As Incoerências Italianas
Ensaio de Viagem
Amo a Itália pela sua história, pela sua beleza, e sobretudo pela sua incoerência. Não é um amor incondicional nem uma devoção de turista ingénuo — é uma afeição ganha ao longo de cinco viagens, cinco imersões sucessivas numa civilização que recusa obstinadamente ser resumida numa ideia coerente de si própria. Cada visita confirmou o que a anterior havia insinuado: que a Itália é demasiado grande para caber numa única narrativa, e que qualquer tentativa de a simplificar diz mais sobre quem simplifica do que sobre o país.
Esta quinta viagem levou-me à Ligúria, com passagens pelo norte da Toscânia e partes do Piemonte e da Lombardia. Como sempre acontece em Itália, o que ficou não foram apenas as imagens — embora as imagens sejam inesquecíveis — mas a sensação persistente de habitar uma contradição que se recusa a resolver. É disso que quero falar.
Existe uma ideia enraizada, repetida com a confiança das coisas que nunca foram verdadeiramente verificadas, segundo a qual há uma Itália do norte — europeia, civilizada, eficiente — e uma Itália do sul — mediterrânica, caótica, exuberante, irremediavelmente latina. O Norte teria Milão, a moda, a indústria, o Corriere della Sera, o futebol organizado da Juventus. O Sul teria Nápoles, a pizza, a Camorra, o barulho e a beleza promíscua. Esta divisão é cómoda, produz artigos de viagem convincentes, e é essencialmente um mito.
Dois anos antes desta viagem à Ligúria, estive em Nápoles. A impressão que me ficou foi a de estar a visitar o Portugal da minha infância — não o Portugal de hoje, limpo e ordenado e ansioso pela aprovação europeia, mas aquele Portugal dos anos setenta e oitenta onde o caos era a norma e a sobrevivência era um talento colectivo. Nápoles tem esse mesmo pulso: a cidade pulsa com uma urgência que não é desorganização mas uma ordem diferente, uma lógica que o olhar nórdico não está equipado para decifrar à primeira passagem. Há ali uma inteligência do quotidiano que não precisa de semáforos para funcionar, que não precisa de sinalização para saber para onde vai.
Chegar a Génova — capital da Ligúria, cidade do norte, cidade que deveria, segundo o mito, ser outra coisa — e reconhecer exactamente o mesmo pulso foi, ao mesmo tempo, uma surpresa e uma confirmação. Génova é o caos do bairro espanhol napolitano rasgado por estreitas avenidas ladeadas de palácios e museus renascentistas. É um porto moderno onde os ferries transportam mercadorias e pessoas para toda a Europa e para o norte de África — exactamente como acontece em Nápoles. Tem um aquário gigantesco para os turistas e um elevador futurista que mostra as paisagens com uma eficiência que contrasta com o mercado lá em baixo, onde o tradicional genovês se mistura com o bazar magrebino e subsaariano numa promiscuidade que nenhum plano urbanístico previu mas que a cidade absorveu com a indiferença das cidades velhas. E cresce encavalitada em montanhas agrestes, rasgadas por túneis, com vales abruptos sobrevoados por viadutos contorcidos que parecem obra de uma civilização de engenheiros gigantes — o que, em certo sentido, são.
Tudo permanentemente em obras. Um trânsito surrealista e infernal. Uma sinalização que acumula informação sem necessariamente a comunicar.
Haverá uma diferença fundamental entre este caos cultural e urbanístico de Génova e o arcaísmo de Nápoles? Reflectindo com honestidade, são maiores as semelhanças do que as diferenças. E o que as une não é o subdesenvolvimento — seria esse o julgamento fácil — mas uma relação particular com o tempo e com o espaço, uma recusa em sacrificar a textura da vida à sua eficiência. Nápoles e Génova partilham a convicção, nunca formulada mas sempre praticada, de que uma cidade não é um sistema de circulação mas um palimpsesto de presenças sobrepostas, onde o romano coexiste com o medieval, o renascentista com o industrial, o migrante recente com a família há seis gerações no mesmo bairro.
O contraste com o cosmopolitismo dos arredores imediatos é, em ambos os casos, de uma nitidez quase teatral. Se Nápoles tem a costa amalfitana e as ilhas — Capri, Ischia, Procida —, Génova tem a Riviera, tem Sanremo com o seu festival e o seu casino e a sua elegância levemente anacrónica, tem Portofino como imagem de perfeição burguesa à beira-mar, e tem as Cinque Terre, essa espécie de peregrinação profana que cativa diariamente milhares de pessoas de todo o mundo. Vernazza, Riomaggiore, Manarola, Corniglia, Monterosso — cinco aldeias penduradas sobre o Mediterrâneo como notas numa pauta — tornaram-se num dos destinos mais fotografados e mais visitados de Itália, o que é dizer do mundo.
A Ligúria é, na sua essência geográfica, uma pequena faixa urbana roubada à montanha, que se estende por centenas de quilómetros ao longo do Mar Tirreno. É um território improvável: não há planície, não há espaço de manobra, tudo é encosta e rochedo e mar. E no entanto ali se construiu, ao longo de milénios, uma civilização densa e sofisticada. É terra de peixe e focaccia — aquela focaccia genovesa, oleosa e perfeita, que não tem nada a ver com as imitações que o mundo inteiro produz com nomes diversos — e de limões e limoncello, como na Campânia. É terra de pesto, naturalmente, mas também de farinata, de trofie, de uma cozinha que partilha com o sul a generosidade mediterrânica mas que tem os seus sabores próprios, marcados pela aridez da encosta e pela proximidade do mar.
E não faltam os vestígios da presença romana, a começar pela histórica via Aurélia, que continua a ser a principal via de comunicação a partir da qual se desenvolveu toda a região ao longo dos séculos. Há qualquer coisa de profundamente romano na teimosia com que a Ligúria insiste em ser habitada e percorrida apesar de todas as dificuldades topográficas. Os romanos construíam estradas onde outros viam obstáculos, e esse impulso — o de impor a presença humana à geologia recalcitrante — nunca abandonou completamente este território.
Mas é precisamente neste ponto que a incoerência italiana se torna mais deliciosa e mais exasperante, por vezes em simultâneo.
Tomar o automóvel para chegar a Vernazza ou a Moneglia é uma experiência que oscila entre a epifania estética e o ataque de pânico logístico. As estradas que acedem a estas povoações são verdadeiras aventuras por caminhos centenários onde não cabem dois carros e que os italianos insistem em percorrer — de carro, de motorizada, e com uma convicção serena que só a familiaridade com o território pode explicar — como se fossem classificativas de competições motorizadas. Cruzar-se com um autocarro numa dessas estradas é uma negociação que exige diplomacia, coragem e uma fé robusta na geometria euclidiana. Há italianos que executam essa manobra com a desenvoltura de quem estaciona num parque de supermercado.
E no entanto, a meio desta estrada impossível, surge uma panorâmica que justifica tudo. O mar a quinhentos metros de altitude, as aldeias em baixo como maquetas perfeitas, os terraços de oliveiras e vinhas esculpidos na encosta com uma paciência que só os séculos podem produzir. É como se a dificuldade do acesso fosse ela própria parte do pacto — como se a paisagem exigisse que se a merecesse.
No fundo, o charme da Itália é precisamente este contraste permanente: o luxo associado a um comportamento que já não se vê em Portugal pelo menos desde os anos oitenta, uma certa descontracção das normas que foi sendo eliminada da Europa ocidental pelo progresso da regulação e do seguro. Infraestruturas que oscilam entre o notável e o mais completo desleixo, por vezes no mesmo quilómetro quadrado. Os túneis e viadutos que rasgam a Ligúria são, de facto, a prova inequívoca de uma engenharia avançada e de uma determinação colectiva notável: construir ali o que foi construído exigiu décadas de investimento e uma competência técnica de alto nível. O viaduto de Polcevera — hoje tristemente célebre pelo colapso de 2018, que matou quarenta e três pessoas e que foi substituído pelo belíssimo viaduto de Genova de Renzo Piano, inaugurado em 2020 — é um símbolo desta ambivalência: a capacidade de construir o extraordinário e de negligenciar a sua manutenção até à catástrofe.
Obras permanentes em todo o lado. Sinalização abundante e contraditória. Algumas estradas centenárias de piso irregular e largura de via romana a assegurarem o acesso a centros turísticos mundialmente famosos. É como se a Itália vivesse simultaneamente em vários séculos, sem que nenhum deles se sinta obrigado a ceder ao outro.
E no entanto, há um detalhe que salva tudo: a linha de comboio que acompanha toda a costa ligur, de Ventimiglia a La Spezia, é um prodígio de obstinação ferroviária. Serpenteia pelo litoral passando por túneis e por estações encravadas na rocha, parando em cada aldeia, garantindo um acesso seguro e massivo às estâncias balneares e desincentivando fortemente o trânsito rodoviário. O comboio liga em poucos minutos aldeias que o carro demora uma hora a ligar por caminhos longos e tortuosos. É lento, cheio, pontualmente impontual — mas funciona. E a sua existência transforma a Ligúria de território impossível em território habitável e visitável, dando-lhe uma escala humana que a estrada sozinha nunca poderia proporcionar.
Esta é a imagem que me ficou da Ligúria. Uma Nápoles e costa amalfitana ainda mais estreita, montanhosa e caótica, embora servida por algumas das paisagens mais belas da Península.
Mas o que me fascina, viagem após viagem, não é a beleza em si — que é indiscutível e que qualquer fotógrafo mediano consegue capturar. O que me fascina é a capacidade italiana de viver confortavelmente dentro da contradição, de não sentir necessidade de a resolver. A Itália não aspira à coerência da Suíça nem à eficiência da Alemanha. Aspira a ser italiana, o que significa aspirar a ser simultaneamente Roma e Génova e Nápoles e Veneza, simultaneamente antiga e moderna, simultaneamente caótica e magnífica, simultaneamente negligente e genial.
Há civilizações que progridem por eliminação — que avançam descartando o que não funciona, padronizando, regulando, optimizando. E há civilizações que progridem por acumulação — que guardam tudo, que sobrepõem em vez de substituir, que vivem no palimpsesto. A Itália é, de forma esmagadora, do segundo tipo. É por isso que as suas estradas podem ter simultaneamente a largura de um carreiro romano e um viaduto de Renzo Piano a duzentos metros de distância. É por isso que o mercado genovês mistura a focaccia artesanal com o telemóvel de contrabando e o vendedor senegalês com a ária de Verdi que sai de uma janela no terceiro andar.
O caos elevado a obra de arte. Não como rendição à desordem, mas como uma forma diferente — mais antiga, mais exigente, mais mediterrânica — de habitar o mundo.
10 de Junho de 2026









