O carro demorou tanto para chegar, que o clima que havia sido cortado entre mim e Rafa quando o telefone tocou, começou a pairar no ar outra vez.
- O que será que ela quer? – Falei baixinho.
Eu havia a aninhado de forma confortável em meus braços .
- Sei lá, mas eu gostei de não ficar de fora dessa vez. – Ela refletiu – Bom, depois do escândalo que eu dei no hospital, acho que ninguém nunca mais vai ousar me deixar de fora.
Eu a afastei por alguns segundos para olhar em seus olhos, que agora me olhando, se mostravam divertidos. Abri a boca para perguntar o que ela queria dizer, mas o interfone tocando cortou minha fala.
Não foi a Paloma que foi nos buscar, foi o seu faz tudo, como eu já imaginava.
- Olha só, a última vez que eu te vi tinha sangue escorrendo pelo seu nariz.
Ele falou divertido assim que entrei no carro.
- Pelo menos eu não voei por nenhuma mesa ou coisa do tipo.
- Qual é – Ele revidou – Eu apanhei com estilo... Você parecia uma marionete.
Comecei a pensar rápido em uma resposta a altura, mas a Rafa suspirou irritada no banco de trás.
- Eu não estou vendo o motivo para a piada. – Ela falou rude – Podemos ir em silêncio, por favor?
Ele sorriu de canto enquanto a observava para pelo retrovisor. Eu apenas afirmei com a cabeça e voltei a olhar para frente.
O Pablo ligou o radio e nós ficamos em silencio por alguns minutos. Até que o percebi inclinando propositalmente o corpo para mais perto de mim.
- Sabe – Ele falou baixinho para que só eu ouvisse – Tenho uma leve impressão de que você é a minha versão feminina quando olho para ela.
Ele se referiu a Rafa olhando pelo retrovisor outra vez.
Forcei um sorriso irônico e depois disso ele finalmente ficou em silencio, assim como o resto do percurso.
Não fomos para a casa da Paloma, eu já havia deduzido já que ela não morava na nossa cidade. Fomos para o hotel, o antigo hotel onde a Rafaela trabalhava.
Ele estacionou, e nós descemos do carro. Ele começou a andar na frente enquanto eu e a Rafa o seguíamos.
- Por que você tem essa intimidade com ele? – Ela perguntou baixinho.
- Não sei, simplesmente acontece. – Respondi com sinceridade.
Ela me lançou um olhar de reprovação e depois se rendeu aos encantos do hotel em que um dia ela dedicou todo seu tempo.
- Faz pouco tempo que saí daqui, mas sinto falta. – Ela suspirou encantada.
- Sentimos falta de tudo aquilo que nos fez bem. Não importa se faz um ano, ou uma hora, a partir do momento que aquilo ficou para trás, nós sentimos falta.
Nós subimos alguns andares no elevador, até que finalmente chegamos ao quarto da Paloma. Não era bem um quarto, parecia mais um gabinete ou coisa do tipo.
Pensei que iria encontrar uma equipe, como na casa de campo, mas logo notei que éramos apenas nós quatro.
- Olá meninas – Ela falou gentil.
Abraçou-nos de modo carinhoso e depois fez um gesto com a mão para que nós nos sentássemos em uma das poltronas.
Ela ficou dançando o olhar para mim, e depois para a Rafa repetida vezes.
- Tá legal – A voz grossa do Pablo quebrou o silencio – Nós temos boas noticias, e a Paloma tem um pedido.
- Nós? – Desdenhei – Está subindo de cargo.
Ele apenas devolveu um sorriso debochado em resposta.
- Finalmente as provas que eu juntei contra o Eduardo foram aceitas, e ele vai parar de nos perturbar.
- Então ele realmente foi preso? – Observei.
Ela afirmou com a cabeça, e eu senti o ar entrando em meus pulmões como sinal de alivio.
- Mas, ele tem dinheiro – A Rafa começou – em meses ele paga a fiança e sai de lá.
- Sim e não – Disse Pablo – Na verdade, ele vai ser obrigado há cumprir alguns anos, e esses anos vão ser os suficientes para fazer a Hanna obter uma idade em que ela não servira mais para ele.
Nós ficamos em silencio, absorvendo a informação.
Isso era bom, mas não era o suficiente.
- Então ele vai sair de lá, com muito mais ódio no coração e com muito mais raiva, já que não conseguiu nada com a gente. – A Rafa voltou a falar.
- Pensando nisso – A Paloma levantou-se – Que nós mexemos em algumas coisas para que isso não aconteça.
Ela se posicionou ao lado do Pablo e sorriu, de modo triunfante.
- E é provável que vocês não vão nos contar como – Observei.
Ela sorriu, assim como ele.
- É claro que não – Ele passou a mão em volta da cintura dela e assumiu a mesma postura triunfante.
Suspirei feliz por essa informação. Seja lá o que eles tenham feito, eu sentia que podia confiar que era verdade, que ninguém mais iria voltar a me perturbar.
Olhando para os dois, e voltando ao tempo real eu logo percebi que havia alguma coisa errada. Era aproximação de mais.
- Onde está seu noivo? – Perguntei para a Paloma – Quer dizer, marido.
Ela se soltou dos braços do Pablo e voltou a se sentar na poltrona, com uma fisionomia séria.
- A gente teve uma discussão bastante pesada.
- Por quê? – Perguntei imediatamente.
Ela juntou as mãos em cima do colo e suspirou de um jeito demorado. Mais uma vez seu olhar dançou entre mim e a minha amiga.
- Por que ele não aceita “adotar” – Ela fez um gesto de aspas com a mão – a minha filha.
Fiquei completamente surpresa.
- Nossa - Comecei – mas... Eu achei que estivesse tudo bem... Uma vez que ele também não pode ter filhos e vocês teriam que adotar, sem aspas, uma criança.
Ela afirmou com a cabeça devagar, e mais uma vez respirou fundo.
- Na verdade, ele não aceita apresentar a filha de sua esposa, para a família dele e ter que dizer que você... – Ela arqueou as sobrancelhas buscando as palavras – é apaixonada por uma garota.
Perdi o ar por alguns segundos. Senti meus olhos se arregalarem levemente e logo voltei a me recompor. Se houvesse uma janela por perto, eu provavelmente iria me jogar.
- C-como... C-como assim... D-da onde foi que... – Falei gaguejando.
Ela abriu a boca para responder, mas a Rafa foi mais rápida.
Olhei para ela – que olhava fixamente para o chão – sem entender nada.
Ela balançou a cabeça de modo que parecia estar tentando se livrar de seus próprios pensamentos. A Rafa suspirou fundo tentando se controlar e finalmente me encarou.
- O que? – Perguntei impaciente.
- Olha, ele conhece você – Ela quem pareceu ficar impaciente – Ele conhece você. Ele percebeu o jeito que você olha pra mim, o jeito que você se refere a mim, o jeito que tudo muda ao seu redor quando fala no meu nome... Ele sabe... Porque antes, era assim com ele.
Eu fiquei de pé, andando de um lado para o outro.
- Ele me cercou em uma das minhas ultimas visitas ao hospital, e simplesmente surtou – Ela começou a falar alto, para que a voz dela me acompanhasse pelo quarto – Começou a me atacar com um monte de coisas, dizendo que enquanto vocês namoravam, eu já estava lá, cutucando você, e plantando mil ideias na sua cabeça para que você o odiasse.
- Eu não o odeio. – Falei rapidamente.
- Eu sei que não, você não odeia ninguém. – Ela esticou as mãos para me tocar, mas desistiu no meio do caminho – Desculpa, eu sei que você queria que ninguém soubesse. Mas ele estava falando alto, e me acusando de coisas que eu não fiz. Fiquei sem atitude, e quando eu vi, eu simplesmente falei.
Eu estava de costas para ela. Como o silencio pairou no ar e eu percebi que ela não falaria mais nada eu virei para olha-la.
Ela suspirou e voltou a se sentar na poltrona.
- Que eu sentia muito que a oportunidade dele tenha ido com o vento, mas que agora seu amor era meu, e não que não iria ser ele nem nenhuma acusação ridícula que iria me fazer perdê-lo.
Não respondi. Eu não estava chateada com ela, na verdade. Estava com raiva, apenas.
Raiva dele, por tê-la atacado com palavras. Raiva dela não ter me contado isso antes de outra pessoa. Raiva por ele ter entregado nosso segredo, como uma forma de vingança. Raiva pelo marido da Paloma ser um nojento preconceituoso que não me dera nem a chance de eu me explicar. Raiva da Paloma, por dizer aquilo de forma natural, me colocando contra a parede.
Raiva da minha falta de controle por ter deixado a situação fugir do normal, e raiva principalmente, pelas pessoas olharem para mim e para a Rafa e imaginarem uma coisa que não é, por verem vulgaridade onde não tinha, por verem maldade onde não era. Por ver doença onde existia amor. Sentia raiva por todas as pessoas nos olharem e verem isso, enquanto por trás de nosso escudo a única coisa que existia era uma relação super balançada, porque eu exatamente não queria que ninguém nos olhasse e visse isso.
- Já terminaram? – A voz do Pablo quebrou o silêncio.
Seu comentário irônico só fez com que a minha raiva se intensificasse ainda mais.
- Não me importa – Falei olhando o nada.
Eles ficaram em silencio por um momento.
- O que não importa? – A Paloma perguntou cuidadosa.
Balancei a cabeça negativamente, tentando organizar meus pensamentos.
- Não me importa o que ele acha, ou o que você acha de mim agora. Quer saber? Não importa o que ele tenha te falado, e o que você vê toda hora que olha pra gente. As coisas, simplesmente não são assim. Eu não sou assim.
- Você é. – A Paloma afirmou.
- Não – Eu gritei – Eu. Não. Sou. Assim.
Comecei a andar em direção a janela, para tentar tomar um ar, mas desisti. Eu estava sim, com vergonha, e sem graça, mas os sentimentos que predominavam eram a raiva e nada mais.
Fui em direção á porta, porém desistir também. Eu queria ir para casa, ou ir para qualquer lugar longe dali, mas na verdade, o que é que eu estava fazendo? Estava fugindo. Fugindo de que?
- Será que você pode se acalmar e ouvir o que eu tenho para dizer? – Ela falou de modo gentil.
Suspirei firme, tentando me controlar. Eu não me sentei, mas levantei o olhar para olha-la.
- Hanna, tá tudo bem. – Ela esticou a mão e tocou meu joelho gentilmente.
Senti mais uma vez a raiva tomando conta de todo meu raciocínio.
- Ah – esbravejei tirando sua mão da minha perna – Para com isso. Não venha me dizer que esta tudo bem, eu sei que não está.
- Claro que está. Eu nunca fiz parte da sua vida, eu não sei como você é, ou o que você pensa...
- Você não entende? – Eu a interrompi, ficando de pé outra vez – Não é o que eu penso, porque tudo que eu pensava sobre a vida, mudou muito há três anos, quando eu a conheci. Você não pode me dizer que esta tudo bem, e que você entende... Sabe por quê? Porque você não sente o que eu sinto.
Ela quem ficou de pé dessa vez.
- Exatamente – Ela falou de modo carinhoso – Exatamente meu amor. Eu não sei o que você sente, mas... O que é que a gente sabe sobre o amor? Eu passei dezoito anos da minha vida sem nunca mais ter visto uma foto sua, e Hanna, toda vez que eu olho pra você, é como seu eu nascesse de novo.
Senti aos poucos a raiva que me dominava se desfazendo.
- Eu só queria te dizer, que eu não te julgo... Até porque, eu sei o quanto é ruim casar e entregar a sua vida para uma pessoa que você realmente não ama. – Eu levantei o rosto para olha-la – Não importa quem seja a pessoa pela qual você se apaixone. No amor, tudo vale apena.
Ela olhou de modo carinhoso para o Pablo, que retribui da mesma maneira.
- E além do mais – Ela voltou a se sentar na poltrona e olhou de modo carinhoso para a Rafa – Eu nunca conheci alguém tão doce e encantadora como essa menina. Não me surpreende que você a ame.
A Rafa sorriu sem graça para ela. E embora eu soubesse que ela queria responder, tudo o que ela fez foi ficar em silencio. Assim como eu.
Eu sabia que a nossa conversa não tinha acabado por ali, pelo menos não para mim. Se a Paloma queria fazer parte disso, ela realmente ainda tinha muito que ouvir e entender. Para ser sincera eu ainda tinha muito que ouvir e entender.
Todos nós sabíamos disso, e acho que é exatamente por isso que ninguém falou mais nada.
- Qual era o pedido? – A voz da Rafa quebrou o silencio.
Ela suspirou mais relaxada dessa vez.
- Quero que vocês conversem com a Gabriella.
Isso realmente me pegou de surpresa. Mais de surpresa que o normal.
- Nós? – Perguntei perplexa.
- Na verdade, ela tem algumas coisas para falar com vocês, e eu quero que vocês escutem o que ela tem a dizer.
Não respondi. Fiz um pedido mentalmente para que a Rafa recusasse gentilmente o pedido, mas ela nem se mexeu.
- Eu sei que é estranho, mas ela precisa de uma segunda chance, e eu estou tentando ajudar.
- O pai dela sumiu – O Pablo completou – Ela ta morando com a irmã da Paloma, mas não quer mais viver... Sente vergonha.
Ainda não respondi. Aquilo sim era informação demais para a minha cabeça. Esqueci completamente o assunto sobre o Diego.
Eu não desejava o mal dela, tudo que eu mais queria era que a Gabriella ficasse bem longe de mim, e agora a Paloma estava pedindo para que eu me aproximasse dela.
- Quando? – A Rafa perguntou quebrando o silencio.
- No próximo fim de semana, antes da sua apresentação na final do campeonato estadual.
O Pablo tinha razão, a Rafaela parecia a chefe da relação. Se ela decidia alguma coisa, a minha opinião não contava mais, assim como era com ele.
- Você está na final do campeonato? – Minha ficha caiu – Quanto tempo eu dormi?
Ela começou a rir do seu jeito natural, até que percebeu que eu estava falando serio e ficou sem graça.
- É, eu estou representando a academia, se eu passar vou parar no campeonato nacional.
Abri a boca surpresa. O campeonato estadual era o mais importante por ali. A cada mês era alguma modalidade: futebol, vôlei, dança, musica, teatro e assim por diante. As eliminatórias aconteciam por vídeos, e a cada quinze dias havia apresentação com jurados, plateia e tudo que tiver direito.
Senti meu coração apertar um pouquinho, não por inveja, por medo. Ela percebeu a incerteza no meu olhar por que começou a me olhar de um jeito carinhoso.
- Então vocês topam? – A Paloma quebrando nossa conexão.
- Aham – Concordei baixinho.
A Paloma se colocou de pé de um jeito decidido que chamou minha atenção.
- Então vamos nessa, por que hoje depois da apresentação da Rafaela vamos comemorar no melhor estilo dos Cortez.
Sorri, pescando no ar o que ela falava.
- Churrasco na casa do tio Max.
- Exatamente. – Ela sorriu contente.
Eu me levantei também, pelo jeito a conversa tinha acabado por ali. Pelo menos por enquanto.
- Vocês podem ir ao supermercado? – a Paloma perguntou sem graça – Eu fiz uma lista de coisas que precisa ser comprada, depois vocês deixam na casa do Max e podem ir se arrumar para ir à apresentação dessa noite.
- Claro – Peguei o papel da mão dela prestativa.
Abri a porta e comecei a ir em direção ao elevador, sem falar mais nada. A Rafa me acompanhou e nós descemos, até o térreo. Eu apertei o passo para que nós ganhássemos vantagem da Paloma e do Pablo.
- Ei – Ela chamou, mas eu não olhei – Ei, espera ai.
Parei assim que cheguei no carro.
- Está chateada? – Ela perguntou assim que se aproximou de mim.
- Tem muita coisa na minha cabeça. – Fechei os olhos.
Ela apoiou a mão no carro atrás de mim, me cercando.
- Não da tempo – Falei ironicamente – você tem uma apresentação daqui três horas.