motim
texto originalmente produzido para o zine Borracha do Amazônia, que foi concebido e produzido pelo artista plástico Jarbas Lopes e a Gráfica Editora Kadê para compor a exposição Via Aérea, realizada em setembro de 2018 no SESC Belenzinho, São Paulo
Fazer ciência, produzir tecnologia, é atualizar todos os dias o mito yanomami da divisão primordial dos povos: de um lado, as gentes que escolheram continuar na floresta, serem educados por seus espíritos e teias de relações; de outro, as gentes tomadas pela fumaça do metal, gentes que aniquilam o que é vivo por enxergarem com olhos mortos.
Fazer ciência, produzir tecnologia, é ser colocado novamente de pé, nu, nesta encruzilhada. É decidir uma vez mais entre a relação viva da codependência e o olhar morto de um mundo roubado de seu encanto. É escolher entre técnicas em harmonia com a técnica sofisticada das árvores, animais e fungos; e técnicas sofisticadas para continuar perfurando os próprios olhos.
Um rio invisível corre sobre nós. A Amazônia é o motor de seu fluxo. A técnica dos espíritos yanomami já dizia, e agora a técnica dos espíritos da ciência confirma, um rio de chuvas que lambe não só floresta, mas também campo, cerrado, caatinga, fazenda, cidade. Sua formação e funcionamento são o resultado da cooperação de toda a população vegetal da floresta. Todos os dias, em harmonia, invejável democracia, as árvores da Amazônia bombeiam dos oceanos Atlântico e Pacífico 20 bilhões de toneladas de água. Um rio invisível sentido com a pele a cada gota de chuva, um rio invisível sentido com a boca a cada alimento nutrido pela chuva, um rio invisível sentido com os ouvidos a cada sonho embalado pela chuva.
Novamente nus, de pé na encruzilhada, somos colocados frente ao mito. Se o reencenamos, tornarmo-nos uma vez mais o povo da fumaça, os destruidores da biodiversidade, os desruptores das cadeias de água neste continente. Se nos amotinamos, somos uma outra coisa, um novo povo, deixamos de estar presos entre o passado perdido e o futuro destruído. Frente ao mito, escolhemos que tipo de ciência, que tipo de técnicas queremos: as que nos reaproximam de nossos afins, que nos permitem aprender com a diferença, conviver com a diversidade, preservar conectando-se; e as que nos afastam, nos isolam irremediavelmente. Produzir vida e cooperar com a usina de vida amazônica, ou responder apenas à invisibilidade do rio, perfurar uma vez mais nossos olhos, instaurar uma vez mais a esterilidade do deserto que não cessamos de criar.











