Capítulo 31
Alguém estava me batendo, senti meu corpo sendo jogado de um lado para o outro, até que percebi que era a água, muita água. Fiquei sufocada, sem ar. Tentei fazer com que passasse alguns fios de ar ate meus pulmões mais foi em vão. Eu queria acordar, eu queria viver.
Senti meu corpo despertar, assim como também senti dores de cabeça, dores nos dedos, na mão, nos pulsos, na barriga e nos joelhos. Senti, além disso, coisas, coisas acopladas a mim. Nos meus dedos, no meu nariz, nos meus braços. Apurei meus ouvidos para tentar decifrar onde eu estava, porém eu não conseguia ouvir nada alem de um continuo bipe. Abri os olhos enfim.
Tive uma linda visão do teto, e de canto de olho avistei alguns aparelhos, levei questão de segundos para entender que eu estava em um quarto em algum hospital. Tentei chamar por alguém, mas percebi que tinham um aparelho na minha boca, aqueles que a gente usa para fazer inalação. Sufoquei um grito de desespero e obriguei meus sentimentos a se controlarem. Até que finalmente lembrei o que havia acontecido.
Eu pulei do penhasco e parece que eu estava viva. Tentei me lembrar de algo depois disso, mas nada. Continuei trabalhando a minha mente nos pequenos detalhes, se eu estava desesperada antes, agora eu estava mais. Onde quer que eu esteja eu estava sozinha. E se não fosse um hospital? Fosse alguma sala de tortura do Eduardo ou da Gabriella.
Quando estava prestes a começar a me mover um rosto se materializou na minha frente.
- Olá querida – Eu nunca ouvira essa voz antes – Você acordou. Graças a Deus você finalmente acordou.
Eu não consegui distinguir o rosto dela, mas pelas suas palavras eu fiquei aliviada ao perceber que eu estava em um hospital.
- Você chegou aqui há seis dias, ninguém acreditou que você acordaria tão cedo, mas eu sabia que sim. –Ela passou a mão pelo meu rosto gentilmente – Não precisa se assustar. Meu nome é Rebeca, sua enfermeira. Eu vou te dizer tudo que você precisar saber.
Ela sumiu do meu campo de visão por alguns segundos até que voltou a aparecer, com uma prancheta na mão.
- Você fraturou alguns ossos, e alem de todos os cortes profundos você sofreu um dos piores tipos de hemorragia interna. Além de ter muita água no pulmão. Mas você... É literalmente dura na queda. Vou te fazer umas perguntas, e quando a respostas for não, você pisca o olho pra mim ok?
Eu não me movi, queria dizer o quanto tudo em mim estava doendo.
- Você se lembra de ter pulado de um penhasco? – Eu não me movi, ela anotou alguma coisa na prancheta que estava na sua mão – Consegue se lembrar de algo, além disso? – Percebi que precisei de muito esforço para fechar os olhos – Esta sentindo dores agora?
Fechei o olho por mais tempo, tentando enfatizar a resposta.
Ela deixou a prancheta de lado e começou a se movimentar de um lado para o outro.
- Eu sei parece o fim do mundo, mas nós vamos sair dessa, eu vou te dar um remédio para que você volte a dormir. Ainda precisamos drenar muita água do seu pulmão e temos muito sangue para repor. Porém, sua família está aqui, e eles nunca vão embora e estão sempre arrumando pessoas para doar sangue pra você. Pode te fazer bem ver alguns mesmo que você não possa falar. Será que eles podem subir até aqui?
Eu não pisquei, embora eu não conseguisse falar e tudo que eu mais quisesse no mundo fosse dormir e dormir pra sempre até a dor passar, eu precisava ver alguém para ter certeza que estava em local seguro. Ela passou mais uma vez a mão pelo meu rosto e saiu apressada. Como eu não conseguia ver nada além do teto e algumas coisas ao meu lado eu apenas ouvi quando a porta se abriu de novo. Algum rosto embaçado voltou a se materializar em cima de mim.
- Hanna – A incrível voz familiar da Paloma acalmou meu coração – Oi meu amor.
Ela passou gentilmente a mão no meu rosto, o que me causou certo incomodo devido às dores.
- A enfermeira disse que você vai voltar a dormir logo, e por sorte eu estava aqui pra pegar esses minutinhos com você. Esta tudo bem agora, ninguém mais vai poder te fazer mal, eu prometo.
Ela segurou a minha mão de modo gentil. Minha cabeça parecia estar sendo colocada em uma fogueira. Fechei os olhos tentando entender um pouco mais do que estava acontecendo. Havia uma pessoa comigo naquele dia, importante, o Renan.
Olhei desesperada para a Paloma, como é que eu iria perguntar isso se nem abrir os olhos eu consegui fazer direito.
- Ora, a bela adormecida acordou – A voz irônica dele inundou o quarto – Hanna, devo admitir... Já vi muitos filhos fazerem coisas birras, se jogarem no chão, fugir de casa... Mas francamente, se jogar de um penhasco? Você bateu o recorde.
Fechei os olhos, aliviada por ele estar ali, senti uma lagrima escorrer pelo meu rosto de emoção. Os dedos ásperos dele a secaram, abri os olhos para olha-lo. O Renan estava com alguns curativos no rosto e um braço com gesso.
- Agora ninguém quer brigar comigo – Ele levantou o tanto que pode o braço engessado – Uma dessa e eu desmaiaria qualquer um.
A Paloma riu de modo suave.
- Tantas pessoas passaram por aqui pra te ver. E todo o sangue que você esta recebendo vem de nós, seus amigos. E principalmente da minha família... Acredita que até meu pai quis doar um pouquinho de sangue pra você.
Ela falava como se eu pudesse responder tudo o que ela dizia, como se estivéssemos tomando café ou almoçando.
- Eu tenho muito orgulho de você. – Ela falou baixinho.
Senti quando o Renan pegou a minha outra mão.
- Você me fez acreditar naquele ditado de que vaso ruim não quebra – A voz irônica dele era extremamente confortável aos meus ouvidos – É chato que você não possa me responder, por que parece que esta zangada quando me olha assim, mas eu quero que você fique bem logo, pra gente dar uns role de moto e tirar a primeira má impressão da minha pilotagem.
Eu iria rir se conseguisse. Meu riso saiu em forma de lagrimas outra vez, que ele dedicado logo a secou.
Ele tocou a minha mão e sorriu gentilmente. Eu queria sorrir de volta, mas eu não conseguia fazer nada. Minha cabeça parecia que ia explodir.
Ouvi o barulho na porta de novo. A Paloma deu espaço para outra pessoa se posicionar ao meu lado. Era meu pai.
- Vim aqui pra te fazer dormir, dormir em paz. – Ele beijou minha testa suavemente.
Fechei os olhos e em pouco tempo todo o barulho sumiu, as vozes, os toques, os cheiros. Fui engolida de novo pela confortável escuridão.
Toda a escuridão saiu do meu campo de visão, eu estava em um jardim enorme e amplo. Parecia um mar, só que de flores. Em algum lugar perdido naquele monte de mato, havia uma voz, uma suave voz que me chamava, desesperada. Senti meu peito doer de desespero por não conseguir encontrar a voz, então eu comecei a correr, correr em qualquer direção que me levasse aquele lugar, aquela pessoa.
Senti um cheiro de cereja forte tomar conta dos meus sentidos. Meu corpo parou de correr, o jardim perdeu o foco, tudo voltou a ficar preto e silencioso.
Ouvi o bipe dos aparelhos outra vez, meu corpo havia despertado embora eu continuasse de olhos fechados.
Como da primeira vez levei algum tempo para entender o que havia acontecido, e mais tempo ainda pra ouvir que havia alguém ao meu lado. Abri os olhos para tentar decifrar quem era.
- Olá mocinha – Conheci perfeitamente a voz do meu irmão – Você quase me mata do coração.
Assim como os outros ele segurou firme minha mão.
- Na verdade – Ele cochichou no meu ouvido – Não fui só eu que quase morreu. Na verdade, todo mundo se assustou. Peguei um avião direto pra cá. Mamãe queria estar aqui, mas parece que os ônibus estão em greve e o Isaac só poderá vir daqui algumas semanas. Ela não desliga o celular um segundo, quer saber informações uma a trás da outra e manda desculpas por não estar aqui. Ela até brincou que a Paloma apareceu na hora certa.
Ele ficou em silencio me observando. Eu não sentia mais dores, na verdade eu não sentia nada, meu corpo todo estava adormecido e eu só sabia que estava trabalhando por dentro devido à movimentação dos aparelhos, eu me sentia morta. Era uma sensação horrível.
Cada vez que eu despertava mais distante eu ficava das coisas que estavam acontecendo.
- A Amanda também veio comigo – Ele voltou a falar – Deixou o emprego de ultima hora pra trás e veio me acompanhar. Sabe, acho que vou ter que casar com ela.
Dediquei toda minha concentração na mão que ele segurava e apertei um pouquinho, eu senti que estava fazendo uma força absurda, mas meus dedos mal se mexeram. Porém ele olhou pra baixo e sorriu, acho que o pequeno movimento foi suficiente para mudar tudo.
- Você sempre quis se sentir parte de um lugar, de uma família né. Hoje, aqui... Eu vi tanta gente entrando e saindo procurando por noticias suas, que eu me perguntei, como você nunca conseguiu se sentir parte de nada? Tem tantas pessoas que é parte de você... Ou melhor dizendo, você é o complemento de tantas pessoas.
Era horrível não poder responder, não poder me mexer, não poder sentir. Eu queria abraça-lo forte, conversar, fazer perguntas, mas fiquei feliz em não poder responder, não importa o que eu diga, ele nunca iria entender o que eu, somente eu entendia.
- Tem pessoas querendo te ver, vou ir lá pra baixo e abrir espaço para eles, e volto, eu sempre volto.
Ele se inclinou e beijou minha testa suave, porém um beijo demorado. Finalmente ele saiu, e demorou um tempo para que alguém entrasse.
Minha enfermeira, Rebeca, voltou e começou a fazer os procedimentos de sempre, de acordo com ela a próxima vez que eu acordasse já estaria respirando sem ajuda de aparelhos, e provavelmente iria poder falar com as pessoas ao meu redor, e claro, com ela. Pisquei e abri os olhos a cada pergunta dela, até que por fim ela telefonou para a recepção e mandou as minhas visitas subirem.
Eu não consegui ver nada além do teto, não me mexia, nem falava. Na verdade, eu estava feliz assim, não sentia mais as dores insuportáveis o que era um progresso enorme.
Senti meus olhos fecharem lentamente, achei que fosse voltar a dormir de novo, e eu bem que queria. Minhas forças para continuar acordada acabaram.
Até que eu ouvi o barulho da porta se abrindo outra vez, e pelas silhuetas que se formaram ao meu lado, percebi que era o Renan, a Mari e o Ramon. Mesmo com meus amigos ali, meu corpo não se prendia a nada, eu estava sentindo muito sono devido ao constante remédio que era derramado no meu sangue.
- É um bom jeito de mudar de aparência – O Ramon falou por fim – pela honra de uma amizade. Minha mãe teria orgulho de mim.
- Ele teve que raspar o cabelo para fazer alguns curativos, - O Renan explicou prestativo – E acredite em mim, ele está mais gato agora.
Apesar de toda a piada, eu estava muito triste. Todos meus amigos estavam em situações ruins e de certa forma por minha culpa.
Fechei os olhos, se antes eu já queria dormir, agora eu queria muito mais. Eles ficaram em silencio, o que foi suficiente para que eu ouvisse alguém se movimentando. Eu não ia abrir o olho para ver a nova visita, até que o cheiro inconfundível de cereja atravessou todos meus aparelhos e penetrou cada milímetro da minha alma. Senti-me abraçada, em casa. Senti como se o que faltava tivesse voltado até mim.
Senti quando a Rafa envolveu uma das minhas mãos.
- A enfermeira disse que ela iria dormir rápido, por causa do medicamento, acho que não demos sorte – A Mari observou.
- Será que podemos ficar mais um pouco por aqui mesmo assim? – A Rafa perguntou baixinho.
Eu conhecia cada parte dela, o modo como sua voz saiu, me mostrou que ela havia chorado, por que além da voz seu nariz estava escorrendo, e ela ficava insistentemente fazendo aquele barulho estranho quando repirava.
Escutei-os andando de novo, e percebi que a Rafaela não era, já que ela continuava segurando a minha mão.
Abri os olhos com dificuldade, mesmo com a visão embaçada percebi que ela me olhava com curiosidade.
- Oi – Ela perguntou baixinho – Eu to aqui.
- Sabe o que é engraçado? – A voz do Renan soou em algum lugar do quarto que minha visão não conseguiu alcançar – Consigo observar os batimentos dela acelerarem só de olhar pra você Rafa.
Eu queria gritar. Queria saber o que estava acontecendo, o que aconteceu, e também queria gritar desculpas para a Rafa de uma maneira absurda. Só de pensar em fazer tudo isso, minha cabeça doeu. Fechei os olhos para tentar acalmar a dor.
Ela se sentou em uma cadeira ao meu lado, ainda envolvendo minha mão com as suas.
O quarto ficou silencioso e de repente o bipe pareceu absurdamente barulhento.
- Hanna – A voz suave da Rafa pareceu inundar minha alma, abri os olhos – Lembra quando nós saímos da escola duas semanas depois do nosso primeiro trabalho, e de como as pessoas falavam da gente. Você resolveu ir até o parque queria que ficássemos lá por um tempo, a sós. Lembra-se das suas palavras?
O barulho do bipe sumiu e minha mente voltou na exata hora que ela falava. Era por volta do café da tarde, tínhamos acabado de sair das nossas aulas técnicas que tínhamos à tarde, depois de uma longa manhã de aula normal. Eu pedi para que sentássemos em um dos brinquedos do parque um pouco, antes que cada uma de nós fosse para casa.
Nós tínhamos discutido aquela manhã por que a Rafa simplesmente queria parar de ser minha amiga por conta das coisas que estavam falando sobre a gente, e eu fiquei desesperada com o fato dela querer se afastar de mim. Embora tenhamos ficado a tarde toda junta, estava um clima estranho.
Nós nos sentamos em um daqueles brinquedos de criança que roda, ela se sentou primeiro, eu dei impulso para o brinquedo girar um pouco e me sentei de frente para ela. Ela encostou-se despreocupada na proteção as suas costas e eu fiz o mesmo com a minha.
- Você é doida sabia? – Ela falou em fim, sorrindo – Qualquer pessoa já teria fugido de mim.
- Você é quem esta tentando fugir de mim. – Falei seca.
Ela tombou a cabeça para o lado, como um cão arrependido faz.
- Desculpa poxa, não sabia como você ia reagir a todos esses boatos. Pensei que talvez tivesse medo de vir me dizer que não iria falar comigo mais.
- Rafa, o fato de você ser exatamente quem você é, é o que me faz gosta de você.
- Tá bom Hanna, mas não vão parar por aqui, as coisas vão continuar acontecendo, e as pessoas falando, e enfim...
- Deixe que falem – Respondi rápido.
Ela ficou em silencio por algum momento, séria, depois começou a rir. Eu sorri pra ela divertida. Nós começamos a observar as crianças brincarem no parque, em silencio.
- Você acredita que toda pessoa esta destinada pra outra pessoa? – Perguntei de repente.
Ela me olhou surpresa.
- Como assim?
- Ah – respondi sem graça – é que eu sempre esperei por você... Eu acho. Pode soar maluco e carente, mas eu acredito que não existe essa historia que as pessoas dizem de que as coisas na vida delas só não dão certo por que não aconteceram no tempo certo. Tipo, tudo acontece na hora que tem pra acontecer... Eu estava esperando, e finalmente você aconteceu.
- Nunca analisei por esse lado – Ela respondeu sorrindo.
Suspirei.
- Todo mundo acha que o dinheiro é o que move o mundo, e na verdade, isso é mentira. O que move o mundo são os sentimentos. O que você quer te leva sempre onde você está. Você só esta onde está por que caminhou pra isso. Bom, pelo menos é nisso que eu acredito.
Ela deu uma risada suave.
- Você acha que estávamos destinadas uma a outra então? Salvei sua vida? – Ela perguntou divertida.
- Salvou – Respondi séria – Você salvou mesmo. Obrigada por aparecer.
- Obrigada você por não desistir de mim.
Segurei a mão dela de modo carinhoso.
- Vamos morar em uma casa na praia no futuro, quando estivermos aposentadas. E eu vou sempre na sua casa pedir açúcar e claro a sua mão para cozinhar pra mim – Ela riu – Vamos lembrar de tudo que fizemos juntas e ver que nós realmente, realmente fomos melhores amigas para sempre.
Ela balançou a cabeça levemente afirmando.
- Melhores amigas para sempre – Ela sorriu.
A imagem se desfez quando senti a outra mão dela apertar meu braço, meu consciente estava de volta ao quarto do hospital. Eu abri o olho para que ela soubesse que eu estava lá, escutando.
Senti quando a mão dela tocou meu braço, pude escutar que ela chorava de um jeito silencioso.
- Você não pode me deixar, entende? – Ela abaixou a cabeça, escondendo o rosto encostada na minha mão – Tem que aguentar firme, por que eu não sou ninguém sem você. Hoje eu entendo o que você queria dizer. Nós só estamos aqui para mudar a vida de alguém e fazer bem as pessoas. Você é metade de mim, a metade que faz bem.
Ela ficou em silencio tentando se acalmar enquanto eu chorava como podia completamente intacta.
- É estranho – ela falou baixinho - como às vezes parece que eu tenho o mundo todo sobe meus pés, mas ao mesmo tempo eu pareço não ter nada se eu não tiver você.
Ela soltou a minha mão e se afastou de repente. Eu fechei os olhos, deixando que as lágrimas na borda dos meus olhos escorressem.
Depositei toda força que tinha em minhas mãos, levantei meus dedos e abri a mão.
- Rafa. – O Renan sussurrou.
Ela olhou pra ele e depois para minha mão.
Os dedos dela se entrelaçaram nos meus de modo suave. Ela deu uma risada abafada.
- E nós vamos ser amigas para sempre não vamos? – Ela citou a frase de um dos nossos filmes prediletos.
Fechei os olhos de novo, dessa vez sem qualquer força para continuar acordada.











