——— Senhoras e senhores, vos apresento ZISEL BLACKBEAK, SELECIONADO, um DOIS vindo diretamente da Província de SONAGE. Ele tem 25 ANOS e todos os criados comentam que é idêntico a AMADEUS SERAFINI.
Todo governo despótico requer servos submissos; um povo que, ainda que não esteja de acordo com as práticas adotadas, não se rebele contra o sistema. Alguns sempre se beneficiarão com a servidão de outros, e é essa ordem que, espera-se, seja mantida – ao menos na visão daqueles que dela tiram proveito. Nas costas de uma maioria oprimida repousa a minoria abastada e beneficiada. Os Blackbeak faziam parte da minoria, e jamais se envergonharam disso. Diziam que ocupavam a posição abastada por mérito, graças ao honorável general Joramunt Blackbeak ––– não é todo mundo que pode se gabar de possuir um antepassado importante. Responsável por varrer as tropas da Nova Rússia do solo inglês, o Blackbeak foi condecorado após a Terceira Grande Guerra, e garantiu que os militares permanecessem na Casta Dois, apenas um degrau abaixo da própria realeza. Eram, afinal, tão caros ao Estado quanto os governantes.
Com um mundo de nações instáveis, a guerra sempre era uma possibilidade. Joramunt permaneceu por muito tempo nas graças do rei, e tinha muito a agradecer aos inimigos por isso. Foi por conta da sede de sangue e da ferocidade incansável que o Blackbeak acumulou um significativo número de riquezas ao longo da vida, e revolucionou o sistema de recrutamento, aconselhando o monarca a convocar homens cada vez mais jovens. Nem mesmo o casamento com Imogen Wahl –– também uma Dois, obviamente –– foi suficiente para aplacá-lo e, diz-se, não passou de uma aliança por conveniência. Da união do casal nasceram três filhos, mas vamos tratar apenas da história de Arevig, que, mais tarde, seria pai de Zisel.
Criado como um soldado, Arevig sempre foi uma criança retraída, no entanto, por mais irônico que isso possa parecer, casou por amor –– Pearl Clarke era capaz de despertar esse tipo de sentimento, mesmo que não passasse de uma mera Quatro. Arevig teve que fugir da vista do pai por um tempo, tornando-se inconsequente por causa da amante. Quando o casal retornou, três anos depois, tinham o neto de Joramunt nos braços. Talvez porque estivesse velho demais para tanto ódio, talvez porque tivesse gostado da criança, mas o general Blackbeak perdoou o filho, realocando-o numa posição junto ao exército illeano.
Zisel teve o desprazer de ser educado pelo avô até certo ponto da vida. Arevig se tornou quase tão amargo quanto o pai, e fazia questão de que Zisel seguisse a mesma linha de pensamento –– Blackbeaks tinham nascido para sentir o gosto do sangue dos inimigos da coroa! –– a qual não se coadunava com os preceitos do pequeno, sempre protegido dos horrores do mundo por Pearl. Mas qualquer esforço da mulher era inútil; não se admitia que Zisel seguisse qualquer outra carreira que não a militar, tão cara a sua família, sendo, tão logo entrou na puberdade, inserido no mundo das academias. Crueldade, no entanto, foi algo que jamais foram capazes de ensinar-lhe, em que pese o grande número de animais de estimação mortos pelo pai, bem como que o pai o obrigou a matar.
Havia, de modo geral, muito pouco do pai e do avô em Zisel, ainda que tivesse habilidades inatas para a batalha. Via, contudo, tudo de um prisma mais político, o que se devia à sua educação de ponta. Não era um mero soldado, mas um agente crítico. Sabia que estava, contudo, a defender um sistema classista que privilegiava poucos. Primorosamente treinado, o Blackbeak via cada vez menos sentido em servir ao seu rei; ao mesmo tempo, era disciplinado demais para ceder ao anarquismo.
Foi somente quando foi capturado por um grupo rebelde, durante um dos inúmeros patrulhamentos, que Zisel mudou suas perspectivas, porém não da noite para o dia. Nos primeiros dias, tudo o que via eram inimigos –– rebeldes desgraçados, pessoas que ele foi ensinado a odiar durante toda a sua vida. Não havia inimigo maior dentro do território, e Zisel passou dias sem comida, numa cela úmida nos confins de Hondurágua; provavelmente os companheiros haviam o declarado como morto. Zisel pensou que seria morto, principalmente quando se negou, dia após dia, a oferecer informações sobre o palácio aos rebeldes, mas, surpreendentemente, foi lhe dada uma escolha: poderia morrer ou se juntar à causa. Seria mais honroso morrer pelo país, diria seu pai. Todavia, Zisel aceitou a oferta do inimigo. Tinha em mente ficar ali até que confiassem nele e surgisse a oportunidade de fugir, mas ao sair da cela e se deparar com aquele grande contingente de pessoas seminutridas e em roupas que mal cabiam no corpo (uma multidão de Oitos, ele pensou), não os viu, de forma alguma, como uma ameaça –– não quando as pessoas que conhecia e convivia (em geral Um, Dois e Três) tinham tanto em comparação. Zisel soube que seria um desertor se se juntasse a eles, mas não se importou realmente; não quando tudo o que fazia no exército illeano era reafirmar um sistema opressor.
Nunca soube se aquela era uma prática entre os rebeldes ou se sua vida foi poupada apenas pelo que estava por vir. Zisel ficou sabendo que alguns membros do Conselho Real apoiavam a causa rebelde, e talvez tenha vindo daí a informação de que uma seleção ocorreria em breve, a fim de escolher o consorte da herdeira do trono. A primeira missão dada ao Blackbeak foi a de se inscrever, usando todo o peso de seu nome para conseguir um lugar na competição. Ele retornou poucos meses depois para casa, surpreendendo a todos que pensavam estar morto. Retomou suas atividades junto à guarda, sendo nomeado sargento poucos dias antes de anunciada a sua participação na competição. O pai não viu o anúncio com bons olhos, mas, ambicioso como era, não se importaria nem um pouco em ver o filho se tornando rei. Contudo, Zisel não tinha certeza se era essa a intenção do comando rebelde ao enviar ao palácio. Só sabia de duas coisas: deveria se manter no palácio o máximo de tempo que conseguisse ––– fazendo o que fosse preciso para se tornar caro à princesa ––– e que seus companheiros queriam o fim da monarquia.