——— Senhoras e senhores, vos apresento DOUGAL MACKENZIE, GUARDA, um DOIS vindo diretamente da Província de CLERMONT. Ele tem 26 ANOS e todos os criados comentam que é idêntico a CHRIS WOOD.
Clã de Quatros do interior de Clermont, os Mackenzie tinham uma pequena tropa de bocas para alimentar, mas isso não impedia que todos os filhos ajudassem nos serviços braçais da fazenda. Dougal era apenas um dos ‘filhos do meio’, do tipo que não recebia muita atenção por não ser muito velho nem muito novo. Não que este fosse motivo para esboçar algum descontentamento; na verdade, a única coisa que esperava era que pudesse fazer qualquer outra coisa que não envolvesse cuidar do pequeno rebanho do pai e alimentar animais para o abate. O pouco excedente da produção era vendido numa feira da cidade, onde a família conseguia arrumar algum dinheiro extra.
Foi numa das oportunidades em que teve de se deslocar ao centro da província que o rapaz envolveu-se num tumulto, sendo acusado de furto, e por mais que a ideia de roubar tivesse cruzado por sua mente um par de vezes, daquela vez ele estava limpo. Não foi o que os soldados pensaram, contudo, e a punição adequada para algo assim, na visão dos militares, era o espancamento. Algumas costelas quebradas depois, e o Mackenzie decidiu que nada seria diferente enquanto não mudasse de Casta. A partir daí, iniciou sua busca pela mudança de nível, sabendo que o melhor a se fazer seria juntar dinheiro suficiente para comprar um “degrau”.
Por muito tempo, se dedicou à realização de trabalhos ilícitos — nada de que pudesse se orgulhar no dia seguinte — sempre a mando de Dois ou Três que não queriam sujar as mãos. Mas a real oportunidade de mudar de casta veio aos dezoito anos, com o alistamento. Com a promessa de tornar-se imediatamente um Dois, Dougal não pensou na possibilidade de que poderia ser enviado para as trincheiras na guerra com a Nova Ásia, ou de que jamais teria uma patente alta por conta de seu sobrenome insignificante. Surpreendentemente, a vida de crimes rendeu-lhe algumas vantagens; a mente rápida e as habilidades físicas fazendo com que fosse alocado como guarda real no palácio de Angeles. Sua lealdade, no entanto, sempre foi para consigo mesmo, inclusive quando reis e príncipes estiverem inclusos na equação.
——— Senhoras e senhores, vos apresento ZISEL BLACKBEAK, SELECIONADO, um DOIS vindo diretamente da Província de SONAGE. Ele tem 25 ANOS e todos os criados comentam que é idêntico a AMADEUS SERAFINI.
Todo governo despótico requer servos submissos; um povo que, ainda que não esteja de acordo com as práticas adotadas, não se rebele contra o sistema. Alguns sempre se beneficiarão com a servidão de outros, e é essa ordem que, espera-se, seja mantida – ao menos na visão daqueles que dela tiram proveito. Nas costas de uma maioria oprimida repousa a minoria abastada e beneficiada. Os Blackbeak faziam parte da minoria, e jamais se envergonharam disso. Diziam que ocupavam a posição abastada por mérito, graças ao honorável general Joramunt Blackbeak ––– não é todo mundo que pode se gabar de possuir um antepassado importante. Responsável por varrer as tropas da Nova Rússia do solo inglês, o Blackbeak foi condecorado após a Terceira Grande Guerra, e garantiu que os militares permanecessem na Casta Dois, apenas um degrau abaixo da própria realeza. Eram, afinal, tão caros ao Estado quanto os governantes.
Com um mundo de nações instáveis, a guerra sempre era uma possibilidade. Joramunt permaneceu por muito tempo nas graças do rei, e tinha muito a agradecer aos inimigos por isso. Foi por conta da sede de sangue e da ferocidade incansável que o Blackbeak acumulou um significativo número de riquezas ao longo da vida, e revolucionou o sistema de recrutamento, aconselhando o monarca a convocar homens cada vez mais jovens. Nem mesmo o casamento com Imogen Wahl –– também uma Dois, obviamente –– foi suficiente para aplacá-lo e, diz-se, não passou de uma aliança por conveniência. Da união do casal nasceram três filhos, mas vamos tratar apenas da história de Arevig, que, mais tarde, seria pai de Zisel.
Criado como um soldado, Arevig sempre foi uma criança retraída, no entanto, por mais irônico que isso possa parecer, casou por amor –– Pearl Clarke era capaz de despertar esse tipo de sentimento, mesmo que não passasse de uma mera Quatro. Arevig teve que fugir da vista do pai por um tempo, tornando-se inconsequente por causa da amante. Quando o casal retornou, três anos depois, tinham o neto de Joramunt nos braços. Talvez porque estivesse velho demais para tanto ódio, talvez porque tivesse gostado da criança, mas o general Blackbeak perdoou o filho, realocando-o numa posição junto ao exército illeano.
Zisel teve o desprazer de ser educado pelo avô até certo ponto da vida. Arevig se tornou quase tão amargo quanto o pai, e fazia questão de que Zisel seguisse a mesma linha de pensamento –– Blackbeaks tinham nascido para sentir o gosto do sangue dos inimigos da coroa! –– a qual não se coadunava com os preceitos do pequeno, sempre protegido dos horrores do mundo por Pearl. Mas qualquer esforço da mulher era inútil; não se admitia que Zisel seguisse qualquer outra carreira que não a militar, tão cara a sua família, sendo, tão logo entrou na puberdade, inserido no mundo das academias. Crueldade, no entanto, foi algo que jamais foram capazes de ensinar-lhe, em que pese o grande número de animais de estimação mortos pelo pai, bem como que o pai o obrigou a matar.
Havia, de modo geral, muito pouco do pai e do avô em Zisel, ainda que tivesse habilidades inatas para a batalha. Via, contudo, tudo de um prisma mais político, o que se devia à sua educação de ponta. Não era um mero soldado, mas um agente crítico. Sabia que estava, contudo, a defender um sistema classista que privilegiava poucos. Primorosamente treinado, o Blackbeak via cada vez menos sentido em servir ao seu rei; ao mesmo tempo, era disciplinado demais para ceder ao anarquismo.
Foi somente quando foi capturado por um grupo rebelde, durante um dos inúmeros patrulhamentos, que Zisel mudou suas perspectivas, porém não da noite para o dia. Nos primeiros dias, tudo o que via eram inimigos –– rebeldes desgraçados, pessoas que ele foi ensinado a odiar durante toda a sua vida. Não havia inimigo maior dentro do território, e Zisel passou dias sem comida, numa cela úmida nos confins de Hondurágua; provavelmente os companheiros haviam o declarado como morto. Zisel pensou que seria morto, principalmente quando se negou, dia após dia, a oferecer informações sobre o palácio aos rebeldes, mas, surpreendentemente, foi lhe dada uma escolha: poderia morrer ou se juntar à causa. Seria mais honroso morrer pelo país, diria seu pai. Todavia, Zisel aceitou a oferta do inimigo. Tinha em mente ficar ali até que confiassem nele e surgisse a oportunidade de fugir, mas ao sair da cela e se deparar com aquele grande contingente de pessoas seminutridas e em roupas que mal cabiam no corpo (uma multidão de Oitos, ele pensou), não os viu, de forma alguma, como uma ameaça –– não quando as pessoas que conhecia e convivia (em geral Um, Dois e Três) tinham tanto em comparação. Zisel soube que seria um desertor se se juntasse a eles, mas não se importou realmente; não quando tudo o que fazia no exército illeano era reafirmar um sistema opressor.
Nunca soube se aquela era uma prática entre os rebeldes ou se sua vida foi poupada apenas pelo que estava por vir. Zisel ficou sabendo que alguns membros do Conselho Real apoiavam a causa rebelde, e talvez tenha vindo daí a informação de que uma seleção ocorreria em breve, a fim de escolher o consorte da herdeira do trono. A primeira missão dada ao Blackbeak foi a de se inscrever, usando todo o peso de seu nome para conseguir um lugar na competição. Ele retornou poucos meses depois para casa, surpreendendo a todos que pensavam estar morto. Retomou suas atividades junto à guarda, sendo nomeado sargento poucos dias antes de anunciada a sua participação na competição. O pai não viu o anúncio com bons olhos, mas, ambicioso como era, não se importaria nem um pouco em ver o filho se tornando rei. Contudo, Zisel não tinha certeza se era essa a intenção do comando rebelde ao enviar ao palácio. Só sabia de duas coisas: deveria se manter no palácio o máximo de tempo que conseguisse ––– fazendo o que fosse preciso para se tornar caro à princesa ––– e que seus companheiros queriam o fim da monarquia.
——— Senhoras e senhores, vos apresento ALWYN CHRISTOFFER SCHNEIDER, ESTILISTA, um DOIS vindo diretamente da Província de KENT. Ele tem 29 ANOS e todos os criados comentam que é idêntico a MATTHEW DADDARIO.
Nascido na província de Kent e membro da Segunda Corte, Alwyn era filho do general, um dos homens mais temidos do exército, com uma das estilistas mais renomadas de Illea. Criado numa família rica, reconhecida e cheia de privilégios, Alwyn jamais tivera nada do que reclamar ––– afinal, era minoria, e da melhor forma possível. O garoto era sempre lembrado: cada vez que sentia-se pressionado por qualquer razão, cada vez que sentia-se injustiçado, ou pensava em reivindicar qualquer direito que achava que tinha, era o que ouvia de seus pais: não reclame. Agradeça.
E tal ideologia continuava sendo proferida quando, ainda adolescente, eu pai decretou que Alwyn havia de seguir seus passos, e se tornar um grande militar; conservador ao extremo, Klaus acreditava piamente que seu filho, sendo o mais velho, não tinha qualquer escolha se não levar o legado da família para frente; e bem, Alwyn planejava isso, mas de outra forma. A verdade é que o garoto, vendo sua mãe acompanhar princesas, celebridades e artistas a vida inteira, ir de ateliês a camarins e fazer tudo visualmente melhor, acabou se apaixonando imediatamente pela profissão. O suposto soldado, na verdade, planejava se tornar estilista.
E a família não demorou a descobrir; ao saber disso, Klaus não hesitou em dar um ultimato ao filho: ou desistia da ideia de ser estilista e seguia como general do exército, ou era prontamente expulso de casa. Magda jamais concordou com a ideia de colocar o próprio filho para fora, porém, da mesma forma que Alwyn fora ensinado a não reclamar, sua mãe fora ensinada a não questionar o marido, sendo submissa a ele de uma forma que não era a mais ninguém. E Alwyn escolheu sua profissão a sua casa. Ao sair, a primeira coisa que fez foi procurar um emprego. Primeiro, trabalhou como costureiro numa pequena loja na esquina próximo a onde morava; depois foi promovido para artista e assessor. E com o passar dos anos, aperfeiçoou as habilidades e adquiriu mais conhecimento, até se tornar tão conhecido no ramo a ponto de ter sua própria marca e trabalhar como o estilista do palácio.
Alwyn não faz questão de voltar a ver seu pai. Sua mãe jamais o excluiu por completo, e seu contato com o filho se firmou novamente quando decidiu que seria uma excelente ideia ambos fazerem parceria, já que pertenciam ao mesmo ramo. Os irmãos mantêm contato, apesar de viverem longe; todavia, Klaus jamais fizera menção de trocar uma palavra com Alwyn novamente.
——— Senhoras e senhores, vos apresento LOREN ALBUS SEPHIRAN HYBERN, SELECIONADO, um DOIS vindo diretamente da Província de KENT. Ele tem 26 ANOS e todos os criados comentam que é idêntico a GRAHAM ROGERS.
“É natural que todo homem solteiro e de posses esteja à procura de uma esposa”sempre pareceu uma frase definidora da sociedade de Kent, em especial às rodas as quais os Hybern frequentavam. Talvez por conta da inicial saúde debilitada, Loren não tenha tido muito tempo se definindo pelos ditames sociais, preferindo, contudo, o ensino de algo um tanto quanto mais lúdico para si. Enquanto os irmãos gêmeos se estapeavam em busca de uma oportunidade de brilhar, o mais novo dos trigêmeos buscara algo mais em sua vã existência. Livros costumavam ser seu forte durante a infância, e nem mesmo Phillipo, o mais velho dentre os quatro filhos de Rhysand e Gretta, poderia discutir com o mais novo sobre ética e causalidade. Família confusa demais, há de se concordar: Rhysand conhecera Gretta em um baile do almirantado, e a filha do general da Illéa encantou o herdeiro do título de Conde (título este que permitia com que controlasse com alguma liberdade a região dos Grandes Lagos), passado de pai para filho assim que o Ministro da Defesa falecesse. Após alguns meses de corte, casaram-se sob a benção do próprio Rei, e da união quatro crianças se sobrepuseram: Phillipo, o mais velho por cerca de onze anos — sisudo, julgador e extremamente hipócrita, casara-se forçosamente com cerca de dezenove anos (para o loiro, a batina não deveria vir em conjunto com uma illeana fogosa para esquentar-lhe a cama) —; Seth, o primeiro dos trigêmeos a nascer — selvagem, glutão e terrivelmente perigoso (escolhera a carreira militar, tal como o pai, e também dividia o rosto e todas as feições com o mais novo, diga-se de passagem) —; Nora, a joia lapidada da família, viperina e, sobretudo, uma lady perante os costumes de Illéa (o que a garantiu uma vaga na Corte de Angeles), e Loren, o mais novo da prole e sobremaneira ofuscado perante as personalidades digladiantes dos irmãos.
Não há muito a se falar sobre sua infância, verdade. Costumava ser o bode expiatório das trapaças de Seth, já que era quase impossível diferenciá-los dentre os cortes idênticos e as roupas combinando. Nora sempre fora a única que os conseguia distinguir, mas devido a preferência pelo mais velho, sua boca se convertia num túmulo quando inquirida. Desnecessário dizer que o foco do mais novo se tornara a mais completa solidão. Dentre instrumentos musicais e notas tomadas, a música (obrigatória a toda a prole), tornara-se o seu refúgio pessoal. De flauta até o saxofone, o loiro poderia passar horas a fio treinando até atingir algo próximo à perfeição. A medida em que cresciam, Loren observou enquanto todos os irmãos cresciam, e sobretudo todos os erros que tomavam. Após um episódio em particular, onde fora confundido com o gêmeo por uma ex-namorada furiosa, soube que deveriam se separar por algum tempo, de modo que pediu à mãe por um salvo conduto em direção à França, sem a intromissão do pai. Permitiu-se se tornar sua própria pessoa nas ruas egrégias de Paris, embebedar-se na Provença francesa e estudar com os filósofos mais interessantes da época enquanto se rendia ao hobbieque parecia defini-lo até então — a única coisa que permitia que ele e Seth fossem diferenciados sem o olhar clínico da irmã. Poderia ter continuado na Provença por muito mais tempo do que os rápidos seis anos (nos quais o francês e alemão se aperfeiçoaram, a medida em que o italiano poderia ser entendido com algum esforço), mas, aos vinte e dois, já não era mais uma criança, e Nora se casaria em breve. Segundo a sociedade de Kent, era verdadeiramente uma vergonha que uma dama do calibre dela fosse desposada por um reles médico, e mesmo Loren se viu surpreso ante a decisão da irmã. Não era de seu feitio, mas tampouco a repreenderia.
Portanto, voltara para o casarão onde foi criado pela maior parte de sua vida, mas talvez o período na França o tenha transformado o suficiente para que não mais se incomodasse com os tapas que levava na cara, tampouco com as agora usuais saídas com o mais velho. Incrível que parecesse, diferentes que pudessem ser, Loren e Seth se completavam de forma que nem mesmo Nora compreendia. De algoz, Seth passou a ser seu melhor amigo, e Loren se entregou aos mais diversos pecados da carne por influência do irmão. Quatro anos se interpuseram dentre o início da vida pagã e o fatídico dia, e em cada um deles, o mais novo seguiu a maré dos acontecimentos com olhos cansados da ressaca da noite anterior a medida em que as melodias ocupavam sua mente. Isto é, até que o mais velho fosse chamado pelo próprio pai para o serviço militar. Não um cargo de fachada, como era usual a pessoas da estirpe dos Hybern — como seu próprio cargo de mentira, apenas para manter a Casta. Seth aprendera com o melhor dentre tantos, e agora seria necessário. A crise entre os dois Estados se acirrara, e bons comandantes eram necessários, de modo que o mais velho logo fora promovido a Capitão.
E então, a Seleção fora anunciada, com todos os entremeios possíveis e inimagináveis. De início, o loiro sequer considerou a hipótese de se inscrever — ocupado demais com mais uma decepção amorosa —, mas ao observar seu rosto na tela da televisão, por um momento imaginou que estivesse louco. Seth, contudo, engoliu uma risada, e então tudo ficou claro para o mais novo. Era o seu rosto naquele televisor, ainda que tivesse sido Seth quem o inscrevera — ou ao menos era o que imaginava. O que elas pensariam, caso o vissem sorrindo para a câmera ao se candidatar a futuro Rei-Consorte de Illea? Ufanismo nacionalista de lado, era de se imaginar que não seria bem visto dentre seus conhecidos que logo o filho de Rhysand se submetesse a isso. Não era um homem violento (diabos, era exatamente o oposto disso), mas naquele momento, ele quis socar o gêmeo, obrigando-o a ir em seu lugar, já que havia começado com aquela brincadeira besta. Só então se lembrou que Seth tinha tarefas muito mais complicadas do que as dele no momento, e imaginar-se tendo de encarnar o mais velho era… Problemático.