Soundtrack para uma quarentena #10: Quarentena Singles Club Vol.1
10 álbuns em 4 dias? Não está mal. Um bocado repetitivo, talvez. Por isso, para variar, esta 10ª review não é de um álbum, mas de uma mão cheia de singles. Há hot singles na vossa área prontos a serem ouvidos! É só querer!
Churky – Pente Fino
Não sei quem ensinou este rapaz, mas “desvaneio” não é uma palavra. É basicamente isso que tenho a apontar de errado nesta música, uma das minhas preferidas do ano passado.
O baixo que entra a matar é simplesmente viciante. Simples, mas direto. Cumpre a função para que é chamado – criar a linha mais groovy que ouvi em muito tempo. A percussão que entra com os sopros, no entanto, mostram muito claramente que esta música não é só ear candy, e consegue ser pesada. E é.
Quando a música explode, isso dá sentido ao mood anterior. Não se tratava de um Groove pelo Groove, mas da captura de um “está tudo bem e eu estou bem”, quando, se calhar, não está? A faixa faz-se desse diálogo entre o que está cá dentro, e o que não se deixa sair… Mas que eventualmente sai.
É uma música habilmente construída, onde cada um dos instrumentos (voz incluída) cumprem funções muito específicas, e constroem sentimentos afiados e claros. É uma música brutal, em muitos sentidos.
Chico da Tina – Romarias
Vá, a questão que corre na cabeça de todos: é possível gostar de Chico da Tina não ironicamente? Oh pá, eu não sei. Eu sei que gosto desta música, e acho que, à sua maneira, o Chico da Tina é incrível. O flow é rápido e tight, mas o mais admirável é a capacidade de manter a personagem, com uma temática muito própria de Minho-gangster-trapper. E se para alguns isso será um gimmick, uma maneira fácil e vazia de criar uma coesão temática, para outros será um comentário à identidade portuguesa, com humor à mistura.
A produção, essa, é sempre pesada. É um paradoxo imenso, a constante tirada de “és um americanizado” (uma crítica profundamente legítima, note-se) e uma base musical que de português pouco tem. De alguma forma, no entanto, funciona. E funciona bem. Mas para quando um solo de concertina e cavaquinho, Chico?
Helena Kendall – aDeus
Já conheço a Helena há uns, portanto, 24 anos, dado que ela é, portanto, minha irmã. Só para ficarem a saber.
A “aDeus”, segundo single da jovem cantautora, é uma música plena de emoção e sentimento. É uma homenagem, a quem já não está cá, a quem por cá ficou, e a Àquele que os recebeu. E Helena fá-lo de uma forma humilde e despretensiosa. As imagens que são usadas na música dir-se-iam vindas da cabeça de uma criança, e é exatamente essa inocência, que clama saudade e medo, mas também esperança, que nos apanha desprevenidos.
A música em si é fenomenal. HK consegue rodear-se de uma mão-cheia de músicos fenomenais, que conseguem criar uma plataforma da qual ela pode cantar e fazer o que quiser.
É um single para ouvir, rezar, e talvez soltar uma lágrima.
The Black Wizards – Imposing Sun
Este single vem coçar um formigueiro que muita gente sentia há algum tempo. Os The Black Wizard são donos de uma atitude pesada mas energética, com esta malha colhendo influências muito díspares: têm a sua dose de stoner, de psych-rock, de blues… É uma mistela à boa maneira de uma certa banda altamente prolífica que inclui “Wizard” no seu nome.
A faixa sabe ao que vem – entregar uma boa dose de guitarras distorcidas e acompanhamento psicadélico. Não perde muito tempo a anunciar-se, e mal acabado o intro, todos esses elementos entram de rompante. É uma música direta e clara nos seus objetivos, e cumpre-os de forma direta. E muita falta faz a este Portugal bandas que saibam ser diretas e claras. Se vierem carregadas de fuzz então, melhor ainda!
Janeiro – Solidão
Quem consegue ouvir esta malha e não sente vontade de dançar um bocado, ou tem problemas auditivos, ou nunca sentiu a felicidade simples de dançar sozinho no quarto. E não tenho grande dúvida que esta música já ensinou isso a muita gente.
É estranho uma música aparentemente alegre ter uma letra tão aparentemente triste. Mas nem a melodia é completamente alegre, nem a letra é triste. Ambas se viram para dentro, a primeira numa tentativa de agarrar a alegria que escapa (notam-se bem alguns hints de melancolia na mistura melódica), e a segunda num fechar para dentro para apanhar as peças.
Não há muitas músicas que consigam tão habilmente captar esse sentimento específico do “pedras no caminho”. Mas esta consegue, e ainda lhe dá roupagens de dança imensamente viciante. É pop, é indie, é dança. É uma mistura delicada e extraordinária. Permanentemente em loop nas minhas playlists, e devia estar nas vossas também.
Weis – Mais Que Qualquer Um
“+QQQ1” é um dos sons de rap mais poderosos que me apareceu à frente no ano passado.
Sou fã assumido do Weis (aka. Maudito). Aliás, sou fanboy dele. Adoro as malhas dele, o flow, o sentido de humor, os jogos de palavras. E este rapidamente tornou-se no meu som preferido dele, por ter todos esses elementos perfeitamente destilados.
Os jogos de palavras estão no ponto: E jurar a pés juntos - “Não fui eu, sou fiel” / No final eu perco o rumo, bebo rum, “Yo Fidel” / Numa buba estou em Cuba. Uma bebida e vai-se a vida, estou em coma / Estou de cama a gregar quimo do meu estômago. As aliterações, rimas cruzadas, ritmos, tudo se conjuga para criar uma música que tem que ser ouvida uma e outra vez. O que não magoa, já que a faixa mal passa os dois minutos.
A outra razão pela qual esta música se tornou uma favorita é a evolução. Indo ouvir as músicas e mixtapes antigas, sente-se a evolução. As rimas estão mais inteligentes e apertadas, os jogos de palavras mais complexos. A concretização de todo o potencial prometido.
A imaturidade do humor, essa também amadureceu. Continua lá, sem dúvida, mas mais madura. Isso faz sentido? Se calhar é melhor ouvir outra vez para confirmar.
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