(...) Parecido com as visões do homem peludo era o apelo que
soava nas profundezas da floresta. Enchia-o de inquietação, de
estranhos desejos. Provocava-lhe uma alegria vaga e doce, a
consciência de uma agitação selvagem e de ansiar não sabia o quê. Por vezes, seguia o apelo, internando-se na floresta, procurando-o como se fosse uma coisa palpável, ladrando suavemente ou em tom de desafio, conforme o seu humor. Enterrava o nariz no musgo frio, no solo negro onde cresciam ervas altas e aspirava com prazer os odores ricos da terra, agachava-se horas a fio, como se estivesse escondido, atrás de troncos de árvores caídas, cobertas de fungos, com olhos e ouvidos atentos a tudo o que se movia e ouvia em redor. Talvez esperasse surpreender, assim escondido, aquele apelo que não compreendia. Mas não sabia por que fazia todas essas coisas. Era impelido a fazê-las e não procurava razões. Era tomado por impulsos irresistíveis. Podia estar estendido no acampamento, cochilando preguiçosamente no calor do dia, e, de repente, a cabeça erguia-se, as orelhas levantavam-se, fitas e atentas, e ele punha-se em pé de um salto e largava a correr,
sempre para frente, horas a fio, pelos caminhos da floresta e através
das clareiras onde os animais se juntavam. Adorava descer leitos de ribeiros secos e ocultar-se a espiar a vida das aves nos bosques.
Era capaz de passar um dia inteiro escondido na vegetação rasteira
de onde podia ver as perdizes bicando e a pavoneando-se de um
lado para o outro. Mas adorava muito especialmente correr - ao
crepúsculo pálido das meias-noites de Verão -, ouvindo os
murmúrios abafados e sonolentos da floresta, lendo sinais e sons
como um homem pode ler um livro e buscando a coisa misteriosa
que o chamava, chamava, no sono e na vigília, o chamava sempre.