystal falou com um sorriso nos lábios rosados.
O resto do caminho até a sala do Sr. Smith foi seguido de conversas que fizeram as garotas perceberem que tinham mais coisas em comum do que apenas o fato de não gostarem de ter outras pessoas definindo o seu futuro. Elas chegaram à sala de aula juntamente com o professor, o que fez com que apenas restassem dois lugares vagos no fim da sala e quando finalmente se acomodaram o professor começou a aula.
Depois que o sinal finalmente tocou, indicando o fim daquela aula, as garotas sorriram aliviadas e se encaminharam para as suas próximas aulas que seriam separadas. Logo após deixar Stella em frente a sua sala, Krystal virou-se para ir embora quando se lembrou de algo e perguntou:
- Você deveria almoçar comigo hoje, sabe? Tem bastante espaço na mesa.
- Okay. – respondeu Stella sorrindo para a garota a sua frente. – Nós vemos no almoço, então.
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A aula de Inglês pareceu durar um século para Krystal, talvez fosse o fato de ela estar com sono ou simplesmente por não fazer aquela aula com um de seus amigos o que acabou fazendo a garota ficar impaciente todo o tempo até o sinal finalmente tocar indicando o intervalo para o almoço. Enquanto saia da sala ela ouviu seu nome sendo chamado, mas naquele momento a garota só pensava nas batatas fritas do refeitório que nem ao menos ligou pra quem a chamava. Por isso quando sentiu uma mão a agarrando pelo braço se assustou, virando rapidamente em direção ao garoto de cabelo cortado rente a cabeça que sorria para ela.
- Oi – Nico disse cumprimentando-a com um beijo rosto. – Pensei que tinha desistido dessa chatice.
- Se eu pudesse.
Nico estava com sua gravata desfeita e mesmo com toda a implicância da direção do colégio continuava usando as duas argolas na orelha esquerda que o deixava extremamente atraente.
Eles se conheciam há pouco mais de um ano, mas a garota adorava a companhia do francês mesmo sabendo dos sentimentos desse em relação a sua pessoa. Nico tinha os olhos verdes mais belos que Krystal já havia visto e a os pelos curtos que apareciam em seu queixo o deixava ainda mais charmoso, a pele clara contrastava com as sobrancelhas escuras e grossas e até mesmo a pequena cicatriz que ele tinha no queixo ajudava a emoldurar o rosto de modelo que o garoto possuía.
- O que você andou aprontando sem a gente?
O rapaz perguntou enquanto passava o braço sobre os ombros da garota como sempre fazia e assim eles caminharam juntos conversando até o refeitório do colégio e mesmo tendo todos os olhares em sua direção na entrada do refeitório Krystal tentou não ligar para aquilo.
Após comprarem seus lanches eles se dirigiram em direção à mesa que ficava no canto esquerdo do refeitório - um tanto afastado das outros – e logo escutaram a risada escandalosa de Theo que provavelmente estaria revirando os olhos para alguma briga idiota que rolava entre Cassie e Luke, pois o garoto de cabelo castanho escuro e olhos verdes matinha em seu rosto um sorriso vitorioso enquanto que a Laund mais nova amarrava a cara.
A garota de olhos azuis logo ocupou o lugar vago ao lado da melhor amiga enquanto Nico se sentava a sua frente. Cassie parecia estar realmente chateada, pois nem ligou para Krystal ao seu lado que tinha todo sua concentração no seu pedaço de pizza de pepperoni. Não era difícil notar que aquele grupo de amigos era agitado demais para que pudessem ficar mais de cinco minutos em silencio, o que acabou se provando verdade quando Theo comentou:
- Soube que tem uma garota nova no colégio.
- Finalmente, pensei que eu nunca mais encontraria rostos desconhecidos. – comentou Luke, enquanto comia seu wrap de frango com manga.
Esse era o problema de morar em cidade pequena, as fofocas corriam rápidas demais e como CHS era um colégio onde a maioria dos estudantes se conhecia desde a infância as fofocas praticamente eram passadas na velocidade da luz.
- Eu tive aula com ela – respondeu Krystal chamando a atenção de seus amigos. – E chamei-a pra almoçar com a gente.
- Pensei que fosse mais antissocial. – debochou Zach, surgindo na mesa com um sorriso debochado em seus lábios.
Zach sentou-se a frente Cassie com seus cabelos negros bem arrumados o que provavelmente era a única coisa realmente organizada na vida do garoto de origem asiática.
A dona dos olhos azuis era conhecida pelo seu péssimo humor matinal, por isso não foi novidade quando ao invés de responder às implicâncias do amigo de olhos puxados a garota simplesmente lhe mostrou o dedo do meio fazendo o mesmo revirar as íris escuras sem se preocupar em devolver o ato e surpreendentemente seus amigos já haviam se acostumado com atos desse tipo entre os dois.
Estranhando o fato de Stella ainda não ter aparecido Krystal começou a varrer com suas íris azuis o refeitório tentando encontrar a cabeleira loira da novata e não foi difícil notar a garota depois de certo tempo, pois ela estava parada no meio refeitório parecendo procurar por alguém.
Krystal bufou quando suas tentativas de chamar a atenção de Stella não tiveram efeito algum, ela parecia tão concentrada em não derrubar sua bandeja e procurar pela única pessoa que ela conhecia naquele colégio que mal notou o braço levantado de Krystal em meio ao amontoado de cabeças no refeitório. Quando seus olhos finalmente se focaram em direção à garota de cabelos ondulados Stella deu um sorriso aliviado e começou a caminhar em direção a mesma.
Enquanto ela caminhava até a mesa no canto esquerdo do refeitório algumas cabeças viraram na sua direção, mas ela nem notou, estava ocupada demais tentando não pagar algum mico em frente a todos do colégio. Quando ela finalmente chegou à mesa foi logo se sentando ao lado da Krystal e olhando os rostos desconhecidos a sua frente com um sorriso sem graça.
- Gente essa é Stella, a garota nova – Krystal apontou para a garota loira a sua esquerda – E esses são meus amigos.
- Que jeito educado de apresentar hein? - implicou Zach, recebendo um dar de ombros de Krystal em resposta.
- Eu sou a Cassie - se apresentou a garota de olhos cor de âmbar logo depois apontando para o garoto de pele tão negra quanto à dela. - E esse é meu irmão, Theo.
Theo olhou para a irmã com as sobrancelhas escuras arqueadas, mas deu de ombros e voltou seus olhos para o rosto da garota a sua frente apenas acenando para ela.
- Nico - falou o garoto de olhos verdes claros com sorriso de lado no rosto.
- Mas você não precisa decorar o nome dele, ele é só um francês. - falou Theo implicando com o amigo recebendo como resposta um soco no braço de Nico.
- Eles são sempre assim é só ignorar. – disse o garoto de olhos puxados, chamando-a atenção para si. – Eu sou o Zach, é um prazer te conhecer.
Cassie revirou os olhos diante da atitude do amigo que tentava jogar seu charme para a garota nova.
- Falou o cara mais maduro da turma – ironizou o garoto sentado na frente de Theo. – Você pode me chamar de Luke.
- Você não é daqui, certo? – perguntou Cass se debruçando sobre a mesa para falar melhor com a garota loira do lado esquerdo de sua melhor amiga.
- Eu sou da Escócia.
Os amigos se calaram enquanto observavam curiosos; a garota loira sentada ao lado da Krystal e o jeito como eles a olhavam, examinando-a, incomodou Krys e ela sentiu a necessidade de tirar a atenção deles da loira ao seu lado.
- Como foi na França, Nico? - perguntou Krys quando notou que Stella estava um pouco sem graça.
- Uma droga e meu pai é um idiota - respondeu o garoto de íris verdes claras - Nem sei o que eu fui fazer lá.
- Foi ver se arrancava uma grana dele.
Nico concordou.
- Não enche o saco, Theo. – interviu Krystal.
- Eu não fiz nada – disse o garoto de olhos castanhos antes de abocanhar um grande pedaço da pizza de queijo.
Zach parecia não estar realmente ali, ele brincava com as batatas em seu prato enquanto seus olhos pareciam distante. Seu celular vibrou e logo ele se levantou da mesa e sem dizer nada saiu caminhando até a porta do refeitório.
- Não entendo porque ele ainda sai com ela. – comentou Cass, olhando para onde Zach havia saído há menos de um minuto logo sendo seguido por uma garota de cabelo negro que o grupo de amigos conhecia muito bem.
Hannah Benson era uma das garotas mais populares da CHS e começou a ficar com Zach em uma das festas de Dave Coulson e desde então eles se encontravam de vez em quando mesmo o garoto dizendo que eles não estavam em um relacionamento, o que era a mais pura verdade.
- Ela é gata. O que mais importa?!
- O que tá achando da cidade? – perguntou Luke, ignorando o melhor amigo que provavelmente iria dizer algo idiota.
- Ah, eu ainda não tive muito tempo de sair - respondeu Stella enquanto encarava o garoto. - Na verdade, eu cheguei ontem.
- Ótimo - exclamou Cass sorrindo e olhada para os seus amigos. - A gente mostra a cidade para você, então.
E não demorou muito para que o grupo de amigos logo acolhesse Stella entre eles. A conversa fluiu e logo a sineta bateu anunciando o fim do intervalo, o que fez com que eles mesmos em meio aos resmungos se encaminhassem para a saída do refeitório. Krystal, Cassie e Stella teriam aulas no mesmo prédio e enquanto caminhavam para suas respectivas salas ficou rapidamente claro a sintonia entre as três garotas.
- Estão a fim de sair hoje? – perguntou a garota olhos cor de âmbar enquanto arrumava os livros que carregava em seus braços.
- Não dá, tenho que trabalhar. – resmungou a garota de íris azuis.
- E eu preciso arrumar minhas coisas, a casa nova tá uma bagunça por causa da mudança. – respondeu a garota das longas madeixas loiras, que agora se encontravam amarradas firmemente em um rabo de cavalo.
- Então tá. – disse Cass antes de virar e ir embora emburrada pelo corredor.
Fazendo com que Stella franzisse as sobrancelhas escuras diante da atitude inusitada da garota e logo depois se virou para Krystal, que nem ao menos parecia ligar para o que havia acontecido, perguntando:
- Ela ficou realmente chateada?
- Não, daqui a pouco ela esquece. – disse a garota de cabelos negros voltando a puxar a loira pelo corredor do segundo andar, e parando em frente à sala de aula da novata. – Relaxa.
Enquanto assistia as madeixas escuras de Krystal se perderem da sua vista no corredor, Stella percebeu que realmente havia feito amigos no primeiro dia de aula – o que ela sempre imaginou que só ocorresse em filmes – e que eles eram diferentes e únicos de uma maneira inusitada, mas que haviam sido a única coisa depois de uma longa viagem para uma cidade totalmente desconhecida que fez com que ela se sentisse estranhamente em casa.
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Já era bem tarde quando a garota de cabelos escuros se encaminhou para o estacionamento da CHS esperando que algum de seus amigos ainda estivesse por lá e pudessem lhe dar uma carona e logo ela notou a melhor amiga encostada no Fiat 500 vermelho que tanto adorava.
Cassie estava encostada na lateral do seu carro mexendo no celular que havia ganhado do seu pai na ultima vez que o viu, o que já fazia duas semanas. Ela era bem mais baixa que Krystal, e o corpo magricelo contribuíam para deixa-la ainda menor. Os olhos cor de âmbar eram pequenos, os lábios grossos e no momento o cabelo encaracolado estava curto e arrepiado, mas Krsytal sabia que logo a garota mudaria de visual.
Afinal esse era o estilo de Cassie Laund, ela era um camelão, vive se camuflando e em constante mudança. Sempre atrás de novas formas de causar algum efeito sobre os que a cercam e diminuir as chances de alguém realmente conhece-la.
- Ei Cass – chamou Krystal encostando-se à amiga, cansada de toda essa rotina maçante que era o colegial.
- Oi – respondeu Cass com um sorriso olhando para amiga, mas logo sua atenção foi voltada para a garota loira que saia do campus da CHS falando com alguém no celular. As duas amigas esperaram a novata notar a presença delas, o que não demorou muito visto que Stella logo se encaminhou para onde Cassie e Krystal se encontravam.
- Oi. – falou a garota de cabelo cor de ouro logo após guardar o celular na mochila.
- Precisa de uma carona? – perguntou Cassie, sacudindo as chaves do seu carro diante das garotas.
Stella assentiu.
As garotas estavam saindo do estacionamento da CHS quando Cassie ligou o radio preenchendo o carro com a batida de Red Lips. Enquanto Stella passava as informações de onde morava e a garota de íris azuis cantarolava a música. Estava concentrada demais na música que tocava alto no carro que quase não notou seu celular vibrando no bolso dianteiro de sua mochila.
- Alô? – atendeu desconfiada após perceber que era um número desconhecido.
- Senhorita Jones? Aqui é Norman Fitz sou a diretora da St. John's.
- Aconteceu algo com o Kevin? – perguntou Krystal, começando a ficar preocupada afinal ela nunca havia recebido ligações do colégio do seu irmão mais novo antes.
- Só um minuto.
- Mas o que houve? – perguntou Krsytal, mas logo percebeu que já havia sido deixada falando sozinha.
- O que foi? – perguntou Cassie recebendo um dar de ombros da amiga que também não entendia o que estava acontecendo.
- Krys? – perguntou uma voz tímida do outro lado da linha.
- Kevin, o que houve? Você tá bem? – Krystal sabia que perguntar varias coisas ao mesmo tempo só serviriam para deixar o garoto mais nervoso, mas não foi como se ela pudesse se segurar.
- Eu estou bem.
- O que aconteceu? – perguntou a garota de íris azuis sentindo seu coração apertar, assim como toda vez que ela pensava no quão distante estava de seu irmão mais novo.
- Eu briguei com um garoto hoje. – respondeu o garoto.
- Me conta direito isso Kev.
- Ele falou umas coisas e eu acabei batendo nele.
- Tá encrencado?
- Demais.
Krystal riu.
- Agora você é um verdadeiro Jones - comentou Krys rindo. - Se machucou?
- Nada demais. - respondeu Kevin tentando deixar a irmã menos preocupada.
- Que bom porque você me deu um tremendo susto – a garota falou enquanto olhava para a melhor amiga percebendo suas sobrancelhas negras franzidas. – Já ligaram pra Vivienne?
Vivienne era uma das pessoas mais amáveis que Krystal conhecia, e ela cuidava de Kevin como se ele fosse seu próprio filho.
- Ela já está vindo me buscar, mas queria que fosse você. – disse Kevin baixinho.
- Seu medroso – murmurou Krystal fazendo graça com irmão, enquanto mordia os lábios pálidos e olhava pela janela do carro da melhor amiga. - Prometo que vou te visitar logo.
- Hoje?
- Hoje não dá, mas até o fim de semana eu vou aí.
- Tá bom – se despediu Kevin. - Tchau Krys.
- Tchau Kevin. – falou Krystal antes de desligar, e como todas as outras vezes sentiu seu coração apertar.
Após guardar o celular Krystal percebeu o olhar de Cass em sua direção e o silêncio que havia ficado no carro após ela ter desligado o som para que a amiga pudesse falar melhor no celular. Era óbvio que Cassie sabia que a garota de olhos azuis havia acabado de falar com seu irmão mais novo, e por isso não demorou muito para voltar a perguntar:
- O que houve?
- O Kevin se meteu em uma briga. – respondeu Krystal sem olhar diretamente nos olhos de Cassie, fazendo a garota olhar discretamente para o retrovisor vendo Stella, que prestava atenção na conversa das duas garotas.
- Foi grave?
- Parece que não.
Cassie odiava quando a melhor amiga tentava parecer não ligar para algo que ocorria com ela, a garota de olhos castanhos sabia como Krystal se preocupava com Kevin e o quanto odiava ficar longe dele.
- Ele só queria falar contigo né.
- É. – concordou Krystal enquanto procurava pelo carro da garota alguma caixa de cigarro. – Não tem cigarro aqui?
- Claro que não, você estava com a minha última caixa. – disse Cass, enquanto olhava feio pra amiga. – Já acabou com tudo?
Krystal assentiu, voltando a aumentar a musica no carro enquanto se perdia nos últimos acordes que tocavam.
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Quando Cassie Laund passou pelos portões de sua casa de arquitetura georgiana, ela notou que havia algo de diferente. O conversível branco de seu pai estava estacionado na frente da casa o que fez a garota abrir a porta vermelha apressadamente, mas não havia ninguém na sala de estar e a televisão permanecia desligada.
Sempre que Simon Laund chegava de suas viagens a trabalho, ele passava horas na frente da televisão de tela plana tentando se informar sobre o que aconteceu enquanto esteve fora da Inglaterra.
Então a garota caminhou até a cozinha enquanto abria alguns botões de sua blusa social encontrando Sonya lavando louça. A empregada trabalhava naquela casa desde antes de Cassie nascer e era como uma mãe para a garota.
- Oi Cassie – cumprimentou Sonya enquanto a garota lhe dava um beijo no rosto e logo em seguida se sentava sobre o balcão. - Como foi no colégio hoje?
- Mesmo de sempre, mas agora tem uma garota nova. Ela veio da Escócia. – comentou a garota balançando as pernas curtas. – O Theo tá por aqui?
Cassie não sabia por que havia perguntado isso, afinal seu irmão nunca parava em casa, mas o que ela não esperava era ver o olhar que a empregada dava-lhe, na verdade ela não olhava para a garota diretamente, ela olhava algo além da garota.
E aquele simples gesto fez com que as pernas magricelas da garota parassem de balançar e ela virou a cabeça, tendo sua atenção no homem de sorriso gentil parado na porta da cozinha.
- Pai?! – exclamou Cassie descendo do balcão de granito e andando apressadamente na direção do homem que ela não via há semanas. – Quando você chegou?
- Cheguei quando você estava no colégio – comentou Simon depois de depositar um beijo no topo da cabeça da filha mais nova.
- Como foi a viagem? – perguntou a garota abraçada a cintura do pai, enquanto caminhavam para a sala de estar.
- Cansativa - falou Simon parando ao lado da escada principal. – Mas eu estava pensando, o que você acha de sairmos para jantar hoje? Eu preciso falar com você e o seu irmão sobre alguns assuntos.
- Seria incrível pai. – Cassie dizia sorrindo, a garota de íris castanhas mal conseguia lembrar a ultima vez que havia saído com o pai para jantar e passar um tempo entre pai e filha.
- Ótimo. Eu preciso fazer algumas ligações antes, mas nós vemos daqui a pouco.
- Você deveria descansar pai. – comentou Cass, reparando que a aparência do pai era de puro cansaço. O cabelo crespo estava com uma aparecia bagunçada e os olhos castanhos pareciam pesados.
- Eu vou querida. Não se preocupe comigo. – disse Simon antes de dar-lhe um beijo na testa e sorrir na direção da garota. Até mesmo o seu sorriso parecia mais desgastado, como se ele tivesse passado as ultimas horas sorrindo sem parar. – E eu tenho algumas surpresas pra você em seu quarto, espero que goste.
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Ao deixar as chaves em cima da mesa de vidro no centro do apartamento que dividia com Leila, a garota de olhos azuis notou que ainda não havia ninguém lá. Então, se dirigiu até o pequeno quarto de paredes azul – que antes era o escritório de Leila – e adentrou o mesmo, jogando de qualquer forma sua mochila na cama desarrumada enquanto verificava as horas no seu relógio de pulso.
Logo que Krystal chegou do colégio ela havia trocado o tradicional uniforme pela calça jeans preta, camiseta cinza lisa e suas botas preferidas e tinha se dirigido para o trabalho. Patsy’s era uma cafeteria pequena, mas que costumava ser bastante frequentado – na maior parte do tempo – e todos que trabalhavam lá foram igualmente legais com a garota, mesmo que ela estivesse trabalhando há pouco tempo. Na verdade, ela havia praticamente trabalhado apenas o verão lá.
O pacote com todo o seu ultimo salário fora jogado sobre a mesa de cabeceira enquanto Krystal retirava as botas dos pés e o peso daquele fatídico dia vinha à tona, fazendo com que a garota desejasse nada a menos que um banho quente para tentar se livrar de todas as preocupações que voltavam todo o momento a sua mente.
Depois do banho, Krystal se encontrava na cozinha colocando uma lasanha congelada - que Leila havia deixado para ela - no micro-ondas. Havia acabado de receber uma mensagem da melhor amiga, mas naquele momento ela só queria matar sua fome e ficar debaixo das suas cobertas, onde as coisas pareciam bem melhores.
Sabia que não estava sendo uma boa amiga para Cassie nesses últimos dias, mas havia tantas coisas em sua cabeça que ela não tinha ideia de como ficar realmente presente na vida da amiga e agora que havia ficado realmente desempregada não tinha a mínima ideia de qual seria seu próximo passo.
Os canais passavam rapidamente diante das íris claras de Krystal que se mantinha deitada no sofá desde que acabará de jantar e sem ao menos notar, o cansaço havia atacando a garota fazendo a cair no mundo dos sonhos em plena sala de estar, e naquelas poucas horas de sono ela não tinha todo peso nos ombros.
Todo o peso de uma vida em cima de uma garota de dezoito anos.