escrevo essa carta para dizer que finalmente, acabou, que eu não te perdoo e que não suporto mais tantas desculpas esfarrapadas. eu quis tanto que você não fugisse disso de novo, quis tanto, que não caberia aqui. mas muito me surpreenderia se dessa vez, você resolvesse lutar por mim. hoje eu acordei sem a mínima vontade de abrir os olhos, mesmo sabendo que não tinha os pregado a noite toda. você virou as costas e disse adeus, como uma criança, que deixa os brinquedos pra trás e segue pra vida adulta. e eu chorei, chorei por querer ser teu cais, tua calma, teu porto. mas só conseguir ser caos, medo e insegurança. eu tentei sorrir ao abrir as mãos e te deixar voar, mas só consegui me concentrar em segurar o choro preso na garganta e sentir o peito arder pela pesada das tuas asas escapando pelos meus dedos. mas me diz, Antônio, com que borracha eu apago tudo o que ficou? e que magia eu uso pra sumir de vez com essas cicatrizes? a borracha apaga as palavras, mas não os rastros de que algo já foi escrito ali. e a história de nossos dias tão simetricamente enumerados, já foi escrita. usar a borracha ou o corretivo não vai apagar de vez as marcas e nem mesmo mudar o fato de que ela existiu. você me faz tão feliz quando me permite absorver tuas presenças, mas não sabe aproveitar disso. só sabe me ferir. e nós dois concordamos, que eu não mereço isso. nunca mereci. eu te perdoo, eu te aceito, eu te amo. ontem, hoje, amanhã, sempre. mas não dá mais pra ter o amor jogado no lixo tantas vezes. não dá mais pra morrer todas as vezes que você é impulsivo, faz as malas e vai embora antes que eu possa dizer uma só palavra. você me apaga, me deixa só escuridão. me deixa sem nada pra amar. você não só me engole, como me mastiga inteira, pedacinho por pedacinho, como quem não quer que sobre nada. pega meu coração nas mãos e aperta tão forte, esmaga tanto, que eu sou só as cinzas que sobram. dessa vez você destruiu tudo e o que sobrou foi só poeira. não sou mais nada, não mais existo, não mais sou. asfixiei com tudo o que tinha enroscado na garganta pra dizer e você não permitiu. ao mesmo tempo que você é minha cura, você é um veneno que me mata aos poucos.
e ainda que eu odeie toda essa sensação de não ser o suficiente pra tirar o teu medo e te fazer ficar, o que mais me dói, é saber que no fundo, é sempre um prazer ter o meu coração destroçado por você.