O porquê de às vezes ter ciúmes: Ciúme vem da insegurança que a outra pessoa te passa, das incertezas, dos talvez, dos ' se ' ... Ser segura e confiante nos seus próprios sentimentos e objetivos pode causar receio em quem não os tem... Grande parte dos relacionamentos nem chegam a se concretizar por causa disso, pra poder ser um inteiro tem que saber ser um meio completo, porque esse papo de que fulano me completa é bom pra vender livros e filmes, na vida real tudo é bem diferente, você não completa ninguém, você transborda e brilha de forma sobrenatural com a pessoa do teu lado em exatamente tudo.
Amar em público não é o mesmo que expor um relacionamento
Tem uma diferença enorme entre assumir alguém e abrir a intimidade pros outros
É tecnicamente impossível você querer se relacionar comigo sem ser uma pessoa reservada.
E antes que entendam errado, eu não estou falando de esconder relacionamento. Muito pelo contrário. Eu adoro a ideia de assumir alguém. Acho lindo colocar aliança na bio, emoji de casal, status no WhatsApp, inicial no Instagram, atualizar relacionamento no Facebook, essas coisas bobas que muita gente hoje em dia acha cafona, mas eu acho fofo.
Inclusive, meu sonho é usar foto de perfil combinando. Parece que ninguém mais gosta disso hoje em dia, mas eu acho muito íntimo e bonitinho.
Só que existe uma diferença gigantesca entre assumir um relacionamento e expor um relacionamento.
Porque uma coisa é as pessoas saberem que a gente está junto. Outra completamente diferente é elas saberem o que acontece entre a gente.
Pra mim, o relacionamento é a dois. Então, no momento em que você começa a contar pros seus amigos como a gente começou, o que a gente faz, nossos problemas, nossos planos futuros, nossas discussões ou até questões sexuais, você automaticamente abre espaço pra terceiros se sentirem confortáveis pra opinar sobre algo que não diz respeito a eles.
E isso me irrita profundamente.
Porque na minha cabeça, ninguém de fora vive o relacionamento. Ninguém sabe o que acontece dentro da relação além das duas pessoas que estão ali.
Por exemplo: se eu vou sair com você no sábado e algum amigo meu me chama pra sair também, eu provavelmente vou responder algo tipo “não posso, já tenho compromisso”. Mas eu não vou entrar em detalhes sobre o que vou fazer, pra onde vou, como está minha relação ou qualquer outra coisa. Porque, sinceramente, já não é da conta da pessoa.
E uma das coisas que mais me faz perder o interesse em alguém é quando estamos passando por um momento complicado e, do nada, a pessoa mete um:
“Ah, mas meu amigo falou…”
Seu amigo o caralho.
Seu amigo não me conhece. Nunca conversou comigo. Não está dentro da relação. Não vive nossa rotina. E no momento em que você traz a opinião dele pra dentro do relacionamento, pra mim aquilo ali já morreu.
Porque se seu amigo está confortável o suficiente pra opinar, é porque você já falou demais.
E eu não funciono assim.
Eu também sou o tipo de pessoa que não faz a menor questão de conhecer os amigos da pessoa com quem está se relacionando. Eu posso namorar alguém por quinze anos e nunca pedir pra conhecer os amigos dela. Se a pessoa quiser me apresentar, ótimo, vou ficar feliz e grata. Mas pra mim isso nunca foi necessidade.
Tem gente que trata relacionamento como um evento público. Eu trato como um espaço íntimo.
Agora, uma coisa que eu deixo muito clara: quem se relaciona comigo vai precisar assumir que está comigo.
Eu gosto dessa demonstração pública de compromisso. Gosto de saber que a pessoa tem orgulho de estar comigo. Então sim, eu quero aliança na bio, inicial, status, essas coisinhas. Quero que as pessoas saibam que existe um relacionamento. Só não quero que saibam o que acontece dentro dele.
Porque tem uma linha muito clara entre compartilhar felicidade e transformar intimidade em entretenimento pros outros.
A diferenciação que ela faz entre posse e ciúmes é válida enquanto efeitos, mas, por mais que queiramos acreditar nisto, a posse não é bem uma construção social, e se é: tal construção data desde antes da Mesopotâmia.
Gostamos de acreditar que no passado, como vimos no texto sobre as festas dionisíacas, imperava o "ninguém é de ninguém" e que foi o homem ocidental, judaico cristão, que construiu a ideia de casamento e união romântica. Não é bem assim. O que estudos antropológicos e historiadores cada vez mais comprovam é que a monogamia e o casamento são instituições milenares, cunhadas como ideal no seio social desde antes da escrita, em todas as culturas, em todos os cantos do mundo, salvo comunidades isoladas e tribais.
As Bacanálias e outras festas pagãs, casamentos múltiplos e todo tipo de putaria, de fato, sempre aconteceram, entretanto, nunca foram a regra. É preciso fazer esta ressalva. Não dá para chamar de construção social um costume que transpassa mais de 3 milênios e que nunca foi questionado pela maioria de cada povo, apenas por quem viveu, ou vive, à margem do que é costume.
Após a revolução sexual (anos 60 para cá) o Ocidente teve a faca e o queijo na mão para mudar a dinâmica dos relacionamentos, entretanto, acabamos preferindo entregar o desejo, o sexo e o afeto de volta às mãos da moral conservadora e à uma nova entidade moral: a moral progressista. Moral que, apesar das previsões, não lutou por libertação sexual e sim pela repressão de qualquer manifestação da sexualidade humana que não se encaixe no discurso limpinho da esquerda radical. Resultado: padrão reestabelecido.
Dito isto: sim. O ciúmes é algo natural e seres humanos, monogâmicos ou não monogâmicos, ativos ou inativos sexualmente precisam aprender lidar melhor com ele. O ciúmes é um fato, não é um conceito abstrato. É uma reação emocional, um sentimento, uma sensação, um caminho neuronal. Assim como ansiedade, medo, raiva ou dor de dente. É uma coisa que o ser humano sente. Não tem como fugir. Tem como interpretá-lo, racionalizá-lo, ressignificá-lo ou simplesmente suportar estoicamente.
Agir em nome de um sentimento tão baixo como o ciúmes, geralmente, costuma dar muita merda.
Por tudo que a Gisa fala no vídeo, atualmente, no Ocidente, a sensação de posse é sobretudo uma ilusão, e esta ilusão é o que está sendo chamado de construção social. O sentimento de posse sempre existiu mas ele sempre se pautou em fatos e não em ilusões românticas. Uma esposa era posse do marido juridicamente e não por ele acreditar que "ela o ama tanto ao ponto de suportar toda a carga que o relacionamento trazia". Esta ilusão romântica é na verdade o que a entrevistada está tomando por uma construção social.
A posse ainda é um fato para além de ilusões, no Oriente Médio sobretudo, nos países de matriz muçulmana. É um fato por ser um fato jurídico. A mulher é posse do marido, legalmente. No Ocidente não. Ainda que mentes inseguras façam todo este malabarismo moral e retórico para se convencer e convencer o outro que ele ou ela estão presos para sempre na relação.
A não monogamia racha com esta ilusão. E tudo que traz lucidez ao debate, merece atenção.
É sentir medo de ser esquecido e substituído. É ter receio de ser deixado para trás. É querer e ao mesmo tempo não querer apresentar duas pessoas queridas para você. É querer a pessoa daquele jeito só para você. É saber que está errada e não saber como mudar isso. É o carinho de uma maneira mais primitiva. É ciúmes.
-Gabriela Souza não gosta de sentir ciúmes
04 de Setembro de 2017